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sábado, 13 de julho de 2013

Cangurus, Bebés e "palmada de leite"


O novo ser quando nasce precisa sempre de algum tempo para se adaptar ao exterior e ter condições de autonomia na sobrevivência. Pode ir de alguns minutos/horas até dias/meses/anos. Todas as espécies criam condições e recursos para isso ser possível.

No caso dos cangurus, depois do nascimento, a cria entra "autonomamente" na bolsa abdominal na mãe, onde existem glândulas mamárias, e onde fica durante alguns meses até se "governar" sobrevivendo sozinho cá fora.

Nos humanos, o recém nascido é mais depende e incapaz de autonomia durante mais tempo. No dizer de alguns sócio-pedagogos "nascem imaturos", precisam de um útero social para acabar a gestação.

O canguru precisa de um útero bio-exterior, ligado à mãe.
O ser humano precisa de um útero sócio-exterior, ligado ao grupo.


Mesmo nos animais não-humanos, há espécies onde a programação social faz parte da sua operacionalidade pois caçam em grupo: lobos, leões, hienas, ou comem juntos: cavalos, vacas, macacos, enquanto outros apesar de actuar solitários (tigres, águias, tubarões) mantêm uma certa "paz" social com os da mesma espécie quando se encontram.

O ser humano é a única espécie que mata (outra espécie ou a mesma) à distância e escondido do opositor, pois mesmo a cobra cuspideira  quando o faz (2 metros??) é na próximidade e à vista do outro.

Segundo os teóricos, sobre a pré-História (3,5 milhões de anos) podem-se tirar conclusões a partir dos primeiros objectos encontrados, por exemplo,

instrumentos de sílex com função de facas, lanças, machados foram permitir libertar a motricidade da mão e desenvolver o córtex. A luta pela sobrevivência entre a colecta de frutos e a caça é o motor da sociedade humana.

No período Clatonense, os instrumentos são cada vez mais afiados, a luta e a caça são dominantes na espécie humana. Nasce o poder como um primeiro sintoma "natural" do progresso civilizacional.





MAS, pensando no canguru e nos bebés, pode haver uma outra pré-História. 



Talvez, outros objectos tenham também existido, feitos de materiais deterioráveis que não duraram até hoje, e que podem basear outra teoria.
O primeiro sintoma civilizacional pode não ter sido a luta e o poder, mas sim o apoio e a partilha. 

Na verdade, o bebé antes de lutar e caçar precisa de comer e beber e não o pode fazer sozinho. Os "outros" precisam de o ajudar e para isso necessitam de instrumentos de partilha: recipientes/tigelas.



Temos assim, duas rotas culturais e civilizacionais: luta/poder versus apoio/partilha, e consoante a sua opção pode surgir uma educação cultural de moral e ética de autoridade sobre os outros ou de cooperação com eles. Em resumo:


Destas duas "rotas" civilizacionais em que ponto do caminho é que as dominâncias se definiram ??? Possivelmente, nunca teremos a resposta, mas o que se sabe é que elas ainda hoje se entrechocam:

- Países: política de Guerra ou política de Paz ?
- Partidos: Ganhar o Poder ou Cooperar nos Problemas ?
- Empresas: Autoridade-Obediência ou Participação-Colaboração ?
- Escolas: Pedagogia Directiva ou Eco-Pedagogia ?

- Famílias: Educando com, ou sem "palmada de leite" ?

Algumas perguntas interessantes aos que já foram pais:

-  Quando é que passaram a fronteira do "Apoio-partilha" para  "Luta-poder ? 

-  Que idade tinham os filhos quando levaram a primeira "palmada de leite" ?  Logo ao nascer para chorar ?
                (PS- nunca vi uma cadela morder a cria quando nasce para ela ganir !!!)

- Quando surgiu a primeira "palmada de leite" (física/psicológica)? 3 Meses?  6 meses? 1 ano?

"Palmada de leite" é o nome diplomata nos primeiros meses/anos de idade para a "palmada pedagógica" .
"Palmada pedagógica" é o nome diplomata na infância e pré-adolescência para o "estalo educativo".
"Estalo educativo" é o nome diplomata na adolescência para o "castigo corrector" .
"Castigo corrector" é o nome diplomata na violência doméstica para lutar-dominar.







Nesta linha cultural há um livro que me "deliciou", essencial para as mulheres e necessário para os homens, que aconselho a não perder, escrito por um chefe de cirurgia laparoscópica (ou minimalista) do Centro Médico de S.Francisco e que entrou pelo campo da antropologia sociológica.

The Alphabet versus the Goddess
(The conflit between Word and Image)

Leonard Shlain

Ed. Viking, Penguin Group, 460 pag.

domingo, 7 de julho de 2013

Estudar bem e a técnica C.W. (Climbing Way)


Estudar é como fazer escaladas.

Qual a diferença entre subir uma escarpa ou subir uma parede de treino se, para ambas, o esforço físico e mental é o mesmo. ???



A diferença está em que o processo mental não é o mesmo apesar do método e esforço serem iguais pois, em ambos, se escolhem e utilizam os apoios mais eficazes para realizar a subida.

Porém, o FCS (Factor Crítico Sucesso) localiza-se em pontos diferentes:


NA PAREDE, escolhe-se entre o que existe e o foco é decidir a melhor utilização dos apoios pré-construídos.

A motivação é conseguir a "melhor adaptação do esforço ao caminho". Os apoios são seguros, não se calculam riscos, a decisão dos trajectos possíveis está feita, portanto, o desafio está em: - "Serei capaz ?" .

A mente vira-se para o interior, concentra-se nas decisões de gerir o esforço anti-fadiga.



NA ESCARPA, escolhe-se entre o que existe mas apenas o que poderá ser apoio. Nada está pré-definido, riscos têm que ser calculados para a decisão tomada de... "se isso servirá ou não como apoio". O trajecto é criado no momento, por decisão pessoal.

A motivação é conseguir ter a "criatividade correcta de inventar o caminho". Os apoios não têm garantias prévias, dependem da justeza da opção. O cálculo de risco é fundamental, a decisão baseia-se nos detalhes seleccionados, portanto, o desafio está em: - "Isto servirá ?"

A mente vira-se para o exterior, concentra-se nas vantagens e inconvenientes das possiveis decisões.

Subir uma escarpa com apoios/itinerários marcados é como escalar uma parede de treino, pensa-se da mesma maneira. É como nadar na piscina e a seguir no lago, é o mesmo.

Porém, ao subir uma escarpa "em aberto" os problemas mudam de sitio, não se pode pensar do mesmo modo. Nadar na piscina não é o mesmo que nadar no mar aberto com vagas, os movimentos são os mesmos mas o pensar é diferente.

O pensar do estudo não é "o pensar" de subir uma parede de escalada, pelo contrário, exige "o pensar" de subir uma escarpa desconhecida. À semelhança desta, o fundamental é a preocupação de decidir bem o apoio que selecciona, é a decisão certa sobre o que acolhe e o que abandona. Na escarpa decidir mal e esforçar-se bem ...é queda certa, no estudo decidir mal e esforçar-se muito… é falhanço certo.

O factor crítico para estudar bem é fazer decisões certas sobre a informação que usa para compreender e a inútil que abandona. Quando os critérios estão trocados "usa a errada (inútil ou prejudicial) e abandona a certa" significa que vai pensar mal, criar relações erradas, compreender com defeitos. Esforçar-se nos "bugs" é potenciar estruturas mentais inoperantes é cair para dentro da ignorância.

Estudar bem não é um problema de esforço, nem de vontade, é um problema de decisões lúcidas sobre os "bits" de informação escolhida para construir o caminho pessoal para a compreensão. 

Estudar não é compreender...é criar compreensão. Compreender não é a essência do estudar, é a sua consequência.

Para a compreensão ser criada o processo tem que começar com informação já com significado para quem a constrói, não lhe pode ser estranha pois será inútil, não enraizará compreensão. 

Á semelhança da escarpa o caminho tem que ser pessoal, os apoios só serão apoios se foram utilizáveis. Se as palavras sublinhadas têm significado para quem as sublinhou mas "nada dizem" a quem as lê, não são informação, são lixo. Muitas das ajudas deste tipo não são apenas lixo, são micróbios que "apodrecem e deturpam" as compreensões.

Em conclusão, quem estuda tem que estar a 100% "dono" do processo de criar compreensão, de estudar. Na verdade, estudar não é um problema de "esforço cego", é um problema de "decisões lúcidas" sobre o que naquele momento convém utilizar para aumentar a compreensão. Não se pode ser "empurrado", tem que se estar "apetente".



Trabalhar duro cria personalidade forte,

…é verdade, … a personalidade estúpida!


Trabalhar lúcido cria personalidade forte,

…é verdade,… a personalidade inteligente!





C.W. (Climbing Way) O caminho do escalar

Estudar é como escalar, é construir apoios para caminhar no desconhecido, um para subir e o outro para saber. Parte-se do pouco que se sabe para chegar ao muito que se pode saber.

Ambos têm que começar com detalhes que sejam significativos, isto é, que já existam numa rede de "compreendidos". Eles vão ser o apoio para a ponte com os detalhes seguintes, de modo a estes serem também "aceites nesse rede". 

Alguns pedagogos chamam a esta transformação o fenómeno "AHh..!, AHh..!, AHh..!", ou seja, o momento em que a compreensão nasce. Nas crianças e nos jovens este momento tem normalmente sinais não verbais claros.

Deste modo, um caminho pessoal é construído (trilho na escalada, lógica no estudar) permitindo caminhar até ao topo ou até ao conhecimento. Os processo e os raciocínios de escalar e estudar são semelhantes.

Uma criança estuda um gato...
… aprende o que ele é,
constrói conhecimento e
depois não o confunde com um cão!!
O método é simples, é "Caçar Detalhes" do gato que lhe despertam a atenção (são significativos), ligá-los a outros e obter um conjunto de "bits" em rede que lhe dá um SABER VIVO, susceptível de comparar com outros bits diferentes (???diferente de cão???) para nele se integrarem e obter uma nova compreensão.

O saber decorado ou unido por reflexos condicionados é um SABER MORTO, funciona como uma "manta de retalhos" sem significado.

Além de simples, é um método natural que ele sabe fazer (não precisa ser ensinado), é uma pré-aprendizagem que traz à nascença.

Como é analfabeto, estes métodos têm a dominância da cultura analfabeta (ver "La cultura analfabeta" de Gualtiero Harrison, Matilde Galli, 1972), mas tarde, se alfabetizado, são "amalgamados" (integrados ou canibalizados) pela cultura alfabeta que os pode contaminar, melhorar ou injectar "ruídos" (conteúdos ou processos) prejudiciais.


CAÇAR DETALHES, CONSTRUIR O TODO

A cultura analfabeta e a cultura alfabeta 


O analfabeto e o alfabeto não funcionam do mesmo modo.

O "modo" analfabeto cria instantaneamente uma visão do Total (a criança vê logo o Todo que é o  gato) e depois vai procurando Detalhes significativos (onde gasta muito tempo), vendo pormenores. Começa pelos que despertam mais atenção e continua até esgotar a curiosidade. Deste modo cria um caminho lógico pessoal na construção de uma rede de significados que lhe permite alcançar o topo, a significância global: o conhecimento "gato".

Pelo contrário,

O "modo" alfabeto começa por recolher um sucessão de Detalhes (onde gasta muito tempo), por ex., lendo uma sucessão de palavras, e no fim juntando todos esses "bits" absorvidos constrói o Todo (a significância global), obtendo a compreensão das palavras juntas.

As metodologias não são as mesmas. A primeira baseia-se no estilo "hemisfério direito" e a segunda no estilo "hemisfério esquerdo".

Exemplo,

Columbano, séc.XIX
Para compreender este quadro (estilo hemisfério direito) começa-se por olhar o "todo" mas sem ver "detalhes", o que é feito instantaneamente, isto é em "tempo zero". 
É assim obtido um significado global, quer pensado quer (e/ou) sentido.

Depois segue-se a "caça" aos detalhes, cuja ordem é pessoal em função de ideias prévias, afectividade, impactos, sintonias e des-sintonias mas sem regras pré-estabelecidas, apenas ao sabor e ao prazer do "caos" pessoal. 

Obrigar a regras para ver um quadro do tipo a) primeiro: identificar o estilo-época; b) segundo: analisar traços-cor; c) terceiro:... etc) é apenas matar a dinâmica da compreensão que é sempre a outra face da implicação pessoal. É como querer compreender e ficar apaixonado vendo, numa ordem correcta,  radiografias do esqueleto de uma pessoa.

A compreensão não se obtém assim. Cada um tem que começar e continuar por onde "sente conexão", construindo o seu próprio caminho em direcção a "um significado para si...possível". Depois é um desbravar contínuo a partir desse ponto de chegada cujo valor é ser ponto de partida.

É um constante oscilar entre o "esboço do total" transformado pela "nitidez do detalhe" até alcançar o "total-nítido". O processo continua a ser simples, pois todos os detalhes vão-se unindo ao já-compreendido, a partir da imagem obtida no esboço inicial. 

PS - Aliás, deve ser esta a lógica da construção dos programas escolares para anos sucessivos na Matemática, História, Física, etc.

Assim, a dinâmica todo-detalhe estabelece-se e a rede constrói-se trazendo consigo a compreensão. O estudo está feito porque está criando compreensão.

No caso da criança e do gato, todos os detalhes fazem rede com o já compreendido (aquela "coisa" ali à frente) e a lógica vai sendo construída mediante os "AHh..!, AHh..!, AHh..!"'s sucessivos que ela vai tendo descobrindo detalhes.

Ensinar uma criança é passear
com ela pelos pormenores da vida!

Domesticá-la é dar-lhe regras
para treinar com o passeio!



Uma experiência com o quadro do Columbano:

Duas pessoas vêem o quadro e escrevem os seus 1º, 2º, 3º detalhes observados.
Depois de o fazer escrevem o tema do quadro.

Há menos de 50% de probabilidade de os detalhes e/ou a sua ordem serem iguais, mas há mais de 50% de probabilidade do tema compreendido ser o mesmo ou muito semelhante, tipo "um jantar de amigos no restaurante".

Se se retirar o quadro e perguntar porquê essa conclusão, em mais de 50% dos casos, ou não sabem em que detalhes se basearam, ou esses detalhes são diferentes. Cada um fez o seu próprio caminho.

O interessante é que os detalhes importantes para essa conclusão que são o avental do criado e os restos da comida na mesa e esses detalhes têm uma alta probabilidade de "não estar conscientes".


Ler um texto é diferente.

Vê-se os detalhes com uma ordem rígida, do início para o fim. A visão do Todo é construída depois desse caminho e leva tempo mais longo ou mais curto, ou seja, não é instantânea, é temporizada, e essa visão só é possível saber depois desse caminho percorrido.

Em resumo, ler um texto é seguir, não um caminho pessoal, mas o caminho obrigatório definido por quem o escreveu e, ao obedecer, fazer o esforço para aproveitar o que está pré-determinado para ser aproveitado. 

Já existem livros com mais graus de liberdade, isto é, uma espécie de parede de escalada com vários percursos à escolha. 
Por exemplo, o livro "Fogo sobre a água" de Joe Dever & Gary Chalk, Difel, Lisboa, permite durante a leitura escolher, entre diferentes continuações propostas, a história que gostaria que acontecesse, indo  para a página respectiva e continuando a partir daí, construindo assim o seu próprio livro.


A construção do "Todo" na leitura

Há uma grande diferença nos raciocínios de "saber ler" e ser "leitor".

Essa diferença está na maior ou menor capacidade de percepção do Todo (a compreensão da estrutura) com base no processo temporizado da sucessiva captação da informação por leitura sucessiva de palavras. 

Na verdade, os leitores têm essa capacidade muito desenvolvida e operacional, enquanto que os que apenas sabem ler têm-na muito incipiente.
Exemplo,

Para compreender este anúncio basta saber ler.

Só é preciso juntar na mente 19 palavras, e seus significados, para TODA a estrutura lógica se tornar imediata. 
Se for semi-alfabeto levará mais tempo pois precisará de ler tudo do princípio ao fim mas, se não for, poderá saltar algumas palavras e construir a sua compreensão, apenas com meia dúzia.

MAS...


… para ler a Guerra dos Tronos já não pode apenas saber ler, tem que ter também as aptidões de leitor.

A saga são 5 volumes contendo 4.120 páginas, ou seja, cerca de 2 milhões de palavras (500 por pag.) para relacionar e integrar numa estrutura lógica que possibilite a compreensão da história (o Todo).
Esta compreensão envolve a percepção de múltiplas relações entre cerca de 400 personagens com nomes estranhos.

No 1º volume, 200 personagens vivem e interagem numa trama de 335.000 palavras em 670 páginas em que o leitor precisa de, sucessivamente, absorver, memorizar, relacionar e por fim estruturar numa rede de conexões lógicas. Um semi-alfabeto vai ter muita dificuldade

Depois é preciso manter presente na mente essa estrutura inicial enquanto agrega os restantes detalhes dos restantes volumes para obter a compreensão total da saga.

Este aumento significa criar na estrutura existente mais relações com cerca de 50 novos personagens por volume. Isso é obtido por absorver, memorizar, relacionar e por fim estruturar a aquisição de mais milhão e meio de palavras a serem LIDAS até ao fim dos 5 volumes.

Esta capacidade de manipulação de grande número de palavras na construção de significados é o que diferencia um "leitor" treinado daquele que apenas sabe ler. 

Quando há esta incapacidade, vulgarmente ela é expressa dizendo: 

 - "Não gosto de ler !"

 …e há razão para isso pois é o mesmo de alguém que, passando a vida sentado, decidisse levantar-se e fosse correr uma maratona. Se for consciente não irá e inconscientemente dirá... 

- "Não gosto de correr !".


Em resumo:
Estudar é criar compreensão não é compreender, pois
compreender é o que acontece DEPOIS DE ESTUDAR.

Criar compreensão é relacionar detalhes com estrutura, ou seja, relacionar pormenores com o "Todo" que os contém e onde adquirem significado para quem os pensa.



Einstein pensando (estudando??)

Na compreensão com o hemisfério direito (imagem) o "Todo" é o conjunto que aparece primeiro e está sempre à vista (o gato, o quadro, um gráfico, etc) disponível para os detalhes se relacionarem entre si e com ele. 

Na compreensão com o hemisfério esquerdo (texto) o esboço da estrutura só aparece depois da absorção de detalhes significativos e estes só se tornam significativos primeiro em relação ao leitor e depois em relação à estrutura que ainda não existe. 

Este é o problema da compreensão pela leitura, modo predominante de estudar na escola para pessoas que AINDA NÃO são leitores, mas apenas sabem ler.



Quem os ensina a estudar parte do principio que, pelo facto de saberem traduzir sinais gráficos (palavras) em ideias (ler), são leitores, isto é, são capazes de construir, a posteriori, estruturas lógicas e significativas de um "monte" de palavras lidas, a priori.

Isto não é verdade, pela mesma razão que não se é um corredor pelo facto de saber correr pois, por ex., pode ainda não saber controlar o "steady state" energético. 

Infelizmente, muitas vezes isto é esquecido nas aulas de Educação Física para crianças, do mesmo modo que também nas aulas de Educação Letrada para crianças se esquece que eles ainda não são leitores.

A Técnica C.W.


O seu ponto de partida também é simples:

Em vez de funcionar na forma rectilínea do principio ao fim, funciona por ciclos sucessivos.

À semelhança do escalar, seleccionam-se pontos de apoio a partir do que se conhece, constroi-se um primeiro troço, procuram-se outros apoios para com este troço se relacionarem e vai-se repetindo até ao fim. 

A escolha dos apoios não é o que serve a outrem, nem o que é melhor (?) ou importante (?), mas sim é o pode servir de apoio ao próprio para criar compreensão e só a partir dele, e com ele, se podem definir. É sempre um caminho pessoal. 
A frase indicativa de sucesso é: -"AHh! AHh! … isto para mim faz sentido !"


Um exemplo com a noticia da

descoberta de uma nova espécie de seres vivos, a Viola Lilliputana, cuja resumida descrição se apresenta a seguir.

Podemos estudá-la de duas maneiras:

1 - de forma Contínua 

lendo tudo do principio ao fim, com o estilo de "saber ler" ou "leitor", sublinhando o que se considera "importante" e salientando o que é para saber, gastando nisso muitos minutos:


ou

2 - de forma Cíclica

"Bisbilhotando" rapidamente todo o texto sem se fixar em nada, nem tentar "digerir" os seus conteúdos, procurando apenas detalhes que "saltem à vista" (que tenham significado), o que é possível em menos de um minuto. 
Se tal for feito, serão "caçados" apoios que permitem uma primeira estrutura/compreensão e possibilitam um 2ª ciclo mais rentável.



Como exemplo, por este método (vide realçado a verde) em 30s encontram-se dois detalhes que permitem a compreensão de que é um vegetal e não um animal e que tem grande raridade mesmo nos Andes. Com base nesta conclusão e considerando o nome poder-se-á arriscar o palpite de ser flor, uma "violeta". 

Esta conclusão de 30s será o arranque para um 2º ciclo de criação de compreensão, agora já será orientado na área da Botânica.

Por ex., a compreensão alargar-se-á com a informação que a espécie pertence ás "vasculares do alto dos Andes" (pode não saber o que é, mas poder-se-á pesquisar integrando o resultado no esboço compreensivo de "vegetal), onde é "endémica", etc.etc etc.

O tamanho, a duração e a quantidade de ciclos necessários SÓ depende de quem lê (ser mais ou menos "leitor"), do seu background cultural e técnico na matéria, dos suportes e métodos mentais que já possui e do seu domínio da técnica C.W. 

Noutro exemplo, se quem lê o texto da Viola Lilliputana for um Botânico ele será mais profundo em menos tempo do que um leigo. Precisará de menos ciclos e serão mais rápidos, mas depois o leigo poderá ultrapassá-lo. Há casos de inventores hoje célebres que começaram como leigos e ultrapassaram os técnicos.

É aqui, no interface hemisfério direito-hemisfério esquerdo que a cultura letrada pode ser uma ajuda eficaz e preciosa se se adaptar. Hoje, este interface está desenvolvido, existe software de apoio, e ensina-se nas escolas, como também se ensina nas escolas a correr com mais eficácia, apesar de saber correr, ou seja, também se pode ensinar a pensar.

Como ex, para tirar apontamentos dos estudos feitos, em vez de se usarem registos verticais (estilo livro ou lista de compras,..) característicos dos alfabetos, pode usar-se também técnicas radiais ou popcorn, ou outras, que facilitam e potenciam a construção de estruturas. Por outro lado, os ciclos têm esquemas e métodos que aprendidos permitem a sua rentabilização.


Para terminar, salienta-se que não se lê um romance da mesma forma que se lê um livro técnico. Este método do C.W. está mais orientado para estudo e leitura técnica, mas tanto se usa num texto de 1 ou 2 páginas com ou sem grafismos, como num livro. 

Para um leitor médio, é possível ler/estudar um livro técnico de 200/300 páginas em cerca de 2 horas, sem precisar de a ele regressar, a não ser para consulta esporádica ou aprofundar aspectos específicos, que foram marcados para re-ler.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ganhar ou perder menos ???



Foto pessoal da época
Quando era jovem adolescente treinava ginástica olímpica no Ginásio Clube Português, três vezes por semana, 3 horas.

Este desporto é de competição individual e nele lutamos connosco próprios para alterar pormenores defeituosos e conseguir fazer, nos diversos aparelhos (argolas, paralelas, barra, etc), os exercícios (mortais, piruetas, etc,), quer obrigatórios, quer de escolha pessoal.

O treino decorria em grupos aleatórios que, por motivações próprias, escolhiam os aparelhos de começo e depois iam circulando por todos os outros até acabar. Em cada local, cada um decidia o que treinar entre os obrigatórios e os facultativos. 

Éramos os donos do nosso treino. Na verdade, treinar um mortal na barra fixa, não é um problema de "esforço cego", é um problema de controlos por "decisões lúcidas", não se pode estar "empurrado", tem que se estar "apetente".

Em cada grupo todos nos ajudávamos, quer com "dicas" técnicas, quer na segurança física de evitar quedas. O professor era um "outro" de nós com mais experiência e conhecimento que nos ajudava e propunha, por sua iniciativa ou a pedido.
A própria intensidade, a duração e até o tipo de treino (exercícios, fortalecimento físico ou ficar só a ajudar os outros), era opção nossa em função de como nos sentíamos nesse dia. Era o que hoje se chama uma cultura de "person", e não "people", em treino. As decisões apesar de partilhadas e comentadas eram nossas.

Para os campeonatos, os treinos eram feitos com a ajuda de todos e todos tentávamos que cada um conseguisse a melhor nota possível. Nas próprias competições isso acontecia. Ficar em segundo com nota elevada dava mais alegria do que em primeiro com nota baixa. O nosso problema não era  ganhar aos outros, era ganhar a nós próprios.

Hoje percebo que na prática, na minha adolescência, fui mergulhado numa cultura desportiva particular. Posso não ter sido um óptimo ginasta, mas agradeço a formação cultural que tive, pois penso ter influenciado o resto da minha vida.

Porém, no Clube acontecia às vezes um evento que se contrapunha fortemente a esta cultura. Não entendíamos a discrepância, para adolescentes apenas surgia como uma curiosidade que nos espantava.

Uma vez por mês, de repente, aparecia entre nós um aviso - "Estão cá os malucos", o treino parava e íamos ver.
Tudo se resumia a dois senhores, 40/50 anos, muito bem vestidos e formais que, bem equipados, iam para a sala da esgrima mas de tronco nu e com espadas de metal.
Durante uma hora, jogavam esgrima e, consoante o resultado de ataques e defesas, o tronco de cada um ia ficando com vergões e cortes.
Quando acabavam, tomavam banho e a seguir, com uma vareta com algodão e mercúrio-cromo, tratavam as feridas e vergões um do outro. Eram contadas religiosamente e o que tivesse menos marcas ganhava, iam jantar e quem perdia pagava.

Para nós isto parecia uma história de malucos que não perdíamos. Até o nosso professor, na época um ginasta finlandês contratado, assistia um bocado admirado.

Hoje percebo que o que estava em causa eram duas culturas em choque, ou seja, desporto com competições WIN-WIN versus desporto com competições LOOSE_LOOSE. Era uma cultura espantada a olhar para outra. 


Devia ser o mesmo choque cultural que os índios Algonquim tiveram quando contactaram com os europeus que lhes "venderam" a ilha de Manhattan por 60 florins (24 dolares). 
Para os europeus o "SIM" deles significava - "…Sim, troco a ilha pelo dinheiro". 
Para os índios Algonquim cuja cultura não continha a posse de terras, talvez significasse apenas - "SIM, aceito essas prendas bonitas e redondas"… pelo que depois não percebiam porque não podiam voltar à ilha. Os SIM's não eram os mesmos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Apaixonados, ou apenas…faíscando ???



Nós SEMPRE fomos uma espécie de bateria biológica, mas a descoberta começou com uma rã.

No século XVIII, quando Luís Galvani e seus assistentes dissecavam uma rã, por acaso tocaram com metal no nervo ciático e o músculo da perna contraiu. Isso acontecia sempre que se produziam faíscas numa máquina electrostática próxima. 
Luís Galvani investigando o "inesperado" da relação electricidade-músculo entrou no mundo da bioelectricidade.

A partir daí a electricidade instala-se na Ciência como um processo natural do organismo, fazendo parte do funcionamento de todo o corpo, em especial do cérebro. Cada pensamento surge como uma sequência de impulsos eléctricos no córtex, através da autoprodução de impulsos eletroquímicos nas suas células.
Somos uma espécie de "Árvore de Natal" cheia de faísquinhas por todo o lado.

No século XIX o Físico Hans Oersted descobriu que uma corrente eléctrica produz um campo magnético, resultados esses depois desenvolvidos por Ampére para formular a "Lei de Ampere" que relaciona os dois fenómenos.




Se o nosso córtex trabalha com correntes bioeléctricas então produz também campos "bio"magnéticos que nos acompanham enquanto vivemos e que andam por aí interferindo uns com os outros. 
Nós não sentimos, mas entre a irritação e a alegria, as correntes variam no córtex e os campos magnéticos alteram-se, pelo que as suas interferências mudam, criando variações nos sincronismos e nos des-sincronismos existentes, e influenciando-se uns aos outros. 

Os "Romeus e as Julietas" podem ter "amores" de vida curta nos seus sincronismos e os "Rometas e as Julieus" podem passar do "ódio ao amor" em curto espaço de tempo. As "histórias de amor" acabam por ser apenas Poesia aplicada à "Física de Interferências Electromagnéticas" e suas variações.

No século XIX, Hertz cria as primeiras antenas de produção de ondas electromagnéticas. Hoje, as antenas são o último "degrau" para saída do sinal a divulgar e o primeiro degrau para a entrada na recepções de sinais.

Na prática, todos somos antenas ambulantes de "rádio-amadores" clandestinos que andamos por aí a invadir as frequências uns dos outros, enviando e recebendo mensagens "à balda", "sem rei nem roque", numa completa anarquia…felizes e contentes. 
A boa noticia é que não há "big brother" que consiga controlar esta "internet biológica": os "Romeus e as Julietas" hão-de sempre encontrar-se, ou seja, no português mais tradicional… apaixonar-se empanturrados em frequências sintónicas.
Quando sentirem que são um "Rometa" a odiar uma "julieu", ou vice versa, não façam nada, sentem-se e esperem que as frequências, de um ou de outro, mudem.



Estive a ler uma interessante Tese de Doutoramento em Medicina do Dr. R. Peoc'h, da Universidade de Nantes, 1985-86, França.

Na linha das experiências de K. Lorenz, desta vez ele "educou" pintos para adoptarem um robot (Tychoscope) como a sua galinha-mãe.
A base da Tese é o estudo da Psicofísica, "...o estudo das interacções existentes entre o psiquismo dos seres vivos e acontecimento físicos."



O Tychoscópio, modelo OS1, é um cilindro com 8cm diâmetro e 9 cm altura, e "…desloca-se no solo em todas as direcções e ao acaso, devido a um gerador de impulsos aleatórios", foi construído por um técnico de electrónica, eng. JANIN.
Possui uma "caneta" que traça num papel o percurso que faz. 

Funciona em presença de obstáculos, desvia-se deles, pois com 3 rodas independentes se uma não puder continuar parará e as outras o impulsionarão para outro lado.
Os pintos foram "educados" utilizando um pré-condicionante à nascença: "o que vêem à saída do ovo é a galinha-mãe". Assim:
1 - logo que nascem vêem o Tychoscópio;
2 - nos dias seguintes, pintos e Tychoscópio deslocam-se livremente, este aleatoriamente e aqueles seguem-no, obedecendo ao pré-condicionmento existente: seguir a galinha-mãe.


É criado um recinto da experiência constituído por uma caixa limitada por paredes e onde o Tychoscópio se desloca. O fundo tem uma folha de papel onde é registado o percurso do robot.


Na fase experimental, a caixa passa a ter um dos lados em vidro, através do qual os pintos assistem aos movimentos do robot.



Com a sua presença, o comportamento do robot perde a aleatoriedade, ou seja, passa a movimentar-se na área junto aos pintos.
A hipótese em causa é a seguinte: os pintos influenciam o comportamento do robot.

Ao ansiarem por ir para o pé da suposta galinha-mãe devem criar, com a alteração da bioelectricidade nos circuitos neurais, um campo electromagnético característico que influencia o aleatório do robot.

Estas investigações talvez ainda estejam no princípio, mas com a alternativa das ondas electromagnéticas influenciarem o comportamento dos seres vivos, o que parece confirmar-se com aves, peixes e outros animais, talvez o animal-humano tenha que repensar os seus processos de gerir relações. 

A "relação apaixonada", que parece estar em primeiro lugar como mais importantes e frequente, tem que adquirir apoio tecnológico.
Está na altura dos "Casanovas", conselheiros matrimoniais, terapeutas familiares, bruxas, Tarot, namorados, namoradas, maridos e mulheres, donos de discotecas, etc, se deixarem de "antiguidades", se modernizarem, e comprarem um detector de frequências.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Kakuro, um desafio pessoal a "pinçar"



Algum tempo atrás descobri o Kakuro.
As minhas primeiras tentativas no nível "very easy de 10x10" exigiram-me entre 1 a 2 horas.
Neste momento, depois de ultrapassar os níveis "easy" e "medium", consigo em 20 a 25 minutos resolver um nível "hard de 10x10".
Vou agora aventurar-me no último nível, "devious de 12x12", e estou a preparar-me para ao fim de 2 horas ainda não o ter resolvido.

UM KAKURO:




Porém, a par do desafio do kakuro, resolvi criar um desafio pessoal. Descobrir qual a transformação pessoal que teria possibilitado o meu progresso…e penso que descobri, pelo menos um detalhe.

Comecei por procurar o que me atrai neste jogo, a ponto de estar horas seguidas a pensar números, e qual o progresso que tive para poder jogar cada vez mais rápido. Ao mesmo tempo, procurei saber porquê e quando desistia do jogo. 

A porta de entrada foi procurar o que estava sendo mais fácil e rápido. Se o descobrisse talvez conseguisse "pinçar" a ligação neural que tinha sido criada e potenciada.

A base do jogo é simples.

É uma espécie de palavras cruzadas com números. 
Cada quadrado tem um algarismo de 1 a 9, em que cada um somado com os da mesma linha dão o número indicado à esquerda, e somados com os da mesma coluna darão o número indicado no topo.
O que acontece é que para cada número, em função das parcelas que a soma vai ter (i.é.,quantidade de quadrados),  existem várias probabilidades para o fazer. O difícil é o encaixe das probabilidades umas com as outras, até se encontrar a única que pode ser.
No fim só há uma solução.

Ex. para o número 6 (sinais verdes na figura anterior):



O número 9 por exemplo, está condicionado por ter uma parcela (a verde) de 1, ou 2, ou 3, portanto a assinalada a encarnado só pode ser 8, ou 7, ou 6. As suas probabilidades foram reduzidas.

Em resumo, 

parece a teoria quântica e o modelo social e político para o século XXI:

- Tudo está relacionado com tudo.
- Tudo depende de tudo.
- Tudo tem vários graus de probabilidades.
- Todas as probabilidades se têm que sincronizar e harmonizar entre si.
- Cada elemento vale por si e pela sua integração no conjunto.
- Cada elemento é definido pela origem e condicionado pelo contexto.
- Todos os contextos se integram entre si.

Aprender a pensar aqui é aprender a pensar na dinâmica social e política do século XXI.

A questão que se me coloca é quais são as conexões neurais que preciso potenciar. 
Hoje sei que o factor critico de sucesso é raciocinar sempre em função do conjunto: nada vale em si, só vale pela relação que tem com o contexto.

Não é fácil fazê-lo, obriga a pensar não com base "posicional" mas "relacional", um pouco ao estilo japonês. Descobri que, para mim, é hoje bastante mais fácil. Abandonei a rigidez "do-que-é" e adquiri a segurança do fluir "vai-para".

Por outro lado, obriga a ter o que nas crónicas antigas chamavam o pensar de marinheiro, ou seja, estar a ver sempre  ao mesmo tempo o barco, o mar e o vento... e nunca só um. Por outras palavras, obriga a ver sempre o detalhe, o global e como se relacionam.

Hoje consigo resolver um kakuro a partir de várias probabilidades pensadas em conjunto. É o que sinto ser-me mais fácil. Sem saber como, há probabilidades que "esqueço" e outras que se mantêm "vivas", é como se a memória criasse prioridades devido às relações existentes.

Quando jogava xadrez, lembro-me de um dia um bom jogador me dizer que tinha que ver sempre o tabuleiro todo e cada uma das peças. Acrescentou sorrindo…o tabuleiro passado e o futuro. Isso acontece-me agora no Kakuro.

O kakuro não são quadrados para pôr algarismos, são sequências que se integram e desintegram. 
Olhar para um 7 com 3 quadrados o que vejo são conjuntos de 1, 2, 4; um 10 com 4 quadrados é pensar com 1, 2, 3, 4 e assim sucessivamente. Isto facilita-me pensar relações e não posições.

Em relação à minha motivação, a conclusão foi que ela é intensificada:

- positivamente - pela alegria que tenho quando juntando 3 ou 4 sequências consigo descobrir que, para satisfazer  os quadrados comuns, eles só podem ter um determinado algarismo.
- negativamente - pela raiva que tenho quando não descubro um impasse e sei que está tudo lá, eu é que olho com os olhos e com a mente não vejo.