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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Bugs 👻 nas crenças e vida

O Problema

A cultura é uma espécie de filtro que nos faz viver ideias, sensações e acções "correctas" se com ela concordantes e "erradas" se discordantes. Assim mudar de cultura e/ou de crenças é mudar de vida.
Normalmente as nossas crenças são "verdade" e as dos outros "mentiras". Ás vezes, até há quem lute e morra por elas e a DES-culpa é sempre que a culpa é dos outros (vide fanatismos). 

A cultura é um fenómeno interessante pois pode conter crenças contraditórias e viver com ambas em alegre dissociação, por exemplo, ao afirmar o contrário do que diz "Graças a Deus que sou ateu" ou concordar quando lhe dizem "Acredite em mim que falo verdade".

Esta trilogia ideiasactossensações, motor da cultura, tem como exemplo clássico a velha crença da Terra Plana versus a Terra Redonda (vide internet com crentes e descrentes):


Porém, estas crenças a "descoberto" agarram-se a uma crença-mãe escondida e camuflada nos confins da mente. Na verdade, todas elas se apoiam em acreditar que tudo se baseia em instintos genéticos ou pelo contrário em aprendizagens ensinadas ou, talvez, em ambas no estilo "genético temporário", ou seja, aprende-se e fica genético até nova aprendizagem.

Na verdade, sob o ponto de vista lógico o mundo das crenças é inesperado, criativo, saudável e perigoso pois altera, destrói e constrói vidas, disfarçada e impunemente. Viver nele é como andar por mares alterados e com rochedos em que, parados ou a navegar, o rochedo vai bater-nos.
Por exemplo, olhando esta foto,


aceitar-se-á que os comportamentos do gorila e do tigre são naturais por genética ou artificiais por aprendidos? 

Possivelmente  o biberão levantará algumas dúvidas e incómodos para decidir se, no início da "criação" quando [...Deus criou o mundo...], os instintos de usar o biberão (que não havia) foram instalados ou só apareceram posteriormente. 

Debates surgirão e alternativas lutarão desde [...biberões não existiam mas o instinto foi previsto por Deus...] até [... a "criação" não é estática mas dinâmica e está sempre a acontecer...].
Estes debates darão longas, intensas e confusas "conversas" entre a crença criacionista e a crença evolucionista.

Lutas fanáticas, políticas, religiosas e até emocionais baseiam-se sempre em crenças assumidas chamadas FÉ's sem nunca se analisar se são genéticas (pré-instaladas) ou aprendidas (pós-instaladas)... apenas se luta e morre por elas.

Uma crença a discutir

Tudo começou ao ver esta foto da Oliveira das Mouriscas que me provocou um "baque" cultural: 
- "Uma oliveira com 3.350 anos!!!????... do tempo de Moisés e Ramsés???",

e pensei... "...Raizopartiça... qu'é isto?", então os humanos quanto mais anos têm mais definhados ficam e com menos energia, mas as árvores quanto mais anos têm mais fortes ficam (ramos, folhas e raízes novas) e mais cheias de energia.

Haverá, nos humanos, um problema de crenças a inquinar decisões de vida???

Na verdade e relativo ao duo corpo-energia, há duas crenças, numa "o corpo faz a energia" (ocidente) e noutra  "a energia faz o corpo" (oriente). Estas crenças têm as causas e consequências invertidas.

Recordei aprendizagens havidas com a crença ocidental em que o corpo é uma espécie de motor de combustão interna que precisa de "recursos para queimar", quer sejam alimentos ou medicamentos. 

Recordei também a crença oriental em que a energia (ki) é o garante do funcionamento do corpo pois este é uma espécie de motor vibracional sustentado por frequências subtis.
Como exemplo, a ginástica "parada" (Stand Still, Zhan Zhuang) que cria aumento de energia sem ser por agitação motora (combustão) e, ainda, a alteração de circuitos de energia (acunpuntura) para tratar e curar. 

Não me parece que a acunpuntura seja psicológica porque não expliquei nada ao meu cão (com problemas na coluna) e durante os seus últimos 8 anos ficava muito quieto, e até se babava, nas sessões de manutenção com acunpunctura. Depois vivia feliz e sem dores, correndo, saltando e brincando sem precisar de analgésicos até à próxima sessão.


Se se comparar as duas crenças surgem diferenças:

Na crença ocidental - para se ter energia faz-se treino corporal, activando músculos, ossos, tendões, ou seja, fazendo activação motora de combustão.  
O modelo é muito vulgar na economia conhecido por "investir para lucrar". Tem-se energia que se consome a treinar e fica-se sem ela. Depois, esgotado, precisa descansar para recuperar. A crença é que recupera o perdido (o investido) e obtém um acréscimo (o lucro). 
Na actividade física a este "investir energia para lucrar" chama-se treinar.

Na crença oriental - para se obter energia faz-se activação de energia (ki) sem intensificar combustões musculares. Isto quer dizer que [...para ganhar energia não se gasta energia...] portanto depois não é preciso descansar e ainda se obtém o acréscimo desejado.

Falo por experiência pessoal como ex-praticante e ex-prof. de yoga. Realmente, na yoga não se gasta energia a executar e no pós-sessão acaba-se energizado. 

Comecei a fazer Yoga no início dos anos 60 pois, quando militar em Africa, conheci uns frades dominicanos que faziam "Yoga para cristãos". Indicaram-me o livro do frade Déchanet ("Yoga chrétien", Desclee Brouwer, 1956) e ajudavam-me sem teologias nem psicologias mas com conselhos no que chamavam a "via do silêncio". 
Fiquei "fan" e durante 50 anos a yoga foi imprescindível (30/60m diários) estivesse onde estivesse... até no navio com balanço, 😇😇 pois consegui adaptar algo da teoria da "Yoga sans postures" (P. Méric, "Juste une attitude") a um chão agitado.

Efeitos das crenças

Pensando nas duas crenças atrás citadas, cheguei à conclusão que devia haver algures um "qui pro quo", pois cada crença pode originar compreensões desfasadas (misunderstanding, descompreensões) sobre a outra por erros culturais interpretativos.

Quer isto dizer que interpretar com crença ocidental (centrada na matéria) as actividades de Yoga (ou Qi Gong, To-Ate, etc) criadas na crença oriental centrada na energia (Chi, Ki, Prana), algo se perde na transferência ao [...interpretar o dito com conceitos desvirtuados (alien)...].

Por exemplo, fazer Yoga "centrada" na sua forma (posturas, movimentos, respiração) mas não no seu conteúdo (Prana/Ki), é como beber sangria feita com um bom vinho tinto. Engole-se o álcool e dá euforia (embriaguez?) mas perde-se o prazer de sentir o "sabor do vinho". 

Na verdade, como dizia o enófilo [...embriagar-se com vinho bom é um desperdício... pois embriaguês é embotar sensações e saborear vinho é intensificar sensações], ou seja, para embriagar (ou ficar "alegre") qualquer zurrapa serve desde que tenha álcool.

Com a yoga acontece o mesmo, praticá-la sem a perspectiva do prana/ki é apenas mais uma aeróbica "esquisita" entre a antiga ginástica sueca (Pehr Ling), o contorcionismo de circo ou a moderna pilates, steps, aquallure, box virtual ou yoga flutuante (USA: Sandbox fitness, UK: Sup yoga).

Em conclusão, yoga na perspectiva ocidental faz bem mas perde a "essência", a potenciação do Ki. A yoga na perspectiva oriental é o mundo da energia subtil não das posturas, estas são o caminho e não a essência. 

Por exemplo, é impensável fazer Jogos Olimpicos de Yoga. Como avaliar o participante vencedor  de posturas exactamente iguais e durante o mesmo tempo?? Uma solução seria colocar electrodos no sistema nervoso e analisar alterações neurais porque a essência da yoga pertence a outro plano, às relações psicossomáticas e somapsíquicas e não ao visível exteriorizado.

1 -  Psicossomática é a influência do psy sobre o orgânico, por exemplo, a pornografia na internet quando por estimulação virtual se obtém excitação sexual. 
Ou noutro exemplo, ter sensações diferentes por crenças instaladas no Ocidente (foco no espaço cheio) distintas do Japão (foco no espaço vazio):

Aplicado na POESIA
Haiku- poema japonês com 3 linhas de 5, 7, 5 sílabas (tradução não mantém forma silábica)
A pedra no lago silencioso,
com a ave que dela salta e voa...
fica o céu e a pedra molhada.

Este poema na cultura ocidental induz a sensação de céu CHEIO "de ave a voar" na cultura japonesa induz a pedra VAZIA "de ave poisada".

Aplicado na DECORAÇÃO


2 -  Somapsíquica é a influência do orgânico sobre o psy, por exemplo, a inspiração respiratória. 


Na verdade, o músculo do diafragma permite gerir a inspiração com dois formatos. 
Num caso, (respiração abdominal) a inspiração é feita com o diafragma a empurrar os intestinos para baixo (não para a frente) e no outro (respiração Hu Xi Tchan) a pressionar o tórax para cima. 
As duas alternativas são usadas em práticas de yoga, possibilitando diferentes controlos de relaxação e energização.

Numa visão resumo das crenças culturais sobre a actividade yoga, a cultura ocidental centra-se na motricidade corporal e a energia é um factor colateral, enquanto a cultura oriental se centra na energia (ki) e a motricidade é um factor colateral.

Uma pergunta simples, na figura seguinte: Qual é a ginástica e qual é a yoga?

A resposta é fácil: 
- "Não se sabe!!!

pois independente da duração, da correcção da postura e muito menos da roupa ou local (trave de ginástica ou tapete)... nada se pode concluir. Porém, é possível tentar outras aproximações.  

"Nunca encontrei a alma na ponta do bisturi!", esta frase atribuída a Condillac (séc. XVIII) parece ser uma espécie de confirmação para a inutilidade da discussão sobre o Ki. Porém, sob o ponto de vista lógico ela só serve para dizer o que diz, isto é, "que não encontrou", permitindo concluir que poderá existir ou não. 

Esta crença ilógica do "não é objectivável... não existe" é um "beco sem saída" até porque durante milhares de anos os átomos não foram objectiváveis e sempre existiram.
É preferível caminhar na fronteira entre as duas culturas "não Ki 🔃sim Ki" e pesquisar o que as une e é possível objectivar.

Por exemplo, a energia (ki) aceite no oriente como fluir da vida pode ser "irmã gémea" da energia quântica (onda-partícula, quarks e fotões) aceite no ocidente como a essência que flui no real.

Porém esta coexistência da energia na ginástica ocidental e yoga oriental traz consigo uma diferença.
A ginástica preocupa-se com a postura, FIM, para isso socorre-se da energia, MEIO. A yoga é o inverso, a essência é a energia (Ki), FIM, para isso socorre-se da postura, MEIO. Os meios e os fins estão trocados.

Como na ginástica o resultado é objectivável, ele vai permitir avaliações exteriores (campeonatos), porém na yoga o resultado não é objectivável porque as consequentes alterações energéticas (ki) SÓ O PRÓPRIO SABE, portanto não há campeonatos de yoga.

Como curiosidade, é exactamente o que acontece na meditação, juras amorosas, rituais de desculpas e rezas pois ver/ouvir alguém dizer o Padre Nosso não garante que esteja a rezar ou apenas a murmurar.
O exterior visível e objectivável não garante o interior invisível e subjectivo.

O primeiro ensinamento para aprendizes da yoga deve ser ensinar técnicas de diagnóstico do ki pois [...postura sem treino de ki não é yoga...] sendo apenas uma ginástica "esquisita" com os benefícios específicos de cada actividade física, variáveis desde o nadar ao correr, passando pelo râguebi, ballet,  bilhar, etc.

Porém a yoga exige que o próprio praticante tenha consciência do que acontece no seu "interior" para além do efémero executar exterior. Na verdade, ele é o único avaliador do seu progresso, só ele saberá se num dia fez posturas boas com mau treino de ki e noutro fez posturas más com boa potenciação do ki.

Por exemplo, por muito aconselhada que seja a posição zazen, o seu desconforto para um ocidental pode criar uma péssima yoga (ou meditação, ou rezar, etc). 

A simples substituição pela posição egípcia possibilitará uma melhor yoga. O essencial não é a postura é o "como se está na postura", o simples fazer-posturas-yoga não significa fazer yoga...


Recordo que, nos inícios da Yoga, o conselho constante recebido era descobrir o que havia de diferente no sentir interior de cada postura em cada dia. Isso só o próprio pode saber e é o caminho.
Para ajudar davam exemplos de estar ou não no caminho, desde formigueiro nas mãos, braços, pernas até relaxações tonificadas com estados de vigília e não moleza (sonolência). 

Era importante a flexibilização não ser por insistência de estiramento (à ocidental) mas por sensações de estar no máximo confortável e ficar nesse "espreguiçar" sem esforço nem dor. O espantoso é que funcionava com rendimento e rapidez.

Na altura não percebia o porquê destes conselhos de "caça às sensações",  tipo "peso do ar na pele", "peso da gravidade nos orgãos", "alterar centro de gravidade", etc. Pensando à ocidental, para mim a yoga era ainda simplesmente contorcionismos "terapeuticos", imóveis e saudáveis.

Só mais tarde, percebi que se estavam a referir ao que, numa tradução livre e ocidental, se poderá chamar as "sensações subjectivas", a essência do treino do ki.

Sensação subjectiva
O Ki é uma acção integrada de 3 elementos que poderá ser expressa na crença oriental e na ocidental:


Numa possível interpretação ocidental, o vórtice Ming Tang (atrás da testa) serão os lóbulos pré-frontais, centro da visualização, concentração e imaginização das actividades. O vórtice Tan Tien no abdómen é o centro de gravidade do corpo ponto de aplicação da energia e o vórtice Tang Chung no tórax são sensações em seus ritmos cardíacos.

Na prática, poder-se-á dizer que o treino do Ki é integrar com consciência activa e concentrada, simultaneamente, as mútuas conexões destes três polos, criando um EAC (Estado Alterado de Consciência) e um ECA (Estado Corporal Alterado) de energia subtil (Ki).
Em esquema:
Parece complicado mas não é, na prática é assim que se toca piano.

O pianista com a mente (Ming Tang) visualiza a Sinfonia de Mozart (e não de Beethoven), aplica a energia (Tan Tien) nas teclas (e não em poses públicas), e vive sensações (Tang Chung) com a música  tocada (e não recordando Festivais da Canção).
O taoísmo chama-lhe a dança dos 3 elementos ou, na cultura ocidental, a trilogia (atrás citada) ideiasactossensações (vide "Acto e pensamento", H. Wallon).

Noutro exemplo, o "cross" budista THERAVADA:


Sob o ponto de vista corporal é um calmo passeio de 30 minutos numa distância de 10 metros, mas sob o ponto de vista mental, sensorial e energia (os 3 elementos) é um intenso treino nada fácil para um iniciado.

Por exemplo, um simples passo obriga a visualizar (Ming Tang), aplicar (Tan Tien), sentir (Tang Chung), dezenas de articulações, desde o pé da frente ao pé detrás, passando pelos dedos, planta pé, tornozelo, joelho, bacia,  coluna, cabeça, etc, em seus sincronismos, movimentos e equilíbrios e depois passar ao passo seguinte sem perder a concentração.

Não é fácil e, por experiência pessoal, é um dilema pois lentidão facilita a atenção mas dificulta a concentração e se há rapidez acontece o inverso... e o resultado é paradoxal. Em qualquer caso o caos e a ordem "zombie" instalam-se, um na trilogia ideiasactossensações e o outro no andar, ou inversamente. O "cross" THERAVADA falha, tudo tem que recomeçar.

Num THERAVADA caseiro entre assoalhadas (8 metros) consigo fazê-lo em dezenas de minutos de concentração e "falhas", mas o resultado é mais enérgico e tonificado quanto menos falhas faço nas "sensações subjectivas".
Este cross visto do exterior é apenas um andar devagar, porém visto do interior eu sei se é ou não. Às vezes desisto porque nesse dia realmente "estou  a andar devagar e isso é uma chatice".

Experiência subjectiva

...é fundamental sentir a energia da postura... (Taisen Deshimaru)

Uma postura é um mecanismo somapsíquico detonador do fluir do ki, se é correcta facilita, se incorrecta não facilita e pode prejudicar.
Complementando com a trilogia ideiasactossensações e com "boleia" da quinestesia (sensações subjectivas musculares e viscerais) é possível ter um treino simples, constante e discreto de potenciação do ki.
Como intróito (e a fazer... AGORA):
Se está a ler este texto, não deve sentir a cadeira nem a meia calçada.
Procure agora saber se a cadeira é dura e a meia é áspera.
Se o fez e tem resposta... activou a sua quinestesia. 
Pensar a pergunta (ideia), tactear com músculos (acto) e sentir diferença (sensação) provocou um EAC (Estado Alterado Consciência) com estímulos que apesar de já existir... não existiam estimulações.
POSTURA

1 - Sentar em posição-egípcia na extremidade de uma cadeira (só apoio no cóccix):
2 - Sentir o abdómen, por baixo do umbigo, 3 a 4 cm no interior (Tan Tien).

TRILOGIA (ideia-acto-sentir)

Procurar sentir o descrever de círculos em torno dessa área, primeiro num sentido (36x) [homens: relógio; mulheres: c/relógio] e depois em sentido contrário (26x).
No início, para "despertar" a sensação do estímulo virtual, poder-se-á com o dedo desenhar levemente na pele os círculos visualizados.

Relaxar, não tencionar músculos e respirar suavemente com a lingua no palato, sendo a expiração mais longa que a inspiração.

Concentrado, pesquisar em circulo essa região procurando sentir pequenas estimulações resultantes.
Acabar-se-á por ficar "entretido" com as estimulações (espécie de sonho acordado), perdendo impaciências e noção do tempo (o hemisfério direito assumiu o controlo).

Se reparar, a coluna ficará mais direita, o pescoço esticará, a respiração ficará abdominal e surgirão inspirações relaxantes (suspiros), sentindo-se tonificado sem sonolência.
Ao fim de alguns minutos (5m?) acabará  repousado, com energia e DESPERTO.

Como aviso, apesar de relaxante não serve para facilitar o adormecer e/ou combater insónias. Se ficar sonolento ou impaciente há bugs 👻👻 no treino, deverá parar-rever-encurtar-concentrar.

Recuerdos de "Ki" à ocidental
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1-  Ainda adolescente comecei a fazer trapézio na G.C.P., era divertido e excitante. 

Entusiasmado comecei a querer fazer o “triplo salto mortal”. O mestre Gilberto Barros ensinava e apoiava mas era muito cuidadoso. 

Recordo que muitas vezes ele me avisava, meio sério meio a brincar, “primeiro tens que fazer o salto na tua cabeça e o sentires no corpo… " e concluia "sonha com ele”.
Adormeci muitas vezes a sonhar acordado com as voltas no ar e, um dia, acabei por fazer o triplo mortal no Coliseu dos Recreios:


De certo modo estava usando a técnica dos 3 elementos (ideia-acto-sensação) do taoismo sem o saber.
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2-  Já adulto fiz judo com o mestre Kiyoshi kobayashi.
Às vezes, treinando em pares, ele fazia-nos lutar de olhos vendados, apenas tocando no outro com a ponta dos dedos e sem agarrar. 

Muito longe da "respeitabilidade" da cultura japonesa, eu aceitava mas contestava e resmungava em silêncio: “Este gajo (!!!)… julga que sou bruxo!?!?” mas lá continuava a tentar. 

Subitamente, com espanto, às vezes a técnica funcionava. Mudei de atitude e depois este treino era o que preferia apesar de não perceber mas já pensava "respeitosamente "... parece mesmo bruxedo".

Os 3 elementos (ideia-acto-sensação) do taoismo continuava a actuar.
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3-  Como militar durante muito tempo (2 anos) treinei boxe com o profissional mestre Ferraz.

Lembro-me de ele me dizer várias vezes que o soco é “não se pensar e sentir o braço socar”. Não percebia bem o que isto queria dizer. 
Culturalmente, pensava que o soco se decidia com a cabeça e dava-se com a luva. Jogar boxe era dar murros e o punching ball era o meu treino favorito e divertido.

Um dia, estando entretido com o punching ball, ele aproximou-se e perguntou-me se eu "tirava o soco". Não percebi o que queria dizer, ele rindo explicou que o soco é "sentir o braço a dar e depois o braço a tirar".

Perante o meu ar aparvalhado, resolveu dar uma explicação audio-visual. Devagar, encostou e empurrou com o punho o meu estômago e depois, brusca e velozmente, “tirou a mão”. Quase vomitei e levei algum tempo a recuperar. 

Nunca mais esqueci e decorei que era importante “pensar e sentir o braço a dar e tirar o murro". O meu treino de punching ball alterou-se, não esquecia sentir o bater e sentir o tirar.

Novamente os 3 elementos (ideia-acto-sensação) se instalavam: pensar dois movimentos (Ming Tang), controlar a energia (Tan Tien), sentir dar-tirar (Tang Chung).

Daí em diante o estilo (e resultado) do meu boxe mudou. Por duas vezes, sem força e apenas “esgrimindo luvas”, sem o desejar provoquei "ligeiro" K.O. técnico.
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4-  - Dezenas de anos depois, Itália-Alpes 2001, andei 10 metros descalço sobre carvão de coque incandescente (600º/700ºC?) sem me queimar e sem dores, ficando apenas com as solas dos pés esbranquiçadas. Nunca percebi como e pesquisei durante anos.


Para esta experiência houve uma sessão de preparação de duas horas (2100/2300) com actividades psicofísicas (relaxação, imaginização, meditação, etc), somapsiquicas (estiramentos, flexibilização, tensionamentos, etc), ambas intervaladas com ritmos (música, caminhar, equilibrios, etc). Tudo vulgar, normal e conhecido. 

Não houve drogas nem rezas a deuses, gurus ou profetas, nem histerias tipo vendedores-de-feira metafísicos com mitos, slogans e adeptos.
Foi apenas uma nova experiência-humana, semelhante a mergulhar no oceano e ter peixes à volta, sem transformar isso numa religião de rituais e obrigações de crenças a cumprir, tipo ...caminhei no fogo e nasci OUTRO...

A questão que me interessava não era metafisica nem alquímica, era simplesmente prática, curiosidade em saber "porquê" e operacional em poder "repetir se quisesse".
Obtive livros, artigos e CD's de ritmos e frequências neurais, teorias e opiniões. Porém fui incapaz de reconstituir a estrutura da sessão e de compreender os factores em jogo.

Mais tarde, aprofundando a problemática do Ki, descobri que talvez andasse a fazer perguntas erradas sobre a experiência de caminhar no fogo.

O factor crítico não devia ser a sessão de preparação, mas sim a atitude sobre as brasas. Por outras palavras, a "pequena diferença" devia estar nas sensações vividas ou sensações subjectivas que criavam um EAC (Estado Alterado Consciência) à semelhança do treino de atitude do ki.

Esta ideia fortaleceu-se com a luta To-Ate (aikido sem contacto),


e comparando textos acerca do Ki com as minhas recordações.

Alguns relatos eram semelhantes às sensações havidas durante o pisar do fogo como também semelhante às sensações posteriores de energia e bem estar descritas nas pós projecções To-Ate.

No dia da experiência, a actividade acabou pela meia-noite e os que caminhámos estivemos até cerca das cinco da manhã, calmos e interessados, a conversar sobre o acontecido. Pelas 9 horas, estávamos a tomar o pequeno almoço sem qualquer sinal de cansaço.

Vendo esta esta fotografia de 7 Abril 1937, Carshalton, England, sobre um "caminhar no fogo":


não me sinto nada identificado com ela.
Recordo que um dos conselhos mais recebido do orientador durante a preparação foi nunca apressar, sempre ir devagar "sentindo os pés" e nunca perder concentração.
Formalmente avisava que, no local, se não nos considerasse em condições não permitiria a experiência.

No meu caso, depois da travessia estava tão espantado que rapidamente voltei ao início para repetir e poder "ver-me bem no fogo". Alegando que já não estava em condições, não me foi consentido.

Na foto de 1937, a atitude dos caminheiros não parece ser de quem controla sensações subjectivas. Pelo contrário, parece mais um "fugir das queimaduras..." ao estilo "Aiii...Aiii...Deus me ajude...".
Repare-se no último participante com metade do corpo a não querer ir, outra metade a ser puxada e a cabeça indecisa. Nas actividades de risco este des-sincronismo corporal chama-se "atitude quebrada".

Daqui para o futuro... 

Fui ensinado que quanto mais idosos somos menos energia temos e o corpo fica esvaído. A conclusão científica e verdadeira é... "deixamos de ser jovens".
Aprendi também que ser velhinho é estar quietinho e saudável e, para isso, enquanto jovens deve-se fazer muita ginástica, fortalecendo o corpo e ficando como o Tarzan.
Fiz tudo isso!!! Na verdade, a crença do investimento apanhou-me.

Investi em ginástica e desportos para ter energia na velhice. Agora olho à minha volta e quer os que investimos, quer os que não investimos, estamos todos iguais... quietinhos e de bengalinhas.

SINTO-ME ENGANADO!!!

Pensando no método seguido ele era simples. Na prática, era gastar nos ginásios e estádios a energia que tinha até me cansar, isso chamava-se treino. Depois era preciso estar quieto para voltar a ter essa energia, isso chamava-se recuperação. Repetia-se o conjunto "cansa-descansa" com a crença que recuperava mais que do que gastava, isso chamava-se progressão.

Porém,  o "cansa-descansa" sofre uma crise e deixa de dar lucro, é a fronteira de jovem a idoso:

1º - é jovem ➼ corre-se quilómetros, descansa-se horas, ganha-se energia! 

2º - é idoso ➼ corre-se metros, descansa-se dias, perde-se energia!

SINTO-ME FRUSTADO!!!

Olho para árvores idosas, jovens de 3.350 anos, e vejo-as cheias de energia. Elas não jogam na crença do "cansa-descansa". Decidi também sair desta crença e ir para a crença "quieto-ganha energia".

SINTO-ME ESPERANÇADO!!!

Comecei com treinos de Ki através Yoga e Stand Still (Zhan Zhuang) na visão oriental.

Quieto e de pé, focado na trilogia "ideia-acto-sensação", comecei a fazer 1 hora/dia de ginástica-quieta, acabo com mais energia do que começo. Agora, apesar de idoso já abandonei a bengala e criei a minha crença pessoal:

Dançar sempre o tango nas Passagens de Ano,
abandonar o treino do "cansa-descansa" e fazer
 o treino "quieto-caça energia" seja ela o que for... 
...Ki, Prana, Chi ou Genica (à portuguesa)

As crenças são um dilema pois não podemos viver com elas e não podemos viver sem elas.
São maldição se a elas ficamos presos (fanatismos) e bençãos se libertos as usamos (lucidez). 

Todas as diferentes civilizações humanas têm a mesma essência, crenças em constante transformação desde religiosas e políticas até emocionais e científicas.
Os jovens e as crenças com suas constantes mutações são a minha esperança no meu ESPERAR.

Inté outro dia (e não adeus)
Maio, 2018



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

IV- Democracia em simpléssshhh: lógica paralela





Resolvi investigar.
Deve haver algures uma lógica escondida, uma espécie de válvula de segurança para a democracia funcionar sem democracia. Na verdade, é preciso não pensar para poder pensar que o actual sistema democrático funcionará tal como está.  (ver no fim "Uma lógica paralela... positiva?")

Uma hipótese é que os eleitores ainda se encontrem a viver nas duas primeiras fases (as mais primárias) das quatro possíveis nas campanhas democráticas. Ou seja:

1º fase - O candidato parte de si para os eleitores
Na prática é a técnica da missionação em que se introjecta a necessidade nos eleitores, que até podem não sentir nem saber o que é, mas disso são convencidos. Convém ser algo abstracto, geral, distante e que seja difícil de controlar e medir.
Exemplos clássicos da direita à esquerda são a luta-contra-o-capitalismo-internacional e a luta-contra-o-proletariado-internacional ou ainda o argumento chave de "explicadores políticos" no massmédia dizendo [...é demasiado complexo para se entender...], frase que no linguarejar politico significa "come e cala-te".

modelo púlpito usado na missionação política
2º fase - O candidato parte dos eleitores para si
Neste caso investiga necessidades, medos, desejos, etc, dos eleitores e fabrica um alvo a atingir ou um "inimigo" a combater, um anti-qualquer-coisa que "cole" na memória (tecnicamente chama-se slogan). Exemplos clássicos: "O melhor para Portugal", "Criar mais empregos".

Como convém é sempre algo "abstracto" difícil de avaliar, pelo que muitas vezes surgem La Palissadas.  Na verdade é impensável propor "O pior para Portugal" ou "O melhor para as Bermudas" ou "Criar menos empregos" e destes slogans ainda arrebanhar votos.
O caso de Trump com o muro USA-México é interessante porque não tem nada de abstracto. A avaliação é simples, ou há muro e cumpriu a promessa ou não há e é um falhado.

...e agora? Há ou não... muro?
3º fase - O candidato integra-se com os eleitores
Nesta etapa há três formatos, afectivos, cognitivos e operacionais.
No formato afectivo é preciso [...mesclar-se com os eleitores...] o que no calão político significa [...fingir que é um deles...] adaptando roupas e afectividades ao mostrar [... proximidade com eles...]:


No fomato cognitivo há o uso da linguagem em citar problemas locais, "sonhar" as soluções desejadas, etc. O importante é criar cumplicidade e pertença. Qualquer manual de vendedor explica como se faz.

No formato operacional, o processo é mais vinculativo pois obriga a uma mutação positiva na democracia, por ex., o plano participativo. Apesar de ser um pouco ao estilo Pai Natal em que a criança faz a lista de prendas e o pai dá o que quer (ficando os dois satisfeitos), todavia neste caso obriga a criar um vinculo de interdependência.
Porém este processo ainda não é usado para criar as promessas de campanha, apenas se usa depois de eleito para manter e reforçar vínculos de pertença.

4º fase - Os eleitores dizem ao candidato o que querem
Neste caso é fácil a avaliação do cumprimento, ou não, das promessas feitas.
Nas etapas anteriores há grande consumo de notícias estilo tabloide pois os eleitores querem saber bem quem é o eleito, sua vida e particularidades mas não fazem ideia do que ele anda a fazer.
Todavia nesta fase as prioridades invertem-se. Os eleitores preocupam-se pouco com as bisbilhotices de tabloides mas querem saber bem o que os eleitos andam a fazer. Neste caso mentir aos eleitores é crime grave.

No pensamento de M. Duverger, pode dizer-se que se passa da Democracia Governada (1ª, 2ª e 3ª fases) para a Democracia Governante (4ª fase). Na Europa e USA há já situações locais nesta fase, em particular em contextos de forte inter-relação, tipo municípios e freguesias.

Normalmente, as 1ª, 2ª e 3ª fases são sustentadas pelas lógicas políticas paralelas e clandestinas dos C.O.L. e da Gaiola de Hamster, vide o caso de sistemas políticos híbridos e autoritários citados no massmédia.

COL - Caciques de Opinião Local
Dividem-se em:

1- altifalantes (hub) que difundem opiniões, tipo donos de cafés, vendas, mercados, tabacarias, farmácias, etc;
2- caciques que impõem opiniões, tipo professores, médicos, padres, etc, até mesmo bruxas, vendedores de feira, etc;
3- galopim's que obrigam votar opiniões alheias. Este estilo era habitual nos primórdios da democracia (séc. XIX) pela necessidade de controlar votantes primários e obrigá-los a fazer o voto "correcto".
Possivelmente teve origem no galopin (francês e espanhol), o guardador dos cavalos que esperam os donos:

Crypte l'église Gargilesse-Galopin
(photo Daniel Villafruela)
A diferença entre cacique e galopim é que este não pretende criar opinião mas apenas criar obediência, ou seja, ele ordena e tem que ser obedecido, saiba o votante o que vota ou não.

Hoje, o nome galopins, controlador de cavalos e mulas, desapareceu da gíria e foi substituído por Fiscalizadores de Disciplina [os AOPD - Agents of Political Discipline(??)] ad oc ou institucionais.

Catalunha, votação 01 Out 2017
Independente da validade (ou não) do problema político, votar é um direito e uma normalidade democrática. Recorrer à polícia para impedir votações é usar Galopins para controlar ou impedir votos, é passar do sistema democrático ao sistema autoritário. 
A democracia não é um sistema de pancadaria pedagógica a impedir o direito de votar. A democracia é um sistema com o direito de decidir depois, legitima e legalmente, a validade dessa votação e suas consequências... mesmo que seja com outra votação, como aliás foi feito DEPOIS.

Catalunha, votação 17 Jan 2018
Em resumo, o acrónimo COL tem conteúdos diferentes consoante os três casos acima citados de difundir opiniões (altifalantes), educar opiniões (caciques), obrigar opiniões (galopins).

Destes três aspectos, é importante saber se uma democracia utiliza, ou não, a técnica Galopins nas votações pois a sua intensidade é um índice claro do nível da "doença" autoritarismo, vigente e endémica nessa democracia.
Existirem Galopins e seus bandos pode explicar parcialmente o ciclo Sisifo "êxito-falhanço" da democracia, porque afinal as ditas votações democráticas não são nada democráticas. A democracia morre à nascença.

Na verdade neste caso, o acto de votar não é uma afirmação pessoal de opinião mas apenas o acto zombie de obediência a opinião alheia. Os eleitores, vazios de "raciocínios", são apenas zombies que votam ou fazem qualquer coisa desde que lhes seja ordenado. Exemplo.

Se o votar zombie "vendido" aos candidatos significar uma média de três galopim's por candidato e se cada galopim controlar dezenas ou centenas de eleitores zombies, estar-se-á a falar de milhares ou milhões de votos fraudulentos. A democracia torna-se uma fantochada democrática.

Este lobby paralelo e clandestino de "venda" de zombies tem uma moeda própria. Normalmente não circula dinheiro mas serviços, favores, cunhas, ameaças, empregos, etc, como por exemplo o pagamento desta fraude votante ser dar uma dentadura à mulher do galopim "dono" desses eleitores.

Reformulando o esquema anterior com o factor votos não-democráticos nas votações democráticas, a democracia ficará controlada por dois mundos: os eleitos e os galopins. Este mecanismo é claro e evidente nos sistemas autoritários, nos híbridos de democracias maquilhadas com a técnica das "mentiras politicas" (vide Scientific American) .


Em conclusão, este esquema-retrato de actuais democracias das bananas, torna-se claro quando os galopins se disfarçam de funcionários partidários como foram os antigos SA nazis ou públicos do tipo polícias, juizes, legisladores, etc, que a coberto da Disciplina Sociopolítica impõem comportamentos.

Porém, os Galopins, como braço político (branch) de actuais democracias, são apoiados por outra lógica paralela, a Gaiola do Hamster, que permite de forma mais discreta (soft) adulterar o conceito de votável, impondo votos.

A gaiola do Hamster

Mito Sisifo do Hamster (... anda, anda e volta ao início..)
O voto

Um voto democrático é a manifestação LIVRE da vontade do eleitor. Se for obrigado a votar mas não for livre de escolher o conteúdo não é um voto democrático é um voto zombie (contra-democrático).
Exemplo: Uma votação sobre como quer morrer.  O que pode votar:


Tem quatro alternativas possíveis:

1 - Votar num deles - escolhido

mas se NÃO QUER nenhum deles, o que pode fazer?

2 - Não votar - mas isso é ser absentista ... e ELE NÃO QUER!
3- Votar branco - mas isso é ser ignorante político..., i.é., não saber o que escolher e ELE SABE!
4 - Votar nulo - mas isso é ser ignorante democrático..., i.é., não saber como votar e ELE SABE!

ou seja, está bloqueado e impedido de ser eleitor consciente.
Não querendo mentir por votar no que não quer, nem mentir por dizer que não sabe escolher, nem  mentir por dizer que não sabe votar, inteligentemente, só lhe resta o mal menor: não votar, ficar absentista.

Uma alta abstenção por parte dos eleitores é um grito silencioso de SOS, é dizer "algo está mal nesta democracia!!". (ver no fim "Uma lógica paralela... positiva?")

Talvez seja uma forma errada de o fazer mas, dado o bug existente no sistema descrito, é apenas a escolha do mal menor.

Paradoxalmente, a solução é fácil mas as consequências são complexas. Por analogia, este bug não é uma gripe que se cure por si própria, é uma doença curável mas séria e que pode apodrecer a democracia, vide actuais consequências em diversas democracias instaladas. (ver no fim "Uma lógica paralela... positiva?")

Solução 1

O boletim de voto ter sempre mais o item standart de estilo fechado: NENHUM DESTES.
Exemplo:

Esta solução permite ao eleitor recusar todos. Se a percentagem for pequena serão desvios individuais a investigar, mas o processo é válido sob o ponto de vista do eleitor e da democracia.
Porém, se a percentagem for alta e superior a qualquer candidato, é um caso típico de dissenso e fragmentação social. A democracia irá entrar na calha do autoritarismo e das fracturas sociais.

Nesta caso, as entidades democráticas terão que invalidar a votação e rever as listagens dos candidatos. Há já várias alternativas teóricas esquissadas para esta situação sem ser a tradicional "pancadaria pedagógica" atrás citada. Imprescindivelmente, os partidos terão que rever as suas posições e fazer entrar em auto e hetero -análises dos seus projectos e actuações, numa linguagem simples dialogar com os seus eleitores (4ª fase das campanhas eleitorais atrás citada).

Solução 2

O boletim de voto terá mais um item standart mas agora do estilo aberto para especificar.
Exemplo:

Neste caso identifica-se a intenção do eleitor. Se existir uma alta percentagem numa identificação esta votação tornar-se-á uma espécie de plebiscito (e não referendo) a ser considerado pelas instituições democráticas.

Como é óbvio a primeira solução tem um tratamento burocrata-administrativo mais fácil do que esta, que, em caso de grande variabilidade, acabará por ser tratada como a primeira.

Como conclusão, a democracia é um sistema complexo e não pode ser usado com raciocínios primários susceptíveis de disfuncionamentos anti-democráticos.

Já no séc XVIII, o matemático Condorcet estudou o "bug" anti-democrático escondido nas votações à segunda volta, pois podem eleger o candidato com menos escolhas, como exemplo, há eleição de Color de Melo no Brasil possível expressão desta hipótese.

Em sintese, isto quer dizer que o Boletim de Voto sem estas alternativas está armadilhado. A democracia será governada e não governante, aprisionada numa gaiola de hamster.

Boletim de voto em Portugal, 2015

O facsimile é:

Porém, se o boletim de voto tivesse a alternativa NENHUM DESTES passaria de boletim de voto fechado a boletim aberto e a escolha democrática era possível:


Se na altura, com a abstenção de 45,15%, existisse a escolha "nenhum destes" que captasse alguma desta percentagem para perto de 50%, seria um aviso sério para os partidos repensarem a sua actuação sociopolítica.

O problema não é fácil mas exactamente por isso não pode ser escamoteado. A maneira dura de escamotear este problema é forçar o voto obrigatório originando falsos brancos e falsos nulos. A maneira suave é culpabilizar e estigmatizar a "abstenção" que vai originar a mesma consequência. Isto significa a chamada estratégia de avestruz de resolver problemas escondendo os problemas.





Uma lógica paralela positiva

A sociologia de grupos tem um paradigma [...10% de abstenção pode ser um problema de indivíduos, mas 50% de abstenção é de certeza um problema do sistema...].
Por exemplo, quando uma maioria de membros de uma família, escola, bairro, sociedade, expressa alto nível de agressões, na sua génese não estará um problema de psicologia individual mas dinâmica sociológica sistémica.

Por outras palavras, utilizando os conceitos de "lei da situação" (P. Follett) ou "teoria de campo" (K. Lewin) ou "vaga de mudança" (A. Tofler) ou "campos morfogénicos" (R. Sheldrake) ou a "teoria geral dos sistemas" (Von Bertalanffy), etc, se com eles se procurar entender o problema e sua solução,  todos eles nos encaminham para não ficar "fixado" nos perfis individuais mas procurar as "regras de jogo" que provocam esse comportamento.

Nesta perspectiva, um artigo no "The economist" (31 Jan 2018) estudando a relação democracia-autoritarismo  em 167 países nos últimos 11 anos, coloca um problema interessante na aldeia global:

a democracia reduz-se, o autoritarismo aumenta

Como exemplo e detalhe significativo, nas democracias bem instaladas (gráfico valores 9 e 10, verde forte), só a Noruega, Suíça, Canadá, Irlanda aumentaram a democracia nestes 11 anos, a Austrália e Suíça mantiveram e todos os outros reduziram, aumentando o autoritarismo. 

No nivel 8 (verde menos forte) com poucas excepções (Britain, Coreia Sul, Uruguai, Nederlands, Botswana) todos os outros aumentaram o autoritarismo (USA, França, Alemanha, Portugal, Espanha, etc). As centenas de outros países estão em regimes híbridos ou autoritários.

Assim, excluindo uma programação genética de deuses, o diagnóstico oscilará entre "apetite" ao mando-obediência como perfil psicológico dos humanos ou ser resposta comportamental a factores sistémicos.

Em simpléssshhh isto quer dizer que o suborno, fraude e caos democrático são "doenças" psicológicas dos humanos para serem tratadas com perseguições e guerras políticas, religiosas, morais, educativas, etc, ou, ao contrário, são respostas a regras de jogo negativas consentidas e escondidas no sistema democrático e a serem expurgadas.

Nesta última perspectiva, se na História humana por pressão de efeitos sistémicos temos a democracia que temos, será possível que:
O século XX e XXI tragam consigo factores de mudança sistémica que originem o fim desta pandemia de autoritarismo? 
Haverá uma lógica paralela POSITIVA que contamina e favorece o re-nascer da democracia sem bugs autoritários?
Parece que sim... e neste caso:


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

II e III- Democracia em simpléssshhh: a lógica







O curioso é que o modelo da democracia vulgarizou-se e associou-se a muitos outros, assim existem Democracias:

1- ...em Repúblicas com diferentes formatos. Por exemplo, podem ser com votações fechadas, abertas, parciais, gerais, directas, delegadas, individuais, colectivas, etc. Por sua vez o eleito pode ter vários nomes protocolares desde Presidente a Secretário geral e o governo pode ser Presidencial, semi-Presidencial, com ou sem Primeiro Ministro, etc.
No caso de Primeiro Ministro ele escolhe os Segundos Ministros (não há votações talvez apenas "pressões") que, por cultura democrática de serem "todos iguais", são apenas chamados Ministros apesar de serem segundos.

2- ...em Monarquias com um formato misto pois têm um processo para definir o chefe máximo, chamado rei/rainha, e outro diferente para escolher chefes e chefinhos.
Para o chefe máximo a rotação é seleccionada por consanguinidade por sexo legal ou ilegal (bastardos) e  é normalmente vitalícia.
Para chefes e chefinhos é feita por votações restritas ou globais, individuais ou colectivas (assembleias, senados, câmaras, comissões, comités, etc) ou outras hipóteses e têm duração temporária.

3- ...em Ditaduras de grupos sociais (partidárias) onde existe um curioso sistema de votações SIM-NIM-NÃO:
 "SIM" para o chefe máximo, chamado desde Secretário Geral (tipo administrativo) até Líder Supremo, (tipo deus), eleito num sistema fechado de câmaras, comités, delegados, etc, ou seja, sempre em grupos restritos e é considerado que dentro deles há democracia.
 "NIM" para chefes e chefinhos nomeados por amálgama de critérios, tais como, cunhas, lobbies, facções, sensibilidades de "corredores", interesses familiares, contrapartidas, favores, trocas, etc, e é considerado que esse "jogo" é democracia informal em acção.
 "NÃO" para os restantes viventes que, fora de jogo, são apenas "espectadores" do jogo politico com a liberdade de viverem felizes e "livres" desses problemas ao estilo "vacas gordas no estábulo".

De um modo geral, as Democracias baseiam-se em PARTIDOS, elemento fundamental do modelo, mas às vezes entremeados com independentes (os sem partido) como um mal necessário, pois não estão vacinados com a disciplina partidária contra incertezas.

Curiosamente, partido são pessoas que se separam dos outros com o objectivo de, DEPOIS, a eles se unirem para, em trabalho conjunto, terem um resultado comum.
Lógica inovadora e estranha pois para ficar unidos partem-se primeiro aos bocados. Cada bocado chama-se partido (o que é lógico), mas depois (o que é ilógico) lutam uns com os outros, destroem-se, bloqueiam-se e agridem-se nas assembleias com uma técnica chamada De-bate.

De-bates (físicos e psy) em Assembleias de deputados
Quanto maior e mais agressivo é o De-bate, maior e melhor é a Democracia e a posterior união entre todos para o trabalho conjunto.

UuuHhau...!!!... pessoalmente nunca percebi a lógica. Parece-me mais o estilo do paradigma da violência amorosa em que "quanto mais bate mais gosta" e  "quanto mais o outro sofre maior é o amor e a amizade por ele". 
O Freud teria aqui muito material de estudo.

Lógicas estranhas da espécie humana pois bater num desconhecido é crime, bater na mulher é aceitável, bater no filho é pedagógico. O mesmo acontece na política e na sociedade, onde torturar é crime, mas  torturar na família para educar é pedagogia aconselhável e para divulgar.

Do mesmo modo, atacar um partido doutro país é condenável, atacar partidos do seu país é dignificante, atacar dentro do seu partido é louvável... pois a base é "order and LION" (Like It Or Not) tecnicamente chamado Disciplina Partidária.

Nas assembleias e diálogos democráticos (vide TV) as discussões partidárias para obtenção de unidade são feitas por bater o mais que se pode no outro, insultar, estraçalhar, berrar lengalengas (jamming) num catch as catch can sobre o outro.

A metodologia diz que quando ambos estão bem DE-batidos e em moleza mental, estão em boas condições de cooperar e colaborar um com o outro por cansaço embrulhado em motivação. Penso que o nome de PARTIDOS (separados) vem da sua origem e da técnica de brigas (contusões) como preparação para colaboração.

Assim encontra-se:

1- partido único, apesar de ser ilógico pois se está partido não pode ser único tem que haver outro pedaço. Na prática apenas significa "podes votar no partido que quiseres mas tem que ser este";
2- dois partidos com a escolha "ou...ou", dilema do tipo "...escolhe o que quiseres mas é um destes", ou seja, a listagem já decidiu e ratificou, só pode ser um dos escolhidos. 
3- muitos partidos, por ex, Portugal em 2015 com dezasseis candidatos e Catalunha em 2017 com sete. Este formato é interessante porque revela grande sofisticação intelectual na igualdade democrática entre vencedores e vencidos. Na verdade, pode acontecer que o vencedor perca a eleição e o perdedor ganhe a eleição.

Este resultado, aparentemente ilógico, tem uma lógica requintada. O vencedor ganha com o critério quantitativo mas perde no qualitativo. Pelo contrário, o perdedor perde no quantitativo e ganha no qualitativo. A decisão não é fácil.

A solução óbvia é os perdedores juntarem-se e ficarem também ganhadores na quantidade... o que torna a situação ainda mais interessante.
Na prática, atingida a quantidade mínima para ganhar, o perdedor que ficou o fiel da balança será o verdadeiro vencedor pois é ele que, verdadeiramente, decide nas assembleias quem ganha as votações. Em esquema:

Se partidos "A" e "B" estão empatados... o vencedor será "C" pois, na verdade, se ele se juntar a "B"  ou a "A" eles ganharão MAS se se abstiver eles empatam.
O poder é de "C" pois é ele que sozinho decide quem ganha. Nestas condições, o "pequerrucho" é que manda. A democracia tem destas surpresas.

A democracia é um sistema complexo com muita sofisticação e com várias lógicas a serem usadas.  Desde formalizadas (expressas, impressas, escondidas e secretas) até caóticas (confusas, subterrâneas, clandestinas e baralhadas).

Como exemplo uma... Lógica Democrática "escondida".




A "mola impulsora" da Democracia são VOTAÇÕES, são elas que criam os mandantes chamados eleitos através das escolhas dos eleitores. Este mecanismo possui níveis expressos e níveis "escondidos" (undercover).

Na democracia, na prática, é fácil chegar a chefinho pois é suficiente fazer "campanha" que é um nome discreto para o impulsor "Vou mandar isto... obedeçam-me":


Tudo se resume a apresentar um projecto político, obter adeptos, legalizar o partido e ...veni, vidi, vici...
A criatividade é a regra mas em Portugal os projectos políticos são inovadores, de objectivos claros e concretos apesar de difusos em neblina. Eis alguns:


Estas campanhas com estes objectivos são subsidiadas e destinam-se a informar os eleitores sobre aquilo que o candidato pretende anunciar para o futuro dos cidadãos, famílias e filhos. Os votantes devem escolher com consciência e compreensão qual o futuro que desejam.

Assim, e para reforço da democracia, é fundamental que o eleitor possa avaliar os resultados da sua escolha, isto é, saber se a promessa prometida foi cumprida, se os resultados foram concretizados. As consequências desta avaliação são directas pois se as respostas forem positivas vota-se OUTRA VEZ no mesmo, se são negativas ...escolhe-se outro. 

Este mecanismo é essencial para sobrevivência e desenvolvimento da democracia. Ele chama-se avaliação da decisão feita (debriefing) e é um automatismo vulgar na vida de qualquer cidadão quando escolhe  carro, roupa ou couves numa loja.
Se ele se sente defraudado, há mecanismos legais para garantias, queixas e defesas contra a fraude, tipo:


Porém, nos exemplos das campanhas anteriores como é que um eleitor consciente avalia se foi, ou não, defraudado no seu voto? Como avaliará se deram "Coina para todos", se tem "Picha para a frente", se houve "Cabeçudo, por ti, tudo" ou se existe uma "Roliça sempre"?

Possivelmente, se não puder avaliar a consequência do voto concluirá que tudo é impune, que não merece a pena escolher, que o melhor é ser absentista.
Na prática é o que faz na vida quando lhe "vendem gato por lebre" e fica sem solução, daí em diante nem gato nem lebre e passa a vegetariano... só se for parvo é que insiste na dita "lebre" e muito menos no dito restaurante.

Portanto, a avaliação é um risco que o candidato deve evitar, prometer sim mas impossível de confirmar, o ideal são obviedades que ninguém discute e fáceis de argumentar. Por exemplo,


por um lado era impensável dizer "Portugal pior" ou "Espanha melhor" e, por outro lado, qualquer coisita pode provar melhorias.

Será que votações democráticas são brincadeiras festivas de publicidade abstracta e difusa? Se a resposta é sim, então, há uma séria questão escondida a DES-tapar, ou seja, se estas "brincadeiras" são realmente a democracia é aflitivo, se é um festival humorístico é triste e se é seriedade assumida é assustador.

Se esta seriedade assumida é feita de inconsciência democrática é caso para pânico pois esta inconsciência é apoiada por partidos a quem estamos a entregar o nosso futuro e dos nossos filhos e é esta a democracia que lhes deixamos.

Raizopartiça... @#%!!!®¥GRRR!!!... os partidos devem ser a coluna vertebral da democracia e devem fomentar e potenciar ideias, processos e actos de alicerces democráticos e não escamoteá-los.

A base da democracia não é "botar o voto", é o votante que ouve informação válida, pensa, compara, dialoga, não faz boxe de insultos... e vota.

Porém, a lógica actual da democracia é a regra do mando-obediência, expressa em [...quem não obedece, é despedido !!!]. Em qualquer partido (esquerda, centro, direita) este é o paradigma fundamental, não é ouvir, pensar, aferir com outros pensares diferentes.

O projecto de futuro (vide cartazes) é só um acidente de marketing. Qualquer conotação com o real é pura coincidência. Na verdade cumprir o que foi prometido não é importante, o importante é [...dizer e desdizer se necessário, fazer e desfazer se for preciso...].

Por exemplo, depois da eleição, o eleito pode acabar com as eleições, prender candidatos, eleitos e eleitores, proibir conversas e agrupamentos, bloquear e aldrabar informação, etc, desde que seja votado e legalizado. Princípios são um mal necessário, sobreviver é a virtude imprescindível, é preciso ser engenhoso, adaptável e criativo, onde a mentira é apenas a verdade necessária.

Dizer o contrário é dizer o mesmo em contexto diferente, assinar por responsabilidade é apenas dar um autógrafo, subornar é prenda por agradecimento, incompetência é inovação em teste, defraudar são efeitos colaterais, errar é a coragem de decidir e os eternos "não sei nada, estava de férias, não me lembrosão erros antigos, a culpa foi do..., etc", mas principalmente...

"foi consensual"

..."foi consensual" é a tradução em linguarejar político de "eu-sem-responsabilidade-porque-a-responsabilidade-é-de-todos-nós". Porém, na teoria sociológica de grupo, a decisão colectiva não dilui a responsabilidade individual mas, antes pelo contrário, agudiza. 

Esta é a razão da importância das actas nos debates grupais porque se não existirem o indivíduo fica "escondido" dentro da decisão grupal. Tecnicamente, chama-se ficar arresponsável, isto é, sem imputação de responsabilidade.
PS - Hoje, por simplicidade e facilidade, substitui-se a acta escrita por gravação. Por segurança de avaria, desaparecimento ou adulteração, devem ser usados pelo menos três gravadores em simultâneo.

Isto apenas significa que há uma lógica "ab hoc et ab hac" a esconder a verdadeira lógica da votação. A notícia:

refere-se a uma votação na Assembleia da Republica e às contestações surgidas sobre a sua transparência(?), validade(?), legitimidade(?), legalidade(?), etc.
Sem entrar na análise do problema e apenas focalizando o argumento surgido de ter havido um amplo consenso na aprovação, pode perguntar-se o que este argumento quer dizer.

Consenso na votação normalmente arrasta a insinuação de que está tudo correcto porque houve acordo e que a responsabilidade é de todos. É uma espécie de placebo catalisador de responsabilidade.

Porém a votação é uma técnica social destinada a explicitar a quantidade de adesões, recusas ou indiferenças existentes em relação à proposta, não é uma técnica de avaliação qualitativa, ou seja, a sua aprovação ou recusa não afirma nem nega a sua correcção legal, legítima, moral, ética, etc.

A vulgar e dominante preocupação de validade de uma votação foca-se na validade do votar que é necessária mas não suficiente. Há dois outros factores que são essenciais, a probidade dos votantes e a seriedade dos processos prévios (informação, debate, actas).

Num exemplo, se nesta latitude um grupo votar em consenso que ao meio-dia é noite, pode ser democrático mas é parvoíce. Mesmo em caso de eclipse solar continuará a ser dia com o sol "tapado".

A votação é só a radiografia do acordo dos votantes. Isto significa que a essência da democracia não é a votação mas a validade e probidade do debate que antecede a votação. Esta posição é muito clara nos filósofos gregos da antiguidade ao dizer que [...a democracia acaba quando começa a votação...], ou seja, [...a votação é o fruto da democracia, não é a árvore...]. Votar às cegas ou por submissão a ordens é votação mas não é democracia.

Dizer "é democrático porque foi votado", no mínimo, é uma brincadeira de mau gosto, mas dito por um político deixa de ser brincadeira mas continua de mau gosto.

Em conclusão, o consenso não é garantia de validade técnica, legal, legitima, moral ou ética é apenas garantia de validade social naquele grupo, as outras validades provêm da proibidade do grupo nos critérios, da  processologia seguida e do debate informativo.

É interessante que o veto do Presidente da República sobre este assunto refira como causa [...com base na ausência de fundamentação publicamente escrutinável], ou seja, é teoricamente concordante com a filosofia da democracia e a metodologia da votação.

A votação, a campanha e o debate

Na actual cultura política existe a Sociedade Política e a Sociedade Civil que penso incluir a sociedade militar ou então ela foi excluída das duas ou foi esquecimento lapsus linguae (Freud).

A Sociedade Política é o conjunto dos candidatos eleitos e no conceito, apesar de um pouco confuso, penso incluir alguns "apensos" tais como staffs, dirigentes partidários e sindicais, comentadores, jornalistas políticos, ex-candidatos, etc.

A Sociedade Civil é um conceito ainda mais confuso pois não percebo a lógica de não ser Sociedade Política pois ela é o núcleo duro dos eleitores. Os eleitores têm a função política de escolher de entre os candidatos os melhores políticos para entrar na dita Sociedade Política.

A lógica ou é estranha, ou há uma lógica escondida, ou é lógica de brincadeira.

Todavia, uma lógica-lógica seria considerar como Sociedade Política os nove milhões e seiscentos mil cidadãos, ou seja, os eleitores que escolhem aqueles que vão ter funções políticas específicas no período inter-eleições.
Esta versão lógica não é inovadora pois é a clássica, é o que acontecia há perto de 2.600 anos em Atenas na então inicial democracia.

Como neste campo não acredito em lógicas de brincadeira, a hipótese viável é existir uma lógica escondida a garantir a lógica estranha. Penso que tudo se concentra na trilogia:


Em Portugal, 2015, a Sociedade Política decretou e legalizou que 13 dias eram suficientes para a Sociedade Civil se preparar para votar. Isto quer dizer que a Sociedade Civil, apesar de não ser política, estava capaz de, em poucas horitas, decidir o seu voto.

Como cidadão português fiquei indeciso entre sentir-me orgulhoso, triste ou humilhado. A situação era clara na sua estrutura.

Existiam 12.076 candidatos espalhados por 25 a 30 organizações políticas (algumas desistiram) que individual ou coligadas apresentaram 14, 15 ou 16 Projectos Políticos consoante o circulo eleitoral:

fac-símile
Isto quer dizer que:

A - o eleitor consciente tem 13 dias para analisar e comparar 16 projectos políticos e escolher o melhor  futuro para si, seus filhos e seus concidadãos. Se isto é verdade, fiquei orgulhoso de ser cidadão português e viver nesta democracia "adulta".

B - o eleitor consciente só considera dois ou três candidatos ignorando tudo o resto. Sofre de afunilamento político e não quer saber de mais nada. Tecnicamente pode ser escolha por crenças (missionação), por moda (publicitação), por tradição (habituação), etc
Fico triste mas é uma solução estrategicamente inteligente. Chama-se selecção por tranches e que costumo usar.
O perigo é quando surge cegueira política e se traduz em fanatismo dicotómico, dum lado tudo BOM e do outro tudo MAU. Neste caso a democracia torna-se o caminho a usar para obter partido único disfarçado de maioria parlamentar. Neste caso não é preciso ser democrata basta ser autoritário.

C - o eleitor vota às cegas, ou à balda, ou obediência, manipulação ou intimidação (obediência forçada). Nesta hipótese sinto-me humilhado e se é verdade, então, dois ou três dias chegam, podendo até ter 26 ou 36 candidatos em vez de 16.

Este modelo da campanha com a sua alternativa "C" é vulgar nas democracias actuais, vide casos actuais nas Américas e Europa, e tem como analogia o ciclo da borboleta:


que começa como lagarta (sociedade civil), sofre uma metamorfose (campanha), surge como  borboleta (sociedade política) a pôr ovos (votos) e morre.

Na verdade, a sociedade civil vive quatro anos sem politiquices (lagarta), depois sofre 13 dias de um banho de política com discursos, discussões, beijinhos, abraços e apertos de mão (campanha), sofre a metamorfose e transforma-se. Fica a sociedade política por excelência e, tal e qual o oráculo de Delfos, anuncia os eleitos. Depois retoma a vida de sociedade civil (lagarta).

A questão é que este modelo, nas democracias do século XXI, está a "rebentar pelas costuras". Não só surgem efeitos perversos, visíveis na época actual, como o modelo está desadaptado das actuais dinâmicas sociais, culturais, tecnológicas. A sociedade dita civil está a evoluir e a assumir-se rapidamente como sociedade política activa e quotidianamente interveniente.

Os sintomas já são muitos no plano internacional e até em Portugal, por exemplo, a reacção da sociedade perante a Super Nanny, um programa com 15 anos de existência em mais de 20 países sem problemas que, numa semana, mostrou claramente que a sociedade portuguesa dita civil é afinal uma sociedade política activa apenas 44 anos depois da saída da ditadura.

Em resumo, a campanha é uma acção formativa para preparar os eleitores para votar.
Sob o ponto de vista de formação e de pedagogia, esta metamorfose é um milagre democrático de eficácia e eficiência para em 13 dias explicar e informar 16 projectos políticos a quase 10 milhões de votantes e possibilitar que os candidatos contactem com esses dez milhões e ouçam opiniões.

Se se extrapolar esta questão para USA, Brasil, etc, países com centenas de milhões de eleitores o milagre é outro... é a inteligência humana pensar que este modelo pode funcionar.

Tem que haver uma lógica escondida a sustentar todo este funcionamento. Como é que esta correria de toca-e-foge, estas relações de olá-e-adeus, este encharcar de propaganda tiram e fazem adesões a candidatos e fortalecem a democracia? Continuará este a ser este o futuro para daqui a cinquenta anos?

Por um lado, há sinais sócio-políticos de ruptura e, por outro lado, de renascimento.

Como analogia parece ser uma espécie do Mito de Sisifo que sobe o monte empurrando a democracia mas leva a fraude encavalitada e esta acaba por rolar a democracia outra vez cá para baixo e tudo se repete.
À diferença do mito grego aqui o Sisifo são os eleitores.


Talvez a lógica escondida seja apenas uma lógica paralela que fingindo construir a democracia esteja apenas a destruí-la.