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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Direito ao erro, autoridade e aprender


Se indisciplina for relações negativas e destrutivas entre pessoas, ao ser substituída por disciplina criar-se-ão relações positivas e construtivas entre essas pessoas?

A resposta lógica é que isso pode não acontecer. Um campo de concentração, uma prisão, um quartel, uma escola, ou uma família disciplinada apesar de não terem relações negativas e destrutivas não terão necessariamente relações positivas e construtivas,. 

O problema é mais complexo do que o simples dilema primário "ou... ou" da opção "indisciplina ou disciplina".

No caso específico da aprendizagem esta questão é primordial. A questão a discutir não é o dilema indisciplina-disciplina, mas sim, o dilema "relações positivas ou relações negativas" pois há um terceiro factor em jogo que é fundamental neste caso. 

Aprender, e não ser instruído/treinado/domesticado, implica actividade dos lóbulos frontais do córtex pois obriga, não conscientemente, a decidir isto interessa-me ou isto não me interessa o que, em linguagem quotidiana, significa estar ou não motivado para saber.

Faz parte do senso comum que quando o stress é grande, o aprender é difícil, “pois não se consegue pensar”. Com grandes níveis de stress esta paralisia é óbvia, apesar de com níveis mais "discretos" aparecer também níveis mais “subtis” de dificuldades de aprendizagem.

A alegria é o lubrificante da aprendizagem 
mas a tensão e o stress são o seu bloqueio. 
(ver Johnjoe McFadden, Quantum Evolution)

A indisciplina e a disciplina coerciva implica "lobotomia psy" impeditiva do aprender e facilitadora do contra-aprender. A autoridade e o seu factotum, a submissão (perda de autonomia), são sempre criadores de stress. 
Segundo Robert Sapolsky, Professor de Neurologia e Ciências Neurológicas na “Stanford School of Medicine”, o stress é sempre criador de glucocorticoides que por sua vez vão dificultar o hipotalamus, tornando os processos de aprendizagem mais difíceis ou mesmo bloqueados... pois aprender implica plasticidade do sistema nervoso para criar novas redes e novas conexões nervosas.

Assim, é natural e lógico que quem aprende precise estar implicado e interessado e não embrulhado na "bagunça" da indisciplina. Todavia, se mergulhado em indisciplina e estiver aprendendo... então estará observador, activo e disciplinado a colectar informação e a tirar conclusões. 
Observando grupos e multidões indisciplinadas conhece-se bem quem está aprendendo (e concluindo) e não indisciplinadamente agindo pró ou contra*.
* - Estar em situação indisciplinada não significa necessariamente estar indisciplinado.

Século, entrevista 1972
Como experiência pessoal, nos anos 1971/72, como técnico superior do Ministério da Educação, era responsável nacional por fomento pedagógico no Ensino Primário, assim costumava visitar escolas primárias e conversar com Directores e Professores.
Observava alunos mas, com eles, não fazia conversas,... o meu objectivo era observar comportamentos individuais e grupais (crianças e adultos) e o "fluir natural" da disciplina e/ou indisciplina existente.

Nunca visitava aulas a funcionar, fugia de exibições preparadas, preferia passear pelos recreios e pelo bulício das suas idas e vindas e, principalmente, percorrer corredores com aulas a decorrer. Nessa altura...

...acompanhado pelo director(a), ao passar por uma porta pedia-lhe que chamasse o professor(a) por um minuto, para a cumprimentar. 

Saído o professor(a) e fechada a porta, eu encostava-me a ela e, conversando, ia contando os segundos/minutos até a "bagunça" começar lá dentro e se era explosiva ou em crescendo. O normal ia de poucos segundos até alguns minutos. O meu foco era a descobrir se o contexto seria indisciplina contida, disciplina instalada ou interesse implicado*.  

* - Uma ocasião, numa escola do norte, o barulho não aparecia mas de repente a porta entreabriu-se e surgiu uma timida jovem com uma pergunta para a professora. Obtida a resposta, a jovem ia retirar-se mas antes de desaparecer eu perguntei-lhe porque não tinha esperado. 
Espantada, olhou para mim e, sem saber o que dizer, apenas respondeu "- Para poder acabar!!".
Posteriormente, por convite, esta professora tornou-se uma participante "imprescindível" do núcleo de dinamização.

Por este método, seleccionava com quem, nesse dia, gostaria de conversar e quem convidaria para participar nos debates-formação locais e nacionais que se estavam realizando.

- Instalar disciplina ou desinstalar indisciplina

Este problema já é velho nos debates do "caos de ideias misturadas" de mitos culturais, psicologia e pedagogia. Por ex., na área do ensino-aprender há filmes clássicos sobre esta questão:


A sua proposta central com quase com um século é...

potenciar o interesse e a aprendizagem para desinstalar a indisciplina
 e não  potenciar a autoridade para aumentar a disciplina.

Na realidade, não existe apenas indisciplina disciplina, existe também uma terceira alternativa que é a não-indisciplina e as três hipóteses têm características e consequências totalmente distintas. 
Por exemplo, na porta de entrada-saída do metro as pessoas poderão:


1.   lutar e empurrar-se entre si (indisciplina),
2.   sair em formatura estilo militar  (disciplina), 
3.   consciente e autónoma coordenarem-se entre si (não-indisciplina).

Não é fácil passar da indisciplina para a não-indisciplina mediante o uso da autoridade disciplinar, pois a não-indisciplina obriga a contínuas e constantes micro-decisões pessoais de adaptação e opção instantânea em função do que os outros fazem. 
Telecomandos autoritários multisincronizados e pulverizados não funcionam.

Uma pergunta interessante é:

                    Porque é que os carros de aprender a conduzir têm 2 volantes?

Por segurança contra erros? Sim e não! SIM em casos limites, NÃO na normalidade do aprender*, porque ensinar a “cavar batatas” é muito diferente de ensinar a "guiar um carro".
* - Simuladores de carros e aviões possibilitam "lucrar" sem risco do uso do direito ao erro nas experiências do aprender.

Aprender a fazer marcha atrás numa curva junto ao passeio, significa aprender a colocar as rodas no local preciso, à distância certa do passeio e no momento exacto. 
Não há autoritarismo que o ensine, nem instruções rígidas que o possibilitem, é preciso experimentar, fazer erros, perceber porquê e experimentar correcções.

Isto significa aprender micro-decisões — aleatórias, incertas, imprevistas e mutantes — ditas "instintivas" e elas só se aprendem com direito ao erro, pelo método de “erro e sucesso”, ou seja, fazer erros e corrigir. São precisas quatro condições, ex. conduzir carros:

1. existirem várias micro-escolhas sucessivas;
    (...travão? volante? acelerador? espelho? rodas batem? o que fazer? intensidade?...)

2. acções "no segundo certo" (just in time);
    (...o quê? quando? como? onde? pouco? muito? ...)

3. lucidez sobre acontecido;
    (...o que foi isto? o que vai ser? como evito? que faço?...)
 
4.   noção de outras opções;
                (... que hipoteses ? que fiz? o que fazer? como fazer?...)
 
Na perspectiva do aprender, a fase crucial é a 3ª, isto é, a construção da lucidez necessária sobre o acontecido e eventuais correcções. 
Assim nesta fase, o ensino não deve ser papaguear-repetir regras e instruões para fixar, mas sim, ajudar a descobrir o modus faciendi, o como agir, expondo pormenores, consequências, alternativas.
Não é uma fase de "inserir decisões" [...dar o peixe] mas uma fase de "tomar decisões" [...ensinar a pescar].

As micro-decisões ditas instintivas nunca se instalam com as micro-obediências impostas pelo instrutor.
O "esfarrapado" conselho do mau ensino — depois de ter a carta é que se aprende a guiar — infelizmente é verdadeiro. Ele realmente significa que o método de “direito erro e sucesso” só vai ser usado em responsabilidade pessoal e sem a protecção do duplo volante*.

Obs. - Tive a sorte de aprender as "micro-decisões" ainda adolescente quando atleta de ginástica olímpica no G.C.P. Depois das tentativas de mortais e piruetas nos aparelhos (barra, paralelas, etc) feitos com seguranças de cintos, colegas, colchões, etc, vinha sempre a conversa do treinador Jardim — Então conta o que correu  bem e mal?. 

Só 20 anos depois vi a vantagem desta conversa, ao treinar boxe no CEF-Armada com o treinador Ferraz que depois dos round se sentava e revia —"Então, o que correu bem e mal??".
Já conhecendo a teoria e o método do Debriefing na Pedagogia Experiencial, percebi que assim as  microdecisões vividas no ringue fluíam, instalavam-se como instinto e obtinha o dito "fiz-sem-pensar". 

Os erros são um direito e uma necessidade de quem aprende.


- Como é que as crianças aprendem?


Aprender é viver experiências e criar no córtex novas conexões nervosas e, como é óbvio, só o próprio o pode fazer.
A herança genética da neuroplasticidade [...capacidade do córtex de criar redes de neurónios, parti-las e uni-las] é o motor do aprender (J. Satinover, Quantum Brain)

Um neurónio tem 1000 a 10.000 “portas” (sinapses) para criar redes. O córtex tem 100.000 milhões de neurónios e as hipóteses de fazer redes são infinitas.

Aprender a somar é criar e ligar redes (Dean Radin, Entangled Minds):
...a “rede” de somar liga-se à “rede” de números, ambas ligam-se à “rede” de espaço (13, 31 trocam posições), depois à rede lateralidade (13 tem “1” à esquerda, 31 tem à direita), etc. 
Somar é um mundo de redes emaranhadas a trocar informação.


- Autoridade: como funciona

O autoritário só pode existir se tiver um submisso que acolha e aceite o autoritarismo, sem submisso o autoritário é só um fala barato. Uma história:
  • O António combinou com a mulher que, depois do trabalho, saiam de Lisboa e iam jantar a Setúbal para festejar o aniversário de casamento dos pais dela.
  • Pelas 1700 horas, o chefe vai ter com ele e diz-lhe que tem que se reunir com uns clientes importantes e jantar com eles. 
  • Agora o António tem que decidir se mantem a decisão pessoal de jantar em Setúbal ou a substitui pela decisão do chefe de ter trabalho e jantar com clientes. 
A autoridade tem um funcionamento simples: é só anular as decisões dos outros e impor as suas, quer seja por razões válidas, inválidas ou exageros. 
O factor critico é se a substituição é válida, ou não, aspecto crucial na democracia desde greve até ao uso de máscaras e vacinas no covid-19, o factor nevrálgico é se há aceitação, ou não, pelo futuro submisso potencial.

Na Idade Média queimaram-se na Europa centenas de bruxas. Durante centenas de anos, as autoridades instalaram no pensar dos membros das comunidades a validade da decisão de "queima de bruxas"... todavia hoje, a validade para impor essa decisão acabou.

Na anterior história do António podem existir muitos argumentos e justificações pró/contra, desde legais (contractos trabalho, etc) até morais, éticos, religiosos, etc, mas no fim, o problema é só um e simples: o 

António substitui ou não a sua decisão pela do chefe? e, 
mais importante, na próxima vez o que fará?!?

A organização militar é conhecida por ser estruturada em autoridade, todavia, tem regras contra a submissão cega, regras essas que não fáceis de usar mas possíveis.

Recordo dos meus tempos militares, nos anos 60, um oficial do meu curso que se recusou a cumprir ordens e acabou preso por mais de um ano no forte de Elvas. Na verdade, a autoridade-obediência é um jogo Mr Hyde e Dr. Jekill em que cada um depende do outro.
Uma história:
  • Dois irmãos, 5 e 12 anos, e o mais velho apregoava na família que o mais novo lhe obedecia sempre, assim mostrava-lhe 2 moedas, 50 cêntimos e 2 euros, para escolher uma, mas só podia tirar a menor.
  • O mais pequeno obedecia e escolhia a de 50 cêntimos. A "brincadeira" repetia-se várias vezes para o "treinar" a obedecer.
  • A avó incomodada com a "brincadeira" chamou o mais pequeno e disse-lhe que não tivesse medo, se revoltasse e tirasse a maior. O mais pequeno respondeu que não tinha medo mas não se ia revoltar porque se o fizesse o mais velho não lhe obedeceria e não lhe dava os 50 cêntimos.

Afinal, quem era o submisso de quem? Quem é que instalava a sua decisão na cabeça do outro?

Dizer que é preciso autoridade é dizer que são precisos submissos porque sem eles a autoridade não funciona. Com submissos qualquer palonço serve para autoritário, inclusivé convém existir outros submissos com função de autoritários, os chamados chefias intermédias (lideres? intermédios?).

O "truque" das organizações autoritárias são os TDI "normais(?)" ou com a sindrome de duas personalidades, neste caso as standart de autoritário para inferiores e submisso para superiores":


Para perceber o autoritarismo é útil perceber a submissão, pois o autoritário é uma espécie de travesti alternando (e existindo) entre duas "pessoas" ora autoritário ora submisso.
(ver Bertrand Russell, Authority and the individual)

O mito cultural das estruturas autoritárias é que elas se baseiam no autoritarismo dos chefes mas, na verdade, elas são suportadas pela submissão dos suborbinados. O segredo da disciplina militar não está na formação dos oficiais mas sim formação dos soldados com uma recruta centrada na submissão. 

A clássica "ordem unida", o aparente aprender a marchar em formatura, na verdade é um real aprender a submeter-se instantaneamente à voz única ou, na liguagem de Pavlov, é um simples treino de reflexos condicionados a obedecer ao estímulo único: símbolo de "superior", seja ele divisas ou galões, estandartes, reposteiros, protocolos, etc:


Tecnicamente, autoridade é o "truque" de substituir decisões pessoais por decisões de outrem, o que é fácil quando a submissão já desinstalou a função auto-decisão e instalou o cumprir decisões alheias, isto é o obedecer.

Todavia como, por muito autoritarismo que haja, o "estúpido do calhau" nunca obedece e não fica quieto, é óbvio que o "segredo" do autoritarismo não está no autoritário mas no submisso:



- regraEnquanto viver é preciso Aprender

Esta regra é não só ncessária como imprescindível e o método, à nascença instalado nos genes, consta de "fazer erros e ter sucesso", ou seja, o "direito ao erro".
Desde o nascer até morrer todos nós o utilizamos (por ex.) desde o mamar até casar, passando por subir escadas:

- mamar  Segundo René Spitz, Le Non et le Oui, o movimento NÃO surge no bébé pela falta do mamilo da mãe ao querer mamar e cujo erro ele tenta evitar movendo a cabeça lateralmente. 
Quando encontrado mamilo, retoma o sugar com um suave* movimento vertical da cabeça percursor do SIM, ou seja, já tenho mamilo. 
* - O movimento NÃO (recusa, falta) costuma ser mais brusco e enérgico que o SIM (aceitação, posse).

- casar Casar é usar o direito ao erro com esperança no sucesso. Este ritual que integra possibilidades de erro com probabilidades de sucesso é bem evidente na desratificação do erro, chamado divórcio.
Há também uma espécie de "seguro-contra-riscos" através de rituais de promessas e garantias  de votos "Para sempre... bla bla..." acompanhado com  o suporte humano de bênçãos divinas.

- subir escadas Subir escadas tem 3 fases, no 1º degrau mede-se a altura, no 2º degrau confirma-se essa altura, no 3º degrau automatiza-se e assim se aprende AQUELA escada e ESSA escada sobe-se em segurança.
Se no meio da escada, houver um degrau com mais 2 cm de altura o pé baterá nele, a pessoa tropeça e cairá.
Se fôr incapaz de aprender "escadas" só poderá subir se acompanhado ou, instintivamente, testando degrau a degrau truque usado por idosos e daí resultando alguma lentidão.

A vida do dia-a-dia é constituída por uma enxurrada de microdecisões das quais não se tem consciência. Perder ou dificultar essa capacidade por doença* ou idade é um sério problema, mas destruí-la por pedagogias erradas (autoritarismo, submissões, entorpecimento químico ou drogas, etc) é um crime de lesa-vida. 

*- Ex: Quem tem diplopia (ver 2 imagens: uma real e outra virtual) a simples decisão de despejar água no copo tem 2 fases. A 1ª é fechar um olho e fixar a imagem que fica, a 2ª é despejar a água no copo dessa imagem porque se despeja na outra que desapareceu despejará na mesa.

Aprender é sempre um misto de microdecisões e macrodecisões, (vidé "Tommy") ensinar macrodecisões 
— ex. comprimento do Rio Nilo — bloqueando as microdecisões necessárias para o usar é um aprender nulo e angustiante.

A vulgar critica "Eles não querem aprender só querem jogos de computador" é uma parvoíce de ignorante. Segundo Steven Johnson, "Tudo que é mau faz bem",:

Para poder jogar no computador é preciso passar horas de esforço a estudar e aprender os "truques do jogo", desde pesquisar manuais, livros e revistas até ler entrevistas e comentários.                      
É preciso gastar horas nos fóruns e chats, sofrer desilusões, fazer asneiras e falhanços, desistir e regressar, emendar e pedir ajudas, investir dinheiro a melhorar o computador, etc.

...e  ele resume:
[Quando um novato pergunta: - Como é que isto se joga ?
O jogador experiente responde: - Fazes isto e isto, mas depois tens que jogar e descobrir.]

"Jogar-e-descobrir" significa aprender, ou seja, ESTUDAR, isto é, quem não tem prazer em aprender e estudar não terá prazer nos jogos de computador e o método usado é o velho e banal Direito ao Erro e a obtenção de Sucesso.

O Direito ao Erro é o método de aprender inserido nos genes:



Direito ao erro é o sal da curiosidade, 
brincar é o Direito ao Erro em acção


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