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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um filme estranho, para amar ou odiar

Filme "Searching"

Gostei e não foi "à primeira", levou tempo desde desconfiado, depois curioso e até ficar "fan". 
Não é de ficção cientifica mas da realidade actual num quotidiano impregnado de tecnologia. A forma é estranha? Sim, mas tinha que ser e felizmente é.

A minha conclusão foi que o perigo não são os computadores pensarem como pessoas, mas as pessoas pensarem como computadores. Aquele pai angustiado e stressado, mergulhado em informação e raciocínio (como um computador) nunca largou a intuição (como um humano) por muito grande que fosse a sua angústia... mas prefiro pensar... que foi exactamente por causa da sua grande angústia.

Filme "Searching"(feito em screencasting, news, gimmick, etc)
Se costuma "passear" pela internet, facebook, google, youtube, skype e quejandos poderá gostar ou detestar este filme, mas se não pertence a este grupo de "habitués" (regulares), então talvez nem goste nem deteste... apenas não percebe e por isso "manda-o para as urtigas".

O filme não é de ficção cientifica mas da realidade do século XXI e suas gerações mergulhadas na tecnologia.
A história é simples, uma jovem estudante de 15 anos desaparece e o filme conta as consequências desse desaparecimento talvez por fugitiva (?), raptada(?), morta(?), perdida (?), etc, e mostra as dinâmicas que se criam nos seus personagens habituais, isto é, pai e tio, polícias e detectives, colegas e amigos, jornalistas e mass-media, vizinhos e redes sociais, etc.

Numa 1 hora e 42 minutos há de tudo. Conclusões de sexo fora e dentro da família, lutas e murros, boleia de oportunistas com suas "mentiras sociais", polícia corrupta, fakes news, asneiras e sucessos de angústias afectivas, droga, etc... em conclusão, é uma história banal, vulgar e costumeira.

Para minha surpresa e espanto, a grande diferença é a sua forma, totalmente em screencasting, news, gimmick, etc.
Todo o filme é feito com imagens de ecrans de portáteis vulgares e normais, telemoveis, notícias TV, filmagens de câmaras clandestinas, etc. Todavia, não tem as habituais filmagens da história em vida real, na verdade... nadica, nicles, niente di niente... só mediatizadas por comunicação digital.

As imagens são reconhecíveis de facebook's, google's, youtube's, chrome's, skype's, news, etc, e com elas a história é contada durante 1 hora e 42 minutos, com começar, desenvolver e acabar.

No meu caso, a minha evolução como espectador deste filme foi uma experiência pessoal, curiosa, pois esperava um filme normal e acabei ficando preso a um filme fora-do-normal.

Os meus primeiros minutos foi um olhar distraído à espera que a apresentação do filme acabasse e ele começasse. Tal não aconteceu. Passado algum tempo, distraído, pensei que a longa introdução era intencional para vincar que a "comunicação tecnológica" ia ter uma papel importante. Continuei à espera.

Mas as imagens de écrans continuavam e comecei a pensar "Que é isto?!?!? ...avariou?"... mas havia diferenças e também parecia ter uma certa lógica. Comecei a olhar com mais atenção e a ficar curioso "...onde é que isto vai dar???".

Passado algum tempo tive uma surpresa "...mas isto faz sentido!!!" "...isto é o filme!!!" e interessado "mergulhei" nos sucessivos ecrãs, normais, costumeiros e bem conhecidos dos facebook's, skype's, google, email's, etc, que afinal no seu conjunto me contavam uma história, afinal [...os mensageiros eram a mensagem...].

A partir daqui estava "anzolado" no filme, no seu mundo fílmico diferente, e assim continuei até acabar nas suas voltas e reviravoltas finais.

Apareceu o ritual pós-terminus com os habituais frames pretos com letras brancas dos nomes de quem participou mas eu, "vidrado" e imóvel, continuava a olhar o écran sem o ver e a recordar o filme.

A imagem dominante era o pai stressado e angustiado, agarrado ao computador. A situação parecia-me clara, era a sua angústia afectiva que não o deixava aceitar a lógica da informação de factos e evidências em que tudo terminava. O computador era claro, perito e óbvio... mas ele não o largava... vendo sempre o mesmo.

Mas a sua perspectiva era diferente.

Não era para aceitar o que ele mostrava, era para "VER BEM" o que mostrava e descobrir o que estava lá e o computador não dizia. Na gíria "isto" chama-se intuição, ou seja, [...um saber de não-consciência feito].

PS- A discussão de um computador com consciência (ou sem) é uma questão interessante (vide os filmes de ficção) mas talvez seja mais interessante pensar se terá inconsciência e sub-consciência e, já agora, se terá intuição (o que quer que isto seja).

POIS É,...

nestas gerações actuais, simbióticas com tecnologias computorizadas, o problema não é usarem computadores e telemóveis, o problema é o modo como pensam ao usá-los. O risco futuro não são os computadores pensarem como humanos, são os humanos pensarem como computadores... isto é, perderem a intuição e empatia e ficarem só com informação e lógica.
Se isso não acontecer, os computadores e os telemóveis serão apoios tão úteis à humanidade como foi a RODA.

PS - Lendo as noticias, gastar-se 50 reuniões de negociação para resolver um problema não me preocupa, até podem ser 100 reuniões, o que me preocupa é a falta (ou não) de empatia para com os que, ENTRETANTO, sofrem com esse problema. Sem empatia será pensar à computador, com empatia será pensar à humano.

PS- a propósito....
as rodas são imprescindíveis nas máquinas de matar!



domingo, 25 de novembro de 2018

A internet e o conversar "sozinho"

Ando com a mania da perseguição, é perseguição e é mania. Mas sejamos optimistas são sempre em separado... felizmente.

Ando a ser perseguido porque recebo constantemente telefonemas com ofertas vantajosas de contractos para a internet e o interessante é que não vendem nada, apenas oferecem vantagens de compra. Adoro este linguarejar.

A mania da perseguição é porque realmente não se interessam por mim, não querem saber se sou o Manel ou o Jaquim, portanto não me estão a perseguir. 
Apenas por coincidência tenho nome e tenho telefone, logo sou um potencial "aeroporto" para as vendas aterrarem. Adoro servir para alguma coisa, mas ser usado tantas vezes é aborrecido.

No sábado à tarde tive a perseguição do costume, recebi um telefonema com as vantagens de um contracto para a internet.

- Olá, ...bla...bla...bla.... temos uma vantagem para si... 100 megas de internet por segundo.
- Pois, hum...hum...hum...
- Repare a vantagem, por segundo pode ter 20 músicas de 5 megas.
- Huau... é muito bom, se eu agora tiver 1 música por segundo já fico contente.
- Vê a vantagem? É fibra e paga pouco mais. 
- Também tenho fibra de 70 megas e... já agora, os seus 100 megas são megas de quê? Bits ou bytes?

- ... (silêncio)... hum... é o mesmo,... é só um problema de tradução.
- Olhe que não, se são bits é com mb pequeno, se são bytes é com MB grande. Pode confirmar?
- ... (silêncio)... ... (silêncio)... são bits, mas é o mesmo.

- Olhe que não, eu tenho fibra com 70 megabits e, realmente, vocês não podem garantir os bytes pois dependem do computador, do servidor, do software, etc.
- ... (silêncio)... ... (silêncio)...

- ou seja, os bytes são o peso do ficheiro transmitido e os bits são a informação transmitida e vocês  só podem garantir esta.
- ... (silêncio)... ... (silêncio)... 

- ...é como a Galp, pode garantir as octanas da gasolina mas não pode garantir a velocidade do carro. Há uma grande diferença entre ser usada por um Porsche ou por um Fiat 600.
- Sim, mas há uma grande diferença entre ter 100 ou 70 megabits por segundo.
- É verdade,... e, já agora, vocês garantem 100 megabits ou até 100 megabits, isto é, prometem nunca dar mais de 100?
- É até 100 megabits.
- Ahhh, ...é muito bom, são rigorosos... nunca fornecem mais do que o contracto. ...e, já agora, qual é o mínimo que garantem fornecer?

- ... (silêncio)... ... (silêncio)... 

- ...e também... o mínimo que prometem é igual ou acima da lei?

- ... (silêncio)... ... (silêncio)... 

-... e ...se eu poder provar que os bits estão abaixo desse mínimo, e tiver cópias de testes feitos, descontam esse valor na mensalidade?

- ... (silêncio)... ... (silêncio)... 

- Mas eu estou interessado, afinal 100 megabits é melhor que 70. Em média, 1 byte precisa de 8 bits para ser transmitido.
Se fornecerem 60%, com 60 megabits-por-seg. posso ter 7.5 megabytes-por-seg. (60÷8), ou seja, posso ter 1 música por segundo e não 20... Raizupartiça ... GGGRRE.... onde estão as outras 19 prometidas?????
Alô...Alô...Alô... 
- ... (silêncio)... ... (silêncio)... - ... (silêncio)... ... (silêncio)... 

Afinal estava a falar sozinho... mas não percebi desde quando.

Deve ter sido problema de bits no telemóvel ou de bytes na cabeça do vendedor.

É o problema dos Fiat 600 só servem para o trivial (refiro-me ao telemóvel claro).



Testes:
http://speedmeter.fccn.pt/?option=com_content&view=article&id=4&Itemid=9
https://www.baixaki.com.br/teste-de-velocidade/
http://qos.meo.pt/speed/

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Não pensar por si próprio? Ah Ah Ah... uma anedota?

Li hoje um artigo sobre  [Redes Sociais impedem o pensar por si próprio] e assim fiquei EU a pensar o que será pensar sem ser por si próprio.
Angustiei-me!! Será que ando a pensar com a cabeça de outro? Fui rapidamente ao espelho e relaxei... afinal só tenho uma cabeça em cima dos ombros e é a minha.

Mas o que isto quer dizer? Será possível pensar-sem-ser-por-si-próprio?
Tá tudo doido?

Será que pensar-por-si-próprio é como andar por si próprio? Mas, pensando melhor ¿¿¿¿¿ ninguém pode andar só por si próprio.

Na verdade, andar é ir daqui para acolá, ou seja, precisa de chão para caminhar, portanto, depende de haver chão macio ou duro, subida ou descida, íngreme ou suave, rocha, lama, areia ou água, ser escorregadio ou tropeçante, com obstáculos para cima ou buracos para baixo, etc.

Como exemplo, há alguns anos em Janeiro, foi feita uma workshop (semi-outdoor) no Buçaco para chefias VIP de uma empresa portuguesa. No programa constava algumas reuniões numa tenda na montanha, perto do Hotel, para dinamização de actividades de liderança. Solicitava-se roupa casual e sapatos de ar livre.

Nessa manhã, de repente começou a chover e ao regressar ao hotel houve dois acidentes, um joelho e um tornozelo em más condições. Os participantes, com chuva, pressa e para evitar "lamas", punham os pés em rochinhas limpas, lavadas e apetitosas e... patinavam pois não sabiam pensar-por-si-próprios(?) e não estavam a andar em alcatifas.
O Hotel, por estar a chover, devia ter colocado letreiros avisadores na montanha e proteger, assim, quem não-pensava-por-si-próprios:


Penso que os adeptos do pensar-por-si-próprio desejariam que as redes sociais e revistas tivessem também uma lei que as obrigasse a colocar o letreiro avisador:


evitando assim a necessidade de cada um pensar-por-si-próprio.

Em casos mais graves, os que pensam-por-si-próprios fariam a censura destas notícias e proibiriam a sua colocação, protegendo assim os débeis mentais incapazes de pensar-por-si-próprios. 

Huau!!!.... Tá tudo doido?
Mas parece que o problema é capaz de ser mais complexo que a simples mézinha de fast thinking [...nunca deixes de pensar por ti próprio...], pois esta, à semelhança de fast food, também sacia mas não alimenta, porque NINGUÉM PODE DEIXAR DE PENSAR POR SI PRÓPRIO, ou então costumam andar por aí e deixar a cabeça no cofre:


Todavia, se continuo com a minha cabeça e foi possível não-pensar-por-mim-próprio, então, quando EU decido... quem pensa por mim? Ou melhor... onde está ele? Também dentro da minha cabeça? Ou tudo isto é uma anedota cultural com lógica de trazer por casa, do tipo:

[A Maria casada com o Manel, diz-lhe:
- Oh! Manel tens a boca aberta!!!!
O Manel responde:
- Eu sei, fui eu que a abri!!!...]

O aldrabão pode aldrabar, mas sempre quem se aldraba a si próprio é o próprio. Deixemo-nos do apalhaçado argumento do "coitadinho de mim que fui enganado, nem sabia de nada" ou do doentinho da memória com o "...não me lembro".

A verdade é que o ser humano pensa SEMPRE por si próprio mas o que não pode é pensar sozinho. O que isto quer dizer?

Em sociologia, esta situação tem vários nomes desde o pensar colectivo ao senso comum (J. Maritain) passando pelo outro generalizado (Prof. J. Dias), cultura instalada (A. Tofler),  etc.
Exemplos:

Há vários casos de meninos-selvagens em que alguns conseguiram o andar erecto mas muitos ficaram pela quadrupedia (mãos-pés). Todavia, falar resumia-se a grunhidos e pensar era o que o antropólogo Lévi-Strauss chamou "anormais congénitos", ou seja, "imbecilidades" provocadas por isolamento social com o seu pensar-por-si-próprio feito por solidão na natureza ou com animais. 

Esquecendo Rudyard Kipling, Disney, Mowgli, Tarzan (nunca percebi como é que a macaca o ensinou a falar e até em inglês) e quejandos, com os seus mitos de pensadores-por-si-próprios, tipo prémios Nobel auto gerados de raciocínio fluido e elaborado.  

Pelo contrário, se lermos Rousseau e seus relatos dos quatro meninos-selvagens, e procurar filtrar verdades, mitos e fraudes de outros relatos divulgados (ver S. Aroles, medico francês) parece que o padrão real é um raciocínio tipo idiotia, bastante diferente dos "instintos equilibrados" dos animais com suas lógicas operacionais de sobrevivência, complexas, criativas e transmissíveis a outros de sua espécie (ver biólogo R. Sheldrake), 

Japão, corvos com ninhos de cabides
Os meninos-selvagens têm apenas "respostas desequilibradas em automatismo" e, segundo alguns estudos, estão bastante aquém de respostas possíveis a crianças com problemas mentais profundos.
Quando no Hospital Júlio de Matos, como professor destas crianças, em certas actividades fui várias vezes surpreendido, espantado e contente por algumas respostas obtidas (actos e comportamentos) devido à sua lucidez e inteligência.

Como adenda
não tenho nada contra na escola infantil ensinarem a plantar couves. Só quero relembrar que o uso de um teclado (computador, piano, etc) treina a motricidade fina digital ("liberta os dedos") e segurar uma pá ou um sacho para fazer força a cavar a terra "prende" os dedos à mão.

Como exemplo, para coçar a cabeça um pianista usa um dedo (tem motricidade fina), um cavador de enxada usa a mão com dedos juntos  (ver Wallon, "Acto e pensamento"). 
Encontrei crianças citadinas com 8-9 anos de idade sem motricidade fina até para segurar no lápis. Os "dedos não libertos" não é doença mas apenas padrões motrizes adquiridos. 
Fim adenda

Neste sentido, o filme "O menino selvagem" de F. Truffaut baseado em Victor de Aveyron, que viveu em fins séc XVIII, é interessante. Victor foi recolhido aos 12 anos e viveu até aos quarenta sempre diagnosticado com idiotia, nunca conseguindo adquirir a fala humana. Na altura foi adoptado pelo educador francês J.Itard em cujos relatos Truffaut se apoiou.

PS- Tenho o DVD e apesar de já o ter visto e estudado, e ser um filme representado e não captado, ainda não é para mim inócuo vê-lo por suas conexões com situações reais por mim vividas, em 1971-72, com crianças com problemas mentais, asiladas no Hospital Júlio de Matos.

Para concluir, 
o ser humano pensa sempre (e SÓ) por si próprio, mas para ser saudável no pensar (não  ter idiotia) precisa do útero biológico da mãe para nascer e depois do útero social da comunidade para renascer como humano, e para este renascer o pensar sozinho não é solução (G. Lapassade).

Pensar não-sozinho

Como adenda

Pensar não-sozinho é diferente de não pensar-sozinho, o conceito não é o mesmo.

1 - Não pensar-sozinho, é ter sempre alguém a interferir nos raciocínios que faz, interrompendo, desviando, curto-circuitando, não deixando liberdade para as associações que "naturalmente" se farão. Numa palavra, destrói o processo de pensar.
É um dos métodos preferidos dos manipuladores, vendedores e aldrabões e muito usual nos "diálogos TV", por isso surge a regra de não interromper. Não é um problema de educação, é um problema de honestidade no diálogo.

2 - Pensar não-sozinho, é ter o seu processo de raciocínio independente e autónomo e nas suas pausas  receber dos outros (i.é., não está sozinho) novas informações para integrar com o que tem e assim recusar, aceitar ou transformar.
Não é um problema de educação, é um problema de respeito pelo outro e suas conclusões. É a técnica dos mestres Zen que dizem e vão-se embora e o outro quando precisar voltará à conversa.
A verborreia contínua é uma técnica da missionação, manipulação e venda.

Fim adenda

Pensar é semelhante a andar, ou seja, tem sempre que se adaptar ao "chão mental" em que se move. O "chão mental" são todos os inprints (carimbadelas culturais) que a comunidade humana lhe "instalou" ao inseri-lo na rede de relações interpessoais e culturais (web of life) que na prática é a essência da comunidade humana. 

Parafraseando Lapassade, essa rede de vida, cujos fios são as relações interpessoais, é na prática o "útero social" onde nasce o humano no ser biológico. Sem esse renascer, pelos exemplos históricos existentes, esses seres da espécie humana são meninos-selvagens com a síndrome do anormal congénito segundo Levi-Strauss.

Assim, o que é pensar?

Pensar é relacionar duas ou mais ideias e criar conclusões. O conceito não é tirar conclusões pois a conclusão não é algo que esteja lá e se possa extrair, mas algo criado com o que está lá. Mesmo que o conteúdo seja igual, a forma e as conexões não serão as mesmas.

Quando ensinava a estudar costumava comprar revistas temáticas (misto texto e imagens) sobre temas diversos (astros, dinossauros, peixes...) dá-las aos jovens para folhear e concluírem o que quisessem, eu escrevia a conclusão num post-it e eles continuavam. Depois de existirem alguns, dava os post-it e pedia para os agrupar como desejassem (não havia resultado errado) e escrever um texto sobre isso.

Um dia, uma jovem (11 anos), que não gostava de estudar, "paralisou", olhava uma página e dizia que não conseguia saber o que escolher que fosse o melhor. Olhava para mim à espera que eu "ordenasse". 
Resolvi fazer um "Kong-An", algo inesperado e sem sentido que obriga a sair do "script" instalado.

Rasguei a página da revista, dei-lhe e disse que podia mastigar e engolir que ficava a saber tudo. Séria, ficou a olhar para mim com a cabeça a "todo o vapor". Esperei. Depois relaxou, riu-se, eu também e ela pediu-me para lhe ensinar como escolher. 

Comecei a explicar como escolher e ela ia experimentando. Descobrir o que atraiu, a associação que fez, outras conexões, titular, acrescentar talvez mais 2/3 palavras e passar à frente. À medida que ia fazendo eu pressionava a velocidade não a deixando pensar muito. 

Após alguns pos-it, dei-lhos para escrever o texto que quisesse no tempo que quisesse. Quando acabou estava radiante. 

Quando a mãe a veio buscar, antes dela sair disse-lhe em segredo e só para ela "quando não perceberes nunca mastigues o livro nem tentes engoli-lo", riu-se. Nas sessões seguintes criar conclusões era uma actividade preferida, principalmente quando tinha armadilhas tipo fakenews (descompreensões: misunderstandings) pois com isso aprendia sempre recursos para sair delas.

Bastante mais tarde, morando na zona, um dia encontrei uma jovem (17/18 anos) que veio falar comigo. Não sabia quem era, ela disse-me o nome e acrescentou "sou a do mastigar o livro" e acrescentou "nunca mais esqueci", riu-se. 
Conversámos um pouco, estava na universidade, tinha boas notas e gostava de estudar.

Como resumo para continuar, 

é impossível não pensar por si próprio, mas é possível pensar mal ou bem e com informação má ou boa... mas tem SEMPRE que existir  informação má ou boa para ser pensada.

[...um habitante de uma ilha isolada no Pacífico, com seu deus Ranginui NÃO pode pensar por si próprio ser cristão, muçulmano ou budista porque não tem informação (falsa ou verdadeira) sobre essas alternativas. Apenas tem informação sobre a religião Ranginui (fake ou não) e sobre ela poderá pensar se quer, ou não, ser adepto... mas não poderá pensar noutra religião sobre a qual não tem qualquer informação boa ou má...]

Pensar obriga sempre a pensar por si próprio (auto-informação) e a pensar não-sozinho (hetero-informação). Esquematicamente:

1 - pensar BEM sobre "true news" = BOM
2 - pensar BEM sobre "fake news" = BOM
3 - pensar MAL sobre "true news" = MAU
4 - pensar MAL sobre "fake news" = MAU

[...O Manel via-se espiado e pensava que o andavam a perseguir. A família e amigos preocupados
levaram-no para tratamento, diagnosticaram "paranoia da perseguição" e foi tratado.
Tudo se esqueceu, ele ficou feliz, família e amigos ficaram descansados.
Uma semana depois mataram-no... estava mesmo a ser perseguido.
A perseguição não era Fake News, foi True News mal pensada]

Na verdade, teorizar as FakeNews e apresentá-las como um problema das redes actuais é uma FakeNews.

Há quase 3.000 anos (séc. VI AC), Esopo na antiga Grécia teorizou sobre isso com a fábula do pastor e o lobo. Desde essa altura que o problema se mantém ao longo dos séculos, retomado várias vezes por exemplo com La Fontaine e outros. As FakeNews são velhas como o mundo.

Fábula: Pedro grita "lobo" que é mentira
uma FakeNews que os outros acreditam 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O amor e os haiku's


Um passeio mental pelos haiku's e pelo amor.

1 - Mote

Como aviso aos desconfiados, haiku não é um novo truque pornográfico para o amor, é um poema tradicional japonês muito especial, pois tudo é dito em 17 sílabas, agrupadas em 3 conjuntos de 5+7+5: 

Ochi kochi ni
tachi no oto kiku
wakaba mana

Apesar de eu não saber japonês, há muito tempo que é um dos meus hobbies favoritos, socorrendo-me de traduções "aproximadas" e explicações culturais, tentando "sentir" os seus subtis "toques" de sensações inesperadas... como em qualquer outra poesia. 
Ouvir em alemão uma poesia de Florbela Espanca não é a mesma coisa que ouvi-la em português, mesmo que se entenda o alemão.

As crianças sem saber inglês, se cantam uma canção inglesa gostam de fazê-lo em inglês, eles sentem que se traduzirem perde-se muito na tradução, portanto, fica sem graça, não tem ritmo, não tem emoção.

A "Tradução" é o segredo do êxito e fracasso de amores, paixões e haikus. A diferença dos haikus para a poesia comum é que eles levam até aos limites a importância da cultura instalada para serem "lidos", tal como o amor.
Mesma mensagem, diferente significado
Mesmo quando as traduções são boas são sempre incompletas e com bugs. Tudo se baseia em "ditos" (verbais ou não-verbais) emitidos e recebidos, nunca sendo eles os mesmos a 100%.
O importante não é o que se diz e se ouve, o importante é se o significado emitido pelo "dito" é o mesmo significado que o "dito" provoca.
Um exemplo de "ditos" e diferentes significados produzidos:


(in "Lost in translation", 1 oscar, 97 vitórias (wins), 127 nomeações)

2 - Haiku

Quer o haiku quer o amor ambos vivem de mensagens pequenas e discretas mas de efeitos grandes e inesperados onde tudo se ganha e tudo se perde na tradução do "dito para o significado".

Os amores têm um paradoxo curioso pois no seu início as "traduções do significado" são melhores do que no "quarto minguante" pós "lua de mel". 
No início, quando um quer algo o outro percebe logo, a linguagem não-verbal (e verbal) funciona bem com as hormonas a traduzir. Mais tarde as traduções ficam cheias de bugs, na gíria chama-se "falta de comunicação" em que a frase mais vulgar nesta etapa é [...o que disse... NÃO FOI ISSO!!! ] e o divórcio aparece .

Por outro lado, nos "amores longos" parecem ser irmãos gémeos, entendem-se rápido sem frases ou por meias palavras, com traduções instantâneas perto dos 80-90%, e os toques corporais são vulgares e constantes. Com o divórcio já no horizonte, os toques (strockes) corporais só aparecem por dever conjugal ou pressões hormonais.

É interessante pensar no amor comparando com o processo dos haiku's. 

Para saborear um haiku é preciso saborear um nível escondido de compreensão. Dizer muito num jogo de significados para criar uma emoção inesperada apenas com 17 silabas distribuídas 5+7+5... não é fácil.
A sua base é semelhante à de qualquer poesia pois precisa detonar emoções já instaladas no senso comum cultural.

Quando li a "Morte e vida Severina" do poeta brasileiro J. C. Melo Neto, fiquei encantado pois a dança das palavras com o entrelaçar dos seus significados eram para mim perfeitamente claros. Conclui que o brasileiro era também a minha língua.  

Estando na época em Cabo Verde e morando no Mindelo com vários conhecimentos locais, comecei a procurar letras de mornas escritas em crioulo, foi um mundo novo que descobri. Tive a sorte de conhecer Cesárea Évora com seus vinte anos e ouvi-la cantar.
Realmente uma morna em crioulo não é uma morna em português, tem um sabor diferente... intraduzível. O truque de ter previamente "apreciado" as letras em crioulo foi muito útil. A consequência foi ficar fan da poesia em crioulo.

As palavras de uma língua fazem parte da poesia, não só pela sua sonoridade própria como pelos significados afectivos e emotivos que trazem consigo. O haiku obriga a levar isto ao extremo para rentabilizar as suas 17 silabas na construção e entrega de significados. Retomando o haiku de inicio:


O ritmo silábico (5+7+5) desapareceu mas, com a tradução, um truque sonoro-afectivo também desaparece.

As 12 sílabas dos dois primeiros versos [Ochi kochi ni tachi no oto kiku] dão o contexto de aqui e ali se ouvir as cachoeiras. Porém se lidos em japonês a sonoridade da lingua cria semelhanças sonoras com o ruído da água a cair nas cachoeiras. O leitor sentir-se-á como se fosse a folhagem jovem a ouvir a cachoeira. 
O texto ao ser traduzido perde a similitude sonora. Parte do haiku perde-se na tradução.

Outro aspecto importante é a intima e fundamental conexão dos versos do haiku com os pacotes culturais já instalados no leitor, as chamadas "carimbadelas culturais" (inprints).

PS- É esta a principal afinidade entre os haikus e o amor, pois o êxito ou fracasso de ambos depende da validade da sua conexão com a cultura instalada em quem usufrui a relação. Uma prenda, palavra ou gesto de amor para quem dá, pode ser uma ofensa na cultura de quem a recebe (ver §3: "Amor"). 

O haiku, para dizer muito e significativo, tem apenas 17 sílabas com a disposição 5+7+5 para o fazer, o que obriga a escolher palavras para além do seu significado. Obriga  que sejam sejam links  culturais (activadores) de emoções e afectos já instalados no senso comum e é aí que todo o jogo vai ser jogado. 

Portanto, se o haiku for traduzido para outra cultura, existe o risco das traduções não conectarem as mesmas afectividades e o haiku não funcionar, ou seja, não activa os significados pretendidos. Numa palavra, é apenas uma sequência de palavras em pobreza significativa.
Eis um exemplo de pobreza significativa num poema ocidental:

Um queria fazer de Mário um sábio, 
outro, um filósofo, 
outro ainda, um patriota, 
outro, um homem de bem, 
outro, um moralista, 
outro, um santo. 
Não foi nada disso. 
Foi um encantador.

OK, é bonitinho... e depois? Qual é o impacto? Qual a surpresa emotiva? Pffff... nada de novo, sendo possível acrescentar mais... futebolista, apresentador TV, fadista, vendedor, etc... a lista é enorme.

O poema é de Ernest Renan mas foi por mim alterado, o verdadeiro é:

Um queria fazer de Jesus um sábio, 
outro, um filósofo, 
outro ainda, um patriota, 
outro, um homem de bem, 
outro, um moralista, 
outro, um santo. 
Não foi nada disso. 
Foi um encantador.

No plano das "conexões emotivas" prévias, com a palavra Jesus o epílogo "encantador" fica com um "gosto" diferente quer para o leitor religioso quer ateu. Com Mário, o "encantador" é só, talvez, um tipo simpático, bom para vizinho.

A palavra Jesus, no leitor ocidental religioso ou ateu, está cheia de conexões afectivas, emotivas e intelectuais que muda toda a leitura, passando a poesia de bonitinha para significativa. É suficiente oscilar nos nomes de Mário e Jesus.

Estas conexões de "linkagem cultural" são o segredo comum dos haiku's e do amor.

Se substituir Jesus por Shiva, Manitu, Ranginui, etc, pertencentes a outras religiões o resultado é o mesmo. Só nas comunidades dessas religiões o poema poderia funcionar e não ser apenas bonitinho.

Para terminar,  um outro exemplo com um Haiku traduzido:

O velho carvalho
contempla
flores de cerejeira

Lendo o poema com os habituais significados das palavras escritas pouco se compreende, além da informação literal e uma certa emoção débil e difusa, o vulgar bonitinho da poesia avulsa.
Todavia o haiku não é poesia de supermercado, é uma primorosa abertura para algo complexo e significativo. No dizer de um especialista, o prazer de ler um haiku é [...procurar o oásis escondido no deserto...].

Neste haiku, o velho carvalho traz uma conexão à afectividade japonesa das "bodas de carvalho", a comemoração de 80 anos de vida em comum, uma espécie da conquista do Everest para a felicidade do casamento. Substituir velho-carvalho por velho-pinheiro o haiku iria [...perder a sua alma...].
Contemplar significa um olhar calmo e paciente, meditativo, bem diferente do rápido e fugidio "ver de relance" de quem olha sem ver.
As flores de cerejeira são delicadas, frágeis, momentâneas, com vida curta, e no Japão são símbolo do precário e do efémero. Substitui-las por perpétuas, flores que como o nome indica aguentam tudo, desaparecia do haiku a noção de fragilidade e ele [...perderia a sua alma...].

Assim, este haiku é o confronto entre a fragilidade do que aparece-desaparece no movimento da vida   versus o que dura centenas de anos até ir também para o passado. 
Lenta ou rápida, a vida do carvalho e das flores de cerejeira funciona do mesmo modo e saber isso traduz-se no olhar calmo, paciente e meditativo do velho carvalho na sua certeza do inevitável.
Esta sabedoria de vida é reforçada com a palavra "velho", link directo ao afecto de respeito pelos idosos, afectividade bem forte e bem inserida na cultura japonesa.

A simplicidade aparente do haiku afinal é bastante complexa.

Dois haiku's, meus preferidos:
-1-
A chuva pára,
uma rosa
levanta a cabeça.
___________
-2-
Olho para um lagarto 
entre duas pedras,
ele olha-me também.
A latere:

O Haiku é só uma proposta ao leitor para o construir na sua mente. Na prática é quase um teste Rorschach sem borrões de tinta (hemisfério direito?) mas com palavras (hemisfério esquerdo?).
Assim, em dias diferentes nascem haikus diferentes do mesmo haiku, dependendo das "linkagens escolhidas" e associadas nesse momento. Ele é só um "activador" de afectos, emoções, memórias, sonhos, etc, em função da bagagem de inprints culturais do leitor.

In praxis, em relação ao primeiro haiku:

Para formação, uma das técnicas é activar a imaginação. O processo é ir construindo um filmeco com  imagens adequadas aos significados que nesse momento "pululam" (swarm) na mente do leitor:

1º - Pode imaginar-se uma chuva ligeira com sol a espreitar e a rosa salpicada de água, caule forte e pétalas brilhantes. Entre nuvens brancas aparece um sol tímido que, cada vez mais vivo, faz a rosa renascer (sorrir), ou...

2º - pode imaginar-se uma chuvada forte e cerrada, com a rosa encharcada de caule quebradiço e pétalas baças. Entre nuvens negras surge uma tempestade que, tapa o sol, morre a luz e a rosa definha (chora).

O filmeco imaginado será aquilo que nesse momento o leitor "traduz" do haiku, dependendo dos inprints linkados e activados.

PS - Eu gosto deste haiku porque para mim, e afectivamente, o primeiro cenário é automático e o segundo só surge por imposição lógica.
Todavia, por/para treino, é possível trocá-los e pôr o 2º em afectivo automático, ou seja, é passar da atitude optimista a pessimista e vice versa (treino de auto-indução).

O interessante é que o amor funciona exactamente com o mesmo processo e suas hipóteses de auto-indução.

3 - Amor

O que é o amor? 
Talvez seja preferível pensar com uma pergunta menos filosófica, "como se manifesta o amor?".

Na prática, o amor são trocas de expressões (beijos, festas, carinhos, etc) que não valem por si próprias mas apenas  por transportar significados... e aqui começa a confusão.
Na verdade, estas expressões são codificadas pela cultura vigente com significados standard e o seu uso pode originar aparências percebidas como realidades.
Exemplo

- Dantes, em casa de meu pai ao namorar, seguravas-me as mãos, agora JÁ NÃO!!!
- Dantes, havia piano e tinhas a mania de o tocar!!!

Agarrar as mãos pode ser afecto ou controlo. No ex., o emissor tem o desejo de controlo que "traduz" com o gesto namoradeiro (afectivo) das "mãos entrelaçadas". Por sua vez no receptor as "mãos entrelaçadas" são  obviamente(?) "traduzidas" com o significado de afecto e sente carinho, amor.

Na realidade, no amor tudo se ganha e se perde nas "traduções". Os significados e seus veículos (palavras, gestos, situações) são apenas meras peças do tabuleiro. O que se sente (significado) e o que se diz/faz (expressão) não são factores críticos do êxito ou fracasso da relação amorosa.

O único FCS - Factor  Crítico de Sucesso é a sintonia das traduções que ambos fazem. Os essenciais,  significados e expressões, só valem o que suas traduções valem. Num esquema simples,


O sentir do emissor pode ser verdadeiro ou falso, a expressão pode corresponder ou ser camuflagem. Mas essa expressão recebida é traduzida e cria um sentir no receptor, verdadeiro ou falso.

A relação amorosa só depende da dinâmica destas duas traduções e suas mútuas percentagens de sintonia, quer sejam as duas verdadeiras, as duas falsas, uma verdadeira e outra falsa.
Exemplo:

O Romeu pertence a uma cultura de deserto onde a flor do cacto é símbolo de fidelidade e persistência pois sobrevive mesmo em ambientes adversos. A flor é algo evidente, notório e os espinhos são detalhes apagados e invisíveis. Assim, um significado importante (amo-te) é dito à Julieta, através do envio da flor do cacto como símbolo da sua fidelidade e persistência amorosa.

Todavia, a Julieta, num país cheio de flores em ambiente acessível, ao receber o cacto não "vê" a flor, vê um monte de espinhos agressivos de difícil contacto. Furiosa com a espinhosa e agressiva prenda, fazendo a prisão da infeliz flor, o que era afinal a imagem do futuro proposto e não lhe agradava.
No mínimo, atira-lhe o cacto à cabeça... com o vaso atrás.

Assim começa e acaba uma paixão, tudo perdido na tradução. O amor é um processo primitivo parece simples e imediato mas é complexo e rebuscado. A sua simplicidade é enganadora pois está cheia de  variáveis e os seus "óbvios imediatos" nada têm de óbvio.

Reformulando a resposta anterior ter-se-á "amor são trocas de significados" e não de expressões que são apenas sinais a serem interpretados.
A definição parece clara e é, ...até se perceber que é confusa pois os sinais transmitidos para dar o significado NUNCA dão garantias do significado recebido. No exemplo:
As confusões instalam-se entre o sinal de assobio e o sinal de beijo oferecido.

Porém é tudo mais complexo, pois há mais variáveis, por ex., o estado do córtex tem que ser semelhante, ou seja, "estarem no mesmo clima" (to be in the mood).
Exemplo:

Um Romeu, a quem as dores da cólica renal da sua "alma gémea" angustiaram, resolve fazer-lhe de surpresa um mimo, um beijo apaixonado. Mas o córtex da sua "alma gémea" embrulhado em dores "está noutra" e traduz isso como uma dentada à socapa. 
Nesse momento as duas "almas gémeas" não são nada gémeas.

O amor não vive de actos amorosos, vive de significados recebidos como amorosos e isso não depende do acto, depende da "tradução" feita por quem recebe e esta depende do estado afectivo-mental do tradutor.
"Defender-se" com o argumento "eu disse/fiz" não é defesa é ataque, pois subentende parvoíce, desinteresse ou cegueira do outro. A questão verdadeira é "o que significou?" nesse momento.

O amor não é uma burocracia "input-output", é uma constante e sensível empatia ao que acontece no outro e agir em concordância consigo e com o outro.
Alguns autores chamam-lhe "duplo vínculo" (double bind) não no sentido de G. Bateson de afecto e agressividade simultâneos, mas de equilíbrio de um acto com duas afectividades as mesmo tempo. 

REGRA Nº1 do amor - Não há actos amorosos COM efeitos óbvios e garantidos, tudo depende do significado com que são recebidos. Este significado é independente do significado original do acto dito amoroso. 

Por maldade dos deuses, o ser humano relaciona-se com outro ser humano sempre com o jogo da "verdade ou aparência", pois nunca pode ter a certeza de ser verdade ou aparência do que acontece no plano amoroso.
Esta maldade (ou sabedoria) dos deuses não me aborrece pois é a garantia de que nas relações humanas o determinismo é impossível, pois qualquer causa pode ter qualquer consequência. O ser humano não é uma burocracia, os filósofos chamam a este indeterminismo o livre arbítrio.

Como curiosidade, o jogo "verdade ou aparência" é a base do teatro, pois só se o actor aparentar (mentir) bem em ser a personagem só assim o teatro pode ser verdade. Parafraseando José Régio, quando essa mentira (aparência) é bem representada chama-se expressão artística. 
Se o actor não representar mas estiver realmente vivendo a situação, chamar-se-á expressão vital e não será artístico. Uma mãe expressando bem o sofrimento pela morte do filho não é expressão artística é expressão vital.

O actor tem que ter um duplo vínculo (vide Stanislavsky), ou seja, sentir o personagem e ver-se a sentir o personagem não sendo por ele  "canibalizado" (vide "Kean" de J.P.Sartre). O amor também tem muito de duplo vínculo.

Aliás, segundo Freud, até a relacionar-se consigo próprio o ser humano joga esse jogo de "verdade ou aparência" pois muitas vezes nem ele, o próprio, sabe a diferença: "Afinal, eu pensava que gostava dele(a) e não gostava".

Em resumo

Os significados sendo incorpóreos, não têm existência material, portanto apenas se captam por aquilo que os expressa. Os expressores são vários e variam com culturas e sub-culturas.
Por exemplo, pode ir de um simples sorriso de cumplicidade até um ajoelhar vocalizando o célebre significado "amo-te" e chama-se declaração de amor. Como é evidente este "amo-te" pode ser "verdade ou aparência" para quem diz e/ou para quem ouve.

Esta fase de significado expresso pode ser oficializada com outro significado expresso o "amo-te prá vida inteira" e chama-se cerimónia de casamento, também igualmente possível de ser "verdade ou aparência".

Esta insegurança angustia os seres humanos e como solução "metem a cabeça na areia", isto é, se não veem não existe. Como não veem significados e não veem amor, mas veem beijos, caricias e sexo, então, beijos, caricias e sexo é o amor.

Huuuauuu... assim esquecem o conteúdo e ficam só com o embrulho, esquecem o significado e ficam só com o envelope. Deste modo a confusão acabou... todavia foi substituída pelo caos e tudo ficou pior, simplificado e atabalhoado.

4 - Conclusão

Haiku tem 17 sílabas, é complexo e significativo e vive de poucas palavras. O amor também vive de pequenas acções, é envolvente e marcante. Ambos dependem de pequenos "triggers" (detonadores) que agarram e se enraízam afecto-emotivo no íntimo profundo de cada um.

Na verdade viver um grande amor não se traduz em todos os dias chegar a casa, ajoelhar e fazer uma complexa declaração de amor com citações religiosas da Biblia, Cântico dos Cânticos [...Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho...] (Cânticos 1:2).

Pelo contrário, o amor vive de pequenos gestos cujos significados são claros e estão vivos na memória desde um aceno até um ritual rápido com significado e não distraído a despir o casaco, guardar as chaves, etc. Quando são só actos rotineiros e protocolares, o divórcio está no horizonte.

In brevis, amor são significados vividos e comunicados em pequenos gestos e poucas palavras, ao estilo haiku.

Quando a comunicação é por actividade sexual e os seus vários "jeitos e trejeitos" são vazios de significados, chama-se pornografia e é a base do negócio dinheiro-prazer; ou ginástica-terapia sexual para manutenção fisiológica à espera de melhor oportunidade; ou pro bono para manutenção da espécie (reprodução), função que nos animais se chama cio.

A base destas alternativas de sexo-vazio-de-significado, e apenas retendo os seus dois objectivos funcionais, tem uma realidade fisiológica clara (vide W. Reich, medico psicanalista). 
O sexo, fisiologicamente, baseia-se em hormonas (bioquímica) e em convulsões nervosas de prazer (bioelectricidade), vulgarmente simultâneas (ejaculação-orgasmo) apesar de poderem não o ser pois dependem de órgãos diferentes, isto é, glândulas (ejaculação-espermatozoides) e nervos (orgasmo-prazer).

Com a ejaculação, a espécie resolve o problema da sua continuidade pois detona a fecundação. Como é óbvio, em vítreo, há fecundação e não há orgasmo.
Com o orgasmo, a espécie resolve o problema da motivação para ejaculação. Como é óbvio, em masturbação, contraceptivos, etc, há orgasmo e não há fecundação.

Em resumo, a actividade sexual é um veiculo físico para expressar um significado afecto-emotivo e fazê-lo sentir ao outro. É um transmissor, um transportador, não é um conteúdo. Todavia esta actividade transmissora de significados pode funcionar com e sem significados para transmitir. Neste caso, há três estilos de adeptos:

1º -  Os adeptos em que para além dos objectivos fisiológicos (fecundação e orgasmo), e não os contestando, têm filosofias laicas ou religiosas de existir outro nível co-lateral (psy e/ou espiritual), que é o aspecto fundamental, resultante de simbiose afecto-emotiva inter-humanos, conhecida por "amor" [...em que com ele tudo tem significado, sem ele nada tem significado...].

As suas variedades são muitas quer religiosas quer laicas, desde êxtase religioso, amor humano,   EAC- Estados Alterados de Consciência, hedonismo, etc. 
A bibliografia é vasta, mas o paradigma base é o sexo ser um meio de troca de significados psico-afectivos afectando positivamente o ser humano. 
Sem esse factor de troca afecto-emocional, o sexo é apenas agitação neuro muscular com efeitos glandulares e nervosos, como qualquer funcionamento de um sistema fisiológico. 
Por exemplo, a digestão tem efeitos glandulares (sucos gástricos) e nervosos (satisfação relaxante por saciada)... ou beber álcool, inserir drogas, etc.
Ao sexo como actividade física que é meio e é expressora de troca afectiva foi chamado making love, pois cria um intenso vínculo de significados afectivos, aquém e para além da actividade física . 

Porém, este nome traduzido em português ficou fazer amor e no senso comum nacional é uma espécie de chapeu de chuva sinónimo de sexo, quando falado em linguagem discreta e erudita. (ver 3º estilo, a seguir).

2º -  Os adeptos em  que a função de reprodutora do sexo é a sua única e principal humanização e sem esse objectivo o sexo está des-humanizado. Como complemento, sem essa intenção reprodutora a única solução para usar o sexo humano é não ter sexo, a chamada abstinência.

Esta posição, sob o ponto de vista lógico, é um paradoxo interessante.

Não conheço nenhum biólogo que apresente um caso amoroso romeu-julieta entre bois e vacas. Na verdade o sexo animal parece ter só escolhas genéticas "instintivas". Por exemplo, a fêmea aceita ou não um macho por sincronias ou des-sincronias genéticas e um macho, mesmo existindo cio, não tenta fecundar segunda vez a mesma fêmea, desinteressa-se pois a probabilidade genética está consubstanciada. O chamado "efeito coolidge".

Os prelectores desta opção, ao divulgá-la em conferências e palestras citam-na como "fazer amor reprodutivo" ou "fazer amor controlado", nunca explicando se o que é controlado e reprodutivo é a reprodução ou o sexo. 

Em Portugal nos anos 60, esta questão estava na moda com o problema do controlo de natalidade. O método Ogino-Knaus andava por aí, com o OK do Papa Pio XII em 1951, e na altura assisti a várias conferências e li vários manuais.

O método dito natural não me incomodava mas os pressupostos filosófico-religiosos de apoio incomodavam-me por razões de lógica pessoal.
Não percebia como a humanização do sexo humano era obtida por reduzi-lo à reprodução, ou seja, apenas fazendo sexo com intenção de reprodução. Parecia-me mais conversa técnica de agricultores a propósito de rebanhos.

Na altura estava fazendo um cursito sobre o ponto Omega nas teorias do Padre Jesuíta Teilhard de Chardin e aproveitei para tirar dúvidas. Não fui feliz. Por exemplo, perguntei se o estupro com fecundação podia ser incluído na teoria. Só obtive palavras soltas e muitas citações estilo listagem Google.
Resolvi insistir e então, perguntei se o "dever conjugal" para reprodução seria aceite. Agora recebi citações ao estilo Yahoo.

Realmente a minha questão parecia-me simples. Se humanizar o sexo humano é aproximá-lo do modelo animal que só têm sexo para reprodução, em síntese, humanizar o sexo humano é animalizar o sexo humano.
Não percebo... os deuses me ajudem.

Não desisti e numa conferência pública sobre o tema, na altura das dúvidas quis ajudar. Relacionei a teoria com o modelo sexual animal e salientei que os animais tinham o sinalizador olfativo do cio para "apontar" altura de sexo e isso faltava no sexo humano... e tinha uma solução.

Considerando que o método Ogino-Knaus já tinha o OK do Papa Pio XII, então era só usar o método ao contrário. Detectado o período da evolução em vez de ser usado para evitar sexo (contracepção) era usá-lo para fazer o sexo só nessa altura e ser proibido antes ou depois.

Desta vez a resposta não foi Google nem Yahoo... apenas silêncio e o microfone foi para outro. Conclui que não foi aceite. O meu superior hierárquico militar estava lá com a famiíia e disse-me que não gostou.

3 -  Os adeptos em que o prazer é o sustentáculo da vida (hedonistas) e assim esta posição tem o  seu centro no orgasmo com os seus 7 segundos (em média) de "convulsões prazenteiras" no sistema nervoso. Os seus aditos são usufrutuários garantidos.

Como é usual nas sociedades humana se há procura cria-se oferta. Assim desde a antiguidade que se criou o negócio dos orgasmos quer com empresas (prostíbulos) quer com trabalhadores independentes (prostitutas). Os seus clientes são muito claros, não estão interessados em reprodução nem em "espiritualidades Romeu-Julieta" só querem a convulsãozita nervosa!

Dica colateral
Em português, "making love" é traduzido por "fazer amor". Como traduzir "doing love"??
Significarão o mesmo??
Observado do exterior uma relação amorosa e uma relação de compra sexual distinguir-se-ão??
Talvez não, mas uma prostituta, profissional do sexo "doing love", sabe a diferença, e para ela trabalho é trabalho, e amor é amor. São universos distintos.


Pois é... o beijo pertence ao "making love". Profissionais sabem a diferença entre "making love" e "doing love", amadores só conhecem "love"... depois dizem-se enganados.

Para terminar dois haiku's e o amor.

Olhei-a, ar parou, 
estremeci, sou outro,
  foi making love

Toquei-lhe, mudei, 
 fiquei igual ao que era, 
é doing love

domingo, 11 de novembro de 2018

Terapia de fusão, uma experiência pessoal

Lendo sobre a sincronicidade e sobre Jung, encontrei descrições sobre a terapia de fusão com o auxílio "medicamentoso" de LSD, na clínica Welbeck (Londres) das terapeutas Joyce Martin e Pauline McCririck, pelo que recordei uma experiência minha com alguma semelhança e sem LSD.

Em 1971, trabalhei no Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, dirigido pelo Prof João dos Santos. que funcionava no Hospital Júlio de Matos para crianças asiladas e com problemas mentais. 
A minha área era a psicomotricidade (Le Boulch, Lapierre, etc) e a ideia era usar o ACTO, o 1° sistema de sinalização de Pavlov, e não a PALAVRA, o 2° sistema de sinalização de Pavlov, para conversar com as crianças e não a verbalização ao estilo psicanálise freudiana. 

Na verdade, a verbalizacāo destas crianças era muito débil, mas com actos e "situation playing" o diálogo era rico, divertido e produtivo sob ponto de vista de desenvolvimento. Ainda hoje, passados dezenas de anos, estas crianças estão vivas na minha memória.
Acabei por escrever uma tese que apresentei na universidade.

Durante este período fiz algumas workshops de formação, principalmente com monitores ingleses. Nas formações, em média uma semana das 19:00 às 23:00, havia sempre oportunidade para alguns incidentes "criticos" interessantes e conversas informais.

Numa ocasião, a propósito de autoridade em pedagogia, a monitora inglesa, talvez ao estilo terapia de fusão mas sem LSD's, propôs um role playing. 

O role playing consistia em um participante assumir ser "um bebé em posição uterina", de joelhos ao peito, encolhido, indefeso e medroso. Outro participante seria a figura maternal securizante e afectiva que procurava fazê-lo "desenrolar" e agir. 
Ambos teriam que dialogar só com gestos e comportamentos inerentes ao seu papel.

Talvez por, em anteriores intervalos de café, eu ter falado do meu passado de militar de carreira e experiências africanas, passado bem anómalo para um professor de crianças com problemas mentais num hospital psiquiátrico, a sua "bisbilhotice pedagógica" decidiu escolher-me para protagonista do bebé medroso. Aceitei o jogo.

Em complemento, "calhou-me" como figura maternal um participante (psicanalista), grande, volumoso e divertido com a situação.

Tudo corria bem, eu com os meus trinta e tal anos deitado no colchão com os joelhos ao peito, conversava por gestos com a volumosa "mãe " que de joelhos ao meu lado me confortava. 
Os participantes e a monitora acompanhavam a cena e o diálogo e tiravam notas.

Senti passar "muito" tempo e de repente tive uma epifania e caí em mim, "...mas ké isto?... um homem com a mão na boca a fazer-me blee...blaa...blee's ao pé dos olhos? Eu enrolado como um repolho??? Tou parvo...ou quê? Raizupartiça!!!!!!"

Saltei do colchão e fui sentar-me no chão ao fundo da sala, catatónico, com a cabeça nos joelhos.  Fiquei assim até ao fim da workshop, apesar da monitora fazer algumas aproximações, mas os meus resmungos em português tiraram-lhe a esperança. 
Conversámos no dia seguinte, primeiro os dois, depois em grupo. Foi interessante, divertido e uma boa aprendizagem conjugando opiniões com notas e apontamentos que tinham sido tirados. O lema rogeriano "ao grupo o que é do grupo" se bem feito dá sempre bom resultado.

Percebi que esta história de terapia de fusão (apesar de não saber o que era) não era fácil. 

Numa outra workshop e também com um role playing, uma participante (psicóloga) de repente ficou estranha e sem estabelecer contactos. Mais tarde, no meio do bruá...bruá resultante ouvia-se cochichar  "coma psicológico" (o que quer que isso fosse). 

Na altura, a monitora pediu para todos sairmos da sala e ficou sozinha com ela. Uma meia hora depois saíram e a participante parecia ter acabado de acordar ou saída de uma ressaca. 
Amigo dela e conhecendo-a bem, ofereci-me para a levar a casa o que recusou. Nunca mais se falou nisso.

Uma conclusão tirei. Esta "coisa" dos role playing "vende-se" bem em muitos livros e artigos de pedagogia, mas uma certeza eu tenho "não é brincadeira para amadores". A "situation playing"  pode ser ainda mais séria e perigosa na mão de "aprendizes de educadores", eventualmente "encartados".




terça-feira, 6 de novembro de 2018

Clandestinidade e perfume

(Baseado num caso real em tempos antigos)

Numa ida de três técnicos a Paris, no dia do regresso, depois do pequeno almoço e em conversa, um dos técnicos diz que, de manhã, irá comprar um perfume para a mãe. 
O colega-chefe pede para lhe comprar um para dar à mulher. Atrapalhado, o subordinado pergunta o que ela gosta, preço, tamanho e aroma. O chefe fica com ar de chefe e responde para trazer o que estiver em promoção e for barato. Despede-se e sai.

À chegada para o almoço quando o técnico lhe vai entregar o perfume vê com espanto que ele traz um pacote de perfumaria, aflito diz-lhe que comprou o perfume para a mulher. 

O chefe fica "múmia" sem sistema operacional, balbucia frases soltas entre ser prá mãe, prá tia Engrácia e prá avó Joaquina, não se percebe nada pois explica ser um prémio, difícil de arranjar, ter sido uma sorte, etc. e mais meia dúzia de "coisas", fica outra vez sem sistema operacional... estende a mão, saca o perfume, paga e desaparece.
Só reaparece no fim da tarde, 17:00 h, no aeroporto.

Os dois técnicos sentam-se e falam sobre o que aconteceu, principalmente a atrapalhação chefe. Ao fim de algum tempo, concluem que o perfume é de certeza prá Ti Engrácia. Mas lembram-se  também que durante o breve balbuciar do chefe, ele "resmungou" um nome de perfume. 

Como tinham tempo depois de almoço, foram visitar perfumarias para checar o nome. Realmente o perfume existia, era recentíssimo e caro. Aproveitaram, pediram amostras, visitaram outras perfumarias e pediram mais. Vieram para Lisboa carregados de amostras da perfumada recentíssima novidade.

Depois, com dois amigos, fizeram um concurso e quem ganhasse tinha um jantar pago pelos outros três. Distribuiram as amostras pelos quatro e cheirando o perfume, tal como perdigueiros, iriam à caça da Ti Engrácia pelos corredores e gabinetes do Ministério. O prazo era uma semana.

O interessante foi as estratégias seguidas que se contaram no jantar. Um centrou-se nos corredores à chegada pois o perfume ainda devia estar intenso, outro preferiu o período de almoço e respectivos grupos almoçantes, outro centrou-se nos contactos de trabalho do chefe, começando pela secretária e afins, e outro resolveu esquecer as cheiradelas e observar os trilhos do chefe.

Todos assumiram que o universo era o Ministério e concluíram que o critério foi o mesmo, o chefe chegava cedo e saía tarde.

Acabaram por descobrir a usufrutuária do perfume que não se chamava Engrácia e era do Ministério.

Conclusão

Em caso de clandestinidade amorosa convém controlar as águas de colónia para evitar banhos excessivos e roupas na lavandaria. Há várias soluções.

1º - Ele convém usar a água de colónia ou after shave do pai ou irmão dela e ela o perfume da mãe ou irmã dele. Convém ter cartas na manga com explicações plausíveis para questões de legalidade dos cheiros.

2º - Uma hipótese mais fácil é comprar a água de colónia correspondente e pô-la no cão. Ele não se importa e fica conhecido no bairro como VIP.
Se não tem cão é urgente arranjar um, porque senão em breve terá que arranjar um advogado.

3º - A terceira hipótese é um pouco prosmícua, pois é os clandestinos usarem as águas de colónia dos legalizados.
Esta alternativa é trabalhosa para os neurónios para gerir as associações dos cheiros com o clandestino ou com o legal. O risco é um lapsus linguae, isto é, por associação errada chamar a um(a) o nome do outro(a). 
Convém salientar que, se os nomes dos clandestinos forem iguais aos dos legalizados este risco não existe, e até haverá economia de controlo neural. 
Porém, neste caso, por razões afectivas convém usar um diminutivo diferente, cuja vantagem, de evitar enganos automatizados, traz a desvantagem do risco atrás citado.

Inté e boas clandestinidades amorosas.