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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Lágrimas de jacaré, Descartes e Brexit-Boris

(foto Frans de Waal)
No pensar, as ideias são como as cerejas [...puxa-se uma e muitas outras vêm atrás]. Desde que vi esta foto, ela não me larga, é uma espécie de pedra no sapato a incomodar-me e a arrastar outros incómodos. 

Sinto que o jacaré a trepar na rede tem algo escondido, mesclado com o "penso logo existo" do René Descartes, não por errado mas por distorcer compreensões.

O René me perdoe... mas realmente pensar não chega para existir. Na verdade, quem pensa parvoíces não significa que existe(*), i.é, "quanto mais parvoíces pensas mais existes" não me parece ser um corolário do pensar de Descartes. Anda por aqui um bug à solta.
(*) - Na política é possível, principalmente, se as  parvoíces que se disser os outros gostarem de ouvir.

A frase do Descartes deveria ter a sequência inversa "existo logo penso" pois não é o pensar que valida a existência mas a existência que valida o pensar(*).
(*) - O paradigma causa-consequência da Física Newtoniana, na Fisica Quântica coexiste com o seu "gémeo" consequência-causa.

Por outro lado, a frase "penso logo existo" está ao estilo slogan, curta e memorável logo insuficiente, porém ao estilo auto-suficiente deveria especificar, por ex., dizendo "penso com a minha cabeça logo existo". 

Realmente, vê-se por aí muita gente a pensar com a cabeça do outro, é um estilo que se usa e abusa, por ex, obrigando à disciplina partidária. Esta alternativa obriga a pensar com a voz do dono (his Master voice) para criar unidade fictícia(*) com cópias standartizadas (clonagem mental??) em vez de originais não abúlicos.

(*) - Numa catástrofe todos ajudam e não há disciplina partidária. Sem disciplina partidária, a unidade consegue-se por cada um pensar com sua cabeça e sincronizarem-se. Líder é aquele que fomenta o sincronismo, ele surge e desaparece naturalmente sem campanhas nem eleições.

A base da disciplina partidária é obrigar a pensar com a cabeça do líder e não com a sua. Confunde-se obter unidade por obrigação (prisão) com obter unidade por adesão (liberdade)(*).

 (*) - Ou seja, pensar com a sua cabeça a mesma ideia que o líder pensa com a dele (cumplicidade*).


Explicitando, 
se os deputados pensarem com a sua cabeça (contrária à do líder) ficam a existir mas também, exactamente, por isso deixam de existir... são  expulsos.

A situação é estranha pois é uma espécie de sobreposição de Estados da Quântica em que o deputado por  pensar "existe como deputado do partido"(*) e ao mesmo tempo "deixa de existir como deputado do partido".

(*) - Se não pensam por si, não são deputados são apenas "bonecos certificados" pelo líder. Neste caso era mais "elegante" (gentleman??) só os lideres estarem presentes com procurações assinadas e legalizadas e os outros deputados irem passear com a família.


Numa palavra, é um dilema cujo antagonismo não tem solução e aqui talvez Shakespear dissesse "Te be AND not to be is the question" ao estilo da Quântica.


Para evitar este estranho e democrático quid pro quo poder-se-ia inverter a sequência da frase cartesiana e afirmar "existo logo penso" e então procurar solução a partir dele.  Foi esta a tentativa feita com a foto do jacaré.

O jacaré

Em simplex, as alternativas causa-consequência são:

A - "o jacaré pensa logo existe no cimo da rede" ou 
B - "o jacaré existe no cimo da rede logo pensa";

A diferença é que a primeira frase [A] é ambígua devido a ter causa indefinida, pois "pensa"... mas pensa o quê? Parvoíces? Macaqueia o pensar de outro? Vocaliza slogans por obediência? Decora sem sentido? etc.

Em contraste, a segunda frase [B] apresenta uma causa definida e concreta, i.é, existe cimo da rede.  Aliás esta é a lógica do pensamento científico. Porém, ele pode caminhar por dois trilhos diferentes, como, por ex., o Newton e o Einstein.

Em Newton, primeiro existe o evento e só depois surge o pensar significativo que o justifica. Quando ambos se harmonizam o evento passa a prova científica do pensar sobre ele.
Em Einstein (Teoria da Relatividade) ele faz o caminho inverso. Primeiro pensa a teoria (1915) e depois surge o evento (1919) apresentado então como prova científica do pensar.

Os dois processos, apesar de usarem sequências diferentes têm o mesmo factor gerador que é uma importante e indispensável "simbiose" de admiração e curiosidade.

Newton com nitida admiração e curiosidade
Durante milhares de anos, existiram milhões de maçãs a caírem por todo o lado, ninguém se preocupou e nunca passaram de simples e banal acidente.
No séc XVII a habitual queda da maçã incomodou Newton cuja admiração e curiosidade o fez entrar na História. 

O processo foi simples ele, curioso e admirado com o facto dela cair-para-baixo e não cair-para-cima, começou a pensar e descobriu a gravidade.
Ao unir os dois factos "realidade+pensamento" transformou a habitual queda da maçã em facto histórico na recém-nascida prova científica (1666) da gravidade.

Hoje, se um copo cai no chão e um balão sobe, ninguém se admira e por rotina pensam (se pensarem) que foi a gravidade. Só as crianças sentem ainda espanto de um cair e outro subir e perguntam porquê.

Ontem, o espanto foi meu. Uma criança de 4 anos, admirada, perguntou como é que a lua anda no céu se não tem pernas. A pergunta "científica" estava lá escondida no pedido de resposta(*).

(*) - Pergunta interessante pois iria encontrar a lei da gravitação universal (1687).

Sinto-me feliz por as crianças continuarem na vida como guardiões da curiosidade e da admiração e infeliz por os adultos perderem tudo isso nas certezas rotinadas do quotidiano.
Cada vez mais cedo, para os adultos o pôr-do-sol é apenas a certeza de já ser noite e só existe vivo se "matado" em fotografias e pinturas [...não tenho tempo para a minha filha mas em casa passo horas a ver fotografias...].

Ao mostrar um avião no céu espanto-me como as pessoas ficam impávidas e serenas e "explicam-no" sem admiração nem curiosidade com "... são descobertas da Ciência!!".
Na verdade  a "descobertas da Ciência" explica nicles e esconde o importante.

Entre a idade Média e hoje, muitas pessoas caminharam na imaginação e na curiosidade de pesquisar o voar com esforço e prazer e sem êxito.
Depois de esmiuçar o mais-leve-do-que-o-ar deram uma "cambalhota mental" e alguns loucos sem juízo começaram a esgravatar no mais-pesado-do-que-o-ar.

Adorava falar com estes primeiros "loucos" do mais-pesado-do-que-o-ar e saber o que, naquela época, lhes fez saltar os neurónios e aderir ao ilógico de subir por ser mais pesado.
Os deuses me ajudem, mas ver um avião é ver um "pacote" de curiosidades e admirações vividas, morridas  e revividas ao longo de séculos entre fracassos e êxitos e corporizadas, hoje, nesse avião lá no céu.

Em 6 de maio de 1896, Langley construiu o primeiro protótipo de aeronave mais pesada do que o ar. Então neste dia, houve prova científica que avião existe logo humano pensa se impulsionado por imaginação e curiosidade.

Repare-se no ar de expectativa e curiosidade
O jacaré parece ser um caso semelhante pois se existe (sobre a vedaçãologo pensa impulsionado por sua imaginação e curiosidade. Não creio que o jacaré o fez por instinto instalado no ADN pois seus antepassados não amarinhavam redes verticais e iam para o topo como comportamento vulgar.

Se pensarmos nas suas motivações de instintos básicos tais como sexo e comer, não creio que aqui funcione. Na verdade do outro lado da rede não existe UMA jacaré que atraia e o factor alimentação não é activado com ervas.

A hipótese obediência também pode ser excluída. A dependência do estilo manadas não é hábito da sua espécie nem ao pé dele existe um chefe-jacaré a dar ordens. A alternativa é o jacaré ser um independente, autónomo e motivado por projecto pessoal de subir a rede.

Ser independente e autónomo não levanta questões especiais, vide gatos independentes e autónomos por pré-programações no ADN, mas o projecto pessoal despertou a minha curiosidade e admiração: Porquê subir a rede vertical? Para quê?

Normalmente, uma mudança de comportamento reflecte um padrão instituído que integra informações do contexto num resultado pré-determinado. Um exemplo interessante são os corvos japoneses que constroem ninhos com cabides de metal, inovando assim o material de construção:


Então no caso do jacaré a pergunta a fazer seria saber qual o resultado pré-determinado no ADN e perseguido com a subida da rede. A resposta não é fácil.
A fotografia mostra um vazio quase igual de um e de outro lado da rede e só com duas pequenas diferenças. Do lado de lá (para onde quer ir) há uma floresta, de lado de cá (de onde quer sair) a relva está tratada.

Só resta fazer conjeturas.

O lado de cá tem relva tratada, é limitado por rede alta e vertical o que parece significar uma prisão VIP para jacaré. O lado de lá apresenta terreno maltratado e limitado por floresta o que pode significar ausência de "obrigações" e de controlos, portanto, possibilidade de autonomia e livre-decisões para o jacaré.

Nesta mesma situação, um gato escolheria subir pelos buracos da rede, saltar lá de cima para o chão e fugir. Simplesmente, o ADN, instintos e agilidade do jacaré põem esta solução fora de jogo. Subir será inovador mas saltar será suicídio.

O corpo do jacaré tem a flexibilidade de um tábua de engomar. Coitado do jacaré deve ser-lhe impossível dobrar o corpo como um gato e apoiar as patas de trás de um lado da rede e as patas da frente no outro lado.


Deste modo o ponto critico do jacaré centra-se na questão "passar para o outro lado". É possível ou não?

Na prática, passar a porta de uma casa pode ser para sair de casa fugindo da zaragata que lá está ou pode ser para entrar na rua correndo para a festa que lá existe. Talvez, por sorte, fazer os dois em simultâneo.

No caso do jacaré o ponto critico são os dois em simultâneo, i.é, sair da prisão e entrar na liberdade.

Portanto a questão é "conseguiu subir mas como sairá de lá?". Poderá no topo baloiçar" o corpo e cair para o outro lado?

Parece-me ser uma "missão impossível" tipo filmes Tom Cruise!

Conclusões sobre a fotografia

1 - Faltam fotografias do resto da história referentes ao "depois de estar lá em cima" mas logicamente pressente-se que o fim é triste.

2 - O jacaré ao subir a rede na vertical tem um comportamento inovador e moderno pois nos velhos tempos da pré-História não havia redes verticais para trepar logo teve que "inventar", daí o interesse da fotografia de Frans de Waal.

3 - Ao contrário dos corvos japoneses com seus ninhos de cabides metálicos, neste caso não parece existir padrão  instintivo prévio com o resultado a alcançar.

4 - Nos corvos japoneses a "exigência" de ninho pelos instintos base de alimentar e reproduzir, no jacaré não estão activos.

5 - Portanto, não sei se o cartesiano pensa-logo-existe é aplicável mas o existe-logo-pensa tem utilidade.
Na verdade, se ele está (existe) no cimo da rede logo decidiu subir, logo pensa utilizando informações do contexto sem ser por decisão cega-automática instintiva.

6 - Em resumo, o jacaré no topo da vedação existe logo pensa... mas pensa o quê?

7 - Considerando o paradigma existencialista(?!?) de "o homem e sua circunstância" pode dizer-se que "o jacaré e sua circunstância" é um pensar do tipo abstracto e não concreto.
Ou seja, não se foca em resultados a obter, tipo comida, luta, fuga, etc, mas em ideias, princípios, sonhos... tipo sair daqui, ir para acolá, etc, energizados por "feelings" (estados emotivos) de não quero estar aqui.

Por analogia, é como se, para o jacaré, esta prisão de rede fosse uma espécie de muro de Berlim ou obrigações da disciplina partidária,.

Pessoalmente,
quando vi a fotografia de Frans de Waal fiquei contente pois sair-de-caixas institivas ou culturais sempre me alegrou. 
A curiosidade e a imaginação são o sal da vida e penso que são inevitáveis e imprescindíveis apesar dos comentários negativos que andam por aí sobre a EVA, a maçã e a sua curiosidade(*).

(*) PS - E também inveja por não ser o homem a dar a trincadela na maçã e aprender o que a Eva aprendeu.

Todavia sentia que algo estava errado, faltava o resto da história e isso provocava-me insónias positivas(*).
(*) - Quando não durmo, o sono foge e fico a pensar e escrever no sossego. Depois durmo quando me apetece como fazem cães e gatos (espertalhões).

Em termos lógicos, o resto da história parece ser o coitado do jacaré ter desistido de dobrar o corpo para passar para o outro lado e desistido. Como consequência apoiou-se na cauda ainda no chão, escorregou para baixo e regressou ao inicio, à prisão.
Resta-lhe agora, dentro da prisão, olhar triste pelos buracos da rede... e sonhar com o andar em liberdade.

Os carcereiros ganharam!!!

PS - Afinal às vezes, lágrimas de crocodilo (Otelo, Shakespear) são verdadeiras!!!


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Teste (?) "só pra espertos", ou talvez não


Como ponto de partida do turismo mental "Teste... ou talvez não!", considere-se um contínuo evolutivo em que as quatro etapas possuem graus intermédios (fraco, médio, superior):

em função da sua capacidade de leitura, i.é, de ser capaz de [...usar os significados obtidos através dos símbolos escritos (letras)...]. Assim:

1 - analfabeto - ser incapaz de traduzir e obter significados dos escritos pois para ele as letras são apenas riscos num papel;

2 - alfabeto - ser capaz de traduzir e perceber os significados expressos pelos escritos;
Alfabetizado-fraco lê mas não percebe frases complicadas. Por ex., lê bem a "Cartilha de João de Deus" mas não consegue ler frases grandes e com relações abstractas. O alfabetizado-superior consegue.

3 - letrado - ser capaz de traduzir e perceber significados concretos (ex., vaca, pombo, etc) e abstractos (ex., circunstância,  estrutura, etc) dos escritos e perceber significados das suas relações, i.é, frases (ex., as estruturas ósseas da vaca e do pombo não são iguais).

Os graus de letrado variam desde fraco a superior consoante a capacidade de uso da quantidade/qualidade dos significados percebidos e suas relações (frases).

4 - leitor - é um letrado mas com maior velocidade e capacidade de manipulação de significados e suas conexões quer quantitativas-qualitativas quer concretas e/ou abstractas. Normalmente tem métodos de leitura aperfeiçoados.

Letrados (médios, superiores) e leitores (fracos, médios, superiores) usam modos de ler mais eficazes, em particular diferem na focalização da atenção "esquecendo" letras, sílabas e até algumas palavras para se focar em certas palavras (skimming), grupos de palavras, parágrafos e páginas.

A variedade é grande desde o velho B-A-BA do soletrar, passando pelo Paulo Freire e outros, e chegando ao PhotoReading e ao (discutível?) HadoReading japonês[1]
Os "olhares" também variam, desde o velho deslizar horizontal ao longo das linhas até à visão global desfocada (fora do foco e dentro da profundidade de campo[2]), passando pela leitura em diagonal, em vertical (colunas de jornal) e selectiva (skimming), o ler adquiriu velocidades novas obrigando a escrita também a evoluir.  

[1] - "The Healing Power of Hado", Toyoko Matsuzaki (123 pag); "Drawing Out the Genius in Children-HadoReading", Ruiko Henmi e Hirotada Henri, (50 pag).
[2] - Estilo ver imagens 3D em desenhos 2D, ex., "Magic eye, a New way of looking at the world", N.E. Thing Enterprises.

É interessante ver a diferença entre um romance do passado, dos séc. XIX e XX, e um publicado agora. 
Comparando, por ex., Eça de Queiroz, Proust, etc, com os habituais parágrafos de meia página (ou mais?), e o recente 6º volume da saga Millennium (Ed. D. Quixote) com suas 380 páginas, agora com elevada percentagem de frases curtas, parágrafos pequenos e capítulos de estrutura reduzida, oferecendo referenciais de compreensão fáceis, a diferença é clara. Existem condições para leitura rápida o que seria dificil com parágrafos de página inteira ou mais.

Por experiência pessoal, sendo um leitor médio (por testes feitos), foi possível ler calmamente o 6º volume da saga Millennium (380 páginas) saboreando toda a história numa tarde e numa manhã (5 horas).


A - Fase analfabeto

Num analfabeto-medio, os olhos e o córtex saltitam de letra para letra construindo sílabas que procuram agregar entre si criando palavras e pesquisando seu significado.
Nesta fase é interessante às vezes vocalizarem a palavra lida mas não a reconhecerem apesar de a usar na linguagem normal. 
Em voz alta dizem várias vezes essa palavra desconhecida e, de repente, há um click mental e reconhecem-na como conhecida e habitual. Sempre fiquei feliz ao ver o seu espanto e a sua alegria, crianças chegam a bater palmas e adultos admiram-se por não terem percebido logo.
Exemplo:

Depois juntam palavras e constroem a frase que poderá "obrigar" (ou não) a alterar prévios significados para obter o significado global.  Dois exemplos:

porém:

que para um analfabeto-médio não fará qualquer sentido com o seu "fazer pedaços de casa". Realmente ler as letras não é ler, pois ler sem mergulhar no significado não é ler... é papaguear. 

Saber ler não é saber traduzir as letras em sons e em palavras, mas sim é saber "caçar" significados e criar ideia significativa

Isto significa que ler rápido não é ser rápido a traduzir a sequência de letras em palavras mas ser rápido a integrar os significados que elas trazem consigo e harmonizá-los compreensívelmente (Ver exemplo a seguir).

B - Fase alfabeto

Nesta fase os olhos saltam de palavra para palavra e integram os seus significados sem ter consciência das letras e das sílabas envolvidas, a leitura torna-se mais rápida. Exemplo:
Aqui a frase é clara e óbvia mas se usarmos a outra frase alternativa o jogo de significados fica com um bug pois casa não se parte:
Neste caso, um alfabetizado-fraco não percebe a leitura e conclui que partiu deve ter outro sentido e procura entender. Apoiado (ou não) acabará por "automatizar" ideia de saiu de casa.

A sua capacidade de leitura aumentou pois a palavra ficou agora com uma dupla ligação, alternativa (double bind) no significado e de futuro precisará ser decidida a escolha, pois [...ler são contínuas e constantes decisões no mundo dos significados...] e, paradoxalmente, quanto mais automáticas e não conscientes são as decisões mais consciente é a leitura.

PS - Ensinar a ler por robotização, matando e enfraquecendo as tomadas de decisão, é criar um alfabetizado com ódio à leitura. Ler é um jogo de descobrir (decidir) o que aqueles riscos significam e ter prazer e alegria em fazê-lo e o robotizado foi disso castrado.
O dilema social e educativo de pais e professores é que se "odeiam" a leitura "odeiam" os que leêm e querem ler... o argumento é velho "os livros destroiem a comunicação entre as pessoas"... e já agora o dormir também.

Em conclusão,
ler e dizer "partiu" não chega tem que se passar a outro nível. O cerne da questão não é vocalizar (física ou mental) o escrito partiu mas sim obter o seu significado.

O universo da leitura não é tradução de escritos é uma dança de significados nas ideias detonadas. Ensinar a ler é mais do que ensinar a traduzir os sinais escritos, é mergulhar nos significados e "nadar" no fluir de ideias que arrastam.

Ensinar uma criança a ler não é torná-la um papagaio reprodutor de sinais escritos, é dar-lhe a alegria de descobrir e [viver na imaginação] a "história" que por lá está escondida.
O diagnóstico é simples, basta parar, esperar ...e ela vai querer saber o resto da "história", i.é, o resto da leitura. Ensinar a ler não é empurrar para as palavras, é ajudá-la a perseguir o que as palavras escondem.

Versos, canções, poesias não são a habilidade de ritmar (sincopar) vocalizações, são a criação de uma "sinfonia" significativa e harmoniosa de significados através do "ballet" das palavras.

Um estrangeiro alfabetizado mas analfabeto em português (falado e escrito) terá este problema de entender a palavra partiu.
PS - Este é o problema das traduções. Num hotel em Londres deram-me um mapa da cidade traduzido para português e, na capa, a morada do Hotel era Quadrado Russell, nº?? (Russell Square). Achei uma informação interessante e lógica porque a praça realmente é um quadrado.

Quanto mais fôr alfabetizado mais a mudança de significado é automática e inconsciente. No exemplo "partiu de casa" o fez em pedaços nem surge na consciência, tudo se passa em automático.

C - Fase letrado

Se for um letrado que continua a ler o resto da frase,


por exigência das palavras seguintes, o significado de partiu, automáticamente, será percebido como fazer em pedaços e não como saiu.

A um letrado 9 "olhadelas" rápidas serão suficientes para fixar o significado correcto. Porém, um alfabeto-fraco precisará de olhar lentamente, e uma-por-uma, as 13 sílabas, agrupá-las em palavras e depois agrupar as palavras numa frase e, só então, poderá decidir que partir é fazer em pedaços e não sair.

D - Fase leitor

Por outro fim, um leitor e um letrado-superior capacitados para leitura de grupo-de-palavras, têm um processo ainda mais rápido pois em 3 rápidas olhadelas constroem o sentido:
Em conclusão,

um leitor treinado lê grupos de palavras enquanto um semi-alfabeto lê silabas e um letrado mediano lê palavras.
Portanto há maior probabilidade de um letrado ou leitor treinados terem dificuldade em detectar o errro por atenção desviada de detalhes assumidos e desprezados operacionalmente (perception blindness).

Pelo contrário um semi-alfabeto concentrado em sílabas ou palavras encontrará facilmente o errro em alguns segundos, dependendo da sua velocidade de leitura, considerando que a palavra errada está no fim da frase.

Como exemplo, os jornais com o seu design por colunas facilitam a leitura por linha e de "cima para baixo". O olhar "salta" do meio de uma linha para o meio da linha seguinte:
Sobre o teste
A apresentação do teste foi construída para "ajudar"😇😇😇 os letrados e os leitores treinados a lerem rápido através de duas "ajudas", o design e a escrita. 
Deste modo o errro sofreria de atenção desviada dos detalhes assumidos o que com leitura clássica não sucederia.
Quem não utilizasse leitura rápida, apesar do design proposto, teria maior facilidade na detecção do erro.

1 - Design
Comparando o design utilizado com uma possível alternativa de escrita clássica, ter-se-ia:


Parece claro que, por várias razões gráficas, a alternativa clássica faz o erro "gritar"... Estou aqui!!!
Além doutros factores, pelo menos a proximidade da solução ao problema-isco "errro:123456789" faz com que se olhar os números estará estar sempre a ver o erro.

2 - Escrita
Como óbvio o erro é a existência de um "r" a mais, e a questão é: - Como escondê-lo?

Como diz o aforismo, "A maneira simples de esconder um elefante é metê-lo no meio da manada", também a maneira simples para esconder o "r" é metê-lo no meio de "r"s.
Assim, reduzindo o espaço entre as letras, há várias hipóteses:


Conclusão,

Testes?? Sim, sim,... pois, pois,...

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Obedecer?"... humanos, animais e calhaus.

Ninguém se espanta que humanos domestiquem animais.

Este hábito de domesticar  (fazer obedecer) tem milhares de anos e grande variedade mas evoluiu pouco, resume-se a "- Eu digo e tu fazes!"
Em consequência é vulgar que humanos também domestiquem humanos pois afinal é tudo animal quer seja animal humano ou só animal.
Simplesmente, nos animais humanos a domesticação tem outro nome chama-se educação ou instrução,


com diversas finalidades, desde autoridade e disciplina até destreza laboral, comportamento social, missionação cultural, etc, e ás vezes até produzir mão-de-obra domesticada (escravatura) mas, na sua essência, a técnica é simples e constante, é só aplicar a dupla "Eu mando... tu obedeces".

O eixo da confusão está em que educar e domesticar não é o mesmo. O dilema é que, na prática, sente-se diferença mas por "escassez cultural" não se percebe o quê, nem no método nem no resultado.
Não se distingue se o processo é educar ou domesticar e se o resultado é destrutivo ou construtivo. Apenas se considera domesticar se é aplicado a animais ou educar se aplicado a pessoas.

Como ex., muitos pais educam filhos com técnicas de obediência autoritária de estilo militarizado, ficando inconscientes das sementes de domesticação que estão a semear.

Parafraseando o ditado, poder-se-á dizer "o que semeares como educador, assim serão os teus educados" mas o cerne da questão não são os conteúdos veiculados mas sim as formas utilizadas.
Não é uma questão de "O QUÊ" (What) mas de "COMO" (How). Em educação a forma canibaliza o conteúdo.
Quando dois irmãos se agridem e os pais ao estalo conseguem que isso acabe,  o que ensinam não é o conteúdo "não agressão" mas sim a forma "sim agressão" pois nitidamente mostraram que o estalo resolveu o problema. Assim os futuros adultos serão portadores do padrão ensinado "violência" como solução a utilizar na família (violência doméstica) e sociedade (violência social).

Há relatos de casos extremos de filhos cujos pais com profissões autoritárias aplicam em casa as submissões feitas/sofridas no trabalho. Nos relatos é clara a inconsciência desses pais com os efeitos produzidos nas crianças, adolescentes e adultos.
(ver Frantz Fanon, psiquiatra).

O educar desliza naturalmente para domesticar... por ignorância, por indiferença (smugshrug), pois é simples, fácil e aparentemente dá resultado. Problemas?... depois se vê, entretanto aplica-se a filhos, alunos, cônjuge, amigos e até a simples conhecidos.
Muitas vezes na TV, em simples conversas democráticas, o método utilizado é "...ora agora domestico eu... ora agora domesticas tu...".

Para existir domesticação e/ou educação, a essência de ambos é exactamente a mesma quer seja em animais quer em humanos.

A essência do domesticar

Por ex, cavalos selvagens não puxam carroças mas cavalos domesticados fazem-no. Para o fazer têm que adquirir decisões novas tais como estar preso à carroça e puxá-la se é estimulado por rédeas, chicote ou berros.
O interessante é que anteriormente essas decisões não existiam, mas agora existem e coexistem com outras. Mas o processo é mais complexo.

Na verdade, para ser bem domesticado não basta ter aprendido novas decisões. Elas não podem coexistir com outras, assim, essas outras têm que ser destruídas e ele tem que ser "impotente" para tomar decisões. Por segurança e garantia ele tem que ser tornado impotente para decidir, um abúlico ou eterno indeciso.

Numa palavra, tem que ser um obediente puro, i.é., só cumpre e como vida interior tem nicles. Não pode ter autonomia, a sua obediência tem que ser total, por ex, o cavalo domesticado não pode de repente decidir correr atrás da manada com a carroça atrás.

Em resumo, domesticar exige:
1 - inserir decisões novas;
2 - destruir decisões antigas;
3 - criar impotência decisória;
4 - inserir estímulos detonadores(1) das novas decisões.
(1) - reflexos enxertados, vide Pavlov e outros.

Domesticar exige que o domesticado possa APRENDER para adquirir informação nova e possa DES-APRENDER informação indesejável. A vida interior (seja lá o que isso for) só deve ter o mínimo necessário para as aprendizagens e desaprendizagens necessárias.
Tecnicamente, o cavalo passou de selvagem com vida interior a domesticado com a saudade na alma:


Com os humanos acontece o mesmo.
A Maria na aldeia saudava os amigos com um aceno de mão mas no quartel adquiriu outro estilo, agora aponta com a mão prá cabeça e chama-lhe continência.
Em resumo:
1 - inseriu decisões novas;
2 - destruiu (faz continência aos amigos)
     ou mantém  também decisões antigas;
3 - criou impotência decisória
     ou mantém áreas de decisões extra;
4 - inseriu estímulos detonadores das novas decisões ou
     confunde detonadores ( faz continência ao porteiro do hotel, fardado e com galões).

A questão é simples, até que ponto a recruta sofrida "destrói a vida interior e robotiza"?

PS - Há vários filmes sobre recrutas militares e a intensidade desta "destruição" apresentando prós e contras e dramas resultantes.

É óbvio que a intensidade destes processos varia em função das características da dupla "participantes-situação" e, apesar disso ser comum aos animais e aos humanos, as potencialidades são diferentes.  Domesticar um humano para puxar carroças é mais fácil do que pôr um cavalo a cantar:


No dia-a-dia todos sabem educar crianças, isto é, alterar os seus comportamentos, mas só alguns o fazem com leões, tigres e até gatos. Não é um problema de dificuldade, é um problema de perigosidade na introjecção de decisões estranhas (domesticação).

Se a criança tirar a banana ao adulto é instintivo este zangar-se, mas se um gorila lha rouba o instinto do adulto altera-se, com um sorriso oferece-lhe o cacho inteiro. O instintivo é um fenómeno complexo e com muitas caras.

De qualquer modo, 'in brevis', domesticar animais e humanos é sempre um processo de ensino-versus-aprendizagem, ou seja, é incorporar algo novo na vida interior do domesticado (mente, consciência, neurónios, etc, seja lá o que for). Domesticável sem vida interior não é domesticável:
domesticar humanos
domesticar animais
calhau não domesticável
Na verdade, todos sabemos que não se domestica calhaus porque sem vida interior não é possível domesticar pois não aprende.
Assim, todos sabemos que animais são domesticáveis, logo aprendem, logo evoluem, logo têm "mundo interior", mas...


admiramos, esquecemos, recusamos, recalcamos e concluímos "são bichos, são coisas andantes...".

Nas touradas, os humanos divertem-se como o sofrimento do touro (é um espectáculo agradável) mas choram se o gato ou cão lá de casa é atropelado e correm para o veterinário (é um drama doloroso).
O animal humano é um amontoado inconsciente e feliz de contradições (ver David Hume, sec XVIII).

Mandar-obedecer e domesticação

Esta dupla resume-se à cirurgia mental de substituir decisões no comandado. Seja o que for que ele possua na sua "vida interiorela tem que existir activa pois morto ou em coma não serve, decisões têm que ser criadas e decisões têm que ser anuladas.

Esta substituição pode ser operada por dois processos distintos e de resultados opostos.
A - um potencia e operacionaliza a capacidade de decisão (é positivo);
B - o outro estraga e destrói essa capacidade (é negativo).

As ditaduras e, de um modo geral, os autoritarismos usam o estilo [B], fomentam a destruição do decidir com o treino de "não está aqui para pensar, está para fazer" usado nas recrutas e quejandos. O objectivo é criar obedientes a 100% que facilitem a função do mandar.

Pelo contrário, as democracias e, de um modo geral, as autonomias participadas usam o estilo [A], fomentam criar e potenciar decisores. Por democracias não se inclui as democracias travesti com seus cidadãos obedientes-mascarados-de-decisores. 
(ver Blog "Varrer os bugs da Democracia")

PS - Não confundir obedecer com optar-por-decisão-proposta e não confundir propor com mandar
Por analogia, é o mesmo que confundir relação-de-amor com violação mesmo quando legalizada por casamento. Como "teste", qual é a diferença entre making love e doing love que traduzindo surge fazer amor e fazer amor (😂😂😂).

EXEMPLO       
O meu cão, ainda cachorro, habituado a comida recusava-se a comer ração. Cheirava, cheirava e tomava a decisão "não como".
O meu problema era simples, era só substituir decisões, tirar o "não quero comer" e instalar o "quero comer".  Uma simples cirurgia psy, i.é., uma simples troca na vida interior do meu cão. Como fazer?
Falando com o veterinário, ele riu-se e disse:
- É fácil, dois dias sem comer e verá que come logo qualquer ração!"

Pensando sobre a decisão proposta, conclui que devia ter razão. Se durante um ano amarrar uma criança traquinas a uma cadeira, depois passará a vida sossegado. Obedientemente deixa de decidir traquinices.

Numa palavra, o veterinário aconselhava domesticar, i.é, empobrecer a capacidade de decisão. Não me agradou, nunca mais lá fui, não gosto de "broncos" autoritários. O meu cão e eu éramos amigos.

Em vez de destruir decidi potenciar-lhe decisões e procurar solução.
Visitei várias lojas de rações e pedia amostras publicitárias. Regressei com 10 pacotinhos de diferentes marcas que coloquei em 10 recipientes ao lado uns dos outros. Depois, ele entrou e deixei-o decidir. Entre abanadelas de rabo e cheiradelas passeou por todos e escolheu um.
Passei a comprar esse, nunca mais tive problemas e o meu cão não passou fome. De qualquer modo continuei trazendo amostras para ele testar... e às vezes mudava e ele escolhia.

Sempre que comprava comida feita, escolhia algo que ele gostasse para lhe dar um bocadinho depois da ração. Um dia comprei arroz de pato e ao dar-lhe o bocadinho do costume, ele cheirou muitas vezes, mas não comeu e foi-se deitar.
Fiquei pensativo, também cheirei mas não detectei nada, fiquei com dúvidas. Assim obedeci à regra "quando há dúvidas não há dúvida", foi tudo para o caixote de lixo. Nesse dia o meu jantar foram sandes e conservas.
Eu vivia com o meu cão e confiava nas decisões dele.

Como conclusão filosófica, o Descartes com o seu "Penso logo existo" não tem razão, devia ter dito "Opto logo existo" pois "pensar por obediência é não-existir" e com-viver com um obediente é viver sozinho.

EXEMPLO: O Manel e o chefe
Hoje o  Manel fazia anos de casado.
Ele decidiu sair à hora normal (17:00), ir esperar a mulher ao emprego, passear, namorar, jantar fora... um dia diferente para recuerdos.
Pelas 16:00 horas o chefe aparece e diz-lhe para sair mais tarde, emendar o projecto e apresentá-lo pronto no dia seguinte às 09:00.
O problema é claro e simples, o Manel tem que substituir a sua decisão pessoal (jantar com a mulher) pela decisão do chefe (emendar o projecto)... ordens são ordens e obedecer é obedecer.

Na verdade, mandar é pôr alguém a agir com decisões alheias; obedecer é algém cumprir decisões alheias. Ter obedientes decisórios é o "milagre" dos autoritários
(ver história pessoal de Viktor Frankl, psy, "Um psicólogo no campo de concentração").

O que pode fazer o Manel?
Tem 3 alternativas:

1ª - Abandonar a sua decisão, ficar com a do chefe e enfrentar consequências conjugais;
2ª - Manter a sua decisão, abandonar a do chefe e enfrentar consequências laborais;
3ª - "Inventar" nova decisão e gerir possíveis consequências... se existirem.

Na vida real não há regras deterministas, é o mundo das probabilidades e possibilidades, é como o poker em que o jogo não está nas cartas mas nos jogadores.

obediência vs não-obediência equilibra-se com a recusa vs não-recusa e "depende" da situação, suas variáveis, riscos e vantagens. É a dinâmica do campo de forças (ver K.Lewin, Parker Follet, etc)

Não é fácil gerir esta teia de conflitos, principalmente, para quem foi programado para obedecer, que ficou com as tomadas de decisão debilitadas e o "instinto" de cumprir bem instalado.

PS - Excepto em casos limites de destruição mental (lobotomia, brainwashing, tortura, etc) este instalar tem sempre fissuras (bugs), susceptíveis de decisões de ruptura com a obediência. Por des-treino há "cegueira" (decision blindness) nas opções em que a mais imediata é o estilo de "rebeldia infantil" e/ou o "suicídio heróico" (ver Eric Berne, psy).

Muitos anos atrás, no tempo do velho "Estado Novo", obedecer-ao-mando era a primeira e única regra a seguir.
No Liceu, um professor meu(1) há vários anos quando, no corredor, eu me "lamentava" contra regras da Mocidade Portuguesa, ele comentou entredentes: - O melhor é obedecer e não cumprir

(1) - Padre na igreja de Alcântara. Anos depois soube que tinha sido exilado politicamente(?) para a Patagónia. 25 anos depois, reencontrei-o na Parede, falei-lhe, não se recordava de mim mas eu nunca o esqueci nem ao seu comentário que, profissionalmente, me foi útil, várias vezes.

Na época, seguindo o conselho "libertei-me" das formaturas e das marchas da Mocidade Portuguesa que detestava, ao inscrever-me como voluntário na Vela da Mocidade Portuguesa na praia de Algés.
Não era do meu agrado andar ao frio e encharcado, pendurado fora de borda a apanhar com chapadas de água a velejar (bolinar) contra o vento, mas sempre era melhor que marchar.
Ao fim de três anos tive que sair, pois nas regatas era sempre dos últimos, pois discretamente nunca escolhia rumos contra o vento, só velejava a seu favor estilo "passeio" deitado a saborear a paisagem.

No caso anterior, o Manel aplicando o conselho "obedecer e não cumprir" poderia sair mais tarde pelas 17:15 (obedecer), levar o projecto para completar em casa (não proibido) e apresentar corrigido às 0900 da manhã do dia seguinte (obedecer).

Por experiência pessoal em organizações autoritárias, há sempre zonas de não-desobediência que, por coincidência, possibilitam lógicas de não cumprimento. Se, estrategicamente, forem bem geridas podem ser uma solução "cumpridora".

Conclusão

Educar significa potenciar a capacidade de decisão e impedir a sua destruição.
Educar é desenvolver as condições de aprendizagem e aprender é decidir incorporação de significados novos.
A domesticação, tendo a obediência como formato educativo, debilita essa capacidade e o resultado é "não decidir e esperar ordens", portanto, não aprende... decora o ordenado.

Para terminar, uma pequena descrição da domesticação do Tommy feita com tecnologia caseira na qual  só pode "armazenar" (clickar).


Na verdade, aprender obriga a decidir "isto "mexe comigo?" i.é, obriga a fazer sentido (making sense não doing sense):

terça-feira, 30 de abril de 2019

Comprar on line, truques... cómodo ou incómodo


Comprar on line pode ser um processo muito cómodo ou muito incómodo. 

Independente de outras variáveis (pagamentos, substituições, enganos, fraudes,...) há uma, crucial e normalmente despercebida, o entregador que, com as ideias "confusas" que o envolvem, o fazem objecto de muitas reclamações (vide redes sociais).  Porém estas reclamações são do tipo "chover no molhado", ou seja, não alteram a situação.

Na verdade ele é apenas um "mensageiro" do vendedor, por isso reclamar para ele pode fazer catársis, isto é, descarga emocional, mas igual a dar murros no frigorifico, ou seja, é inoperacional.
O esquema é simples:
O entregador nem sempre existe pois é possível comprar online e ir levantar o produto na loja. É uma forma semi-cómoda da compra online.

A comodidade completa é o produto ser entregue em casa. Aqui a variedade  é grande e além disso  é  habitual a confusão de quem é cliente de quem.

Por exemplo, comprar pela internet um par de botas para entregar em casa pelo CTT Expresso, não torna o comprador um cliente do CTT Expresso.
Na verdade, ele é só um cliente do vendedor que, por sua vez, "mandou" o CTT entregar a compra. Nesta situação o CTT é um  factotum, alguém agindo em nome de outrem e contratado para ser mensageiro.

Assim, reclamar junto do CTT Expresso é apenas ir "chatear" o sitio errado. Auto-consola mas não é operacional.

Numa definição simples, comprar online (ou por telefone, ou por carta,..) é uma compra não presencial em que se entrega dinheiro válido e se recebe produto válido.

Todavia, diferente da compra por telefone, a compra online tem a conversa compra-venda em forma escrita, ou seja, as evidências estão na posse de ambos. Assim, em caso de conflito há evidências concretas e é nelas, e com elas, que se deve clarificar as provas da reclamação.

Por exemplo, na compra por telefone de bilhetes para espectáculos, normalmente, as evidências do contrato compra-venda é uma gravação feita pelo vendedor, gravação essa que fica na sua posse. 

Se se tentar que essa gravação seja prova a favor de reclamação do comprador, pode suceder que a  gravação apresente falhas, ruídos ou distorções em pontos importantes da conversa, normalmente por coincidência, em aspectos favoráveis ao comprador.

Há várias soluções para estas "falhas técnicas", por exemplo, interromper muito com perguntas, falar ao mesmo tempo, repetir-confirmar aspectos importantes, etc, mas o mais simples, e seguro, é no inicio da conversa, o comprador perguntar "Vou gravar a conversa, concorda?"... também, por coincidência, às vezes a chamada "cai", desliga-se.

Regressando à compra online, há várias decisões que devem ser tomadas, uma delas é o pagamento poder ser antecipado ou na entrega do produto.

Por ex., a compra online na Pizza Hut pode ter uma ou outra hipótese, porém há sites em que esta escolha não existe mas se existe poderá ter aumento de preço (custos administrativos), ou seja, se o comprador não confia no vendedor, e só paga quando recebe, este aumenta o preço.

A lógica é interessante pois ás vezes o vendedor tem portes grátis mas exige encargos para pagamento na entrega. Na Pizza Hut o pagamento na recepção é gratuito e pode pagar-se em dinheiro ou por Multibanco portátil.

Outra questão crucial é a compra online ser com produto válido.
Neste caso, o produto válido pode ter 3 alternativas, ser recolhido na loja ou num local à escolha (pickup) aceite pelo comprador ou entregue em casa.

Se o contrato é "produto entregue em casa" (para comodidade a 100%) quando o produto "não é entregue em casa", entregar algures não é produto válido.
Não é uma questão de "maldades" para reclamar, é uma questão de responsabilidades a serem assumidas no cumprimento do contracto.

Só há duas hipóteses, ou foi falha do comprador que não recebeu a compra ou do vendedor que não a entregou pois são os únicos responsáveis no contrato compra-venda... o entregador está fora de jogo.

Assim, o centro do problema são as evidências da culpa ou DES-culpa de cada um nas acções respectivas. Normalmente, é uma dança do tipo "digo eu dizes tu... em que a falha é sempre do outro".
O interessante neste conflito é ser o vendedor que está em causa, pois é ele que é testado visto ser ele que PROMETEU entregar em casa e essa entrega não foi feita.

O problema é dele e a decisão vai ser dele... O QUE VAI decidir ? A favor do comprador ou a favor do entregador?

O curioso é que, na verdade, os dois conflituosos (comprador e entregador) SABEM A VERDADE, sabem quem tem a culpa da não-entrega.
Se decide a favor do mentiroso ambos sabem que é enganável  e não é de confiar, ou perde o cliente e/ou é enganado mais vezes.
Se decide a favor do verdadeiro ambos sabem que é confiável e "nada de truques".

Tudo se centra no contrato aceite e nas responsabilidades assumidas e nestas falhas do entregador são da responsabilidade do vendedor.

O imbróglio é que estes entregadores ("empregados" do vendedor) têm regras próprias (ver no fim) que afectam a compra-venda prometida, pois podem criar incomodidades imprevistas na entrega em casa que acaba por ser entrega fora de casa

Em síntese, a compra online é um jogo comercial entre dois "jogadores", comprador e vendedor, o entregador é um "apêndice colateral" com a função de mensageiro contratado pelo vendedor. 

O interessante é o paradoxo do vendedor ficar "na mão" do seu entregador contratado pois este pode criar satisfação ou insatisfação nos compradores que abandonam esse vendedor. Por esta razão, alguns vendedores têm o seu próprio entregador garantindo a sua qualidade.

Na verdade, o entregador com suas "próprias" regras de funcionamento pode "bagunçar" a "entrega em casa", criar bugs (insatisfação) na relação do comprador com o vendedor.
Esta insatisfação pode originar-se em três situações :

O entregador pode:

1º  - Ter regras MÁS mas bem executadas.

Exemplo: Se o destinatário não estiver em casa... só há uma entrega (ex., CTT Expresso).
                               
A consequência desta situação é o comprador ter que se deslocar ao balcão do CTT Expresso ou, em alternativa, a compra (já paga) é devolvida ao vendedor. Aqui a questão é saber se há 2º envio e quem o paga, comprador ou vendedor.
Se o contrato de compra-venda explicita que o entregador é o CTT Expresso (sem 2ª entrega) a responsabilidade é do comprador que aceitou ESSE contrato. Se ele não sabia a regra devia ter perguntado.
Não há reclamação a fazer...

Em complemento, se também houve bugs na entrega, por ex., está em casa e o entregador deixou o aviso "não está em casa", a responsabilidade é do vendedor e o que há a fazer é uma exposição ao vendedor.
O dilema é que não há provas nem de que estava nem de que não estava em casa. O facto do entregador (MRW) ter fotos da carrinha à porta de casa não prova nada excepto que a carrinha estava à porta de casa e não prova que tocou à campainha ou só deixou o aviso.

Pessoalmente neste caso, opto sempre pela devolução, apesar de saber que vou entrar num carrossel de "dizes tu...digo eu" em que se dá voltas e voltinhas e tudo fica na mesma.
Não havendo evidências concretas do mau funcionamento da entrega, o centro da questão passa para a decisão do vendedor depois da exposição.

PS- Se o pagamento foi feito com Paypal convém mandar cópia para lá e avisar o vendedor que isso foi feito.. com a continuação a situação pode começar a ficar incómoda.

O vendedor recebendo a exposição e o produto devolvido tem que tomar quatro decisões. Há ou não 2ª envio, quem o paga (ele ou o comprador), em quem acredita (comprador ou entregador) e o que faz para futuras compras.

Estas decisões definem o vendedor e o que o comprador fará no futuro... e tudo começa a ser mais divertido do que jogar xadrez pela internet.

Tenho alguns casos com diferentes soluções. Num deles o vendedor decidiu 2º envio com um entregador diferente MAS pago por mim.
Agradeci ter confiado na minha exposição e ter mudado o entregador, portanto, não percebia porque era eu a pagar o 2º envio se o problema era o seu entregador contratado não prestar. O erro era dele.

Este email seguiu com Cc para vários destinatários (dezenas) dentro da empresa (sede, diferentes departamentos, sucursais, etc) assim como para os vários orgãos do entregador. Aproveitei também para enviar para o Paypal através do qual tinha feito o pagamento.
Fiquei a aguardar o resultado... devolveram-me o dinheiro

2º  - Ter regra BOA com funcionamento anómalo.

Exemplo: Apesar das regras não o permitirem, o entregador não sobe ao 3º andar sem elevador, deixa aviso e justifica "não está em casa".

A situação é "confusa", do tipo discutir o "sexo dos anjos". Semelhante ao exemplo anterior e com os mesmos dilemas.
A reclamação deve ser feita ao vendedor.

3º  - Ter regra MÁ com funcionamento anómalo.

Situação parecida mas mais "interessante" pois junta dois problemas, além de más regras funciona mal. Às vezes é possível "colar" os dois problemas, isto é, reclamar ao vendedor e trazer o entregador para o "jogo".

Exemplo:

Recebi uma compra de um vendedor de UK. Estava em casa mas recebi um aviso na caixa do correio com o vulgar "não está em casa" e, mais tarde, tambem por email, outro aviso do entregador com a justificação "morada não localizável, ir recolher em....(morada do entregador em Lisboa)". 

As duas evidências escritas foram uma "prenda dos deuses", pois juntas construíam uma impossibilidade lógica pois se não era localizável não podiam deixar aviso.

Fiz uma reclamação escrita ao vendedor em Londres pelo facto de ter um entregador que fazia fraudes de acordo com os dois documentos contraditórios enviados em anexo.
Assim, reclamava pois o meu pagamento era válido e ele tinha feito uma entrega não válida com aquele entregador pois não recebi a compra em casa como estava no contrato. Esperava a correcção.

No "Cc" do email inseri todos os emails (dezenas) que consegui encontrar do entregador, de sua sede (Departamentos e hierarquias), suas sucursais portuguesas, no resto da Europa e América do Sul. Aproveitei e acrescentei também os emails que encontrei da empresa do vendedor, sede (Departamentos e hierarquias) e sucursais em UK e na Europa.
Nestes casos, a internet é uma óptima ajuda como biblioteca internacional entregue em casa.

A tática é seguir a regra base do sociograma "todos sabem, todos sabem que todos sabem e cada um sabe isso". Numa palavra, o factor crucial é o mercado interno ou o espelho social próximo.

Fiquei a aguardar. O resultado foi o vendedor que, sem qualquer resposta ou comentário, me devolvu o dinheiro mas foi o entregador (sede e algumas sucursais) que me enviaram emails com comentários de resposta desde o habitual blablabla das relações públicas até opiniões operativas.

Em conclusão, a reclamação deve ser feita sempre para o vendedor e em função da sua reacção decidir o que fazer.
A reclamação para o entregador é inócua, mas se for feita nas redes sociais pode ter um efeito colateral operativo.

Nas redes sociais é habitual vários compradores online reclamarem dos entregadores dessas compras. Este acto pode recompensá-los emocionalmente mas, operacionalmente, tem um valor quase nulo excepto para avisar outros para não comprarem aos vendedores que usam aquele entregador.

É uma espécie de sistema informal de "black list" para escolher vendedores, por outras palavras, é um aviso aos vendedores de que "quem tem este entregador perde mercado" e aos compradores de que "quem tem este vendedor+entregador além do produto também comprou problemas".

Numa economia de mercado o ponto critico é o mercado, como é lógico.

Comprar num vendedor que tem um entregador sem 2ª entrega é comprar uma dor-de-cabeça. Se não estiver em casa, a compra é devolvida ou terá que recolhê-la algures. Esta ida ao "algures" implica deslocações, filas de espera, horas gastas, faltas ao trabalho, encargos, etc. A compra cómoda ficou incómoda.

Premissa base: Na compra online antes de pagar deve-se sempre verificar (ou escolher) o entregador.

PS -A factura deve sempre ser apresentada e descriminada antes do pagamento
Há sites de venda em que primeiro se paga e só depois aparece a factura do pagamento, às vezes com surpresas tardias e outras vezes sem descriminação.

Na relação simbiótica online vendedor-entregador há um mundo "escondido" onde vivem estratégias "submersas".
(Social Media Magic: Hidden Strategies; The Closer’s Survival Guide; Hidden Strategies for sales)

Como exemplo, se o destinatário não estiver em casa, com a regra "se o cliente não está em casa, não há 2ª entrega", a consequência é que o cliente terá que escolher entre ir à loja do entregador, comprar 2ª entrega ou a compra é devolvida ao vendedor.

Numa palavra, passa de destinatário neutro a comprador potencial de 2ª entrega ou substituto não pago do entregador indo à sua loja recuperar a compra.

Tecnicamente é a estratégia de venda chamada "Já agora". Na gíria é canibalizar o mercado do outro, ex:
....Já agora... que não estava em casa, tem aqui uma óptima 2ª entrega, 
rápida e garantida, ao custo de... x euros.                                                                                                  

Não tenho nada contra em passar de destinatário a comprador de uma 2º entrega, já o tenho feito, por exemplo, com o  SIGA para cartas dos CTT mas não existe para encomendas.

Na verdade, entre pagar deslocação (viatura própria ou taxis ou transportes públicos), sofrer filas de espera e ter horas de trabalho perdidas, etc. é preferível comprar a 2ª entrega.

Assim, a compra de "entrega em casa", contratada e paga, é transformada em compra "entregue no local do entregador" ou  "entregue com 2ª entrega" paga pelo destinatário.
Ou seja, o comprador teve que fazer uma "despesa inesperada" na compra ao entregador, para além do contrato inicial estabelecido.

Independente de outras questões a debater, existe aqui, "à boleia", uma "subtileza comercial".  O seu mote é que "quanto menos entregas se fizer e mais avisos se deixar... mais se criam clientes para segunda entrega".

Em linguagem simples, a estratégia é  "quanto pior... melhor", portanto, estar o destinatário em casa, ou não, a tática é deixar aviso.
Neste caso, a partir uma reclamação inicia-se uma guerra  tipo "sexo dos anjos" (... dizes tu... digo eu) sem apoio de evidências concretas. 
A solução normal é... ou pagas ou é devolvida. No caso de uma carta com aviso de recepção (ex., impostos) a decisão é óbvia.                                                                                                                                      

Como síntese,

DUAS HISTÓRIAS: cómodo e incomodo

I - Cómodo

Numa hora comprei um livro na Amazon (Espanha), um disco externo na  FNAC (Lisboa) e um kit de treino na Decathlon (Porto). Ainda tive tempo para investgar outras lojas, outros produtos e outros preços e condições. Consegui fazer sintonia (dia/período) para entregas.

Depois de comprar fui passear. No dia acordado tudo apareceu em casa, parecia Natal.

II - Incómodo

O comprar foi semelhante mas as entregas foram diferentes. Cada entregador usou o dia/hora que lhe convinha, as entregas eram aleatórias e assim os avisos com o "não em está casa" e "5 dias para recolha" acumularam-se .

A consequência foi passar dois dias a girar de um lado para o outro, modelo chico ventoinha, em filas de espera, trânsito, arrumar carro, saltitar de entregador para entregador, oscilando entre trabalho, família e descanso... UFF. Comprar outra vez online só se for masoquista.

Conclusão

Cada entregador tem suas regras e funcionamentos padrão e a variedade é grande:

- Há, ou não, 2ª entrega paga, ou não;
- Tem, ou não, mensagens antes e/ou durante e/ou depois;
- Avisam (SMS), ou não, antes e/ou durante a entrega para reconfirmar hora;
- São, ou não, "despachadinhos" (esperam pouco), sobem, ou não, ao 3º andar, etc;
- Há, ou não, pagamento na entrega, a dinheiro (com ou sem trocos) ou com multibanco portátil;
- etc etc etc;

Uma pergunta interessante é saber se os vendedores online quando contratam o seu entregador se preocupam com as regras de entrega e as clarificam no site de compra.
Alguns preocupam-se e pedem feed back com inquérito. 

Na verdade, para um vendedor competente uma reclamação não é uma chatice para esconder  procurando "embrulhar" o cliente, tipo chico esperto, mas sim, uma benção para ser usada como aviso para defender o mercado. Uma reclamação não é um ataque é uma prenda. 

Comprar online é uma decisão em quatro actos:

- produto;
- preço/pagamento;
- vendedor;
- entregador;