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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Emoções, a verdade da mentira

Todo o mundo é um palco.
Shakespeare

"Actor é o que cria sinceridade de emoções para os sentimentos parecerem verdadeiros na situação proposta".
Stanislavski

Teatro e cinema não são o mesmo. Passamos a vida a fazer teatro para os outros, mas não fazemos cinema. 
Parafraseando Shakespeare não se pode dizer - "Todo o mundo é um écran de cinema".

Porquê ???


O actor de teatro em cada representação está numa "lâmina de navalha" entre o êxito e o falhanço. Se falha não tem segunda oportunidade. O actor de cinema pode repetir até o "take" (registo) ficar bom, e esse take fica imutável até ao fim dos tempos. 

O actor de cinema trabalha com rede, o actor de teatro está sozinho consigo próprio e cada representação só existe UMA VEZ... para cada vez. É como a vida, nela também não há "takes" para escolher o melhor.

Todos nós sabemos isto...mas esquecemos. O "desculpa" (tira-me a culpa) não desfaz o acto (físico ou verbal), "sinto muito" (I am sorry), desculpado ou não, não faz retornar ao que era (undo)…a vida não é cinema. 

Uma boa actriz é a que representa bem a dor de uma mãe e mente tão bem (porque a dor pertence à historia, não à vida dela) que nos cria emoções verdadeiras a partir dessa "mentira bem mentida".
Se o actor mente mal, em vez de chorar com a dor da mãe, damos uma boa gargalhada.
Assim, também vivemos a vida com emoções verdadeiras a partir das representações dos outros, às vezes representando mais para si próprios do que para nós. 

O prazer do teatro não é ver a representação do actor nas expressões representadas, é descobrir o actor nas fissuras da representação, é ver expressões da sua vida pessoal que se escapam pelos interstícios da representação.

Ver teatro é estar na primeira fila vendo a preocupação da actriz pela filha doente que surge entre a alegria representada do encontro amoroso que faz parte da história. 
A essência de ver teatro não é assistir ao personagem através do actor é assistir ao actor através do personagem. É assistir à "lâmina de navalha" onde ele vive o risco de cada representação e assistir à beleza desse fingimento. 
Ver teatro de longe na última fila é como ver cinema e pelo buraco da fechadura, não é um nem é o outro.

José Régio tem um texto elucidativo sobre a expressão artística. Ele diferencia:

Expressão vital - ex., na rua, uma mãe imóvel olha o filho atropelado, ficando em êxtase negativo, num excesso de conteúdo com forma reduzida;
Expressão retórica - são as carpideiras  que arrancam cabelos e roupa, gritam, choram e arrepelam-se num excesso de forma com conteúdo reduzido.
Expressão artística - é quando se sente a dor e se vê a sentir a dor, num esquizoide de verdade e mentira ao mesmo tempo, numa forma e conteúdo equilibrados.


E cada um de nós ??

Sabendo que o êxtase (vital) e as carpideiras (retórico) estabelecem relações difíceis e problemáticas, e só se aguentam em doses pequenas e espaçadas, cada um de nós oscila entre os três estilos em percentagens diferentes.

Qual é a nossa percentagem ??? Ela expressa-se em cada acto, em cada conversa, desde pedir um café ao balcão até a uma zanga com o filho.

O êxito social vem muito do terceiro estilo, da expressão artística, da capacidade de criar emoções verdadeiras com "mentiras bem mentidas".

O segredo da felicidade mútua parece afinal ser "saber mentir para criar emoções verdadeiras".

Não nos sintamos defraudados, se pagamos bilhete para ir ao teatro, porque nos zangarmos por ter teatro gratuito??? Só é preciso que seja bom e seja a peça que queremos ver.


Diferença pássaro & tartaruga & política

Qual a Diferença ???

Pois é…diferenças não existem, só existem "em…" e /ou "para…".

Quando um deles aparece as perguntas surgem, assim se acrescentarmos "em cima do poste", o conceito "pássaro" deixa os neurónios sossegados, mas o conceito "tartaruga" agita-os e três perguntas invadem-nos: 

- Porque está lá ?

- Como lá chegou ?

- Como sai de lá ?


Estas três perguntas fizeram a diferença entre a pré-História e a História. Sem elas ainda andávamos pelas árvores a disputar os ramos aos macacos...e eles ganhavam. 

Elas são a base da civilização e devem ser a alavanca de qualquer educação e ensino. São a nossa diferença como espécie. 

Chama-se CURIOSIDADE.

Qualquer criança depois de nascer, nasce segunda vez quando a curiosidade aparece. Da primeira faz-se uma grande festa, da segunda ninguém liga e até se aborrecem. 
Todos os seres vivos, das árvores aos humanos, passando pelos micróbios, têm o primeiro nascer, só alguns têm o segundo. 

Todavia, quando se repara, a curiosidade encanta-nos quer seja numa criança quer num animal, cão, gato, pássaro. Os genes sabem a sua importância, a cultura esqueceu. 

Uma sociedade sem curiosidade é uma sociedade de mortos-vivos. Uma política que a impede é uma política de envelhecimento. Não é a economia que move as sociedades é a curiosidade. 

A curiosidade é a "droga" da vida, fomenta o namoro e dá energia à felicidade.

Conhecem algum partido que a ponha num slogan ?....

O slogan de um partido para umas eleições podia ser:

CRIANÇAS FELIZES COM PAIS EMPREGADOS

Quando acontecesse,....a curiosidade andaria por lá à solta:  - "Como?? Quando?? Onde?? Porque não?? Porque sim??". 

Eu votava neles !!!...e obrigava-os a cumprir.

O progresso é isto, as autoestradas são apenas um meio.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ideias enlatadas disfarçadas

Ex. de enlatado fora de prazo:
A Terra é plana


 "Ideias enlatadas" são pacotes comprimidos em poucas palavras que trazem escondida uma lógica que se implanta e desenvolve assim que são usadas. 

[ver " blog "Enlatado de ideias e cultura FastFood"]






"O mundo todo é um palco" 
Shakespeare 

Fui lanchar na esplanada, sentei-me e comecei a ler. 

Numa mesa ao lado, uma senhora resolveu conversar: 

- Fui à praia mas não se podia, estava cheia de emigrantes..! 

Dei a resposta universal, -"Pois…!!!" , e resolvi continuar, perguntei: 

- É daqui do Estoril ? 

Respondeu: 

- Não, vim para cá já há alguns anos… 

Eu conclui: 

- Ah...! É da província...emigrou… 

E resolvi concordar: 

- Quando só cá estávamos nós, isto era muito sossegado. 

Quis ser amável e fiz conversa: 

- Gosto muito da província para passar férias, as feiras, o campo, o cheiro a gado, as pessoas simples… 

De repente pagou e foi-se embora, não percebi porquê, fiquei outra vez sozinho. 
Foi um encontro rápido. 

Esta conversa com enlatados é perigosa.



domingo, 11 de agosto de 2013

"Enlatado de ideias" e cultura Fastfood

Uma noticia:
Um casal com 4 filhos compra o seu primeiro automóvel, um carro desportivo.

1 - "Carro desportivo" abre a porta a uma rede de ideias, tais como, dois lugares, duas portas, descapotável, grande potência e velocidade, corridas, baixa segurança, etc;
2 - "Primeiro" indica que não têm alternativa;
3 - "4 filhos" levanta questões: -"onde levam as crianças?, pais "desnaturados"..!, só pensam neles..!, A justiça devia tomar conta destes casos…" e assim sucessivamente.

Três "ideias enlatadas" que dão avaliações rápidas e decisões instantâneas. 
"Ideias enlatadas" são pacotes comprimidos em poucas palavras que trazem escondida uma lógica que se implanta e desenvolve assim que são usadas.
É esta metodologia que defende o antílope de ser comido pelo leopardo:



...um reflexo amarelo na folhagem
e ele foge sem querer saber de mais nada!
É A VANTAGEM!

Porém, tem o seu reverso, a DESVANTAGEM.



Este método pode apenas deixar ver o problema pelo buraco da fechadura, não o resolvendo, aumentando-o ou acrescentando outros.
No exemplo anterior, outras possibilidades existem, tais como, os filhos serem adultos, ser prenda de casamento para um deles, ser para vender e ganhar dinheiro, ser investimento numa antiguidade, ser para reparar como hobby,…

As ideias enlatadas, sendo pré cozinhadas, dão conclusões rápidas. Mas têm o mesmo problema de quem só sabe cozinhar com o supermercado à porta e diz que o peixe pescado directamente da água: - "É fresco demais, convém congelar primeiro…"

Quem só vive de "ideias enlatadas", quando não as tem precisa de um GUIA que lhe dê o "carril" para poder agir. Traduzido em linguagem "gentil ", quer dizer que precisa de obedecer a um líder forte.

O problema é que as "ideias enlatadas" 
perdem validade…… 
ATerra é plana
e, tal como os dinossáurios, lideres fortes também perdem validade…



Isto não significa que as ideias já estruturadas ("enlatadas") sejam negativas e não devam ser ensinadas na Escola.
A teoria pedagógica do "Bom Selvagem" é uma variante dos "fanatismos enlatados".  A sua essência é simples, as crianças são ensinadas apenas com métodos artesanais, por ex., toda a tecnologia actual é bloqueada, usando apenas tecnologia antiga para não os condicionar. Ou seja, estão a condicioná-los a serem atrasados, a fechá-los em séculos passados,  a regredir no desenvolvimento possível.

A hipótese se não fosse triste era divertida: "ensinar a fazer machados de pedra para evoluir naturalmente até aos 80 anos e então descobrir como se faz um avião".

O reverso também não é verdadeiro. Nem tudo que é moderno é bom, nem tudo que é antigo é mau. Em conclusão, tudo isto significa apenas: - "É preciso não perder a LUCIDEZ!!"

A escola deve ensinar "ideias enlatadas" (são fundamentais) assim como as novidades existentes, mas não se deve esquecer de mencionar o prazo de validade, de dar lucidez e flexibilidade para ciclicamente as reconfirmar e, fundamentalmente, ensinar a usar de modo lúcido-flexivel na sua relação com a realidade, fugindo da cultura FastFood (avaliar e decidir sem pensar) ou dos modelos de fanatismo (sem lucidez e sem flexibilidade):

Receber ideias enlatadas não significa ficar enlatado:
significa progredir a partir daí:

O problema não são as ideias, enlatadas ou não, o problema é o modo como foram aprendidas.



sábado, 10 de agosto de 2013

A escrita, o interesse e o negócio


A escrita acompanha os caminhos do interesse e provoca-os. Mas a cultura dominante pode, ou não, aceitar certos modelos, e então - "Não há paciência para seguir a ideia, perdi-me…"

Três modelos base podem ser considerados:






A Pirâmide tradicional é utilizada para contar histórias, começando com os "entretantos", factos que vão pincelando as acções e o contexto, tudo interligando e desvelando a lógica da trama até que, no final, o "caroço" (the core) da história fica desnudado.


Assim se escrevem romances policiais, os "Irmãos Karamazov", a "Guerra dos Tronos", historiando o caminho em direcção à descoberta do criminoso, do casamento feliz, do castigo dos "malvados".

Foi assim que, com a Gata Borralheira e a Branca de Neve, aprendemos o "nascimento do interesse", absorvendo pormenores à espera do final.

Com Hitchcock surgem variantes como, por ex., sabermos algo que o protagonista não sabe, porque já nos foi contado ou porque a música nos "avisa" que vai acontecer. Chama-se a isto a emoção do "suspense", ou seja, ficar-se "pendurado" no que vai acontecer.

Muitos discursos políticos seguem este modelo universitário da pirâmide tradicional e, antes que chegue ao fim, já se fecharam os ouvidos dos ouvintes. A cultura mudou bastante desde os tempos de Proust que publicou a sua obra em sete partes entre 1913 e 1927.

Por sua vez, este estilo de "afugentar ouvintes" é o grande negócio dos comentadores políticos porque depois dão-nos a "conclusão", como cada um dá a sua, e também conclui sobre a do outro, é um negócio florescente e sem fim.

Todavia, com o negócio do jornal a situação alterou-se, pois surgiu o método da pirâmide invertida. 

O jornal é uma compra efémera de "usar e deitar fora", ou seja, desperta o interesse e usa-se (compra), ou não desperta e deita-se logo fora (não compra). 
O jornal não tem tempo para contar a história até ao fim, tem que mostrar a conclusão logo no início e o titulo tem que ser um anzol para provocar a leitura das primeiras linhas. O resto da história pode ficar entremeado no meio das restantes páginas para ler depois de o ter comprado.

Por outro lado, o jornal tem um problema insolúvel que é o espaço para as noticias ser fixo, pois mais páginas fica mais caro. Assim, acrescentar uma notícia significa tirar outra ou reduzi-la. A pirâmide invertida permite a solução fácil de cortar o fim das noticias porque o importante já foi dito.

O factor critico desta técnica é o critério usado para definir a conclusão. Estes "concentrados" postos no inicio podem ser apenas fantasmas de opiniões do autor, missionação cultural paga, incompetência lógica ou "anzol atractivo" para o negócio. Muitas vezes ao ler a notícia, percebe-se que a "manchete" é apenas uma mancha "publicitária" colada aos factos (há jornais viciados neste truque).

PS - O facto de agora alguns jornais serem gratuitos não altera a análise. A difusão dos jornais provoca duas linhas de negócio: A - "vender e ganhar dinheiro"; B - "obter leitores  e com eles vender espaço de anúncios". Este último caso, é o negócio dos jornais gratuitos e das TV's. Os leitores/espectadores não são clientes, são apenas recursos chamarizes para os anunciantes. Daqui a importância das audiências.

Com a internet apareceu o modelo da "dupla helicoidal".

Aqui o interesse baseia-se em fomentar o "zapping", "estás aqui para ir para outro lado".

A sua base é fornecer o mínimo suficiente de informação para criar uma fissura (gap) que crie curiosidade em preencher essa falha, pelo que se entra na "porta" (link) sugerida.

O processo é criar um adito em clickar para abrir portas (links). O interesse consiste em perseguir micro atracções rápidas-curtas (short) que mantenham um fluxo contínuo-longo (docked) de pesquisas sequenciais até chegar ao fim.
É uma das técnicas usadas nas escolas e universidades para criar motivação nas novas gerações.

Hoje estes modelos têm muitas variações e adaptações às diferentes micro-culturas, desde idade, formação base, hábitos, profissões, tema, etc.

Em resumo,

Criar interesse é como os sapatos, a moda e o gosto pessoal escolhem, mas o pé é que decide, no caso do interesse são os neurónios!



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Racismo impune (cont.) Final Feliz

(ver racismo impune)



Depois de vozes que protestaram, de clientes habituais que mudaram de café, esplanadas vazias ao lado de outras cheias, os "bancos molhados desapareceram, duches salpicados secaram, falando com a família ele regressou ao seu "poiso" favorito vendo a vida passar à sua volta.

Foi bom encontrá-lo outra vez..!!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Malucos, normais e nós próprios


Voltei a reler um dos meus livros favoritos "Os clãs da Lua Alfa" do meu hobby "Ficção Cientifica" e de um autor que "me torce os neurónios", Philip K. Dick.

Não pertence ao género "Space Opera" com os seus cowboys do espaço, nem às "Religiões Negras" com os seus missionários mortos-vivos, nem à "Ficção Pornográfica" com as suas huris da 4ª dimensão.

É uma história simples, num contexto inverso: os malucos são socialmente normais e os normais são socialmente malucos.

Ed. Europa América, 1987, original 1964
O cenário é uma projecção futura da situação actual.
Após a exploração do espaço, as colónias são planetas espalhados pela galáxia. 
À semelhança do século XVIII, quando a "ilha" Austrália foi transformada numa colónia penal inglesa para onde eram enviados os condenados e seus guardas, no livro, um planeta foi transformado em Hospital Psiquiátrico, para onde eram enviados os "malucos" e seus médicos.

Devido a convulsões politico-militares o planeta foi esquecido durante várias gerações. A história começa quando uma nave de normais volta a visitar o planeta para recuperar o Hospital e seu funcionamento.

A surpresa é que tudo estava "normal" e funcionava socialmente bem.

As chamadas doenças mentais tinham-se agrupado em comunidades, cada uma trabalhando em especializações que rentabilizavam a sua capacidade natural, anteriormente conhecida como deficiência mental:

- os maníacos (agressividade, grandeza e superestima) eram militares e viviam na AdolfVille;
- Os esquizoides hebefrénicos, especializados em missionação, viviam na GhandiTown;
- Os poli-esquizofrenicos estavam na Hamlet City, com suas eternas alternativas;
- Os paranóicos, sempre atentos, eram óptimos policias;
- Os obsessivos, não abandonando problemas, encontravam soluções, enchendo DaVinciCity;

… e assim a vida seguia feliz, rentável e útil com todos os outros potenciais também aproveitados, tais como os depressivos, felizes com trabalhos manuais sossegados e simples, os psicóticos expressando suas cismas para espectadores, etc.

A reunião geral destas "tribus" é uma descrição deliciosa da positividade de integração das diferenças mentais individuais. 
PS - Lembrou-me logo os debates das Assembleias Democráticas de "normais", onde integrar é ser deficiente mental.

A questão aparentemente paradoxal a resolver, é que os normais não tinham nenhuma capacidade socialmente aproveitável, portanto deviam ser "malucos" e ser internados.

Afinal, parece que o fulcro do problema está em:

Qual é a fronteira que separa o normal do doente mental e qual é o critério "cientifico" que se aplica???

Lembra-me a História das Bruxas e da sua prova cientifica e religiosa, simples e fácil: 

"Amarram-se e deitam-se à água. Se não se afogam são bruxas e são queimadas. Se se afogam não são bruxas e são enterradas com cerimonial religioso", q.e.d.

Isto pode ser anedota e a história pode ser ficção de Philip Dick, mas o quotidiano trás-nos…

 "Notícias":

Diz a professora:
- O seu filho tem que ser acompanhado porque não tem condições para aprender inglês...!

Pois é…felizmente não nasceu em Inglaterra,…e também foi o seu azar porque os que nascem lá, têm todos jeito para inglês.

Diz a professora:
- O seu filho precisa de medicamentos, é hiper activo..!!

Pois é … é-se medicamentado por querer viver. A minha Avó ficava contente com netos traquinas, - "cheios de vida".

Diz a professora:
- O seu filho tem deficit de atenção está sempre distraído com outras coisas..!!

Pois é … está sempre muito atento e concentrado "fora da aula".

Diz Philip Dick, em "Os clãs da Lua Alfa":

- Pensa que será possível convencer estas pessoas a voltar voluntariamente para o estado de pacientes?
- Não - disse Mary - Teremos de usar a força para os controlar.


Pois é…!!!


E nós…somos normais ou "malucos"??? E se mudarmos de sociedade??? E se deixarmos de aceitar a normalidade que nos permite "andar à solta"???
Em muitas culturas a "anormalidade" é um dom dos Deuses. Pois é…até com a escolha dos Deuses temos que ter sorte.    


sábado, 3 de agosto de 2013

Neurónios, cultura, orgasmos e a "tailandesa"


Quando Darwin disse que o Factor Critico de Sucesso da Espécie era a "sobrevivência do mais apto", a questão que me surge é "mais apto em quê?". 

Se queria dizer "mais apto em sobreviver" é uma tautologia, porque se sobreviveu era o mais apto, senão não teria sobrevivido.
Do mesmo modo, "cientificamente", posso concluir que os que não sobreviveram "não eram os mais aptos  para sobreviver", q.e.d. (quod erat demonstrandum) como diria o Senhor De La Palisse.

Porém, numa Espécie com reprodução sexuada o Factor Critico de Sucesso para a sua sobrevivência é a existência de orgasmo. Sem ele não há reprodução e sem esta não há nascimentos portanto ser, ou não, mais apto para sobreviver é uma questão irrelevante.

Apesar da reprodução "in vitro" (sem misturas sexuais) já hoje ser possível, eu prefiro, pelo menos por razões lógicas, a frase: - "…a sobrevivência duma espécie é a da mais apta em ter orgasmos".


Aliás, não só por razões do próprio orgasmo como também por razões filosóficas, na antiguidade encontram-se várias análises sobre ele, desde o Taoísmo com os seus nove tipos de orgasmos, até ao yoga com suas meditações e posturas às vezes com consequências orgamásticas, passando pelo Zen, Hinduísmo,...chegando aos modelos espirituais de "Out-of-body-orgasm".

Ao longo das civilizações, pesquisas sobre o orgasmo sempre existiram a par da procura de Deus (ou de Deuses), não só com fronteiras difusas entre os dois temas, como até se contaminando. 
As religiões oscilam optando entre orgias ou só sexo-oficializado-por-casamento, ou só sexo-para-reprodução, ou castidade obrigatória, ou sexo livre, etc. As variantes culturais têm sido muitas na relação religião-sexo.

Deixemos essas áreas "cinzentas" e vamos incidir apenas nos raciocínios "preto-branco" da lógica dominante, ou seja, separando o que "é científico" do que "não é científico".
PS - É cientifico quando a ciência dominante considera científico, e não é científico quando a ciência dominante considera não-científico. Pode parecer tautologia, mas o "científico" dominante diz que não é.
Exemplo, cientificamente a Terra era plana até Galileu, cientificamente a Terra é não-plana depois dele".

Assim, para não "tomar partido" na problemática do "científico", poder-se-á começar com Wilhem Reich, cientista para uns, charlatão para outros.

Wilhem Reich, discípulo preferido de Freud, membro integrante da sociedade psicanalítica de Viena, em 1933 foge dos nazis para Oslo onde ficou na Universidade até 1939 quando foi para os USA. 
Considerado lá como charlatão por muitos críticos, é perseguido e acusado pela FDA (Food and Drugs Association), preso em 1957, tendo morrido na cadeia no mesmo ano.


O núcleo do seu trabalho incidiu sobre o orgasmo (ver "The function of the orgasm", 1942) e avançando mais na área "soma" do que na "psy", desenvolveu a sua Teoria do "Orgónio", já nas franjas da NeuroCiência.


Considerava o orgasmo como um processo em cinco etapas:
Legenda:
F - excitação
P - penetração
Etapa I - controlo voluntário
Etapa II - controlo involuntário e automático
Etapa III - subida súbita para o ápice
Etapa IV - orgasmo
Etapa V - queda acentuada
R - relaxação

A duração é em média de 5 a 15 minutos no total, com alguns segundos/poucos minutos na zona tracejada de contracções involuntárias do corpo. 
PS - É sobre esta zona tracejada que incidem muitas das teorias da cultura oriental.


Regressando ao Darwin e à sobrevivência das espécies, quando a normalidade do orgasmo se altera, possivelmente há envelhecimento populacional (menos nascimentos) não só por razões de controlo cultural voluntário mas também por deformação daquela curva funcional, surgindo a chamada ejaculação precoce, de difícil fertilidade e com níveis de participação corporal gratificante muito reduzidos:


Comparação das duas curvas
Abandonando por agora os aspectos reprodutivos e centrando a análise nos centros de prazer, podemos caminhar para a neurociência.



Uma questão interessante é saber se o KamaSutra é um Manual de Ginástica Sexual (tipo acrobata de circo) ou se é um orientador dos neurónios afectos ao prazer (tipo conexões soma-psiquico)

Penso que usar o KamaSutra como um manual de acrobacias sexuais é como comprar um Vinho Tinto do Douro, tipo "3 bagos" de 2007 (35€ garrafa), para fazer sangria misturando gasosa e casca de laranja.
Se também se faz essa ginástica acompanhada com álcool e TV, é como beber essa sangria comendo sardinhas assadas com chantilly.

Ainda usando o pensamento de Reich, há um esquema que pode ajudar a compreender a Filosofia do KamaSutra para além da acrobacia sexual:




ou seja, a energia tem que ter uma integração psicosomática. Os efeitos surgem quando as posições corporais reflectidas nos neurónios por sensações quinestésicas são integradas com significações oriundas do campo psico. 


Parece ser complicado mas pode ser simples conectar neurónios, para isso só é preciso criar as situações e "eles que se amanhem". É o método de ensinar uma criança a andar "é só pô-la em pé e os neurónios fazem o resto".


Brain structures of the pleasure center and reward circuit
Medial Forebrain Bundle
O aspecto importante é a "intenção significativa" dos actos (agora tão na moda com a teoria "O Segredo", ver livro, vídeos e filme) que pode ser provocada por expectativa sintónica ou por expectativa de ruptura positiva com os referenciais culturais existentes.

Um exemplo simples de fazer, por simultaneidade de "expectativa sintónica & ruptura positiva de expectativas", é a chamada "tailandesa".


PS - Não sei de onde vem o nome porque a experiência baseia-se nos paradigmas da cultura judaico-cristã europeia, jogando no AGIR e no PENSAR em "dupla conexão" (double bind) de ruptura-sintonia. Uma espécie de "duche escocês" psicológico.


Tailandesa


Dizem os teóricos que ela só pode ser feita uma vez e exige pessoas sem prévias relações afecto-sexuais activas.

Baseia-se no paradigma europeu da relação amorosa-sexual inserida desde criança na estrutura afectiva e que contem duas fases sequencialmente bem definidas:

1º - intimidade afecto-psicológica (o namoro);
2º - intimidade afecto-corporal (o sexo).

PS - Estou a esquecer o paradigma europeu da relação sexo-negócio (prostituição), porque aqui o "embrulho" afecto é só para embrulhar a ginástica sexual, quer para pagar quer para receber (dinheiro, favores, benefícios,..)

A experiência é criar uma ruptura neste paradigma, invertendo a sua ordem no pensar-agir mas não no agir-pensar, portanto, o paradigma continua a existir sem ter existido.

As regras para o par são: 

A - Existir uma relação previa de sintonia relacional, mesmo que seja só através de comunicação não verbal, mas nunca tendo passado disso;
B - Existir um nível de confiança e disponibilidade positivas entre ambos, sem "a priori"s negativos;
C - Fazerem um contracto inicial de cumprirem rigorosamente as regras, até tudo terminado;
D - Estarem numa situação de isolamento exterior sem serem interrompidos.

Acção:

Objectivo

Tomarem banho juntos de olhos vendados.

Condições

1 - Juntos, ainda vestidos, vedam os olhos e só tiram as vendas quando estiverem outra vez vestidos.
2 - Despem-se sem ajudas e seguem para a casa de banho.
3 - Durante o trajecto e durante o banho podem e devem-se ajudar mas só podem tocar nas mãos um do outro.
4 - Regressam com as mesmas regras e vestem-se.

A ideia de base é que os neurónios "vivam" contradições entre a programação cultural de intimidade e isolamento, sabendo que estão em intimidade sem fases anteriores, mas sabendo também que na prática estão sozinhos sem ninguém a ver.

Ao mesmo tempo sabem a fragilidade disso, pois só depende da confiança no outro e do risco de ele(a) não cumprir as regras. 
Todavia, mesmo tempo, a probabilidade de furar as regras contra o outro também aparece e a  dica de "vou só ver se está espreitando" acaba por crescer, aumentando a desconfiança no outro e na dificuldade de continuar a cumprir as regras.
É uma espécie de "Dilema do prisioneiro" no campo afectivo e na defesa da imagem própria.
Normalmente ele é feito em relação ao que se diz (confessar ou não) enquanto que aqui é feito em relação ao que se faz, ou seja, o jogo processa-se entre "confio no que fazes e eu faço também" ou "não confio no que fazes e não faço também". 
Mais do que opções cognitivas são opções comportamentais, isto é, não têm "undo" (desfazer), depois de realizadas nada pode alterar o que foi feito.

Quando acaba e tendo cumprido as regras, normalmente só aparecem duas soluções:

A - Ambos desaparecem rapidamente; ou
B - Levam horas a conversar sobre o que aconteceu.

Os dias seguintes é que são interessantes.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Racismo impune


RACISMO: avaliação negativa do outro, com base numa sua diferença que é desprezada.

Ou seja, na prática: - "Tu com isso não prestas, tenho a certeza e ponho-te no lixo...". 
Pode ir desde a cor da pele ao local de origem e crenças em religiões, passando pela diferença saúde-doente, velho-novo, gordo-magro, forma de vestir, etc.

Talvez vindo com a crise, apareceu (ou mostra-se???) agora um racismo disfarçado agindo contra os que "pagam-muito-do-pouco-que-ganham" e favorecendo outros que "pagam-pouco-do-muito-que-ganham", e assim a crise lá vai andando acompanhada.

Descobri que este racismo vai tomando outras formas, do tipo exclusão social contra os sem dinheiro e os deficientes mentais, antigos ou recentes.



Em bairros "ainda com dinheiro", alguns dos "já sem dinheiro" aparecem caminhando pelas áreas sociais, sentando-se em locais sentáveis ou passeando junto às esplanadas.

Não só alguns "vizinhos" que não gostam da vizinhança os enxotam, como também alguns comerciantes se juntaram em "auto-defesa" para evitar diplomaticamente este "turismo", molhando sistematicamente os locais sentáveis e "por acaso" molhando-os também a eles.

Felizmente também há vozes que se manifestam contra isso, mas o negócio fala mais alto e acaba por ganhar a votação, ...a Democracia com bugs tem destes bugs.

Poder-se-ia fazer algo, mas o exemplo vem de cima…infelizmente o poder é usado para "apoderar" e não é usado para apoiar, apesar do disfarce ser esse…"molhar é só para refrescar e evitar pulgas…"

...como diziam os nosso avós: -"...as acções é que falam, as palavras são apenas gestos de mau pagador".