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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Interesse, o segredo do aprender

Muitas palavras ditas não mostram as ideias… 
...escondem-nas…!!!
Uma questão a pensar:
A - As ideias nascem interessantes ?  ou
B - tornam-se interessantes ?

Qual escolhem ??? ...Sem pensar muito…escolham "A" ou "B"...!! 

PS - Convém sempre sabermos qual é o nosso ponto de partida, qual é o nosso neurónio "activo".

Todos sabemos que ensinar ideias interessantes dá boas aprendizagens, por isso os "pobres coitados" que têm que ensinar ideias não-interessantes têm uma vida profissional cheia de agruras. Esta é uma verdade "cientificamente" vivida e provada.

Todavia, esta ideia bem "instalada" no quotidiano pertence aos mitos urbanos da cultura, pois difunde-se como princípio essencial do acto de ensinar/comunicar, orientando pais, professores, chefes, vendedores, casais, colegas,...

Na verdade a questão, apoiada neste argumento, é uma armadilha que esconde o problema. 
Não há ideias interessantes ou não-interessantes, pois o interesse não está nas ideias, mas "está (ou não) em quem as recebe". Ou seja, elas podem provocar significado atractivo e são interessantes, ou não provocam e são não-interessantes.
Exemplo:

Beijing, China,1942

Acham esta ideia interessante e 
agradar-vos-ia recebê-la como lembrança 
a acompanhar a prenda de um amigo???


Se não lêem chinês, acham-na não-interessante, 
e também não se preocupam mais com ela e
o amigo que "ganhe juízo"…pois o vosso córtex fica-lhe imune.


Tradução:
A - Que milhares de bons presságios se juntem como uma nuvem e se combinem aqui com cem tipos de felicidade.
B - Que facilmente comece uma nova primavera com tudo que seja o desejo do seu coração.




Na verdade o interesse nasce no córtex do receptor pelo impacto "interessável" da mensagem recebida. Ensinar uma ideia com interesse para um aluno significa que, antes do ensino, o interesse já está instalado, ou seja, o trabalho principal do professor já foi feito por outrem. 

PS - Só não percebo porque é que, neste caso, o professor ganha o dinheiro todo.
Se os alunos já estão interessados devia ganhar menos.


Uma ideia só se torna interessante se tem "repercussões atractivas" na mente de quem a recebe. Criar este efeito é o principal problema de quem fala/escreve/ensina.

O interesse nasce da colagem do que é emitido com a mente de quem recebe. Como a mente existe à priori, a ideia tem que ser veiculada de forma a se sintonizar com "aquilo que já lá está".
Exemplo:

A - A semelhança entre um vendedor e um professor.

Dizia o vendedor:
- Com este carro, em 24 horas está em Paris !!!
Dizia o cliente com ar infeliz:
- Mas, eu não quero ir a Paris !!!

Dizia o professor de Física:
- Esta fórmula serve para calcular o tempo que leva a encher uma banheira a que se tirou a tampa.
Dizia o aluno com ar espantado:
- Porque é que não põem uma tampa ???

A ideia central do ensinamento do vendedor (ser um bom carro) não fez "colagem" na mente do comprador, pois não lhe foi significativa a relação "distância-tempo-potência", portanto, ele não aprendeu como o carro é bom, logo foi um "mau aluno" e o carro não foi vendido.
A ideia central do professor era ensinar a fórmula, para o aluno aquilo era uma parvoíce, desinteressou-se e não aprendeu.

A igualdade é que ambos ensinam e se provocam não-interesse não obtêm resultados.

B - A diferença entre um vendedor e um professor.

Quando nas vendas o comprador não aprende, a conclusão é que o comprador é inteligente e o vendedor é que vendeu mal (ensinou mal), logo o disfuncionamento é do vendedor (eventualmente despedido). 
Quando na escola o aluno não aprende, a conclusão é que o professor é inteligente e o aluno é que percebeu mal (não aprendeu), logo o problema é do aluno (eventualmente "chumba"). 

Por outro lado, quando nas vendas o comprador não está interessado, a solução é simples: - "Interesse-o, é para isso que é pago...!!"

Quando na escola o aluno não está interessado, a solução é simples: - "Ele precisa ser tratado, mas o seu trabalho não é esse, é pago para ensinar...!!"


Nas vendas, quando são os clientes que procuram o produto, tecnicamente chama-se "fornecer compras" e não se chama "vender". Um fornecedor de compras é menos qualificado que um vendedor e ganha menos. As máquinas que "vendem" cigarros não vendem, apenas fornecem. Qualquer "fornecedor de compras" é substituível por uma máquina.

PS - O SMAS não vende água, fornece água.

A diferença entre um professor e a Wikipédia é que nesta o interesse é prévio à sua consulta, ela é apenas um "fornecedor de informação". 
A função central do professor é provocar o acolhimento e a integração da informação. A sua área é a recepção da informação. Para fornecer informação está lá um ajudante "barato": a Wikipédia, o livro ou o computador.

Quando vou à Pastelaria ninguém me vende um café apenas me fornecem um. Todavia se me chamam a atenção para um bolo novo e me convencem a experimentar, então sim, vendem-me um bolo. 


Nos Cafés, os empregados não vendem cafés…fornecem cafés e vendem acolhimento. 
Nos bons bares os barman's não servem bebidas, fazem "psicanálise ao balcão", possibilitam catarsis. 
Para fazer as bebidas há um ajudante na retaguarda, menos qualificado e que ganha menos…os whiskeys e o gelo são iguais em todo o lado.


RESUMO

A diferença entre fornecer uma compra (ou informação) e fazer uma venda (ou ensinar) é que nesta última tem que existir criação de interesse, enquanto que na primeira o interesse já está criado. 

Quer o professor, quer o vendedor são técnicos de criação de interesse.

As ideias não possuem interesse em si próprias, ele aparece como consequência do modo como a sua transferência (comunicação) se faz, criando uma "ponte" ou não. 

Este processo de transferência pode ter três alternativas:

1 -  A ponte estabelece uma expectativa atractiva (curiosidade), originando o INTERESSE;
2 -  cria uma expectativa negativa (repulsa) ANTI-INTERESSE;
3 -  não faz nenhuma ligação e não afecta (não-expectativa), surge o  DES-INTERESSE. 

Um professor incapaz de criar interesse é como um vendedor que só sabe fornecer compras, ou um médico que só desanima doentes, ou pais que ensinam a vida matando a alegria de viver. Podem saber muito mas têm que alterar o modus faciendi

Na pedagogia há algumas regras simples: 

- Fazer "ancrage" (prender com anzol) afectiva, fazer o "pstt...pstt...", isto é, activar a curiosidade por sintonias com o já existente; 
- Fazer "ancrage" cognitiva, criando pontes de compreensão por utilizar informação já existente; 

[Estas duas fases têm uma regra fundamental:  serem feitas em 30 segundos.]

- Construir uma rede de compreensões sucessivas desde o "já aceite" até ao "ainda desconhecido", com três condições: 
3.1 - serem do tipo curto-rápido (short);
3.2 - serem concretas;
3.3 - terem uma narrativa.

A narrativa é uma espécie de "simulador de voo" que contém entretenimento & instrução.
É a linha condutora que dá estrutura ás partes, que transforma uma manta de retalhos numa pintura.
Desde a antiguidade que as histórias, parábolas, mitos são os veículos que divertindo dão instrução. Todos os guias, dos religiosos aos turísticos, o fazem. Na sua base existe uma espécie de conhecimento intuitivo dos neurónios espelho. 

Quando as crianças pedem uma história, na prática estão a dizer "diverte-me e ensina-me o que sabes!". A história da "Gata Borralheira" não é para divertir é para ensinar o papel social da mulher em ser doméstica, não por escravatura mas por amor. Se ele for pobre é doméstica na cabana, se for rico é doméstica no palácio.

Tecnicamente, as histórias activam os neurónios espelho. O ouvinte é passivo a nível dos neurónios, mas activo nos neurónios espelho e ao visualizar a história está a incorporar sequências instrutivas.


Uma boa história é o inimigo nº1 do aborrecimento e o amigo nº1 do interesse:



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