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domingo, 14 de junho de 2015

Pensar em casa ou na esplanada, bom ou mau?


Hoje resolvi ir para uma esplanada reler apontamentos sobre a complexidade grupal.

Mas sucedeu algo estranho com a minha concentração pois sempre que, olhando para o "infinito"  ficava a "ruminar" mentalmente sobre um aspecto, ele era devolvido como ideias estranhas e aleatórias, aparentemente, sem qualquer conexão. Como divertimento era agradável, como tarefa era desesperante.

Lembrei-me de alguns jovens que se queixavam do mesmo, dizendo que não conseguiam estudar por se distrairem, pensando noutras coisas. Fiquei na dúvida se estaria a ficar mais jovem ou apenas a ficar "doente" da cabeça.

Intrigado, recordei que isto não acontecia de manhã, em casa, em frente ao computador. Quando aí estava, ao concentrar-me sobre uma ideia, as que apareciam sucediam-se-se em função de lógicas que eram "lógicas" e não, como agora, dispersas e "aleatórias". Na esplanada a concentração e a focalização dançava ao sabor do vento.

Algo estranho estava a acontecer, seria eu era o mesmo com a diferença de estar em casa ou na esplanada?

Pensei uma analogia. Era como se, em casa, eu atirasse a bola à parede e ela regresssasse de forma "obediente" e de acordo com expectativas lógicas. Porém, na esplanada, era como se a parede fosse de tal modo irregular que nunca sabia como é que a bola regressaria, ao obedecer a processos não-óbvios.

Sentia haver estimulações por todos os lados e as ideias pareciam bolas de ping-pong irrequietas sem respeito pelas regras da concentração.

Pensando na analogia deixei a complexidade grupal e fiquei a "matutar" no caos esplanada-casa.

Recordei que muitos dos meus escritos nasceram em cafés e esplanadas, escrevinhados em guardanapos de papel por gatafunhos sem "lógica", às vezes mesmo utilizando espaços em branco de livros que estava a ler, transfomados assim em sebentas de criatividade.
Mais tarde, em casa, eram relidos, estruturados, logicizados e nascia um texto. Novamente a dicotomia casa-esplanada.

Fiquei mais calmo e resolvi aprofundar pois talvez não fosse uma doença mas uma benção a aproveitar.

Ao mesmo tempo senti alguma tristeza pois, a ser verdade, isto é, a diferença ser realmente uma vantagem para aproveitar, recordei os jovens que dela se queixavam e a quem nunca dei "dicas" para a usarem como vantagem com consciência de que era vantagem. 

Decidi fazer experiências e "deixar andar" começando a escrevinhar em guardanapos.



Na verdade estava mergulhado em ruídos, conversas, futebol na TV, palavras soltas, discursos cruzados, pessoas sentadas, outras de pé, saindo e entrando etc.

Numa mesa, avó-mãe-filha "conflituavam" sobre o que lanchar sob olhos tristes da criança, ao lado um casal conversa em murmúrio, noutra mesa duas crianças brincam contentes com palhinhas, etc.
As "bolas" ressaltam por todos os lados.
São distracções ou são estimulações???? "That is the question".

Fixei-me nas crianças brincando e no casal conversando.
Diferenças apareceram. Ele debruçado para a frente fala agitado e implicado, ela ligeiramente recuada ouve atenta e distante. As crianças riem-se em sintonia, afastam-se e aproximam-se numa dança harmónica. Dois grupos integrados e diferentes, as crianças empáticas na sua sintonia e adultos empáticos na sua des-sintonia.

De repente percebi. As bolas, que em mim ressaltam "aleatórias", afinal continuam dentro da minha lógica da complexidade grupal, apenas me oferecendo perspectivas "out-of-box" sobre essa lógica.
A distracção da esplanada mantinha-me dentro da complexidade grupal num outro ponto de vista. Afinal não era distracção... era aprofundar fora do pensar-óbvio que me dominava quando cheguei.

Sem qualquer conexão, recordei as meditações da Idade Média fechadas no silêncio das celas, presas nas repetições das cantilenas, focadas em imagens e simbolos que impedem desvios e impõem concentração.
Na analogia anterior, era uma espécie de parede branca e lisa que prende e segura onde se está estimulado sempre com o mesmo. Em sintese, criava a riqueza do mundo fechado cheio de igualdades.

Noutra conexão com esta, surgiu-me a imagem de meditações Zen na natureza, rodeadas de cantos de aves, de sorrisos de flores e corridas de animais no meio de árvores todas diferentes.
Mantendo a analogia, era uma parede irregular que, cheia de estimulos diferentes, abria portas que existem e, normalmente, não se veêm. Em sintese, cria a riqueza de um mundo aberto cheio de diferenças.

Agora, num frenesim, guardanapos eram escritos com ideias que apareciam e desapareciam mais rápidas que a escrita... e que às vezes regressavam.
Reconheci o que me estava a acontecer, estava a viver a chamada "divagação lógica" de certas correntes da pedagogia, semelhantes a técnicas de meditações orientais mas considerada "doença" [...falta de atenção...] nas técnicas ocidentais.

Na perspectiva tântrica surgiu-me a diferença entre "excitação" e "estimulação" e empurrado por essa diferença escrevi também [...pensar "left mode thinking"...] e [...pensar "right mode thinking"...]. O caos começava a ter ordem, simplesmente era uma ordem diferente, mais rica e flexível do que aquela que trazia quando cheguei.

Afinal a "distração" da esplanada não era uma doença era uma benção dos deuses. Eram os meus neurónios a fazerem conexões novas. Como lembra o Budismo Zen seria talvez o [...necessário renascer em cada momento...].

Percebi que, tempos atrás, devia ter explicado e dado consciência aos jovens que "sofriam" com o [...não ser capaz de estudar...] que não era uma incapacidade mas apenas uma outra via para estudar, até porque hoje já há métodos e software para apoiar a complementaridade e muitos jovens o experimentaram com êxito:


até porque o processo é simples, é caçar sinais com o "right mode thinking" e estruturar com o "left mode thinking".

Culturalmente, este tipo de "divagação lógica" é considerada deficiência e falta de método, apesar de haver registos do seu uso desde Leonard da Vinci a Einstein.
Diagnostica-se como doença uma diferença que é potencialidade não utilizada e impedida.

Einstein - Archive 3-006  Repare-se que na segunda página
o texto de cima e o de baixo estão invertidos
Leonard da Vinci
Parede, 13 Junho 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

O não-óbvio na vida, 5 visitas, 1 reflexão

Abstract:
A vida hoje é demasiado complexa para se decidir com previsões a partir do óbvio. 
Usar o não-óbvio, mais que um método, é um estilo de vida.



Tempos atrás, fizeram-me a pergunta intrigante de saber se as minhas decisões na vida foram causadas por circunstâncias que me "agarraram" e a que reagi ou se, pelo contrário, foram consequência de um padrão escondido "cá dentro" que me "empurrava" para essas circuntâncias e provocava as decisões. 

Em síntese, e de um modo simples, a pergunta intrigante era se "as decisões nasceram das circunstâncias ou se as circunstâncias nasceram das decisões". Na prática é o velho problema de quem aparece primeiro "o ovo ou a galinha".

Intrigado com a pergunta, comecei a procurar respostas.

A - Introdução

Para começar, uma pergunta:
- Porque é que as pessoas casam?

Em esboço, casam porque:

A - Conhecem-se desde pequenos, andam juntos na escola, são namorados em adolescentes, integram-se nas mútuas famílias e... passado algum tempo... casam!!!

B - Já adultos, nunca se viram e, por mero acaso, em determinada hora/local, "chocam" com o outro,  olham-se e ... passado algum tempo... casam !!!

A hipótese [A] é um encadeamento de causas-consequências num processo tipo predição óbvia.  A hipótese [B] é uma sucessão de incertezas e coincidências sujeita a predições não-óbvias e vulgar em sociedades de fluidez social.

Estes dois tipos de predições são dependentes de duas variáveis:

1 - curto ou longo prazo;
2 - pequena ou grande complexidade;

e, em função do seu equilíbrio surgem as caracteristicas "óbvia" ou "não-óbvia":

Qualquer uma delas pode ainda ser afectada por um terceira variável de tipo individual que são os padrões interiorizados no tomador das decisões. Esta variável possibilitará uma percentagem de óbvio no não-óbvio, por exemplo, [...não sei o que irá acontecer mas a decisão será do tipo de...], situação comum nas perseguições e investigações criminais por responsabilidade dos "profilers".

A pergunta inicial das minhas decisões serem fruto de circunstâncias ou de padrões pessoais inscrevem-se nesta problemática, pelo que resolvi aprofundar possíveis influências sofridas fazendo visitas ao meu passado numa "Viagem ao redor de mim próprio"(parafraseando Xavier de Maistre) numa espécie de turismo freudiano amador.

B - 5 visitas

1 - O primeiro passeio foi...

...lembrar-me dos meus tempos de marinheiro quando, no Funchal, me ofereceram duas garrafas de vinho da Madeira, do século XIX, e me contaram a história* de como ele apareceu:
*- Não tenho referências da época.

No século XVI o vinho era embarcado em navios para os mercados da Índia. Numa das vezes, o navio regressou sem lá ter chegado mas, ao testarem o vinho, ele tinha adquirido uma qualidade nova e superior.
Então, nos séculos XVII e XVIII o vinho era embarcado em navios para, por efeito do balanço e do calor dos trópicos, sofrer a mesma transformação. Talvez a posterior técnica da estufagem tenha aqui a sua origem reconstituindo em terra os efeitos das viagens por mar.

Como marinheiro, esta história de um Vinho Marinheiro que melhorava ao andar no mar, agradou-me.
Mas a atracção escondida foi existir lógica em eventos sem conexões óbvias. À primeira vista não faz qualquer sentido "andar de barco nas tempestades para produzir bom vinho" pelo que me encantou a  descoberta e o seu uso.

Freudianamente, talvez tenha sido este não-óbvio o início de um padrão instalado.

2 - O meu segundo passeio foi à minha estante de livros.

Resolvi contabilizar as minhas leituras e conclui que já li mais de 900 livros de Ficção Científica.



Pesquisei as suas predominâncias e verifiquei que as minhas preferências nunca foram do tipo "cow-boy do espaço", ex. "Guerra das Estrelas", mas sim do estilo "não-óbvio tornado óbvio", por ex, com R. Heinlein, Philip Dick, Ursula Le Guin, Anne McCaffrey, Ray Bradbury, Kurt Vonnegut, Joan Vinge, Clifford Simak, Arthur Clarke... e muitos outros.
Este estilo atraiu-me e fiquei fan na aventura de encontrar o óbvio a partir do não-óbvio.

Este padrão consolidou-se pois adoptei como modelo as "lógicas" de Isaac Asimov, um bioquímico com mais de 500 livros publicados numa média de 15 por ano.
A sua grande capacidade estava em juntar ideias não "juntáveis" e tornar esse conjunto óbvio por desvelar conexões escondidas que faziam aparecer as lógicas não-óbvias, num jogo de imaginação onde a preguiça mental não tinha lugar. Tinha encontrado o meu hobby.

O prazer em ler os seus livros estava em descobrir a possibilidade para onde ele nos empurrava e que não me passava pela cabeça. Muitas vezes parava de ler e gemia:.. RAIZOPARTIÇA..!!! & ;#£;‰;%@  #!!!&; #¶ %; @‰;#.

Também freudianamente, este "pai cultural" enraizou-me o hábito de procurar a lógica escondida que ligava os inúmeros não-óbvios na vida que me rodeava.

3 - O terceiro passeio foi a eventos do passado, motivados por uma pergunta intrigante que apareceu:

- Será que, num novo casamento após um divórcio, o novo cônjuge é o "mesmo" do antigo, apenas  está camuflado e "undercover"?

Se a resposta fosse sim, então, parecia que a "decisão originaria a circunstância", ou seja, a coincidência seria uma procura que teve êxito.
As conclusões foram interessantes pois muitas vezes a nova relação parecia repetir a antiga, às vezes até copiava o divórcio anterior e suas causas. Isto começava a complicar-se.

Porém, noutros casos surgia uma versão alternativa quando, após a separação, o exconjuge alterava bastante o estilo de vida (trabalho, grupos sociais, lazeres, política, religião, etc) e, então a diferença do novo par para o antigo era nítida.
Como alguns autores referem que a referência para a decisão matrimonial pode ser baseada na sintonia com uma antiga figura parental, a mudança de perfil para o novo par a escolher poderia ser ocasionada por mudança da figura parental dominante.

Assim, revendo o meu caminho relacional comecei a tentar identificar os "fantasminhas" que me povoavam e me "encarrilavam" na escolha. Reconheci alguns, sintonizados com figuras do meu passado, que reforçaram a convicção de que os padrões provocariam as circunstâncias ou, como diziam as avós antigas, [...cada um só se apaixona por quem já anda à procura...].

Esta conclusão foi uma "pedra no sapato" que desestabilizou o padrão de pensar com o óbvio e passar a querer, com o uso do não-óbvio, acabar com esses "fantasminhas" que manipulavam as decisões. 

4 - O quarto passeio foi pelas estratégias militares.

Na época, estudando a guerrilha na Conchichina no tempo dos franceses, as batalhas de Trafalgar, Aljubarrota, Akaba, etc, e outras vitórias militares tornou-se-me claro que o "min-max"(trigger) da vitória era sempre um pequeno factor não-óbvio para a época e/ou para o inimigo e que bem utilizado originava a vitória.
A conclusão era simples, não se ganham batalhas (militares, políticas, negócios,..) jogando no óbvio mas, sim, no não-óbvio tornado criador (trigger) da vantagem para a vitória.

Como reforço desta perspectiva, analisando estratégias politicas, encontrei o grupo SIGMA, um ThinkTank com cerca de 50 autores de Ficção Cientifica, que funcionam como consultores do Governo dos  USA na procura de tendências que unam o passado com o presente e com o futuro.

PS - Por acaso, haverá hoje algo semelhante em Portugal?

Como "trauma freudiano" a consolidar-se ficou esta eficácia dos não-óbvios. Parecia-me agora que, na prática, são os padrões que procuram as circunstâncias.

5 - A quinta visita foi pelas "campanhas" políticas.

 Uma campanha política é um misto de diagnóstico de "onde estamos" seguido por com uma promessa de "para onde vamos" com o objectivo de provocar a "compra de uma adesão". Assim, pode-se considerar as campanhas políticas como uma feira de venda de adesões.

As vendas podem ser com previsões e promessas de feira, feitas por mentes preguiçosas que se baseiam no óbvio e na moda, ou com previsões e promessas estimulantes (growth) que se baseiam no não-óbvio de factores aparentemente desconexos mas cheias de energia e expectativas motivantes.

Das primeiras nascem ofertas à La Palisse, umas óbvias e generalistas sem contestação possível, outras vagas e abstractas impedindo avaliação posterior. Obviamente, o risco político nelas existente é nulo.
Alguns exemplos:

A

Na verdade, é difícil candidatar-se em Portugal por acreditar na ESPANHA ou no BURUNDI...

B

OK...mas uma dúvida subsiste... "por todos nós"... O QUÊ?
Aumentar ou reduzir os impostos? SIM ou NÃO à Assistência social e Saúde?? Ensino melhor ou pior??
Ou... talvez seja só um cheque em branco do tipo "Por todos nós porque... Eu sou porreiro e faço o que quero!!!"

C

Neste caso o convite para aderir é do estilo de sites de encontros onde [...escolha o par dos seus sonhos e sua vida melhora...]. É a chamada foto de conexão afectiva... calmo, pachorrento, pensativo e amigo. 

D

Aqui surge uma proposta de regresso à infância com as histórias da raposa que diz à galinha: "Confia em mim!!!" Se confiar ... não aprendeu nada com a história da avó!!!

E

Semelhante ao estilo feirante que grita em altifalante as benesses do produto:
- "Não conhece de lado nenhum... não desconfie, confie... é justo e solidário!!!"
Poder-se-á aderir???

Em todos, o padrão cultural  é claro.
Segundo Maurice Duverger há duas espécies de Democracias, a Democracia Governada e a Democracia Governante. 

Na Democracia Governada todos conhecem o governante, a família, o cão, o gato, a vida dos filhos, o carro que tem mas não sabem o que ele anda a fazer. 
Os eleitos não têm consequências do que fazem, a impunidade é geral. Com promessas vagas, herméticas, não avaliáveis e de incumprimento impune... não existe risco político. 
Quem adere vota às cegas, tem em ideias vagas do que ele fará mas acredita porque  [...é um tipo porreiro,  diz coisas boas e tenho esperança...] , é uma adesão ao estilo crença num Pai Natal político.

Pelo contrário, na Democracia Governante os eleitores não se preocupam com o governante mas sim com o que ele anda a fazer e se cumpre o que promete. Prestar contas, ser avaliado e ter consequências é garantido, assim as suas propostas têm que ser claras, concretas e avaliáveis nos seus resultados. 

Como exemplo, JF Kennedy em Maio 1961 fez uma promessa política, clara, concreta, avaliável e, verdade ou mentira, é tão não-óbvia que ainda hoje há quem não acredite que tenha sido realizada. O risco politico foi grande, até em termos internacionais:



  
Nas campanhas, o factor critico das promessas é a sua credibilidade. Quando esta se perde todo o esforço de venda de adesões é ineficaz. Nesta situação origina-se a selecção pela negativa. 
Como nenhuma tem credibilidade substitui-se a listagem dos melhores, onde se escolhe o primeiro, pela listagem dos piores, onde se escolhe o último... o menos mau.

Como conclusão, as promessas feitas com base no óbvio ficam sem graça e sem atracção, vivem apoiadas na popularidade e na moda, têm vida curta e memória frágil.
Porém, se feitas com base no  não-óbvio são atractivas e intrigantes, perduram para além da época (vide Kennedy) e normalmente não significam um caminho mas um ponto de vista que fomenta possibilidades, projectos e resultados.

Conclusão,

após esta curta "Viagem ao redor de mim próprio" parece que o padrão não-óbvio foi por mim incorporado mas integrado em coincidências aleatórias onde, nas encruzilhadas decisórias, optava por  caminhos, nem sempre muito "lógicos" dentro do óbvio normalizado.

Este resultado não consciente, que agora me foi evidente, fez-me pesquisar e encontrar livros e apontamentos arquivados sobre fissuras em regulamentos institucionais que possibilitariam opções não-ilegais fora do óbvio legalizado. 

Depois desta pesquisa que durou algumas semanas, o mais divertido foi, agora, olhar para o espelho e pensar "Quem eras tu???".
E verificar que, com um intervalo de dezenas de anos, estava a pôr em prática o conselho de Sócrates (o original) quando diz "Conhece-te a ti mesmo", pois esta frase foi mim escrita aos 19 anos no inicio de um artigo na Revista "O Tridente" da Escola Naval. Talvez já na altura, andaria preocupado com o dilema [...pessoa e sua circunstância.]

Quem eras tu????

C - Reflexão

Depois de todo este turismo no passado, concluo que, para o bem e para o mal, a minha vida sempre andou entrelaçada com o não-óbvio.

Respondendo à pergunta inicial que provocou esta viagem, posso dizer que, se bem que sujeito ás vagas agitadas das coincidências, nas suas encruzilhadas decisórias o padrãozito do não-óbvio teve uma função importante.

Continuando fan dessa opção, apesar de algumas nódoas negras, posso dizer que continuo a persegui-lo pela simples razão que ele está aí,  à solta lá por fora... e enganar os óbvios existentes nos neurónios é uma aventura atraente. Resumindo, a atracção pelos não-óbvios é porque eles existem.

Realmente, passear descalço em carvão de coque ao rubro (400ºC?) não é nada óbvio:

Alpes Italianos (2001)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Big Bang e tempo, 7 perguntas 2 experiências

Perguntas estúpidas obrigam a respostas inteligentes,
Perguntas inteligentes originam respostas estúpidas!

Ando entretidíssimo a ler teorias sobre o tempo e a consciência, variando entre a Quântica, o Gato de Schrödinger, Big Bang, Biocentrismo, Teorias das Cordas, etc.

Não sendo um cientista, limito-me a passear no mundo das ideias como um turista que apenas pensa sobre o que vê, não se preocupando se o quadro é de Chagall com reminiscências russas ou de Picasso espanhol com pinceladas francesas, e se a Igreja e suas estátuas são românicas, renascentistas ou modernas. O turista apenas saboreia, pensa, tira conclusões e vive o que encontra utilizando a capacidade de aprender que recebemos à nascença.

Assim, o turismo de ideias é o meu hobby favorito e neste momento ando a turisticar "o tempo e a consciência".

Encontrei a teoria do "Big Bang" mas penso que ela é muito tradicional e de uma grande simplicidade, pois baseia-se na velha escala temporal do "Passado-Presente-Futuro". Ou seja,


Assim, insistindo que não sou cientista, e como uma criança à procura de compreender a realidade, tenho o direito de fazer perguntas parvas pelo que sete questões me ficaram a incomodar. Até à quarta, resolvi pesquisar mas, na quinta, decidi parar e mudar a perspectiva das perguntas.

1ª - Donde é que aparece o Big Bang?

A teoria diz que primeiro existe NADA, depois existe TUDO.
Admitindo que o "tempo não anda para trás", portanto o Futuro (Universo) não pode ter criado a explosão que o originou, pois neste caso o TUDO seria criado a partir do NADA.
...e aparece a segunda questão:

2ª - Como é que o NADA cria uma explosão ?

Considerando que:
1. por um lado, com uma explosão feita com NADA, nada deve explodir. 
2. por outro lado, quem fez a explosão? Se ela se fez a si própria como é que NADA pode fazer alguma coisa, ou seja, no caso desta teoria como NADA pode explodir?
Logicamente NADA só pode fazer nada ...ou então o NADA é qualquer coisa, logo não pode ser NADA.

3ª - Então o que é o NADA ?

Segundo a Teoria dos sistemas, o sistema de controlo tem sempre que ser mais complexo que o sistema controlado.
Quando o Big Bang origina o desenrolar das etapas sucessivas para a criação do Universo, o sistema criador do Big Bang tem que ser mais complexo que o resultado produzido. 
Então, sob o ponto de vista lógico, no inicio existiria o TUDO e, com o Big Bang, passariam a existir partes (slices) do TUDO inicial e, assim, o Universo seria uma parte do TUDO que o originou.
O esquema da escala temporal altera-se:


O meu turismo de ideias está a ficar complicado porque esta conclusão baralhou-me a compreensão.

Assim, surge-me a 4ª questão:

4ª - O Universo e/ou Multiversos fazem parte do TUDO inicial?

Analisando diferentes religiões, todas elas dão a este TUDO inicial vários nomes diferentes mas, basicamente a regra é sempre a mesma "DELE tudo se origina, para ELE tudo regressa" e surge o conceito de DEUS.
Em muitas religiões, o conceito de Deus integra a Onipresença (por ex, a Bíblia tem várias referências) mas, em algumas, encontrei a metáfora de que (parafraseando) [...tudo que existe faz parte e está em Deus, pois ELE é uma espécie de oceano que tudo contém e os humanos são apenas gotas de água nesse oceano e feitas à sua imagem].

Na perspectiva do BigBang, suportado pela sua escala temporal, esta metáfora é lógica se aceitarmos o conceito de Deus como Onipresente, todavia origina uma conclusão intrigante.

Se existe algo no universo que não faz parte de Deus, então Deus não é tudo o que existe e, portanto, a sua existência é condicionada* pelo que não é Ele, logo não é Onipresente e Onipotente (vide referências na Bíblia).  
*Ex.: Quer Eu seja superior ou inferior a uma pedra eu sou condicionado por ela, [por ex., ...onde ela está eu não posso estar...].

Se Deus é Onipresente, Deus não pode estar em mim porque, neste caso, existe Deus em mim e existo EU, logo Ele não é Onipresente. Para Deus ser Onipresente eu não posso existir sem ser Ele, logo EU tenho que ser Deus (ver Biocientrismo). 

PS- Aceitar o diabo é aceitar o bicefalismo no poder divino, ou seja, existir uma entidade que não é deus e se lhe opõe, logo Ele não é Onipotente. Nesta perspectiva, as mitologias grega, romana, nórdica, etc, com a existência de vários deuses cada um com seu pelouro são bastante lógicas.

Assim, surge-me a quinta pergunta:

5ª - Eu sou DEUS e não morro? 

Neste momento cheguei à conclusão de que a Teoria do BigBang nos conduz a posições mentais e perguntas estranhas, pelo que deve haver um Bug em qualquer lado. 
Assim, abandonei as respostas a esta pergunta e fiz outra um pouco diferente:

6ª - Numa sala só com móveis, e com total isolamento acústico, se um sistema sonoro tocar uma sinfonia existe música nessa sala? 

A resposta é fácil, basta saber um pouco da Ciência Física estudada na Escola Secundária.
Se a sua resposta é SIM, está errada porque a resposta correcta é NÃO porque nessa sala não existe qualquer córtex para transformar vibrações em som, logo não há música.
A música só existe no córtex, por isso só existirá música se existir observador a receber as vibrações e como a sala tem isolamento acústico isso não acontece.
[ver Pinçamentos "Árvores a cair e o pensar" clickar aqui]

Se analisarmos o modelo do Big Bang e se retirarmos a variável tempo toda a Teoria cai pela base, pois sem uma escala de tempo a teoria não tem sentido.
Sem o conceito de tempo, os paradoxos da passagem do "Nada ao Tudo" ou do "Tudo ao semi-Tudo" e ainda de "Deus não ser Tudo" ou de "Tudo ser Deus" não existem.

Então à semelhança do som e da música, SERÁ QUE... o tempo é apenas uma construção mental que só existe com observadores e, na verdade, tudo é estático?

Ou seja, a sétima questão:

7ª - O tempo existe? 

Que o tempo não é constante é uma verdade aceite desde Einstein mas, então, se não é constante pode "alargar-se" e "encolher-se" em função de certas variáveis? Parece que sim.

E poderá chegar a zero? Se pode, então, será possível não haver tempo e tudo estará estático. Tudo ficará parado e o tempo não existe.

Será possível acontecer que tudo esteja em "tempo parado" e o "tempo mexido" seja apenas uma função de córtex de observadores? Será possível que o tempo seja apenas a resultante de uma função neural para possibilitar compreender sucessivas situações estáticas? ...tudo semelhante ao que acontece com o som???

Duas perguntas sob forma de experiência:

Experiência A

Põe-se um DVD no gravador e vê-se um filme na TV. 
A história desenrola-se do princípio ao fim, vê-se o presente tornar-se passado e o futuro nascer e cair para o passado. Fica-se preso ao passar do tempo. Afinal o tempo existe e foi vivido.
Tira-se o DVD, guarda-se e o tempo fica lá PARADO à espera de alguém o tornar outra vez tempo MEXIDO.
O que se passou???

Será que um DVD é apenas um pacote de tempo parado e o tempo mexido só existe no córtex do espectador com a "ajuda" da TV?

Será que a vida funciona do mesmo modo? Vemos tempo mexido de coisas que estão com tempo parado? Será o tempo apenas um "truque" resultante de um mecanismo neural que só funciona em observadores? Será semelhante à música que é resultante do processamento neural de vibrações e só existe como sensações no e do córtex do observador-ouvinte?

Será possível que, sem esse mecanismo neural, tudo esteja realmente parado, susceptível de se passar do passado para o futuro e vice versa? Será este o mecanismo das viagens no tempo, ou seja, viajar no tempo será apenas alterar o modo como o cortex funciona?
Será este o "truque" de videntes, shamanes, profetas, místicos... tais como o conde Saint Germain, Nostradamus, Sor Faustina, S.Malaquias, Rasputin, Edgar Cayce, H. Blavatsky, Agripa (El Nigromante), etc, que contam "coisas" do futuro?
Na verdade, e como analogia, manipulando o DVD e as suas situações estáticas (tempo parado) conhece-se o passado, presente e futuro (tempo mexido) de qualquer momento do percurso temporal da história*.
*Ex.: Quando o filme me aborrece costumo fazer isto,... chama-se a estratégia do "get to the point!".

Experiência B

Nestas fotos o que é que esta criança está dizendo?


Se não conseguem compreender o que diz é porque o vosso córtex está incapaz de estruturar o conjunto dos sucessivos bits que está recebendo, isto é, há nele uma função neural que não está a utilizar.

Todavia, com uma pequena ajuda para ver as fotos, o córtex consegue resolver o problema:

               

Afinal, parece que o tempo está no córtex pois, quando os estímulos (fotos estáticas) foram percepcionados numa sucessão mais rápida, o córtex estruturou as suas diferenças sob forma de movimento, aplicando o truque "tempo". Assim, compreendeu a mensagem não verbal do dedo e suas alterações cujo conjunto  significa "NÃO".
As fotos são exactamente as mesmas, apenas se sucedem rapidamente e, como o cortex só percepciona uma de cada vez, tem que resolver a situação da sua sobreposição de outro modo, isto é na gíria, com "visão temporal".

Quando a sucessiva entrada de imagens com pequenas variações chegam vagarosamente no córtex, ele não consegue estruturar essas diferenças de modo a obter compreensão e, assim, o significado do conjunto não é obtido. Foi o que aconteceu com o olhar normal sobre as fotos estáticas.

Quando a visão das mesmas imagens e sua substituição sucessiva se tornou mais rápida, a mão do jovem não era percepcionada mas as diferenças transformaram-se em movimento, pois o cortex criou a sensação de tempo e resolveu o problema: o sinal gestual de NÃO apareceu e a compreensão do seu significado foi possível.

Para este mecanismo neural acontecer duas soluções são possíveis:

1º - passar rapidamente os olhos pelas fotos sem procurar fixar detalhes e, de repente, o dedo parece   mover-se de um lado para o outro. No córtex a sensação de tempo foi criada e este "truque" sensitivo permitirá obter compreensão, apesar das imagens continuarem estáticas.
Esta técnica permite também descobrir pequenas diferenças entre duas imagens aparentemente iguais, isto é, se não olhar para os detalhes de nenhuma mas alternar rapidamente o olhar entre uma e outra, as diferenças "mexem-se" e percebem-se, o mecanismo do tempo permite a percepção.

2º - Os olhos ficarem quietos e as imagens estáticas sucederem-se rapidamene, criando no cortex a sua sobreposição, impedindo a sua percepção cognitiva e originando o truque do tempo-movimento como solução. É o caso do cinema em que, por exemplo, esse efeito pode ser obtido com a passagem de 24 imagens por segundo. Se se aumentar ou reduzir o número de imagens por segundo, também a sensação de tempo no cortex se altera ficando o tempo fílmico acelerado ou retardado.

Como conclusão, últimas perguntas:

A - O tempo é um fenómeno da realidade ou um subproduto do córtex como a música?
B - Sem tempo, a velhice e a juventude existirão em simultâneo pelo que o envelhecer é só uma percepção temporal neural que pode ser alterada? *.

* - Por ex. pode surgir nos EAC (Estados Alterados de Consciência) por drogas, alucinógenos, induções psy, etc, ou simplesmente na velhice em sonhos de "reviver" o passado com sensações dos 20 anos?
Este fenómeno chama-se "recordar" na voz popular e "catarse" na voz psicanalítica (ver Freud, Breuer, kierkegaard, Lacan, etc, no "Recordar, Repetir, Elaborar")

Portanto, três alternativas:

1 - A juventude, o adulto e a velhice são todos estáticos e coexistem simultaneamente,


2 - ou, inserindo o tempo, vê-se um de cada vez e nunca será possível "andar para trás", isto é voltar a ser jovem;

3 - o tempo é subjectivo, um truque do córtex para detectar micro-diferenças estáticas e é possível andar  "para trás e para a frente"(??)


Depois disto tudo que conclusão se poderá tirar?
Vou continuar a procurar e a fazer perguntas!


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ensinar a aprender melhor


Pensar é natural, faz parte da programação genética como correr e saltar. Mas é possível aprender a pensar melhor do mesmo modo que correr e saltar se pode fazer melhor.


Aqui estão dois exemplos de actividades para apoiar, estimular e desenvolver o gosto e a eficácia de estudar.

1 - Experiência de pensar: "caçar" o significado comum

Apresentar esta imagem a um jovem ou a um grupo:


Depois, por grupo (numa folha colectiva) ou individual (num A4), escrevem-se duas ideias "lembradas" por cada imagem (max. 6 palavras), mas deixando sempre espaços em branco entre cada conjunto:


Depois de escritas, devem-se procurar ideias/palavras comuns nas várias frases, o que permitirá escolher a ideia central do conjunto. Caso não exista nenhuma, procurar fomentar diálogo de exploração* (não dar informação mas dinamizar associações) e ir escrevendo os resultados obtidos até algo de comum surgir. 

Por exemplo, a ideia de vento é vulgar aparecer rapidamente mas a percepção de força aparece "escondida" noutros conceitos (empurrar, tirar, fazer subir, etc).


Consoante a idade dos participantes, e continuando o diálogo de exploração, podem chegar a outros conceitos tais como energia controlada (moinho, barco, papagaio) ou energia não controlada (árvore e chapéu). As possibilidades são infinitas:


Uma forma simples de desenvolver inferências (deduções) é contarem uma história em que entrem todas as imagens, quer donde vêm quer para onde vão, isto é, os porque's e os para's do raciocínio. 

No fim, uma etapa interessante é avaliarem na sua história o que seria mais fácil acontecer e o mais dificil, o mais interessante e o menos atractivo, o que gostam mais e o que gostam menos. A lucidez é um aspecto importante do raciocínio.


2 - Experiência de pensar: Para além do óbvio

Qual a ideia central do extracto de texto de "Cães-guia e não só"


Cães guias e não só
Os Cães são muito usados como guias de pessoas com deficiência visual.
Porém pequenos cavalos, os poneys, também são uilizados como guias. Eles são ensinados como os cães e são óptimos nesse trabalho.
Estes cavalos miniaturas chegam a aprender 25 comandos. Podem ver no escuro e aprendem a bater com uma pata na porta se querem sair.
Uma vez um homem levou um cavalo-guia num avião.



Sublinhar no texto as 6 palavras mais significativas.

PS- Num texto não se deve sublinhar mais de 10% das palavras e este texto tem 67 palavras.

Vendo as palavras sublinhadas, responder às perguntas:

1 - Qual é a ideia principal do texto (escolher uma):

A . Existem cães guia;
B . Um cavalo-guia viajou num avião;
C . Cavalos são guias de pessoas com deficiência visual;
D . As pessoas com deficiência visual gostam de animais.

2 – Qual é um detalhe significativo em relação à ideia principal:

A . Cães guia ajudam pessoas;
B . Cavalo miniatura quer dizer cavalo pequeno;
C . Cavalos-guia aprendem 25 comandos;
D . É vulgar viajarem cavalos-guia nos aviões.

3 - Quais as 2 palavras a sublinhar no título e porquê ?


Obtidas estas respostas, deve-se ir fazendo o diálogo de exploração*, levando a que o participante vá aprofundando continuamente as ideias por ele expostas, de modo a que encontre por si próprio outras associações que permitam desenvolver os vastos significados dessas ideias. 

Seja qual for a palavra sublinhada, o fundamental é relacionar a referência base "cães-guia" com as possibilidades que rodeiam essa alternativa, criando possibilidades de divagação lógica**. 

Um jovem de 11 anos, em poucos minutos, ficou intrigado e entusiasmado com a sua ideia da possibilidade de golfinhos-guia para náufragos.

Como exemplo de diálogo de exploração:
- Porquê "não só"? 
-"não só" o quê?

Com base no diálogo de exploração ele deverá inferir-concluir "não só cães-guia mas também outros animais". 
É importante que nenhum "pedaço" (slice) dessa informação-conclusão lhe seja dado, mas apenas se deve abrir campos de referências e associações "a latere". 

Se não surgirem inferências, apenas se devem dar dicas de relações mais óbvias, do tipo "Porque é que os cães guiam? O que é que ajudam ? e, se necessário,  por fim "...e se não há cães?".

* - Dialogo de exploração - É uma conversa em que nunca são dadas informações sobre o resultado mas apenas perguntas que abrem outras áreas com conexões com o resultado. O caminho a seguir e as ideias surgidas (plop up) são tarefa autónoma do participante. 
Tecnicamente chama-se "Juggling" de ideias (malabarismo, ligeireza, equilíbrio, dinâmica..) pois oscila entre aprofundar a referência base (inside) com foco na sua análise e ao mesmo tempo alargar as conexões com o contexto (outside) procurando pontos de semelhança e contacto, mediante abertura receptiva.
Como exemplo, aprofundar o conceito "cães" alargando a outros animais (golfinho como nadador salvador) e o conceito "guia" referindo-se a outras formas (farol que guia através de luz e/ou som).

** - Divagação lógica - É a técnica de caminhar no "inside" e no "outside" sempre com conexões claras, definindo os "porque's" da sua ligação. O grafismo deve ser sempre do tipo: