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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Escafandro, relações humanas e quântica



"The field is our only reality" (Einstein)

O Field é "energia in-formada"(formatada de dentro), aquilo a que
David Bohm (Prémio Nobel da Física) chama:
[...
in-formation, a message that actually "forms" the recipient...].


O ser humano é um ser de contexto, o escafandro é a prova disso, pois quando não temos contexto temos que o levar connosco, pois sem contexto… morremos.
Talvez seja de salientar que podemos morrer não só fisicamente mas também apenas psiquicamente se nos privarem de estimulação sensorial, como é "hábito" nos processos de tortura e/ou nos castigos.

Isto significa que a nossa relação "mais primeira" nas nossas hierarquias instrumentais é com "aquilo" que nos rodeia, ou seja, os nossos primeiros instrumentos de vida e desenvolvimento são os sentidos.
É através deles que o Field, a "Energia In-formada da Quântica" entra em nós, originando quer energia bio-eléctrica (emoções) quer energia in-formada (ideias).

Assim, afinal talvez os fenomenologistas  (Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Sartre,????)  assim como os pedagogos experienciais (Kolb, Prieste ???) tenham razão, nós funcionamos em dois níveis em interacção e em doublebind (duplo vínculo): emoções-ideias.
Deste modo nos relacionamos com os outros, assim vivemos o amor, a amizade e o sexo.

Todavia por razões culturais, muitas vezes adoptamos os extremos como paradigmas, ficando polarizados apenas nas ideias ou apenas nas emoções.
Por exemplo no amor-sexo:

1. encontra-se o "amor-trovadoresco" que vive feliz no campo mítico das ideias platónicas, muito semelhante  a êxtases de adorações religiosas:


2. pelo contrário no outro extremo, encontra-se o "amor-excitação" que vive de transes sensoriais, muito semelhante a estimulações de espectáculos, tipo danças zoológicas no varão das discotecas:


Em ambos se esquece que, na verdade, a realidade do ser humano é um misto integrado e equilibrado do duplo vínculo de "emoções-ideias".

Por exemplo, estar fora de água vendo peixes num aquário gigante, 

Situação 1
 não é o mesmo que estar dentro de água:

Situação 2
PS - por exemplo o acto "instintivo" de empurrar, concretizado na situação 1, não acontece na situação 2.


Dentro de água, a primeira sensação que se perde é a sensação da gravidade pois o nosso corpo deixa de estar [...preso e puxado para baixo…]. As emoções ficam diferentes logo a nossa relação com os peixes muda de matriz, pois […mudando as emoções mudam as ideias…] e os comportamentos.




De modo semelhante,
quando um peixe voador salta fora de água a primeira sensação que tem é a gravidade a puxá-lo para baixo.

Seria interessante conversar com um e saber o que sente de diferente de quando está dentro de água.





Em síntese, a relação humana são dois vínculos em simultâneo, um das emoções para as ideias e outro das ideias para as emoções:

Todavia, existem duas anomalias "normais", em que numa se "vive dentro das emoções, isoladas e fechadas em relação às ideias" e na outra "vive-se dentro das ideias, isoladas e fechadas em relação às emoções",  em qualquer dos casos criando encontros e desencontros inesperados e desconcertantes:




Esta situação é vulgar em paradigmas com o pensamento abstracto em grande valorização e predomínio.

Parece que a potenciação humana passa por um pensar detonado nas emoções e a elas retornando e, talvez por isso, a Vison Quest das culturas tribais seja, na prática, uma workshop de desenvolvimento da excitabilidade da percepção sensorial, intensificando a relação "emoção-ideias" para descoberta de novas visões de si e do mundo.

Desde a antiguidade até aos dias de hoje, a exploração deste doublebind (duplo vínculo) "emoção-ideias", explorando a relação "bioenergia versus energia [in]formada", tem sido realizada por processos orgânicos (drogas) como a papoila (ópio), cacto peiote (mescalina), coca (cocaína), LSD, cogumelos mais de 200 espécies entre eles o teonanacatl, etc, que mediante alterações orgânicas fazem psicoestimulação e alterações sensoriais com "viagens" no mundo das ideias, abrindo mais as "portas da percepção" e criando um grande mercado, negócio e profissionais que vivem do mundo dos aditismos (drogados).

PS - É bom não esquecer que este mundo das drogas (e sua importância económica) é bastante vasto desde o ilegal comércio das "ilícitas" com a correspondente legalidade do seu combate e terapias até à legalidade do fabrico, venda e uso de fármacos, passando pelo fabrico, venda e uso de álcool e tabaco, engloba muitas organizações, técnicos, influências e dinheiro.

Porém, este processo de drogas para positiva/negativa estimulação da relação humana consigo próprio, com os outros e com o mundo, tem duas grandes vias, uma interna ou orgânica e outra externa ou física, qualquer delas com duas alternativas, por um lado alterar a bioenergia para criar novas ideias e por outro alterar ideias para criar nova bioenergia com maior (= excitação) ou menor (= apatia) intensidade.

O método é sempre intensificar as sensibilidades às percepções emocionais quer por estimulações orgânicas (ex., afrodisíacos) quer por estimulações físicas dos sensores (ex., óleo de coco ou azeite) ou ainda por estimulações mentais (ex., imagens, cantos, mantras).

Para terminar, e regressando ao início, ter-se-á:

1. escafandro como símbolo da nossa condição que é estarmos sempre mergulhados em contexto e necessariamente a ele ligado pelos sentidos;

2. quântica como expressão da nossa essência que é sermos um duplo vínculo de "emoção-ideias (bioenergia-energia [in]formada);

3. relação humana como sinal de existência que é (to plait, to interweave) entrançarmos com o outro e dar-lhe significado;

pelo que surge uma questão operacional significativa que é nas relações humanas:
[...não se deve funcionar com emoções e ideias separadas, isoladas e assépticas entre si, mas sim intimamente conectadas…], ou seja, o que se sente e pensa tem que estar em ressonância entre ambos.
Esta condição nem sempre é fácil de obter pois a relação humana é uma dança constante entre o undercover (a máscara) que o outro sempre tem, a aventura da curiosidade de o conhecer e o medo-prazer da consequência.

Segundo o shamane, não há solução… e segundo ele, a solução é [… abrir os olhos e saltar…] e para isso há duas alternativas no entrelaçar da emoção <==> ideia:

A -  […começar a sentir e depois pensar…], isto é, começar pelos sentidos, usá-los no máximo e depois tirar conclusões pensando sobre as emoções; ou

B - […começar a pensar e depois sentir…], isto é, começar pela informação, tirar conclusões e depois analisar quais as emoções que daí advêm;

Por outras palavras, é a velha questão de saber qual é primeiro: o ovo ou a galinha ?


Não quero dar resposta, pelo que prefiro colocar uma pergunta:

- "Na vivência amorosa, normalmente, a situação é dominada por:

A- estimulação - por ex. afrodisíacos;
B- ideias - por ex. poesia e/ou admirar passarinhos no jardim;
C- uma dinâmica constante entre os dois;

qual escolhe ?????


Ou preferindo uma questão mais prosaica:

- Se aparecesse um extraterrestre que alternativa  faria: "A", "B" ou "C"?

ASSIM, para ajudar a decisão, um pequeno video...

… sobre o primeiro contacto de uma tribo pré-histórica com um "extra-terrestre", mais conhecido no resto do mundo como um "homem-branco", pois...

... para aquela cultura, um homem com aquela cor esbranquiçada devia estar morto, mas estranhamente estava vivo, assim vivem uma relação humana de "desconhecido + curiosidade + medo-prazer" com um "morto-vivo" e o interessante é como farão o equilíbrio "emoções-ideias"???, isto é, como actuarão???


terça-feira, 20 de maio de 2014

Ajuda ?? ou Des-ajuda ??…o canibal psicológico (emendado)

Ontem de manhã na Pastelaria.

Um pai e um filho de 5/6 anos tomavam o pequeno almoço, ele bebia um café e a criança comia uma sandes e bebia um copo de leite.

Cuidadosamente, o pai partia-lhe a sandes em pedacinhos pequenos, ajudava-o a segurar no "enorme" copo de leite, limpava-lhe a boca com um guardanapo, … mas não vi segurar-lhe o queixo para o ajudar a mastigar.

No fim, vestiu-lhe o casaco, pôs-lhe o chapéu na cabeça e ajudou-o a sair da cadeira.

Fiquei à espera que lhe pegasse ao colo para acertar com o meio da porta e não chocar com os batentes e descer sem cair nos 3 degraus… mas não o fez.

Para mim, foi uma experiência "dolorosa" começar o dia a assistir a um tão intenso canibalismo psicológico do tipo amoroso. 

O canibal psicológico alimenta-se de […ainda bem que estás mal para eu poder ajudar e ser BOM…], principalmente quando não é preciso porque se for preciso faz asneiras, fica em pânico e foge para regressar mais tarde.

A minha mágoa não foi por assistir a canibalismo psicológico pois "farto-me" de o ver na TV com os discursos partidários:

- "… o País está mal, os partidos só fazem asneiras [ …ainda bem!!…] , eu tenho a solução e votem em mim […eu sou BOM !!…],  depois faz asneiras e foge […eu já volto !!...].

a minha mágoa foi assistir a uma criança de 5/6 anos a sofrer canibalismo psicológico… seja de que adulto for.
Na verdade, educar  […NÃO É  robotizar decisões e acções ou transferir para si a sua execução…] mas sim […É  criar  cada vez mais uma MAIOR autonomia em quem aprende…].

canibalismo psicológico é um jogo relacional que pode fornecer "alimento" em 3 níveis:

- alimento para a personalidade, tipo "sinto-me Bom…"
- alimento energético, tipo "sinto-me activo…"
- alimento afectivo, tipo "sinto-me acariciado…"

interdependentes e em doses variáveis num cocktail equilibrado ou com um aspecto dominante.

Utilizando uma analogia de Catherine Holden sobre os jogos psicológicos, é possível comparar o canibal psicológico a um velcro em que, com duas faces completamente diferentes, numa é inócuo e normal pois é liso e suave, mas na outra é um parasita que se agarra e não larga, pois está cheio de gavinhas para anzolar em tudo que o consente.

VELCRO com 2 faces
PS - Isto é claro na violência doméstica e muitas vezes na violência educativa quando após ser feita em público o "educador" olha em redor a pedir aprovação […eu sou BOM…] como se fosse um toureiro após a faena e chegando a verbalizar - "…mas julgas que mandas…??" para o perigoso RAMBO de 5/6 anitos.

Este comportamento dito de "emmerdeur" na cultura francesa é um jogo relacional com características negativas para quem o sofre e com "pay off" (saldo) positivo e gratificante para quem o faz, mas o problema não é ele existir em sua negatividade, o problema é ele existir em forma repetitiva e criar aditismo, sendo esta uma das características importantes dos jogos de Eric Berne, numa palavra ser um PADRÃO de comportamento que se repete ad eternum.

Na verdade o ser humano é demasiado complexo para agir com um único objectivo. Normalmente ele é um "saco" de contradições, muitas delas sem consciência, mas agindo a partir de um equilíbrio das percentagens activas.
Noutras palavras, vivemos em "doublebind" (vínculos duplos)  puxando cada um para seu lado.

Na verdade, cada um de nós é um "agente undercover" com "agendas clandestinas" que convive com outros em duplicidades semelhantes. Parafraseando Shakespeare "este mundo é um palco…num encontro de espiões".

Os actos da vida têm sempre duas faces, somos um espécie de deus Janus romano com suas duas caras, mas em que uma é visível e expressa e a outra vive "debaixo da mesa" (undercover), sobrevivendo por "boleia" e por "pressão" da que é expressa. 

Na perspectiva do canibalismo psicológico cada um é uma entidade independente e isolada e quanto mais importância, energia, afecto tira, obtém, rouba aos outros mais possui.

Na perspectiva shamanica cada um é um ponto dentro de uma rede e quanto mais dá ao outro importância, energia, afecto mais recebe da rede, por isso o shaman […quando cansado e quanto mais trata dos outros menos cansado fica...].
A analogia é a [… de ser um rio ligado ao mar que ao encher um lago seco recebe muito mais água do mar…] e portanto, ao contrário do canibalismo psicológico, não vive por fazer morrer mas vive por fazer viver.

Pensando nos paradigmas shamanicos e no canibalismo psicológico educativo a minha memória "saltou" para uma história antiga, lida algures (Eric Erikson?, Ruth Benedith?, Dewey?, Lorenz?..) sem conseguir localizar a origem, e subordinada ao tema que na altura aprofundava de "Social pedagogy – domesticating or emancipatory?", onde na perspectiva dos índios nativos americanos a ajuda pedagógica é outra, diferente de canibalismo psicológico que é des-ajuda, ou seja, "domesticating":


Uma história tribal
(numa transcrição livre)

Alguns antropólogos, pedagogos e psicólogos constituíram uma equipa para entrevistar anciãos tribais em viárias tribos, procurando perceber os modelos (os Protocolos) da educação social das crianças.

Ao fim de algum tempo concluíram que uma linha de força importante era a não-humilhação, mas apesar do conceito (o Princípio) ser claro o método (o Protocolo) era confuso.

Um dia numa tribo, continuando com a pesquisa da não-humilhação, e estando reunidos na casa comunal com um grupo de anciãos, abrindo a porta, entrou uma criança de 4/5 anos a bisbilhotar o que se passava e um dos anciãos disse-lhe para se ir embora e que quando saísse fechasse a porta.

A criança voltou a sair e começou a empurrar a porta que era grande e pesada e como o chão era de terra batida irregular a porta encalhou numa saliência e não se movia.

Ao fim de algum tempo e após várias tentativas, os técnicos começaram a sentir a situação muito "dolorosa" pois a criança continuava a empurrar sem êxito, "gemendo", fazendo força, pés escorregando e porta imóvel…e os anciãos também imóveis olhavam e esperavam.

Os técnicos, convidados na tribo e não querendo interferir, sentiam a situação muito injusta para a criança e olhavam entre si sem saber como actuar.

De repente a porta saltou, fechou-se e a criança desapareceu. Não resistindo questionaram o grupo dizendo que tinham assistido a uma situação de humilhação e se eles podiam explicar.

Os anciãos espantados perguntaram:

- "Que humilhação??"

Os técnicos responderam que a orientação dada era injusta para a criança e deveriam tê-la ajudado. Os anciãos responderam que se o fizessem estariam a humilhar quem a tinha dado classificando-o como incompetente e incapaz de se relacionar com uma criança e suas tarefas e eles não humilhavam ninguém.

Os técnicos concordaram mas argumentaram dizendo que de qualquer modo a criança estava a ser humilhada com uma tarefa pesada demais para ela.

Os anciãos responderam que a criança tinha aceite livremente a tarefa, portanto a tarefa era dela e ninguém tinha o direito de interferir nas suas decisões porque isso seria humilhá-la.

Novamente os técnicos concordaram e tornaram a argumentar... perguntando:

- "…e se ela não conseguisse ???"

A resposta obtida foi:

- "Isso é uma conclusão dela e teremos que esperar. Se concluir isso, escolherá um de nós para seu ajudante e ele sentir-se-á muito honrado com a escolha e muito feliz em cumprir as suas indicações. A tarefa é dela … ela é que decide o que fazer."

Lembro-me de ter lido como conclusão-comentário dos técnicos que […pela primeira vez perceberam como a humilhação anda por aí à solta…]… e eu também.

Esta história passou a andar sempre dançando na minha cabeça e dando-me "cólicas" na barriga sempre que tomava consciência daquilo que o meu "protocolo social" aprendido já me tinha feito fazer… e ainda hoje, recordando alguns casos, as cólicas continuam cá.

Por exemplo, retalhos do dia-a-dia:

… a criança gatinha até ao sofá e tenta subir. Alguém com muito carinho agarra nela e senta-a no sofá. Imediatamente ela sai do sofá e gatinha para outro lado, comentário do "carinhoso:

- "…é mesmo palerminha, queria ir para o sofá, sentei-a lá e saiu logo…"

Pois é… talvez não quisesse ir para o sofá, talvez o que quisesse fosse SUBIR para o sofá, talvez palerminha não fosse ela.


… à mesa, a criança tenta com implicação cortar um pedaço da comida. Alguém com desembaraço e conversando para o lado, "saca-lhe" da mão talheres e prato, corta-lhe tudo, põe-lhe à frente e, continuando a falar para o lado, comanda:

- "…despacha-te…"

Pois é…no jardim zoológico o tratador não faz isso ao tigre, nem ao leão…eles mordem se não os respeitam, os cães "educados" coitados aceitam humilhações… os gatos é diferente.



Como resumo,

o prazer de viver com alguém é o prazer do encontro de duas complexidades que se encontram a si próprias quando se descobrem na relação com o seu entrechoque dos "doublebinds" e das suas "agendas escondidas" que não são o errado da relação mas a aventura da relação …ou... como diz o shaman […amor é o que faz descobrir todos os dias o outro como diferente…] e conclui […e é também a alegria de ensinar alguém…].

Mas esta frase complicada talvez se torne clara com o video em baixo. Assim para terminar, um exemplo onde, numa relação de "fingimento" de "double bind", a relação verdadeira não assumida tomou conta da situação e explodiu para além dos controlos pessoais. Muitas vezes a relação expressa que é camuflagem e falsa, na prática é a verdadeira por ser real.

O video, 4 minutos do filme "At Middleton", passado num Campus Universitário onde o pai (Andy Garcia) de um aluno e a mãe (Vera Farmiga) de uma aluna, dois estranhos que se encontram no dia de visita, convivem, sintonizam e entram em ressonância sem disso ter consciência mas "sabendo bem" o que está acontecendo.

Ao assistir a uma aula de teatro são "forçados" a fazer uma experiência de representação, desempenhando cada um mentiras "undercover" diferentes mas que fizeram a verdade explodir num processo "clandestino" pois afinal o fingimento era verdadeiro demais.

4m30s
clickar aqui 
[… e é também a alegria de ensinar alguém…], ou seja, ouvir o outro pensar e ideias fora-da-caixa a trazer o prazer de vida a viver e que não se podem sufocar mas sim ser cúmplice em enriquecê-las com outras versões/pontos de vista:

1 minuto
clickar aqui

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Esquizofrenia cultural, …QUE BOM...!!!



Esquizofrenia = cisão das funções mentais
[grego: schizo (divisão) + phrenos (mente)]

Ao longo da História a mestiçagem cultural sempre foi usada pelos colonizadores  e/ou pelos ditadores, quer disfarçados de democratas quer mesmo por ditadores já assumidos e como tal disfarçados de deuses, que utilizam uma técnica bastante simples:

criam nos indivíduos do grupo colonizado, 
e do grupo colonizador, a
esquizofrenia cultural colonizador-colonizado,
ou seja, 

[… agarra-se num "indígena" e ele é re-educado no país colonizador, regressando depois ao país de origem para ser um bom agente de enquadramento nos níveis inferiores da hierarquia. 
Em complemento, agarra-se num "colonizador" e é re-educado no país colonizado para ser um bom agente de enquadramento nos níveis superiores da hierarquia.
Os casamentos mistos (na gíria com "samoas") e a sua descendência reforçam a esquizofrenia cultural consolidando a mestiçagem.]

PS - Na sociedade e nas suas organizações existem processos semelhantes de mestiçagem cultural entre os "com poder/estatuto" e os "sem poder/estatuto" em que […o criado do duque é mais ducal do que o próprio duque…]. 
(É interessante ver o filme "The remains of the day" com Anthony Hopkins como mordomo")

O resultado da mestiçagem são duas estruturas de paradigmas em sobreposição de seus aspectos parciais que ficam integrados ou mutilados ou bloqueados ou em standby ou em conflito, etc., muitas vezes resultando apenas uma "caixa de Pandora" em risco de "explodir".

Mestiçagem cultural de "A" com "B", 
enquadrada em contexto social fechado

MAS…(felizmente há sempre um "mas") esta "técnica" não só tem uma face muito positiva, como a História bem documenta (vide biografias de chefes revolucionários), como também na época actual surgem várias correntes em que esta mestiçagem cultural é a solução de futuro para a actual sociedade tecnológica (ex., Digital Aboriginal de R. Tarlow e P. Tarlow).  

Na verdade a mestiçagem cultural permite ver o mundo com dois olhos diferentes e pensar nas situações com duas perspectivas listando mútuos pontos fortes e fracos, isto é, possibilitando criar alternativas mais lúcidas, eficientes e operativas para os problemas. 

Enquanto que o objectivo primário da mestiçagem cultural é criar inteligência para dominar a cultura do colonizado, o seu reverso é que vai criar também inteligência no colonizado para combater esse domínio… isto é, quando a perspectiva de luta é  dominante esta "solução" de paz é semente de guerra.
(ex., India com Ghandi versus UK com 1º Ministro C. Atlee e Governador da India Lord Mountbatten).

MAS(felizmente há sempre um "mas") como foi atrás citado, origina também outra alternativa que não é um problema de "quem domina quem", mas sim um problema de "quem é cúmplice de quem". Neste caso o objectivo é construir cumplicidades culturais para encontrar as imensas possibilidades SEMPRE existentes "fora da caixas de qualquer dos paradigmas" e, aqui, esta "solução" de paz é semente de paz.

Em resumo, paz ou guerra não é inerente à mestiçagem cultural mas sim ao processo em que ela se insere e, como é óbvio, ao método utilizado.

Esta última alternativa é a que me atrai e agrada, ou seja, caminhar […sempre a procurar passar para além do Bojador, pesquisando o mar desconhecido…] como os antigos marinheiros ...e como eles, esses "marinheiros cientistas" das caravelas, procurar aprender o desconhecido, neste caso os paradigmas de outras culturas e procurar ser delas participante vivendo a aventura de uma mestiçagem saudável:
…olhar o futuro…apoiado no que conhece
para procurar o que existe e não conhece...
Assim, 
cada vez mais o passeio pelo shamanismo e pelas culturas tribais se está a tornar uma aventura interessante e atractiva.


Seguindo o pensamento do Mestre Kenji Tokitsu na sua diferença entre Princípio e Regras e preocupando-me mais com os Princípios "escondidos" (undercover) debaixo das Regras do que com as próprias regras, cheguei à conclusão de que […em formas diferentes o ser humano trilha o mesmo caminho…] e, por baixo das roupagens, a espécie humana "viciada" na curiosidade de saber é toda igual, somos todos irmãos…

…desde "palitos" no nariz até "abajurs" na cabeça todos fazem a mesma "dança"

No duo Princípio-Regras do Mestre Kenji Tokitsu as Regras são normalmente impostas pela organização formal "dona" do Princípio para manter o próprio poder, com o risco de se […ficar aprisionado nas regras afirmadas autênticas(??) e ignorar o Princípio…], tal como acontece com algumas religiões e outras ideologias totalitárias ou democráticas, surgindo então os fanáticos do fanatismo.

Pensar a diferença princípio-regras é semelhante a pensar a diferença onda-partícula na Quântica. 

Poder-se-á dizer que o Princípio é o garante das possibilidades possíveis de existência (semelhante à Onda da Quântica), enquanto que as Regras são o garante dos métodos de aplicação, isto é, as possibilidades colapsadas da Quântica, ou seja, as Partículas ou, numa linguagem muito U.S.A., o Protocolo para cumprir fielmente.

De qualquer modo os dois são necessários, pois sem Regras (Protocolo) o conhecimento é fugidio e sem poder de actuação, mas sem Princípios o conhecimento é uma prisão sem flexibilidade para mudar, encerrados no Protocolo. 
Como exemplo, ensinar Matemática só pelo cálculo é uma prisão aborrecida, mas ensinar só pela compreensão é uma liberdade vazia,  o mesmo sucedendo com a Física, a História, etc.


Comparações culturais

Nestes passeios de comparação cultural encontrei Wallace Black Elk, medicine-man dos Lakota (Sioux) que diz:

"Se há Diabo na Terra ele está entre as duas orelhas",

[…para o guerreiro da vida derrotar o medo é preciso persegui-lo até ele fugir…]

se bem entendo, e pensando como Black Elk, eu concluiria:

 - "…e sair do meio das minhas orelhas",

mas o problema é saber como faço pelo que resolvi procurar descobrir o "Protocolo" e depois encontrar o "Princípio" que ele expressa.

Como é habitual nos processos tribais, o método que é simples sem ser simplista apresenta duas etapas:

1 - Observar minuciosamente o medo,

por exemplo:
--> detectar onde se sente o medo no corpo? (estômago? coração? músculos? intestinos? garganta?);
--> aumentar a sensibilidade nesse local (o que sente: pressão? calor? tensão-dor? tremuras?…);
--> procurar aumentar e expandir essa sensação pelo corpo todo;
--> Imaginar que forma tem? (agulha? faca? pedra? peso? martelo?…)
--> …e cor? e textura ? (áspera?, macia?, picos?) e quente ou frio?
--> atitude provocada: irritação? solidão? tristeza? melancolia? raiva? fraqueza? fuga? impotência?
--> se fosse um animal o que seria ? e que animal gostaria de ser para o enfrentar?
[…e assim sucessivamente…]

Como o Protocolo é simples e claro fui à procura do seu Princípio nos conceitos da cultura ocidental e repentinamente ele entrou-me pelos olhos adentro … é o Triângulo de Karpman.
Este conceito é o alicerce que suporta a estrutura dos dramas em filmes, séries, telenovelas, romances, banda desenhada, etc.

A ser assim, pode concluir-se que o importante não são as perguntas nem as respostas mas a atitude criada, pois passa-se do papel de Vítima do medo para o papel de seu observador ou, no conceito de Karpman, para seu Perseguidor, facilitando deste modo criar e assumir o papel de Salvador destruindo o medo.

Ou seja, o Triângulo de Karpman:
Triângulo de Karpman
(existem variantes)
Numa rede de relações há três papeis a desempenhar: o que persegue, o que sofre, o que salva.
Qualquer história é o relato das relações entre estes papeis, como se dinamizam entre si, como se transformam e como se entrelaçam com outros papeis secundários e terceários de vitimas, salvadores e perseguidores participantes na situação. Exemplos:

1 ==> O Robin dos Bosques é o Salvador, o Principe João/Xerife de Nottingham são os Perseguidores e o povo é a Vítima.
2 ==> A Cinderella é a Vitima, a madrasta é a Perseguidora e a fada/Príncipe são os Salvadores.
3 ==> O Superhomem é um Salvador por excelência, excepto no seu amor pela jornalista e quando aparece a Kriptonite (o meteorito do seu planeta de origem) que lhe tira o poder e o transforma em vítima a precisar ser salvo.

Porém nestes exemplos a trama é simples pois cada papel é genuíno, isto é, não é uma máscara para outro papel escondido em que o "Salvador afinal era um Perseguidor disfarçado". Quando isso acontece a trama é complexa. Exemplo:

4 ==> Uma conexão entre 3 personagens (marido=vitima; mulher=salvador; ex-marido=perseguidor) em que cada um deles, sucessiva e alternadamente, troca de papeis… as vezes que for preciso enquanto houver audiências para manter.

Em determinada situação, por intrigas, a vitima (marido) passa a perseguidor do seu salvador (mulher) que assim se torna vitima, sendo salva pelo antigo perseguidor (ex-marido) que esclarecendo a intriga fica no papel de salvador. 

Com esta reviravolta de papeis a saga continua enquanto houver mercado que os aguente pois só é preciso imaginação para criar um interessante novo suspense cuja arranque deve ser sempre no fim do episódio anterior para manter o espectador preso ao episódio seguinte.

5 ==> A serie TV "24 horas" com as suas 8 temporadas num total de 192 episódios foi a série que vi com mais reviravoltas do triângulo de Karpman, não só inter-episódios como intra-episódio, com situações de total(?) impasse de solução lógica, todavia uma pequena reviravolta desprezável e lógica possibilita a continuação da história sem ser com habituais soluções "parolas", tais como "um terramoto que mata todos" seguido de choros em enterros tipo "cerimónia de Oscares".

Regressando à cura shamanica do medo, o "Princípio terapêutico" que subentende o Protocolo é a mudança de atitude do medroso passando de Vítima a Perseguidor do medo, pois deste modo a situação entre as "orelhas do medroso" é alterada, pois o medo precisa da uma Vítima para existir e ela acabou de desaparecer ao transformar-se em Perseguidor.

6 ==> É semelhante ao autoritarismo.
Observar o autoritário é sempre fugir ao seu domínio […é deixar de lhe ser obediente…], pois deixa de ser Vitima da autoridade. Por isso o protocolo de relação com o poder/estatuto considera errado olhar fixamente para os seus agentes, os ditos "Suas Excelências", classificando isso de "má educação" e de "falta de respeito".

Como experiência, ao sofrerem uma relação de autoritarismo tentem observar o que o autoritário faz e tirem conclusões "entre as vossas orelhas", a sensação é semelhante a verem palhaços no Coliseu… e se usarem a imaginação vendo-o em "trajes mais que menores" têm que controlar o riso. Isto dá sempre muito resultado na relação com fardas de nível superior.

Por outro lado, ser olhado fixamente em observação (to be stared) cria uma sensação desagradável sem saber como se comportar, o que fazer com as mãos e pés, onde pôr os olhos, etc., situação vulgar nos elevadores em que se fica a apreciar a gravata do parceiro.

Os Lakotas dizem que quando os Deuses gostam de um guerreiro da vida põem-lhe um perseguidor (a hard clown) a "chateá-lo" para ele aprender a "tirá-lo de entre as orelhas" pois é aí que ele se instala.
Há um pequeno livro importante nesta perspectiva (já reli algumas vezes) mas visto numa perspectiva ocidental que é "Um psicólogo num campo de concentração" de Viktor Frankl (Ed. Vega, Lisboa), um relato vivido de um psicólogo judeu num campo de concentração.

Regressando ao shamanismo e medo, o que achei mais interessante no seu protocolo foi a sua segunda etapa que propõe, uma espécie de "pesquisa de traumas freudianos existentes", ou seja:

2 - Que lembranças este medo traz ??

Sem pretender fazer psicanálise, esta etapa é, nas suas palavras, [...procurar as sementes onde nascem os medos…] e fazer para elas uma análise semelhante à da 1ª etapa.

Penso que o Princípio também é o mesmo, sair da perspectiva de vítima do passado que é o perseguidor do presente (Freudismo??), e observá-lo em suas características como sendo uma espécie de Base de Dados a usar para obter informações de controlo, e assim passar de vítima a perseguidor.

Analisando o protocolo shamanico fiquei com a sensação que são truques que, parafraseando como neurociência,  se limitam a [… tirar o passado da área do sistema límbico (emoções) e colocá-lo na área do neocortex (lógica racional)…] talvez o contrário do processo de se deitarem no divã do psicanalista a chorar emocionados por "causa da relação com a mãe" e dos complexos de Édipo ou Electra.


Outro passeio interessante foi aprofundar a

Vision Quest… um ritual para abrir uma porta em que se aprende a […sentir a vida dentro da vida…] adquirindo percepção da teia de ressonâncias que nos cercam.

Desde relatos de culturas tribais em isolamento na natureza, até relatos religiosos de Profetas Bíblicos mergulhados no deserto, passando por rituais de crescimento dos Indios nativos americanos, penso que a leit motiv comum é […estar na natureza não é ver árvores ou animais, não é con-viver com eles, é senti-los, é sentir outra realidade que também existe…].

O aspecto importante parece ser uma intensificação dos sentidos na captação do que os rodeia e o ponto fulcral não é a sua duração temporal (dias, meses ou anos a fio como nos relatos Bíblicos) mas da qualidade da "escuta".

No shamanismo dos índios americanos, muitas vezes o ritual começa com a construção de um "medicine wheel circle" pessoal.


Einstein e cultura nativa índia

Pensando na "medicine wheel circle" do shamanismo e em Galileu e Einstein, parece que para além das diferenças nos seus Protocolos surgem semelhanças nos seus Princípios.

Para esta comparação há duas palavras chave: ressonância e "Field" (campo quântico) a partir das quais se pode obter uma possível compreensão da VisionQuest shamanica com paradigmas ocidentais .

(sobre "Field", ver Blog "Possibilidades, decisões embebidas e 5 experiências", de 24 Out 2013)
(sobre "ressonância", ver Blog "Apaixonados ou não???… é uma questão simples", de 2 Mai 2014)





O modelo tradicional de átomo ensinado na escola é um espaço vazio onde "flutua" um núcleo de protões e neutrões rodeado de electrões. Com este modelo constitui-se um paradigma que manipula e estrutura a compreensão do mundo à nossa volta e com ele defendemos as nossas verdades(??) assim compreendidas:


Em complemento, surge o modelo do campo de energia:


Entretanto o conceito de o átomo com os seus 99,999% de espaço vazio foi alterado e passou para o paradigma em que ele está preenchido com "energia subtil"- THE Field  (O campo) - ou a Matrix que impregna tudo, é omnipresente e é a base de tudo e onde tudo existe.
O Field é "energia in-formada"(formatada de dentro),
David Bohm (Prémio Nobel da Física) chama "in-formation", ou seja,
 [...a message that actually "forms" the recipient.].
Os físicos quânticos chamam-lhe o "zero-point field"
(semelhante(??) ao Ponto Omega do Padre católico Teillard du Chardin ??) 
ou só chamam "The Field", O campo de todas as possibilidades.
Einstein:
"The field is our only reality"

Porém este novo paradigma para pensar o mundo à nossa volta parece "irmão gémeo" dos Princípios shamanicos apenas vestindo outra roupagem.

Se todos nós somos um "pacote" de átomos e se eles são campos de energia, então todos nós (incluindo animais, plantas, minerais) somos emissores de frequências "invisíveis" aos nossos 5 sentidos, mas possivelmente não só "visíveis" umas às outras mediante ressonâncias, como também visíveis a outras formas de percepção (outros sentidos?) como acontece com animais.

A questão levantada pela VisionQuest quando diz "estar na natureza não é ver árvores ou animais... é senti-los…" poderá significar (na perspectiva de Newton) que é "entrar em ressonância" com as (na perspectiva de Einstein) "frequências do Field pessoal dos seres que nos rodeiam"???

A ser assim, na experiência de VisionQuest a perspectiva shamanica junta no mesmo "barco" a perspectiva de Newton e a de Einstein…Uhau…Uhau….

Noutras palavras, a VisionQuest será apenas uma espécie de workshop para treino de "sentidos" que temos "embotados" e se os bloqueios forem tirados […do meio das nossas orelhas…] o nosso mundo tornar-se-á um mundo diferente.

Não tenho experiência de VisionQuest mas tenho experiência de potenciar um sentido e de repente o meu mundo ser diferente.

Durante algumas aprendizagens de Tai Chi Chuan com orientações de um Mestre de Singapura, tentei fazer o "duche de Ki". Na prática, era procurar sentir a energia ki que nos envolve a derramar-se pelo corpo, "escorrendo" ao longo dele como se fosse um duche de água. 

A perspectiva do Tai Chi Chuan que foi apresentada é que o ki está sempre à nossa volta e conectando connosco como um campo de força em que estamos mergulhados, se seguirmos a regra de que [… a energia segue sempre a intenção…] apenas é preciso criar intenção, pelo que o Protocolo sugerido e orientado foi aumentar a […sensação e a emoção de contacto e conexão…].

Na prática e em resumo,  foi concentrar e aumentar a sensação quinestésica da pele em todo o corpo seguindo um percurso de pontos a visualizar e a focar de modo a possibilitar o sentir global.

Após tentativas de resultado nulo no "duche de ki" mas talvez com êxito na abertura do caminho (nas palavras do Mestre), … não sei se senti o "ki" mas sei que senti o "duche" e sei que o resultado é um misto de "estranho" e "bom", num paradoxo de calma+relaxação com energia+tensão. 

Desde aí, o meu mundo tornou-se diferente, agora sempre que quero tenho um duche revigorante "à mão de semear", ninguém vê ou sabe […tudo se passa no meio das minhas orelhas…].

domingo, 11 de maio de 2014

O sorriso






Sentem-se felizes com este sorriso ?



Agora pensem o que será que um bebé ainda "fora do mundo" estará sentindo de bom dentro de si para criar este sorriso, … não sabem o que é mas sintam como deve ser bom para ele….tornem a ver e imaginem...




… se AGORA com este pensamento sentiram uma emoção nova a reforçar a primeira visão, acabam de viver o que alguns shamans chamam ser capaz de […sentir a vida dentro da vida…] condição essencial para se ser um "ser humano" (to be a human being).
Segundo eles nenhum "medicine man/woman" o poderá ser se estiver bloqueado a esta sensibilidade-percepção… na verdade é humano mas não na sua total capacidade.

Numa linguagem ocidental, e não shamanica, é uma "dança de significados em ressonância de emoções"... ou numa linguagem mais poética […ver estrelas dançando à sua volta…]

(foto Jorge Medina, National Geographic)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Apaixonados ou não ???…É uma questão simples!


Na minha primeira visita ao Japão, recém saído da adolescência, fui ver um espectáculo do teatro Kabuki… que me fez muita confusão.

Algum tempo antes, tinha feito um curso sobre cinema orientado pelo Luís de Pina e encantado com o neo-realismo italiano tinha-me habituado às "explosões" faciais emotivas da representação ocidental, bem expressas nos zoom's cinematográficos.
Assim, ver representar emoções através de máscaras paradas não me parecia representar nada, a não ser um simples passear de rostos "vazios" circulando no palco.

Simplesmente a beleza da coreografia, a dança e o canto agarraram-me a imaginação e levaram-na para sitios desconhecidos, fiquei maravilhado com a aventura apesar do desconhecimento da língua e do contexto cultural me fazer sentir uma espécie de peixe a afogar-se fora de água.

Mas o problema da máscara a tapar expressão de emoções ficou-me em standby durante vários anos...

o outro é sempre um desconhecido
por detrás de uma máscara.

… até perceber que, na vida, a única realidade é ter sempre o outro com "máscaras tipo Kabuki", nunca podendo ver emoções mas só "sinais de emoções" escritos numa "máscara facial" de pele, nervos e músculos.
A sinceridade das emoções é só em função de acreditar, ou não, na "escrita" expressa no rosto.



O mundo inteiro é um palco,
todos os homens e todas as mulheres são apenas actores.
Shakespeare


in: NewYork Post e The Independent
de 28 Abril 2014
O actor milionário Richard Gere, quando numa filmagem nas ruas de NewYork representava um pobre vagabundo, foi tão convincente que recebeu o resto de uma pizza  fria dada, como esmola, por uma transeunte que passava, não o reconheceu e por caridade o ajudou.

A sua "máscara", tão bem representada na sua mentira, foi uma verdade tão grande que alguém se convenceu e o ajudou.

[…viver em sociedade é apenas nunca parar de emitir, para outros, sinais da máscara que usa…], o facto de o fazer sem disso ter consciência não anula o facto disso ser uma representação.
Culturalmente chama-se comunicar.

No caso de Richard Gere, a mentira bem contada provocou a verdade da amizade. Uma representação pode ser muito boa na MENTIRA das emoções expostas ou pode ser muito má na VERDADE das emoções sentidas, mas na realidade nunca se sabe qual das duas alternativas é a verdadeira… às vezes nem o próprio sabe as percentagens dos dois aspectos.

Viver com o outro é sempre semelhante a apostar  num jogo de poker, com a diferença que no jogo de poker no fim sabe-se a verdade, enquanto que na vida nunca se sabe o que acontece. Realmente apenas […se assume que…] pelo que viver com outro é sempre, e SÓ, um problema de Fé… ou se acredita ou não se acredita.



A beleza de um Pôr-de-Sol não está no Pôr-de-Sol, está em quem o observa e é por ele "agarrado": se não houver observador não há emoção de beleza.

No sentido religioso o Pôr-de-Sol não prova a existência de Deus, se existe algo susceptível de ser prova só poderá ser a emoção de beleza provocada no observador, o que traz uma questão interessante.


Ou seja, para encontrar Deus, o ser humano deveria pesquisar o seu interior e não o exterior, isto é, talvez os intermediários que impõem caminhos só atrapalhem.
Esta posição faz parte de muitas religiosidades de culturas primitivas tribais como, por exemplo, o ritual de "Vision Quest" das tribos nativas da América do Norte.

Tradicionalmente esta "Vision Quest" é feita no fim da puberdade e as suas formas (locais, tempo, métodos, etc) variam com as culturas, mas na prática é um contacto solitário com a natureza de 1 a 4 dias, procurando […sentir o seu próprio ritmo e a sua sintonia com o ritmo envolvente…].
É a procura do seu papel como membro adulto da tribo, da sua visão da própria vida, do seu próprio sentir no momento e das transformações desejadas… e procurar encontrar o "Espírito do Mundo".

É um pouco semelhante a apaixonar-se, pois o resultado não é um "pensar diferente" mas sim um "sentir diferente".
Não é uma pesquisa racional e lógica é uma pesquisa emocional e intuitiva, [...não é um conhecer pelo cérebro, é um conhecer pela pele...], ou como dizem os shamans: é esta a via DE ser humano (to be human being).

[…estar apaixonado é apenas sentir-se diferente e com isso tudo estar diferente…], não é um conhecimento adquirido, nem um curso feito com êxito, e muito menos uma obediência a padrões e rituais, é simplesmente uma emoção sentida e como tal sempre desconhecida de todos excepto por inferências inverificáveis de expressões expressas… [...estar apaixonado é o prazer de comungar com um eterno desconhecido e ter Fé nisso...].

O processo é semelhante a uma OBRA DE ARTE:

A "obra de Arte" nasce nas emoções do artista, com as quais ele cria sinais utilizando materiais exteriores, esses sinais são recebidos por um observador e nele vão detonar emoções. O circuito completa-se:



De qualquer modo NUNCA nenhum deles conhecerá as emoções do outro, apenas interpretará os sinais dele recebidos, isto é, apenas os originados nos significados pessoais de sua responsabilidade que ele decidir enviar.

Por exemplo, no esquema acima:

- "Qual o quadro que comprava ?????…o sinal emitido estilo Picasso ou estilo PlayBoy???"

- " Qual lhe provoca mais emoções de agrado ????" …isto é,

- "Qual lhe "abre" mais significados agradáveis ????"

Pois é, a sua resposta (escolha) depende de sincronismos de códigos, isto é, da dança entre os códigos que condicionaram a construção dos sinais e os códigos que condicionaram a significação dos sinais

Por outras palavras, a resposta dada não se refere só ao quadros, refere-se também ao observador, pois traz consigo uma "fotografia" pessoal dos seus referenciais de (e para) emoções… isto é, "aquilo" que impulsionou/construiu a resposta, ...factores pessoais, psicológicos, culturais, sociais.

A relação com o OUTRO tem um processo semelhante:



ou seja, NUNCA se sabe o que se passa por detrás das máscaras, as máscaras são o único aspecto visível.

Mas, 


talvez amizade, amor, raiva,…estejam aquém e além das máscaras,… talvez […pondo a cabeça lá fora…] seja possível ver noutra perspectiva:


isto é,

…olhar doutro modo e 
ver o mundo diferente...
in "A Alquimia"




Estar apaixonado talvez seja apenas um problema da Física Clássica.

Tudo começou em 1602 com Galileu e a sua descoberta da ressonância em movimentos pendulares.

A questão é simples:

Dois pêndulos com o suporte do mesmo comprimento têm a mesma frequência natural (aquela em que "gostam" de oscilar) pelo que se "excitam" mutuamente, transferindo energia:

Caso de "A" e "C"
Porém se o sistema influenciador estiver fora da frequência natural do sistema influenciado as energias não entram em ressonância pelo que a amplitude de oscilação do sistema influenciado não aumenta.
Neste caso o sistema altera pouco a sua amplitude e mantém ou reduz a oscilação, fazendo pouca diferença entre o mínimo e o máximo. 

Por exemplo:


A frequência da energia fornecida pela mão tem uma frequência que se afasta da frequência natural do sistema. É o que acontece, por exemplo, quando se anda de baloiço fazendo "contra-balanços".


Porém, se se entrar em ressonância o sistema influenciado alargará a sua amplitude, aumentando o intervalo entre o mínimo e o máximo devido à ressonância da sua energia com a da mão e no caso do baloiço vai-lhe permitir atingir a altura máxima.




Regressando aos apaixonados,


Talvez o que acontece com os "Romeu's e Julieta's" seja um problema de frequências quando, à revelia do "método de leitura de máscaras" (que é um "beco sem saída"), fazem um curto-circuito (shortcut, atalho) e criam ressonância em suas frequências naturais.

Realmente,

Cheirar uma flor…
Tocar numa árvore…
Olhar um pôr-de-sol….
Provar uma fruta…

…na prática são sinais eléctricos transmitidos pelos sentidos ao córtex que em consequência constrói significados produzindo energia (emoções).

Todavia, se por outra "porta sensorial" (...sem disso ter consciência...) for possível detectar as frequências dos outros, […somos sistemas energéticos emitindo frequências à nossa volta…], existem condições para se criar ressonâncias.

Com a ressonância criada fica-se cheio de energia, vibra-se por todo o lado, contaminam-se outras frequências sintónicas, difunde-se energia sob a forma de emoções alegres e fica-se em condições energéticas  internas de se reproduzir e originar um novo ser… a espécie vai continuar.
Culturalmente a este estado chama-se "estar apaixonado".

Se isso não acontece, isto é, se há apenas "contra-ressonâncias" ao estilo de "contra-balanço" nos baloiços,  culturalmente chama-se "estar não apaixonado".

Talvez seja um processo semelhante que leva os cães e outros animais a rosnarem a umas pessoas e fazerem festas a outras mesmo antes de se aproximarem delas, simplesmente porque as suas frequências criam ou não criam ressonâncias com as deles.

Em resumo,

Apaixonar-se... é tão difícil ou tão fácil como andar de baloiço… só é preciso estar em ressonância.

Des-apaixonar-se... é tão difícil ou tão fácil como andar de baloiço… só é preciso ter saído da ressonância.

Quando o divórcio ameaça, a solução de falar e construir opiniões consensuais é como querer curar uma doença com rezas à lua… entretém e dá prazer mas não resolve…

… a solução é adquirir outra vez a ressonância que desapareceu, para isso é preciso, primeiro, reformular as frequências pessoais…ou na gíria […não assoprar fora do ritmo…].
(ver o video explicativo)



PS - Na "VisionQuest" e processos tribais semelhantes procura-se aprender a sentir os ritmos que nos rodeiam e nunca os "romper" ou "mutilar".