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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O amor e os haiku's


Um passeio mental pelos haiku's e pelo amor.

1 - Mote

Como aviso aos desconfiados, haiku não é um novo truque pornográfico para o amor, é um poema tradicional japonês muito especial, pois tudo é dito em 17 sílabas, agrupadas em 3 conjuntos de 5+7+5: 

Ochi kochi ni
tachi no oto kiku
wakaba mana

Apesar de eu não saber japonês, há muito tempo que é um dos meus hobbies favoritos, socorrendo-me de traduções "aproximadas" e explicações culturais, tentando "sentir" os seus subtis "toques" de sensações inesperadas... como em qualquer outra poesia. 
Ouvir em alemão uma poesia de Florbela Espanca não é a mesma coisa que ouvi-la em português, mesmo que se entenda o alemão.

As crianças sem saber inglês, se cantam uma canção inglesa gostam de fazê-lo em inglês, eles sentem que se traduzirem perde-se muito na tradução, portanto, fica sem graça, não tem ritmo, não tem emoção.

A "Tradução" é o segredo do êxito e fracasso de amores, paixões e haikus. A diferença dos haikus para a poesia comum é que eles levam até aos limites a importância da cultura instalada para serem "lidos", tal como o amor.
Mesma mensagem, diferente significado
Mesmo quando as traduções são boas são sempre incompletas e com bugs. Tudo se baseia em "ditos" (verbais ou não-verbais) emitidos e recebidos, nunca sendo eles os mesmos a 100%.
O importante não é o que se diz e se ouve, o importante é se o significado emitido pelo "dito" é o mesmo significado que o "dito" provoca.
Um exemplo de "ditos" e diferentes significados produzidos:


(in "Lost in translation", 1 oscar, 97 vitórias (wins), 127 nomeações)

2 - Haiku

Quer o haiku quer o amor ambos vivem de mensagens pequenas e discretas mas de efeitos grandes e inesperados onde tudo se ganha e tudo se perde na tradução do "dito para o significado".

Os amores têm um paradoxo curioso pois no seu início as "traduções do significado" são melhores do que no "quarto minguante" pós "lua de mel". 
No início, quando um quer algo o outro percebe logo, a linguagem não-verbal (e verbal) funciona bem com as hormonas a traduzir. Mais tarde as traduções ficam cheias de bugs, na gíria chama-se "falta de comunicação" em que a frase mais vulgar nesta etapa é [...o que disse... NÃO FOI ISSO!!! ] e o divórcio aparece .

Por outro lado, nos "amores longos" parecem ser irmãos gémeos, entendem-se rápido sem frases ou por meias palavras, com traduções instantâneas perto dos 80-90%, e os toques corporais são vulgares e constantes. Com o divórcio já no horizonte, os toques (strockes) corporais só aparecem por dever conjugal ou pressões hormonais.

É interessante pensar no amor comparando com o processo dos haiku's. 

Para saborear um haiku é preciso saborear um nível escondido de compreensão. Dizer muito num jogo de significados para criar uma emoção inesperada apenas com 17 silabas distribuídas 5+7+5... não é fácil.
A sua base é semelhante à de qualquer poesia pois precisa detonar emoções já instaladas no senso comum cultural.

Quando li a "Morte e vida Severina" do poeta brasileiro J. C. Melo Neto, fiquei encantado pois a dança das palavras com o entrelaçar dos seus significados eram para mim perfeitamente claros. Conclui que o brasileiro era também a minha língua.  

Estando na época em Cabo Verde e morando no Mindelo com vários conhecimentos locais, comecei a procurar letras de mornas escritas em crioulo, foi um mundo novo que descobri. Tive a sorte de conhecer Cesárea Évora com seus vinte anos e ouvi-la cantar.
Realmente uma morna em crioulo não é uma morna em português, tem um sabor diferente... intraduzível. O truque de ter previamente "apreciado" as letras em crioulo foi muito útil. A consequência foi ficar fan da poesia em crioulo.

As palavras de uma língua fazem parte da poesia, não só pela sua sonoridade própria como pelos significados afectivos e emotivos que trazem consigo. O haiku obriga a levar isto ao extremo para rentabilizar as suas 17 silabas na construção e entrega de significados. Retomando o haiku de inicio:


O ritmo silábico (5+7+5) desapareceu mas, com a tradução, um truque sonoro-afectivo também desaparece.

As 12 sílabas dos dois primeiros versos [Ochi kochi ni tachi no oto kiku] dão o contexto de aqui e ali se ouvir as cachoeiras. Porém se lidos em japonês a sonoridade da lingua cria semelhanças sonoras com o ruído da água a cair nas cachoeiras. O leitor sentir-se-á como se fosse a folhagem jovem a ouvir a cachoeira. 
O texto ao ser traduzido perde a similitude sonora. Parte do haiku perde-se na tradução.

Outro aspecto importante é a intima e fundamental conexão dos versos do haiku com os pacotes culturais já instalados no leitor, as chamadas "carimbadelas culturais" (inprints).

PS- É esta a principal afinidade entre os haikus e o amor, pois o êxito ou fracasso de ambos depende da validade da sua conexão com a cultura instalada em quem usufrui a relação. Uma prenda, palavra ou gesto de amor para quem dá, pode ser uma ofensa na cultura de quem a recebe (ver §3: "Amor"). 

O haiku, para dizer muito e significativo, tem apenas 17 sílabas com a disposição 5+7+5 para o fazer, o que obriga a escolher palavras para além do seu significado. Obriga  que sejam sejam links  culturais (activadores) de emoções e afectos já instalados no senso comum e é aí que todo o jogo vai ser jogado. 

Portanto, se o haiku for traduzido para outra cultura, existe o risco das traduções não conectarem as mesmas afectividades e o haiku não funcionar, ou seja, não activa os significados pretendidos. Numa palavra, é apenas uma sequência de palavras em pobreza significativa.
Eis um exemplo de pobreza significativa num poema ocidental:

Um queria fazer de Mário um sábio, 
outro, um filósofo, 
outro ainda, um patriota, 
outro, um homem de bem, 
outro, um moralista, 
outro, um santo. 
Não foi nada disso. 
Foi um encantador.

OK, é bonitinho... e depois? Qual é o impacto? Qual a surpresa emotiva? Pffff... nada de novo, sendo possível acrescentar mais... futebolista, apresentador TV, fadista, vendedor, etc... a lista é enorme.

O poema é de Ernest Renan mas foi por mim alterado, o verdadeiro é:

Um queria fazer de Jesus um sábio, 
outro, um filósofo, 
outro ainda, um patriota, 
outro, um homem de bem, 
outro, um moralista, 
outro, um santo. 
Não foi nada disso. 
Foi um encantador.

No plano das "conexões emotivas" prévias, com a palavra Jesus o epílogo "encantador" fica com um "gosto" diferente quer para o leitor religioso quer ateu. Com Mário, o "encantador" é só, talvez, um tipo simpático, bom para vizinho.

A palavra Jesus, no leitor ocidental religioso ou ateu, está cheia de conexões afectivas, emotivas e intelectuais que muda toda a leitura, passando a poesia de bonitinha para significativa. É suficiente oscilar nos nomes de Mário e Jesus.

Estas conexões de "linkagem cultural" são o segredo comum dos haiku's e do amor.

Se substituir Jesus por Shiva, Manitu, Ranginui, etc, pertencentes a outras religiões o resultado é o mesmo. Só nas comunidades dessas religiões o poema poderia funcionar e não ser apenas bonitinho.

Para terminar,  um outro exemplo com um Haiku traduzido:

O velho carvalho
contempla
flores de cerejeira

Lendo o poema com os habituais significados das palavras escritas pouco se compreende, além da informação literal e uma certa emoção débil e difusa, o vulgar bonitinho da poesia avulsa.
Todavia o haiku não é poesia de supermercado, é uma primorosa abertura para algo complexo e significativo. No dizer de um especialista, o prazer de ler um haiku é [...procurar o oásis escondido no deserto...].

Neste haiku, o velho carvalho traz uma conexão à afectividade japonesa das "bodas de carvalho", a comemoração de 80 anos de vida em comum, uma espécie da conquista do Everest para a felicidade do casamento. Substituir velho-carvalho por velho-pinheiro o haiku iria [...perder a sua alma...].
Contemplar significa um olhar calmo e paciente, meditativo, bem diferente do rápido e fugidio "ver de relance" de quem olha sem ver.
As flores de cerejeira são delicadas, frágeis, momentâneas, com vida curta, e no Japão são símbolo do precário e do efémero. Substitui-las por perpétuas, flores que como o nome indica aguentam tudo, desaparecia do haiku a noção de fragilidade e ele [...perderia a sua alma...].

Assim, este haiku é o confronto entre a fragilidade do que aparece-desaparece no movimento da vida   versus o que dura centenas de anos até ir também para o passado. 
Lenta ou rápida, a vida do carvalho e das flores de cerejeira funciona do mesmo modo e saber isso traduz-se no olhar calmo, paciente e meditativo do velho carvalho na sua certeza do inevitável.
Esta sabedoria de vida é reforçada com a palavra "velho", link directo ao afecto de respeito pelos idosos, afectividade bem forte e bem inserida na cultura japonesa.

A simplicidade aparente do haiku afinal é bastante complexa.

Dois haiku's, meus preferidos:
-1-
A chuva pára,
uma rosa
levanta a cabeça.
___________
-2-
Olho para um lagarto 
entre duas pedras,
ele olha-me também.
A latere:

O Haiku é só uma proposta ao leitor para o construir na sua mente. Na prática é quase um teste Rorschach sem borrões de tinta (hemisfério direito?) mas com palavras (hemisfério esquerdo?).
Assim, em dias diferentes nascem haikus diferentes do mesmo haiku, dependendo das "linkagens escolhidas" e associadas nesse momento. Ele é só um "activador" de afectos, emoções, memórias, sonhos, etc, em função da bagagem de inprints culturais do leitor.

In praxis, em relação ao primeiro haiku:

Para formação, uma das técnicas é activar a imaginação. O processo é ir construindo um filmeco com  imagens adequadas aos significados que nesse momento "pululam" (swarm) na mente do leitor:

1º - Pode imaginar-se uma chuva ligeira com sol a espreitar e a rosa salpicada de água, caule forte e pétalas brilhantes. Entre nuvens brancas aparece um sol tímido que, cada vez mais vivo, faz a rosa renascer (sorrir), ou...

2º - pode imaginar-se uma chuvada forte e cerrada, com a rosa encharcada de caule quebradiço e pétalas baças. Entre nuvens negras surge uma tempestade que, tapa o sol, morre a luz e a rosa definha (chora).

O filmeco imaginado será aquilo que nesse momento o leitor "traduz" do haiku, dependendo dos inprints linkados e activados.

PS - Eu gosto deste haiku porque para mim, e afectivamente, o primeiro cenário é automático e o segundo só surge por imposição lógica.
Todavia, por/para treino, é possível trocá-los e pôr o 2º em afectivo automático, ou seja, é passar da atitude optimista a pessimista e vice versa (treino de auto-indução).

O interessante é que o amor funciona exactamente com o mesmo processo e suas hipóteses de auto-indução.

3 - Amor

O que é o amor? 
Talvez seja preferível pensar com uma pergunta menos filosófica, "como se manifesta o amor?".

Na prática, o amor são trocas de expressões (beijos, festas, carinhos, etc) que não valem por si próprias mas apenas  por transportar significados... e aqui começa a confusão.
Na verdade, estas expressões são codificadas pela cultura vigente com significados standard e o seu uso pode originar aparências percebidas como realidades.
Exemplo: 

- Dantes, em casa de meu pai ao namorar, seguravas-me as mãos, agora JÁ NÃO!!!
- Dantes, havia piano e tinhas a mania de o tocar!!!

Agarrar as mãos pode ser afecto ou controlo. No ex., o emissor tem o desejo de controlo que "traduz" com o gesto namoradeiro (afectivo) das "mãos entrelaçadas". Por sua vez no receptor as "mãos entrelaçadas" são  obviamente(?) "traduzidas" com o significado de afecto e sente carinho, amor.

Na realidade, no amor tudo se ganha e se perde nas "traduções". Os significados e seus veículos (palavras, gestos, situações) são apenas meras peças do tabuleiro. O que se sente (significado) e o que se diz/faz (expressão) não são factores críticos do êxito ou fracasso da relação amorosa.

O único FCS - Factor  Crítico de Sucesso é a sintonia das traduções que ambos fazem. Os essenciais,  significados e expressões, só valem o que suas traduções valem. Num esquema simples,


O sentir do emissor pode ser verdadeiro ou falso, a expressão pode corresponder ou ser camuflagem. Mas essa expressão recebida é traduzida e cria um sentir no receptor, verdadeiro ou falso.

A relação amorosa só depende da dinâmica destas duas traduções e suas mútuas percentagens de sintonia, quer sejam as duas verdadeiras, as duas falsas, uma verdadeira e outra falsa.
Exemplo:

O Romeu pertence a uma cultura de deserto onde a flor do cacto é símbolo de fidelidade e persistência pois sobrevive mesmo em ambientes adversos. A flor é algo evidente, notório e os espinhos são detalhes apagados e invisíveis. Assim, um significado importante (amo-te) é dito à Julieta, através do envio da flor do cacto como símbolo da sua fidelidade e persistência amorosa.

Todavia, a Julieta, num país cheio de flores em ambiente acessível, ao receber o cacto não "vê" a flor, vê um monte de espinhos agressivos de difícil contacto. Furiosa com a espinhosa e agressiva prenda, fazendo a prisão da infeliz flor, o que era afinal a imagem do futuro proposto e não lhe agradava.
No mínimo, atira-lhe o cacto à cabeça... com o vaso atrás.

Assim começa e acaba uma paixão, tudo perdido na tradução. O amor é um processo primitivo parece simples e imediato mas é complexo e rebuscado. A sua simplicidade é enganadora pois está cheia de  variáveis e os seus "óbvios imediatos" nada têm de óbvio.

Reformulando a resposta anterior ter-se-á "amor são trocas de significados" e não de expressões que são apenas sinais a serem interpretados.
A definição parece clara e é, ...até se perceber que é confusa pois os sinais transmitidos para dar o significado NUNCA dão garantias do significado recebido. No exemplo:
As confusões instalam-se entre o sinal de assobio e o sinal de beijo oferecido.

Porém é tudo mais complexo, pois há mais variáveis, por ex., o estado do córtex tem que ser semelhante, ou seja, "estarem no mesmo clima" (to be in the mood).
Exemplo:

Um Romeu, a quem as dores da cólica renal da sua "alma gémea" angustiaram, resolve fazer-lhe de surpresa um mimo, um beijo apaixonado. Mas o córtex da sua "alma gémea" embrulhado em dores "está noutra" e traduz isso como uma dentada à socapa. 
Nesse momento as duas "almas gémeas" não são nada gémeas.

O amor não vive de actos amorosos, vive de significados recebidos como amorosos e isso não depende do acto, depende da "tradução" feita por quem recebe e esta depende do estado afectivo-mental do tradutor.
"Defender-se" com o argumento "eu disse/fiz" não é defesa é ataque, pois subentende parvoíce, desinteresse ou cegueira do outro. A questão verdadeira é "o que significou?" nesse momento.

O amor não é uma burocracia "input-output", é uma constante e sensível empatia ao que acontece no outro e agir em concordância consigo e com o outro.
Alguns autores chamam-lhe "duplo vínculo" (double bind) não no sentido de G. Bateson de afecto e agressividade simultâneos, mas de equilíbrio de um acto com duas afectividades as mesmo tempo. 

REGRA Nº1 do amor - Não há actos amorosos COM efeitos óbvios e garantidos, tudo depende do significado com que são recebidos. Este significado é independente do significado original do acto dito amoroso. 

Por maldade dos deuses, o ser humano relaciona-se com outro ser humano sempre com o jogo da "verdade ou aparência", pois nunca pode ter a certeza de ser verdade ou aparência do que acontece no plano amoroso.
Esta maldade (ou sabedoria) dos deuses não me aborrece pois é a garantia de que nas relações humanas o determinismo é impossível, pois qualquer causa pode ter qualquer consequência. O ser humano não é uma burocracia, os filósofos chamam a este indeterminismo o livre arbítrio.

Como curiosidade, o jogo "verdade ou aparência" é a base do teatro, pois só se o actor aparentar (mentir) bem em ser a personagem só assim o teatro pode ser verdade. Parafraseando José Régio, quando essa mentira (aparência) é bem representada chama-se expressão artística. 
Se o actor não representar mas estiver realmente vivendo a situação, chamar-se-á expressão vital e não será artístico. Uma mãe expressando bem o sofrimento pela morte do filho não é expressão artística é expressão vital.

O actor tem que ter um duplo vínculo (vide Stanislavsky), ou seja, sentir o personagem e ver-se a sentir o personagem não sendo por ele  "canibalizado" (vide "Kean" de J.P.Sartre). O amor também tem muito de duplo vínculo.

Aliás, segundo Freud, até a relacionar-se consigo próprio o ser humano joga esse jogo de "verdade ou aparência" pois muitas vezes nem ele, o próprio, sabe a diferença: "Afinal, eu pensava que gostava dele(a) e não gostava".

Em resumo

Os significados sendo incorpóreos, não têm existência material, portanto apenas se captam por aquilo que os expressa. Os expressores são vários e variam com culturas e sub-culturas.
Por exemplo, pode ir de um simples sorriso de cumplicidade até um ajoelhar vocalizando o célebre significado "amo-te" e chama-se declaração de amor. Como é evidente este "amo-te" pode ser "verdade ou aparência" para quem diz e/ou para quem ouve.

Esta fase de significado expresso pode ser oficializada com outro significado expresso o "amo-te prá vida inteira" e chama-se cerimónia de casamento, também igualmente possível de ser "verdade ou aparência".

Esta insegurança angustia os seres humanos e como solução "metem a cabeça na areia", isto é, se não veem não existe. Como não veem significados e não veem amor, mas veem beijos, caricias e sexo, então, beijos, caricias e sexo é o amor.

Huuuauuu... assim esquecem o conteúdo e ficam só com o embrulho, esquecem o significado e ficam só com o envelope. Deste modo a confusão acabou... todavia foi substituída pelo caos e tudo ficou pior, simplificado e atabalhoado.

4 - Conclusão

Haiku tem 17 sílabas, é complexo e significativo e vive de poucas palavras. O amor também vive de pequenas acções, é envolvente e marcante. Ambos dependem de pequenos "triggers" (detonadores) que agarram e se enraízam afecto-emotivo no íntimo profundo de cada um.

Na verdade viver um grande amor não se traduz em todos os dias chegar a casa, ajoelhar e fazer uma complexa declaração de amor com citações religiosas da Biblia, Cântico dos Cânticos [...Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho...] (Cânticos 1:2).

Pelo contrário, o amor vive de pequenos gestos cujos significados são claros e estão vivos na memória desde um aceno até um ritual rápido com significado e não distraído a despir o casaco, guardar as chaves, etc. Quando são só actos rotineiros e protocolares, o divórcio está no horizonte.

In brevis, amor são significados vividos e comunicados em pequenos gestos e poucas palavras, ao estilo haiku.

Quando a comunicação é por actividade sexual e os seus vários "jeitos e trejeitos" são vazios de significados, chama-se pornografia e é a base do negócio dinheiro-prazer; ou ginástica-terapia sexual para manutenção fisiológica à espera de melhor oportunidade; ou pro bono para manutenção da espécie (reprodução), função que nos animais se chama cio.

A base destas alternativas de sexo-vazio-de-significado, e apenas retendo os seus dois objectivos funcionais, tem uma realidade fisiológica clara (vide W. Reich, medico psicanalista). 
O sexo, fisiologicamente, baseia-se em hormonas (bioquímica) e em convulsões nervosas de prazer (bioelectricidade), vulgarmente simultâneas (ejaculação-orgasmo) apesar de poderem não o ser pois dependem de órgãos diferentes, isto é, glândulas (ejaculação-espermatozoides) e nervos (orgasmo-prazer).

Com a ejaculação, a espécie resolve o problema da sua continuidade pois detona a fecundação. Como é óbvio, em vítreo, há fecundação e não há orgasmo.
Com o orgasmo, a espécie resolve o problema da motivação para ejaculação. Como é óbvio, em masturbação, contraceptivos, etc, há orgasmo e não há fecundação.

Em resumo, a actividade sexual é um veiculo físico para expressar um significado afecto-emotivo e fazê-lo sentir ao outro. É um transmissor, um transportador, não é um conteúdo. Todavia esta actividade transmissora de significados pode funcionar com e sem significados para transmitir. Neste caso, há três estilos de adeptos:

1º -  Os adeptos em que para além dos objectivos fisiológicos (fecundação e orgasmo), e não os contestando, têm filosofias laicas ou religiosas de existir outro nível co-lateral (psy e/ou espiritual), que é o aspecto fundamental, resultante de simbiose afecto-emotiva inter-humanos, conhecida por "amor" [...em que com ele tudo tem significado, sem ele nada tem significado...].

As suas variedades são muitas quer religiosas quer laicas, desde êxtase religioso, amor humano,   EAC- Estados Alterados de Consciência, hedonismo, etc. 
A bibliografia é vasta, mas o paradigma base é o sexo ser um meio de troca de significados psico-afectivos afectando positivamente o ser humano. 
Sem esse factor de troca afecto-emocional, o sexo é apenas agitação neuro muscular com efeitos glandulares e nervosos, como qualquer funcionamento de um sistema fisiológico. 
Por exemplo, a digestão tem efeitos glandulares (sucos gástricos) e nervosos (satisfação relaxante por saciada)... ou beber álcool, inserir drogas, etc.
Ao sexo como actividade física que é meio e é expressora de troca afectiva foi chamado making love, pois cria um intenso vínculo de significados afectivos, aquém e para além da actividade física . 

Porém, este nome traduzido em português ficou fazer amor e no senso comum nacional é uma espécie de chapeu de chuva sinónimo de sexo, quando falado em linguagem discreta e erudita. (ver 3º estilo, a seguir).

2º -  Os adeptos em  que a função de reprodutora do sexo é a sua única e principal humanização e sem esse objectivo o sexo está des-humanizado. Como complemento, sem essa intenção reprodutora a única solução para usar o sexo humano é não ter sexo, a chamada abstinência.

Esta posição, sob o ponto de vista lógico, é um paradoxo interessante.

Não conheço nenhum biólogo que apresente um caso amoroso romeu-julieta entre bois e vacas. Na verdade o sexo animal parece ter só escolhas genéticas "instintivas". Por exemplo, a fêmea aceita ou não um macho por sincronias ou des-sincronias genéticas e um macho, mesmo existindo cio, não tenta fecundar segunda vez a mesma fêmea, desinteressa-se pois a probabilidade genética está consubstanciada. O chamado "efeito coolidge".

Os prelectores desta opção, ao divulgá-la em conferências e palestras citam-na como "fazer amor reprodutivo" ou "fazer amor controlado", nunca explicando se o que é controlado e reprodutivo é a reprodução ou o sexo. 

Em Portugal nos anos 60, esta questão estava na moda com o problema do controlo de natalidade. O método Ogino-Knaus andava por aí, com o OK do Papa Pio XII em 1951, e na altura assisti a várias conferências e li vários manuais.

O método dito natural não me incomodava mas os pressupostos filosófico-religiosos de apoio incomodavam-me por razões de lógica pessoal.
Não percebia como a humanização do sexo humano era obtida por reduzi-lo à reprodução, ou seja, apenas fazendo sexo com intenção de reprodução. Parecia-me mais conversa técnica de agricultores a propósito de rebanhos.

Na altura estava fazendo um cursito sobre o ponto Omega nas teorias do Padre Jesuíta Teilhard de Chardin e aproveitei para tirar dúvidas. Não fui feliz. Por exemplo, perguntei se o estupro com fecundação podia ser incluído na teoria. Só obtive palavras soltas e muitas citações estilo listagem Google.
Resolvi insistir e então, perguntei se o "dever conjugal" para reprodução seria aceite. Agora recebi citações ao estilo Yahoo.

Realmente a minha questão parecia-me simples. Se humanizar o sexo humano é aproximá-lo do modelo animal que só têm sexo para reprodução, em síntese, humanizar o sexo humano é animalizar o sexo humano.
Não percebo... os deuses me ajudem.

Não desisti e numa conferência pública sobre o tema, na altura das dúvidas quis ajudar. Relacionei a teoria com o modelo sexual animal e salientei que os animais tinham o sinalizador olfativo do cio para "apontar" altura de sexo e isso faltava no sexo humano... e tinha uma solução.

Considerando que o método Ogino-Knaus já tinha o OK do Papa Pio XII, então era só preciso usar o método ao contrário. Detectado o período da ovolução (prontidão para engravidar) em vez de usar para evitar sexo (contracepção) era usar para fazer sexo só nesse período e ser proibido antes ou depois.

Desta vez a resposta não foi Google nem Yahoo... foi silêncio "pesado"e o microfone passou para outro. Não tive resposta, conclui que não foi aceite. O meu superior hierárquico militar (católico) estava lá com a família e "avisou-me" que não gostou.

3 -  Os adeptos em que o prazer é o sustentáculo da vida (hedonistas) e assim esta posição tem o  seu centro no orgasmo com os seus 7 segundos (em média) de "convulsões prazenteiras" no sistema nervoso. Os seus aditos são "clientes" garantidos.

Como é usual nas sociedades humanas se há procura cria-se oferta. Assim desde a antiguidade que se criou o negócio dos orgasmos quer com empresas (prostíbulos) quer com trabalhadores independentes (prostitutas). Os seus clientes são muito simplex's, não estão interessados em reprodução nem em "espiritualidades Romeu-Julieta" só querem a convulsãozita nervosa!

Dica colateral
Em português, "making love" é traduzido por "fazer amor". Como traduzir "doing love"??
Significará o mesmo??
Observado do exterior,  uma relação amorosa e uma compra sexual distinguir-se-ão??
Talvez não, mas uma prostituta, profissional do sexo "doing love", sabe a diferença, e para ela trabalho é trabalho, e amor é amor. São universos distintos.


Pois é... o beijo pertence ao "making love". Profissionais sabem a diferença entre "making love" e "doing love", amadores só conhecem "love"... e depois dizem-se enganados mas são apenas amadores palonços.

Para terminar dois haiku's sobre "amores diferentes".

Olhei-a, ar parou, 
estremeci, sou outro,
  foi making love

Toquei-lhe, mudei, 
 fiquei igual ao que era, 
é doing love

domingo, 11 de novembro de 2018

Terapia de fusão, uma experiência pessoal

Lendo sobre a sincronicidade e sobre Jung, encontrei descrições sobre a terapia de fusão com o auxílio "medicamentoso" de LSD, na clínica Welbeck (Londres) das terapeutas Joyce Martin e Pauline McCririck, pelo que recordei uma experiência minha com alguma semelhança e sem LSD.

Em 1971, trabalhei no Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, dirigido pelo Prof João dos Santos. que funcionava no Hospital Júlio de Matos para crianças asiladas e com problemas mentais. 
A minha área era a psicomotricidade (Le Boulch, Lapierre, etc) e a ideia era usar o ACTO, o 1° sistema de sinalização de Pavlov, e não a PALAVRA, o 2° sistema de sinalização de Pavlov, para conversar com as crianças e não a verbalização ao estilo psicanálise freudiana. 

Na verdade, a verbalizacāo destas crianças era muito débil, mas com actos e "situation playing" o diálogo era rico, divertido e produtivo sob ponto de vista de desenvolvimento. Ainda hoje, passados dezenas de anos, estas crianças estão vivas na minha memória.
Acabei por escrever uma tese que apresentei na universidade.

Durante este período fiz algumas workshops de formação, principalmente com monitores ingleses. Nas formações, em média uma semana das 19:00 às 23:00, havia sempre oportunidade para alguns incidentes "criticos" interessantes e conversas informais.

Numa ocasião, a propósito de autoridade em pedagogia, a monitora inglesa, talvez ao estilo terapia de fusão mas sem LSD's, propôs um role playing. 

O role playing consistia em um participante assumir ser "um bebé em posição uterina", de joelhos ao peito, encolhido, indefeso e medroso. Outro participante seria a figura maternal securizante e afectiva que procurava fazê-lo "desenrolar" e agir. 
Ambos teriam que dialogar só com gestos e comportamentos inerentes ao seu papel.

Talvez por, em anteriores intervalos de café, eu ter falado do meu passado de militar de carreira e experiências africanas, passado bem anómalo para um professor de crianças com problemas mentais num hospital psiquiátrico, a sua "bisbilhotice pedagógica" decidiu escolher-me para protagonista do bebé medroso. Aceitei o jogo.

Em complemento, "calhou-me" como figura maternal um participante (psicanalista), grande, volumoso e divertido com a situação.

Tudo corria bem, eu com os meus trinta e tal anos deitado no colchão com os joelhos ao peito, conversava por gestos com a volumosa "mãe " que de joelhos ao meu lado me confortava. 
Os participantes e a monitora acompanhavam a cena e o diálogo e tiravam notas.

Senti passar "muito" tempo e de repente tive uma epifania e caí em mim, "...mas ké isto?... um homem com a mão na boca a fazer-me blee...blaa...blee's ao pé dos olhos? Eu enrolado como um repolho??? Tou parvo...ou quê? Raizupartiça!!!!!!"

Saltei do colchão e fui sentar-me no chão ao fundo da sala, catatónico, com a cabeça nos joelhos.  Fiquei assim até ao fim da workshop, apesar da monitora fazer algumas aproximações, mas os meus resmungos em português tiraram-lhe a esperança. 
Conversámos no dia seguinte, primeiro os dois, depois em grupo. Foi interessante, divertido e uma boa aprendizagem conjugando opiniões com notas e apontamentos que tinham sido tirados. O lema rogeriano "ao grupo o que é do grupo" se bem feito dá sempre bom resultado.

Percebi que esta história de terapia de fusão (apesar de não saber o que era) não era fácil. 

Numa outra workshop e também com um role playing, uma participante (psicóloga) de repente ficou estranha e sem estabelecer contactos. Mais tarde, no meio do bruá...bruá resultante ouvia-se cochichar  "coma psicológico" (o que quer que isso fosse). 

Na altura, a monitora pediu para todos sairmos da sala e ficou sozinha com ela. Uma meia hora depois saíram e a participante parecia ter acabado de acordar ou saída de uma ressaca. 
Amigo dela e conhecendo-a bem, ofereci-me para a levar a casa o que recusou. Nunca mais se falou nisso.

Uma conclusão tirei. Esta "coisa" dos role playing "vende-se" bem em muitos livros e artigos de pedagogia, mas uma certeza eu tenho "não é brincadeira para amadores". A "situation playing"  pode ser ainda mais séria e perigosa na mão de "aprendizes de educadores", eventualmente "encartados".




terça-feira, 6 de novembro de 2018

Clandestinidade e perfume

(Baseado num caso real em tempos antigos)

Numa ida de três técnicos a Paris, no dia do regresso, depois do pequeno almoço e em conversa, um dos técnicos diz que, de manhã, irá comprar um perfume para a mãe. 
O colega-chefe pede para lhe comprar um para dar à mulher. Atrapalhado, o subordinado pergunta o que ela gosta, preço, tamanho e aroma. O chefe fica com ar de chefe e responde para trazer o que estiver em promoção e for barato. Despede-se e sai.

À chegada para o almoço quando o técnico lhe vai entregar o perfume vê com espanto que ele traz um pacote de perfumaria, aflito diz-lhe que comprou o perfume para a mulher. 

O chefe fica "múmia" sem sistema operacional, balbucia frases soltas entre ser prá mãe, prá tia Engrácia e prá avó Joaquina, não se percebe nada pois explica ser um prémio, difícil de arranjar, ter sido uma sorte, etc. e mais meia dúzia de "coisas", fica outra vez sem sistema operacional... estende a mão, saca o perfume, paga e desaparece.
Só reaparece no fim da tarde, 17:00 h, no aeroporto.

Os dois técnicos sentam-se e falam sobre o que aconteceu, principalmente a atrapalhação chefe. Ao fim de algum tempo, concluem que o perfume é de certeza prá Ti Engrácia. Mas lembram-se  também que durante o breve balbuciar do chefe, ele "resmungou" um nome de perfume. 

Como tinham tempo depois de almoço, foram visitar perfumarias para checar o nome. Realmente o perfume existia, era recentíssimo e caro. Aproveitaram, pediram amostras, visitaram outras perfumarias e pediram mais. Vieram para Lisboa carregados de amostras da perfumada recentíssima novidade.

Depois, com dois amigos, fizeram um concurso e quem ganhasse tinha um jantar pago pelos outros três. Distribuiram as amostras pelos quatro e cheirando o perfume, tal como perdigueiros, iriam à caça da Ti Engrácia pelos corredores e gabinetes do Ministério. O prazo era uma semana.

O interessante foi as estratégias seguidas que se contaram no jantar. Um centrou-se nos corredores à chegada pois o perfume ainda devia estar intenso, outro preferiu o período de almoço e respectivos grupos almoçantes, outro centrou-se nos contactos de trabalho do chefe, começando pela secretária e afins, e outro resolveu esquecer as cheiradelas e observar os trilhos do chefe.

Todos assumiram que o universo era o Ministério e concluíram que o critério foi o mesmo, o chefe chegava cedo e saía tarde.

Acabaram por descobrir a usufrutuária do perfume que não se chamava Engrácia e era do Ministério.

Conclusão

Em caso de clandestinidade amorosa convém controlar as águas de colónia para evitar banhos excessivos e roupas na lavandaria. Há várias soluções.

1º - Ele convém usar a água de colónia ou after shave do pai ou irmão dela e ela o perfume da mãe ou irmã dele. Convém ter cartas na manga com explicações plausíveis para questões de legalidade dos cheiros.

2º - Uma hipótese mais fácil é comprar a água de colónia correspondente e pô-la no cão. Ele não se importa e fica conhecido no bairro como VIP.
Se não tem cão é urgente arranjar um, porque senão em breve terá que arranjar um advogado.

3º - A terceira hipótese é um pouco prosmícua, pois é os clandestinos usarem as águas de colónia dos legalizados.
Esta alternativa é trabalhosa para os neurónios para gerir as associações dos cheiros com o clandestino ou com o legal. O risco é um lapsus linguae, isto é, por associação errada chamar a um(a) o nome do outro(a). 
Convém salientar que, se os nomes dos clandestinos forem iguais aos dos legalizados este risco não existe, e até haverá economia de controlo neural. 
Porém, neste caso, por razões afectivas convém usar um diminutivo diferente, cuja vantagem, de evitar enganos automatizados, traz a desvantagem do risco atrás citado.

Inté e boas clandestinidades amorosas.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

O ciumento e a Fisica Quântica


Ando “encantado” com a Física Quântica, realmente a ciência tem “piada” e atrai porque estraga o nosso senso comum e nos obriga a ver as nossas verdades doutro modo.

Einstein deu cabo do senso comum quando teorizou que dois gémeos podem ter diferentes “envelheceres” e, assim, um estar jovem quando o outro já é velho caquético… o que destrói o mais elementar senso comum.
Cientificamente chama-se “Teoria da Relatividade”… é suficiente um ficar na Terra e o outro viajar perto da velocidade da luz, pois quando regressa ele ainda é jovem e o outro já é velho.

Com estas pequenas dentadinhas da Ciência no senso comum, por ex, Galileu ao dizer ”…mas ela (a Terra) move-se…” tirou-lhe um bocado, o senso comum “adoeceu” mas recuperou restaurado.

Com os telemóveis aconteceu o mesmo.

As invisíveis ondas electromagnéticas entraram no senso comum e ninguém se admira de ver outrem a passear pelo ar uma "caixa" (o telemóvel) à pesca de invisíveis ondas pois todos sabem (é óbvio, lógico e credível) que estão por lá.
Este senso comum usado no tempo do rei D.Afonso Henriques faria o senso comum da época queimar na fogueira o(a) passeante da caixa como bruxo(a).

Porém, a Quântica não dá dentadinhas… esfacela, rasga, deixa sem reparação possível o senso comum obrigando-o a tornar-se outro-comum e adaptar-se.
Não é fácil, exige adesões tipo Fé, ou seja, “é concreto, não acredito, portanto acredito” e aderir ao mundo encantado dos milagres.

Gosto da Ciência, mas ainda não percebi se sou masoquista a gostar de mutilações no meu senso comum instalado ou aventureiro a entrar no mundo do desconhecido impensável.
Porém, esquecendo essa decisão pendente, resolvi pesquisar a problemática do ciúme com a filosofia quântica.
(😇😆😇😆). 

Senso comum

Nós pensamos e decidimos com base em informações previamente armazenadas, os chamados referenciais. Quando estes referenciais são comuns a um grupo, ele pensa (cria significados e decide) de forma similar, ou seja, cria senso comum.

Os europeus vestem calças mas quando chegaram à Polinésia os seus habitantes acharam "parvoíce" estes estranhos andarem com tubos enfiados nas pernas. O pensar diferente resultava de referenciais diferentes.

Sem o notarmos a cultura vigente instala-nos referenciais que nos "empurram" para pensares e acções "lógicas". Por ex., no ocidente as mulheres tapam as pernas e descobrem o peito, mas no oriente tapam o peito e descobrem as pernas.

O senso comum dos ocidentais "veste" as mulheres de uma maneira e o senso comum oriental "veste-as" doutra. Os argumentos de ambos são do mesmo tipo: óbvio, correcto, elegante, moral e, se possível, obrigatório.


Na verdade é tudo apenas uma questão de referenciais, e com isso se alimentam os facciosos e os extremistas. O senso comum é a vitamina das amizades e o vírus dos conflitos.

Os paradigmas da Física Quântica não são apenas diferentes dos paradigmas da Física Clássica (Newtoniana), por ex., Realidade, Localidade, Causalidade e Continuidade, eles são o seu contrário, pois afirmam exactamente o oposto do senso comum instalado na cultura ocidental.
Curiosamente, aproxima-se de sensos comuns instalados noutras culturas, por ex., no taoísmo (vide "The Tao of Physics" de Fritjof Capra, PhD, físico teórico, USA).

Apesar dos paradigmas quânticos serem recusados, as experiências feitas com base neles são um êxito. Por exemplo, Einstein recusou o fim do parâmetro da Localidade (limites rígidos nos elementos) e desenvolveu em conjunto com Podolski e Rosenou o paradoxo E.P.R. nesse sentido. 

Todavia, depois da sua morte provou-se realmente que a Quântica funciona com NÃO-Localidade  através das experiências de (além de Bell em 1960) Aspect (1982), Rarity e Tapster (decada de 1990). Assim, o senso comum perdeu o "comum" e adquiriu "partidos", facções.

Como parâmetro base, a Física Tradicional considera o universo constituído por "bolinhas" de limites rígidos, os átomos, portanto, não possíveis de mudar. Porém, a Ciência evolui e acaba por descobrir neles as "partículas subatómicas", "bolinhas de energia" sem limites rígidos e o universo fica outro, com outras regras.

Cria-se um senso comum com dois sensos comuns divididos por uma fronteira, o átomo, pois se for maior que ele tem leis e parâmetros da Física Tradicional (Newtoniana), se for menor pertence à Física Quântica com leis e parâmetros diferentes e opostos.

Exemplo, quando duas moléculas (maiores que átomo) chocam nenhuma muda, é o mundo da matéria. Quando duas partículas (menores que átomo) chocam ambas se alteram, combinam, e algo novo surge "maior" que a sua soma... é o mundo da energia.

Como ex., a equação de Dirac (∂ + m) ψ = 0 que diz em simplex:
"quando dois sistemas interagem entre si durante um certo tempo nunca mais são dois sistemas distintos, de modo subtil ficam um único sistema. O que acontece a um deles influencia o outro, mesmo  distantes a anos luz".

Entrar neste mundo obriga a abandonar o senso comum da mundo da matéria... e ir para os paradoxos e caos "mental" da Quântica com o senso comum da energia. Aqui, são os resultados concretos das experiências feitas e a Matemática que auxiliam o caminhar (ver link anterior da equação de Dirac).

São várias as "dentadas e arranhadelas" da Quântica na Física Tradicional mas há uma, o paradoxo do "Gato de Schrödinger", que é a mais debatida e divulgada, sendo uma das bases para a compreensão da Quântica. 
Gato de Schrödinger

A hipótese é simples, baseia-se num gato com três estados diferentes: um gato vivo, um gato morto e um gato vivomorto, isto é, ao mesmo tempo vivo e morto, portanto, com capacidades diferentes de qualquer dos dois.

A experiência é:

1 - Uma caixa opaca fechada tendo lá dentro um gato, um balão de vidro com veneno (ácido cianídrico?) e um átomo radioactivo que se decair ("romper"), o que é uma probabilidade incalculável, libertará um electrão ficando radioactivo. Portanto, pode ter dois estados, sim ou não radioactivo.

Segundo o Principio da Incerteza de Heisenberg (inexistente na Física Tradicional) o electrão poderá estar mais perto do núcleo atómico e não decai ou pode estar mais longe e decai. A probabilidade não é calculável.

No início da experiência o átomo não está radioactivo, o veneno está contido no recipiente e o gato está vivo.

2 - Porém, dentro da caixa há um auxiliar metediço, um contador Geiger, que aproveita o átomo emitir radiação para, com ela, activar um martelo que partirá o balão e espalhará o veneno. Deste modo o gato morrerá.

3 - Algum tempo depois, com a caixa fechada, não se saberá o que lá existe, isto é, se o átomo não decaiu e o gato está vivo ou se decaiu e está morto.
Mas sabe-se que poderá estar morto (50%) ou vivo (50%), ou seja, estará 100% no estado vivomorto.

Por outras palavras, segundo a Quântica é um estado com três possibilidades, qualquer delas susceptível de existir. Só com o abrir da tampa é que uma possibilidade passa de possível a real e a outra de possível a não-real.

Agora é que isto fica interessante, pois a Física Tradicional e a Física Quântica não dizem e concluem o mesmo sobre a experiência.

Talvez aqui seja necessário um pequeno comentário colateral

Um exemplo, o Manel conduz um carro, tem um desastre, vai para o hospital e fica inválido:

Quando o senso comum pensa causa-consequência acerca disto, na verdade... isso não é verdade. Realmente o que ele pensa é "consequência-causa", isto é parte da consequência, anda-para-trás no tempo e procura a causa.
Este processo tem uma grande dose de inferência probabilística, é sempre atravessado por incerteza e, normalmente, é acompanhado pelo óbvio instalado no senso comum. Quando encontra uma causa "evidente", a chamada evidência, faz prova, ou seja, o seu significado torna-se "lei".

Neste caso do Manel, existem duas possibilidades ou morre ou não-morre, se não morre pode ficar ficar inválido ou não-inválido.
Assim, partindo da consequência "invalidez" chega à causa dela que é o desastre, a etapa onde tudo começou... pois é óbvio que conduzir não faz invalidez:

"Cientificamente" inverte os termos e conclui a causa-consequência da invalidez foi o desastre.
Apesar do pensar óbvio ser "...o instrumento preferido do pacóvio para pensar...", arrisco-me a dizer que é óbvio que este raciocínio parece ser um queijo suíço cheio de buracos (bugs):


Na verdade, a partir da consequência as possibilidades de causa são várias, por exemplo:
1 - desastre:
2 - tratamento incompetente no hospital;
3 - uso de remédios mal fabricados pelo laboratório;
4 - embriaguez do Manel;
5 - passageiro que agride o Manel quando conduz;
??- etc, desconhecidas (ter sido drogado, sabotagem carro, ...)


Admitindo que não há mais causas desconhecidas (tanto quanto se infere) mas que as cinco descritas são reais contribuintes da invalidez (portanto causas) a questão crucial é determinar quais as percentagens relativas dessa contribuição antes de garantir a validade da afirmação a causa-consequência foi...?😡?.

Náo é tarefa fácil. Com consciência disso, a Física Tradicional com seus paradigma do determinismo e causa-consequência exige e é "viciada e paranoica" com medições, mais medições, medições das medições, "porque Deus não joga aos dados" (Einstein) mas afinal, hoje, parece que joga.

Fim do Comentário

Assim, na experiência do Schrödinger e seu gato, a Física Tradicional dada a inexistência de medições no interior da caixa fechada usa o óbvio do seu senso comum (alternativas sequenciais) e conclui [...tudo já aconteceu apenas não temos evidências...] e os seus adeptos terminam dizendo [...o facto de não vermos a lua não significa que não está lá...] mas, mas... ops!!!... não significa que esteja.

PS - Cientifica e logicamente, este argumento dos adeptos é cómico, pois duas negativas não significa uma positiva e existe o chamado falso positivo pois também não é significativo. Este truque é muito usado nas discussões políticas.

Em conclusão, para a Física Tradicional a experiência do Schrödinger é infantil pois é básica. É lógico que [sem abrir a tampa, uma delas já existia (determinismo), apenas não havia evidências (provas, medições) suficientes para se concluir qual era".
Abrir ou não a tampa não altera nada, não faz selecções só mostra evidências susceptíveis de medição.

Pelo contrário, a Quântica diz "não há determinismo há possibilismo" e o abrir a tampa, acto de observar, colocou o observador dentro da situação, interfere nela e uma possibilidade é colapsada e a outra não.

Há aqui um quid pro quo acerca de Schrödinger e seu gato.
Schrödinger não diz que as possibilidades são "gato vivo ou gato morto", ele diz que são "gato vivo e gato morto", ou seja, não é uma questão de ou...ou (alternativas), é uma questão de um e outro (possibilidades), ou seja, existência de sobreposição de estados.

Por outras palavras, isto quer dizer que esses estados existem ao mesmo tempo e qualquer um deles pode ser activado, é o Principio da Incerteza da Quântica que não existe na Física Tradicional que considera ser impossível "Deus jogar aos dados".

Muito antes da Quântica, há mais de 200 anos (1801), Thomas Young fez uma experiência de sobreposição de estados.
Fazendo passar um fotão por uma fenda, ele pode actuar quer como partícula (tipo bala) quer como onda (tipo água), "decidindo" ser uma ou outra.

Fotão com duas possibilidades, ser partícula ou ser onda
A questão pendente é saber porquê uma ou outra e há várias teorias e experiências acerca disso. Uma é se o fotão for observado actua como partícula, se não for observado actua como onda, o que origina a conclusão do observador fazer parte da situação observada.

Para a Física Tradicional a neutralidade do observador é um dos seus pressupostos, pois [A é A].
Para Física Quântica há um pressuposto diferente [A é A1 e A2], ou seja,  fotão é partícula e é onda (sobreposição de estados).

Como curiosidade e transpondo esta hipótese para o indivíduo, ele têm várias possibilidades de comportamento e se observado ou não-observado activa diferentes possibilidades. O curioso é  que, com ou sem consciência da observação, não age do mesmo modo.

Traduzindo em dialecto quântico, os indivíduos (e os seres vivos em geral) "colapsam diferentes  possibilidades" parecendo pertencer mais ao mundo dos [seus] fotões, sem limites rígidos e com influências não-locais, do que das [suas] moléculas, com limites rígidos e só influências locais.

Para curiosos, há um livro do biólogo Rupert Sheldrake "The sense of being stared" que tem um capítulo (pág. 139) sobre ser secretamente observado e com isso alterar seus comportamentos, processo vulgar em animais.

Como conclusão, recusando a interpretação da Física Tradicional com as alternativas ou...ou e aceitando a posição Quântica da sobreposição de estados possíveis, a pergunta consequente é [...se existem as duas ao mesmo tempo e fica o gato-morto, então o que acontece ao gato-vivo?].

Sobre isto há várias teorias em debate mas há uma, quase ficcção cientifica (?), de Hugo Everett na sua tese de doutoramento (USA) titulada "The Many-Worlds Interpretation of Quantum Mechanics" que propõe a existência de universos alternativos, o chamado multiverso com vários universos. Parece um senso comum hollywoodesco, estilo filme "The One" e suas lutas por vários universos.

Neste senso comum do multiverso a lógica é a possibilidade do gato-morto ficar neste universo e a possibilidade gato-vivo ficar noutro universo do multiverso.
Por outras palavras, cada um de nós terá um sósia numa realidade paralela a viver as possibilidades que aqui não foram colapsadas.
Por exemplo, [...o João casou com a Maria e não com a Joaquina???] portanto, noutra realidade [...o João casa com a Joaquina e não com a Maria!!!].
O paradoxo desapareceu, tornou-se lógico.

Entre os que apoiam o multiverso (mesmo noutros modelos) encontra-se, por exemplo, Stephen Hawking, Michio Kaku, Steven Weinberg, Brian Greene, Neil Turok, Lee Smolin, Max Tegmark, Andrej Linde, Alex Vilenkin... Realmente os sensos comuns parecem ser apenas "sensos à la mode" que de comum só têm o "acertar o passo" com o caminhar da Ciência.

Relacionando os sensos comuns com a vida política, é bom não esquecer que, tecnicamente, a votação é só uma estatística dos sensos comuns existentes e activos nesse momento, ou seja, dizem qual é o acordo grupal existente, nada dizendo sobre a validade técnica e/ou social e/ou ética, etc.

Um exemplo, é a escravatura que durante séculos fez parte do senso comum generalizado e nalguns grupos desapareceu e noutros se manteve. Nesta perspectiva, fazer política é fazer luta de sensos comuns.
Como exemplo actual, na Europa e USA, o senso comum de emigrantes são bons luta contra senso comum de emigrantes são maus.

O ciumento e a quântica

PS- Aqui tive alguns problemas de senso comum sobre o "género". 
Não sabia o que escrever, ciumento? ciumenta? ciumento(a)? ciumenta(o)?, etc. Decidi simplificar e escrever ciument_ e quem lesse via o que queria. O computador não aceitou. A minha escola primária decidiu... e segui a tradição, escrevi "ciumento".


Ao estilo definição, considerei que ciumento é pessoa com ciúme, portanto, existem dois conceitos, pessoa e ciúme.

1 - Pessoa

"Pessoa" é um vivente com corpo, portanto, com um conjunto de orgãos feitos de moléculas que são elementos maiores que o átomo. Por outras palavras, a "pessoa" vive de acordo com os paradigmas e leis da Física Tradicional e obedece aos Princípios da Realidade, Localidade, Causalidade, Continuidade, Determinismo, Certeza, Medição, etc.

Porém, as moléculas da "pessoa" são constituídas por átomos e estes são feitos por partículas subatómicas, menores que o átomo. Por outras palavras, a "pessoa" tem os elementos primordiais. (constituintes de todos os outros) a viverem de acordo com paradigmas e leis da Quântica, diferentes e opostos à realidade dos orgãos que constituem.

Como analogia, é como ter um  muro de tijolos, cada tijolo constituído por uma sinfonia de Bach, Beethoven, etc, tocando ao mesmo tempo e des-sincronizados. O muro é duro, rijo e não muda, mas os tijolos são "voláteis", tocam e andam por aí a orquestrar uns com os outros.

Durante milhares de anos o muro funcionou bem e só no século XX se descobriu que é feito por sinfonias que andam por aí a "entrelaçar-se" (entanglement) umas com as outras, com influências à distância, sem obedecer à causa-consequência, etc, em suma, com propriedades muito diferentes dos calhaus chamados "tijolos" que constituem o muro.
Percebe-se agora porque dizem que os muros (ou indivíduos, fora da analogia) foram feitos pelos deuses.

Esquecendo a analogia, pode em simplex dizer-se que as pessoas são "híbridos" de duas realidades. O corpo de orgãos-moléculas tem paradigmas e leis da Física Tradicional e o corpo de átomos-partículas tem paradigmas e leis da Física Quântica.

Devido ao princípio da localidade (limites rígidos e influências locais) as pessoas têm o seu corpo aqui-agora, mas as partículas dos seus átomos com limites não-rígidos e influências não-locais  podem estar lá-então, algures ligados (entanglement) a electrões em Marte ou na constelação da Cassiopeia e reagindo sincrónicos com eles.

As experiências para-psíquicas em laboratórios, vivências místicas dentro e fora de religiões oficiais, "viagens" de drogas, EAC's (estado alterado de consciência), etc, serão consequência deste hibridismo?
A lista de cientistas universitários, militares, empresariais, etc, que procuram a Ciência nestas áreas é grande, a documentação muita e os livros numerosos.

Como conclusão, a pessoa é um híbrido de duas realidades integradas, sem se perceber muito bem o que, neste caso, integradas quer dizer, excepto que esse hibrido vive simultaneamente com os do mundo maior que o átomo unidos aos do mundo menor que o átomo, mas cada uma deles com paradigmas e leis diferentes e OPOSTAS.
Que grande confusão!

A teoria Orch-OR de Penrose e Hameroff que liga a consciência às vibrações quânticas nos "microtubulus" dentro dos neurónios cerebrais será talvez a ponta do iceberg dessa união.

Na verdade, o mundo das ideias com sua sobreposição de possibilidades, incerteza, consequência antes da causa, conexões e simultaneidades à distância, etc, está mais perto da Quântica do que das leis e paradigmas da Física Tradicional onde vivem os neurónios.

Para curiosos, dois livros que me encantaram, Candace Pert, PhD, Georgetown University Medical Center, "Molecules of Emotion"; e Bruce Lipton, PhD, University of Wisconsin, School of Medicine, "The biology of Belief".

Fazendo uma síntese com um resumo resumido, a pessoa é um somatório de partículas subatómicas que não são matéria mas sim energia. Numa palavra... a pessoa é energia.

Em 1997, Amit Goswami, PhD, fisico teórico (USA) veio a Portugal e fez umas workshops sobre Quântica a que assisti. Não foi fácil, fiquei com o livro "The Self-Aware Universe, how consciousness creates the material world" que tentei perceber, andei a lê-lo durante algum tempo e não foi mais fácil.
Para mim, em particular dois capítulos foram significativos, Cap 5: Objectos em 2 lugares ao mesmo tempo e consequências precedem as causas, e o Cap 7: Eu escolho, portanto, sou. A lógica cartesiana formatada e inserida no meu senso comum dava voltas no estômago. Não consegui pôr ordem no caos, mas uma conclusão ficou:
Energia e consciência pareciam ser os alicerces da Quântica, 
e criam matéria (colapsando? possibilidades) por aqui e acolá.

Entretanto, ficou uma dúvida por optar entre "energia com consciência" e, portanto, energia é Deus; ou Deus é energia  e, portanto,  é "consciência com energia.

Resolvi passar à frente, não é importante para perceber a quântica. É a velha discussão sem fim do "Drama de Jean Barois" de Roger Martin du Gard (Prémio Nobel 1937) da minha juventude, herança de materialismos e espiritualismos evoluídos (ocidentais) em que se discutia o "corpo com alma" ou a "alma com corpo". Já não caio nessa, para isso há outras soluções lógicas.

 2 - Ciúme

O ciúme parece ser uma situação tipo "Gato de Schrödinger". Na verdade há uma sobreposição de três estados, ou seja, o ciumento tem três possibilidades para colapsar.

1 - estado descrente no outro (isto é, ciumento, desconfiante da fidelidade do outro);
2 - estado crente no outro (isto é, confiante na fidelidade do outro);
3 - estado descrente-crente no outro (isto é, descrente da fidelidade do outro e com esperança nela),

cada um deles apresentando possíveis diferentes.

No início o ciumento está no estado de descrente-crente, isto é, desconfia da fidelidade do outro, não tem confiança nele nem em si, pois duvida da sua descrença nele e tem esperança de estar enganado.
É um dos poucos casos em que se reza aos deuses para serem parvos e se enganarem.

Normalmente fica muito Shakespeariano no seu "to be or not to be". É um ser feliz entremeado de infelicidade. Vive como o Sisifo que feliz leva a esperança pró cimo da montanha para a seguir ela cair cá para baixo e ele ter que repetir tudo outra vez. É a época de gastar dinheiro no terapeuta.

A solução é padronizada, é espiar o parceiro:
Espiando se há clandestino amoroso
Numa palavra, não quer dúvidas, não quer o Princípio da Incerteza, não quer Quânticas. Tradicional, quer o ÓBVIO, ou há clandestino amoroso ou não há clandestino amoroso. Vai espiar e como resultado da espiadela, pode ter duas possibilidades:

1ª - O parceiro tem um clandestino amoroso;
      Fica a possibilidade descrente, não existe fidelidade e fica INFELIZ;
      Na experiência de Schrödinger é a possibilidade gato-morto.

2ª - O parceiro não tem clandestino amoroso;
       Fica a possibilidade crente, existe fidelidade e fica FELIZ;
       Na experiência de Schrödinger é a possibilidade gato-vivo.

Mas este ÓBVIO é um mito, não existe. Na prática, em vez da hipótese 2ª, ele fica na hipótese 3ª, ou seja, fica a possibilidade descrente-crente que no Schrödinger corresponde à possibilidade gato-vivomorto.
A evidência obtida de "não-tem-clandestino-amoroso" só serve para o aqui-agora e mesmo assim tem bugs.

Ele não sabe... E NUNCA SABERÁ... se no passado não houve clandestino amoroso e se no futuro não haverá e se, mesmo no presente, noutro local não estará um clandestino em conexão e à espera.

Na prática de religiões e filosofias, esta hipótese da "incerteza acerca do agir do outro" chama-se livre arbítrio e é um "bem", na política chamam-lhe outras coisas e é um "mal". Na quântica não é "bem" nem "mal" é o Principio da Incerteza.

Como conclusão, o adito em ciúme só tem duas soluções, ou fica infeliz porque há clandestino nas redondezas e disso tem a certeza, ou fica infeliz porque nunca tem a certeza de isso ser ou não ser verdade.
Parece que, na essência, afinal a vida não tem óbvios como o determinismo da causa-consequência da Física Tradicional. A vida é feita de sobreposição de estados com opções no presente, como na Quântica... ou como afirma o paradigma do planear [... no melhor plano, o inesperado espera por si.]

Pensando ao estilo quântico no ciumento, o melhor é ele ficar no estado vivomorto sem tentar sair de lá, ou seja, nada de espiadelas. Nunca é preciso investigar, pois como diz a regra do diagnóstico [quando há dúvida se tem problema, não tenha dúvida QUE há mesmo problema]... no mundo quântico já se "dialogou" sobre isso e já se sabe, mas fora dele chama-se intuição e não se acredita porque não é óbvio.

Por outro lado, as causas e consequências estão trocadas. A infidelidade não é causa do fim da paixão amorosa, o fim da paixão amorosa é que é causa da infidelidade. O problema não é o aparecimento do outro, é o desaparecimento do "nós". Então, o clandestino torna-se o legítimo e o legal fica o burocrata em funções.

O conselho a dar é que ser ciumento é como jogar no casino, perde sempre e, quando parece ganhar, o ganho só serve para perder na etapa seguinte por que ele já perdeu, o ciúme é só adiamento.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Treino de Outdoor à portuguesa para vacas


(Para Dalila e João) Hoje, recordações
Em tempos passados, eu, Dalila e João “divertíamo-nos” na “Training House” fazendo treino por Outdoor e tendo uma associação informal com um Grupo inglês de Outdoor.

Por razões comerciais em determinada altura levámos um grupo de gestores de uma empresa portuguesa a um treino de Outdoor de alguns dias em Windermere (UK), a bonita região inglesa dos lagos. 

Nós, os três sócios, também fomos pois a ideia era monitorar as actividades com uma equipa mista luso-inglesa. 

Ficámos num centro de treino (um moinho recuperado) da empresa inglesa em Millness (nos confins de UK, perto de Bowness, perto de Windermere, norte de Manchester) uma pequena “aldeia” verdejante rodeada de pequenas quintas cada uma com meia dúzia de vacas lavadinhas, penteadas, simpáticas e educadas.



Tudo correu bem e tudo estava muito satisfeito. No último dia à noite fez-se uma pequena festa num pub local, deitámo-nos tarde para no dia seguinte ir de autocarro para Manchester, apanhar o avião para Londres e regressar a Lisboa.

No aeroporto de Manchester deram-nos uma notícia. Na noite anterior depois de algumas cervejas e whiskies alguns participantes alegres e criativos resolveram fazer um Outdoor para as vacas das redondezas.

Foram às pequenas parcelas rodeadas de vedações onde estavam as vacas e decidiram trocá-las de local. Assim levaram as “Belinhas” para o local das “Manchinhas” e estas para junto das “Patinhas” que estavam longe, ou seja, todas trocaram de sitio para poder conversar com as amigas. Ficaram lá toda a noite e de certeza falaram muito.

Foi um intenso Outdoor para as vacas com actividade de "Abertura Comunicativa em Rede e Face-a-Face" parecido com o que tinham experimentado e vivido no treino.

Posteriormente, nunca tivemos qualquer noticia de, no dia seguinte, ter existido uma frenética actividade dos proprietários desses participantes a procurar as suas “Belinhas” para levá-las para casa. Também procurei nos jornais e não vi boatos de UFO's na região.

Como conclusão,
no regresso, ainda pensei começar em Portugal a fazer Outdoors de vacas e touros para substituir as touradas, penso que os simpáticos animais iam agradecer e gostar. 
Talvez daqui a alguns anos a tradição fosse essa... e não andarem, ainda, uns a espetar-lhes ferros e fugir, com outros sentados a vê-los fugir e a bater palmas dizendo "OOO...LLééé".

Observação
Como ponto de vista, a tourada é o espectáculo de fazer "maldades" e fugir bem. Quem é incompetente a fugir, leva marradas e vai para o hospital, quem foge bem é aplaudido e ganha "Olés"... na gíria é o que tem "ARTE" (de fugir).
Quem gere o espectáculo toca corneta, decide que fazer, pensa (por isso?) chama-se (na tradição) "O inteligente".