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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

II e III- Democracia em simpléssshhh: a lógica







O curioso é que o modelo da democracia vulgarizou-se e associou-se a muitos outros, assim existem Democracias:

1- ...em Repúblicas com diferentes formatos. Por exemplo, podem ser com votações fechadas, abertas, parciais, gerais, directas, delegadas, individuais, colectivas, etc. Por sua vez o eleito pode ter vários nomes protocolares desde Presidente a Secretário geral e o governo pode ser Presidencial, semi-Presidencial, com ou sem Primeiro Ministro, etc.
No caso de Primeiro Ministro ele escolhe os Segundos Ministros (não há votações talvez apenas "pressões") que, por cultura democrática de serem "todos iguais", são apenas chamados Ministros apesar de serem segundos.

2- ...em Monarquias com um formato misto pois têm um processo para definir o chefe máximo, chamado rei/rainha, e outro diferente para escolher chefes e chefinhos.
Para o chefe máximo a rotação é seleccionada por consanguinidade por sexo legal ou ilegal (bastardos) e  é normalmente vitalícia.
Para chefes e chefinhos é feita por votações restritas ou globais, individuais ou colectivas (assembleias, senados, câmaras, comissões, comités, etc) ou outras hipóteses e têm duração temporária.

3- ...em Ditaduras de grupos sociais (partidárias) onde existe um curioso sistema de votações SIM-NIM-NÃO:
➽ "SIM" para o chefe máximo, chamado desde Secretário Geral (tipo administrativo) até Líder Supremo, (tipo deus), eleito num sistema fechado de câmaras, comités, delegados, etc, ou seja, sempre em grupos restritos e é considerado que dentro deles há democracia.
➽ "NIM" para chefes e chefinhos nomeados por amálgama de critérios, tais como, cunhas, lobbies, facções, sensibilidades de "corredores", interesses familiares, contrapartidas, favores, trocas, etc, e é considerado que esse "jogo" é democracia informal em acção.
➽ "NÃO" para os restantes viventes que, fora de jogo, são apenas "espectadores" do jogo politico com a liberdade de viverem felizes e "livres" desses problemas ao estilo "vacas gordas no estábulo".

De um modo geral, as Democracias baseiam-se em PARTIDOS, elemento fundamental do modelo, mas às vezes entremeados com independentes (os sem partido) como um mal necessário, pois não estão vacinados com a disciplina partidária contra incertezas.

Curiosamente, partido são pessoas que se separam dos outros com o objectivo de, DEPOIS, a eles se unirem para, em trabalho conjunto, terem um resultado comum.
Lógica inovadora e estranha pois para ficar unidos partem-se primeiro aos bocados. Cada bocado chama-se partido (o que é lógico), mas depois (o que é ilógico) lutam uns com os outros, destroem-se, bloqueiam-se e agridem-se nas assembleias com uma técnica chamada De-bate.

De-bates (físicos e psy) em Assembleias de deputados
Quanto maior e mais agressivo é o De-bate, maior e melhor é a Democracia e a posterior união entre todos para o trabalho conjunto.

UuuHhau...!!!... pessoalmente nunca percebi a lógica. Parece-me mais o estilo do paradigma da violência amorosa em que "quanto mais bate mais gosta" e  "quanto mais o outro sofre maior é o amor e a amizade por ele". 
O Freud teria aqui muito material de estudo.

Lógicas estranhas da espécie humana pois bater num desconhecido é crime, bater na mulher é aceitável, bater no filho é pedagógico. O mesmo acontece na política e na sociedade, onde torturar é crime, mas  torturar na família para educar é pedagogia aconselhável e para divulgar.

Do mesmo modo, atacar um partido doutro país é condenável, atacar partidos do seu país é dignificante, atacar dentro do seu partido é louvável... pois a base é "order and LION" (Like It Or Not) tecnicamente chamado Disciplina Partidária.

Nas assembleias e diálogos democráticos (vide TV) as discussões partidárias para obtenção de unidade são feitas por bater o mais que se pode no outro, insultar, estraçalhar, berrar lengalengas (jamming) num catch as catch can sobre o outro.

A metodologia diz que quando ambos estão bem DE-batidos e em moleza mental, estão em boas condições de cooperar e colaborar um com o outro por cansaço embrulhado em motivação. Penso que o nome de PARTIDOS (separados) vem da sua origem e da técnica de brigas (contusões) como preparação para colaboração.

Assim encontra-se:

1- partido único, apesar de ser ilógico pois se está partido não pode ser único tem que haver outro pedaço. Na prática apenas significa "podes votar no partido que quiseres mas tem que ser este";
2- dois partidos com a escolha "ou...ou", dilema do tipo "...escolhe o que quiseres mas é um destes", ou seja, a listagem já decidiu e ratificou, só pode ser um dos escolhidos. 
3- muitos partidos, por ex, Portugal em 2015 com dezasseis candidatos e Catalunha em 2017 com sete. Este formato é interessante porque revela grande sofisticação intelectual na igualdade democrática entre vencedores e vencidos. Na verdade, pode acontecer que o vencedor perca a eleição e o perdedor ganhe a eleição.

Este resultado, aparentemente ilógico, tem uma lógica requintada. O vencedor ganha com o critério quantitativo mas perde no qualitativo. Pelo contrário, o perdedor perde no quantitativo e ganha no qualitativo. A decisão não é fácil.

A solução óbvia é os perdedores juntarem-se e ficarem também ganhadores na quantidade... o que torna a situação ainda mais interessante.
Na prática, atingida a quantidade mínima para ganhar, o perdedor que ficou o fiel da balança será o verdadeiro vencedor pois é ele que, verdadeiramente, decide nas assembleias quem ganha as votações. Em esquema:

Se partidos "A" e "B" estão empatados... o vencedor será "C" pois, na verdade, se ele se juntar a "B"  ou a "A" eles ganharão MAS se se abstiver eles empatam.
O poder é de "C" pois é ele que sozinho decide quem ganha. Nestas condições, o "pequerrucho" é que manda. A democracia tem destas surpresas.

A democracia é um sistema complexo com muita sofisticação e com várias lógicas a serem usadas.  Desde formalizadas (expressas, impressas, escondidas e secretas) até caóticas (confusas, subterrâneas, clandestinas e baralhadas).

Como exemplo uma... Lógica Democrática "escondida".




A "mola impulsora" da Democracia são VOTAÇÕES, são elas que criam os mandantes chamados eleitos através das escolhas dos eleitores. Este mecanismo possui níveis expressos e níveis "escondidos" (undercover).

Na democracia, na prática, é fácil chegar a chefinho pois é suficiente fazer "campanha" que é um nome discreto para o impulsor "Vou mandar isto... obedeçam-me":


Tudo se resume a apresentar um projecto político, obter adeptos, legalizar o partido e ...veni, vidi, vici...
A criatividade é a regra mas em Portugal os projectos políticos são inovadores, de objectivos claros e concretos apesar de difusos em neblina. Eis alguns:


Estas campanhas com estes objectivos são subsidiadas e destinam-se a informar os eleitores sobre aquilo que o candidato pretende anunciar para o futuro dos cidadãos, famílias e filhos. Os votantes devem escolher com consciência e compreensão qual o futuro que desejam.

Assim, e para reforço da democracia, é fundamental que o eleitor possa avaliar os resultados da sua escolha, isto é, saber se a promessa prometida foi cumprida, se os resultados foram concretizados. As consequências desta avaliação são directas pois se as respostas forem positivas vota-se OUTRA VEZ no mesmo, se são negativas ...escolhe-se outro. 

Este mecanismo é essencial para sobrevivência e desenvolvimento da democracia. Ele chama-se avaliação da decisão feita (debriefing) e é um automatismo vulgar na vida de qualquer cidadão quando escolhe  carro, roupa ou couves numa loja.
Se ele se sente defraudado, há mecanismos legais para garantias, queixas e defesas contra a fraude, tipo:


Porém, nos exemplos das campanhas anteriores como é que um eleitor consciente avalia se foi, ou não, defraudado no seu voto? Como avaliará se deram "Coina para todos", se tem "Picha para a frente", se houve "Cabeçudo, por ti, tudo" ou se existe uma "Roliça sempre"?

Possivelmente, se não puder avaliar a consequência do voto concluirá que tudo é impune, que não merece a pena escolher, que o melhor é ser absentista.
Na prática é o que faz na vida quando lhe "vendem gato por lebre" e fica sem solução, daí em diante nem gato nem lebre e passa a vegetariano... só se for parvo é que insiste na dita "lebre" e muito menos no dito restaurante.

Portanto, a avaliação é um risco que o candidato deve evitar, prometer sim mas impossível de confirmar, o ideal são obviedades que ninguém discute e fáceis de argumentar. Por exemplo,


por um lado era impensável dizer "Portugal pior" ou "Espanha melhor" e, por outro lado, qualquer coisita pode provar melhorias.

Será que votações democráticas são brincadeiras festivas de publicidade abstracta e difusa? Se a resposta é sim, então, há uma séria questão escondida a DES-tapar, ou seja, se estas "brincadeiras" são realmente a democracia é aflitivo, se é um festival humorístico é triste e se é seriedade assumida é assustador.

Se esta seriedade assumida é feita de inconsciência democrática é caso para pânico pois esta inconsciência é apoiada por partidos a quem estamos a entregar o nosso futuro e dos nossos filhos e é esta a democracia que lhes deixamos.

Raizopartiça... ∑@#%!!!®¥GRRR!!!... os partidos devem ser a coluna vertebral da democracia e devem fomentar e potenciar ideias, processos e actos de alicerces democráticos e não escamoteá-los.

A base da democracia não é "botar o voto", é o votante que ouve informação válida, pensa, compara, dialoga, não faz boxe de insultos... e vota.

Porém, a lógica actual da democracia é a regra do mando-obediência, expressa em [...quem não obedece, é despedido !!!]. Em qualquer partido (esquerda, centro, direita) este é o paradigma fundamental, não é ouvir, pensar, aferir com outros pensares diferentes.

O projecto de futuro (vide cartazes) é só um acidente de marketing. Qualquer conotação com o real é pura coincidência. Na verdade cumprir o que foi prometido não é importante, o importante é [...dizer e desdizer se necessário, fazer e desfazer se for preciso...].

Por exemplo, depois da eleição, o eleito pode acabar com as eleições, prender candidatos, eleitos e eleitores, proibir conversas e agrupamentos, bloquear e aldrabar informação, etc, desde que seja votado e legalizado. Princípios são um mal necessário, sobreviver é a virtude imprescindível, é preciso ser engenhoso, adaptável e criativo, onde a mentira é apenas a verdade necessária.

Dizer o contrário é dizer o mesmo em contexto diferente, assinar por responsabilidade é apenas dar um autógrafo, subornar é prenda por agradecimento, incompetência é inovação em teste, defraudar são efeitos colaterais, errar é a coragem de decidir e os eternos "não sei nada, estava de férias, não me lembro, são erros antigos, a culpa foi do..., etc", mas principalmente...

"foi consensual"

..."foi consensual" é a tradução em linguarejar político de "eu-sem-responsabilidade-porque-a-responsabilidade-é-de-todos-nós". Porém, na teoria sociológica de grupo, a decisão colectiva não dilui a responsabilidade individual mas, antes pelo contrário, agudiza. 

Esta é a razão da importância das actas nos debates grupais porque se não existirem o indivíduo fica "escondido" dentro da decisão grupal. Tecnicamente, chama-se ficar arresponsável, isto é, sem imputação de responsabilidade.
PS - Hoje, por simplicidade e facilidade, substitui-se a acta escrita por gravação. Por segurança de avaria, desaparecimento ou adulteração, devem ser usados pelo menos três gravadores em simultâneo.

Isto apenas significa que há uma lógica "ab hoc et ab hac" a esconder a verdadeira lógica da votação. A notícia:

refere-se a uma votação na Assembleia da Republica e às contestações surgidas sobre a sua transparência(?), validade(?), legitimidade(?), legalidade(?), etc.
Sem entrar na análise do problema e apenas focalizando o argumento surgido de ter havido um amplo consenso na aprovação, pode perguntar-se o que este argumento quer dizer.

Consenso na votação normalmente arrasta a insinuação de que está tudo correcto porque houve acordo e que a responsabilidade é de todos. É uma espécie de placebo catalisador de responsabilidade.

Porém a votação é uma técnica social destinada a explicitar a quantidade de adesões, recusas ou indiferenças existentes em relação à proposta, não é uma técnica de avaliação qualitativa, ou seja, a sua aprovação ou recusa não afirma nem nega a sua correcção legal, legítima, moral, ética, etc.

A vulgar e dominante preocupação de validade de uma votação foca-se na validade do votar que é necessária mas não suficiente. Há dois outros factores que são essenciais, a probidade dos votantes e a seriedade dos processos prévios (informação, debate, actas).

Num exemplo, se nesta latitude um grupo votar em consenso que ao meio-dia é noite, pode ser democrático mas é parvoíce. Mesmo em caso de eclipse solar continuará a ser dia com o sol "tapado".

A votação é só a radiografia do acordo dos votantes. Isto significa que a essência da democracia não é a votação mas a validade e probidade do debate que antecede a votação. Esta posição é muito clara nos filósofos gregos da antiguidade ao dizer que [...a democracia acaba quando começa a votação...], ou seja, [...a votação é o fruto da democracia, não é a árvore...]. Votar às cegas ou por submissão a ordens é votação mas não é democracia.

Dizer "é democrático porque foi votado", no mínimo, é uma brincadeira de mau gosto, mas dito por um político deixa de ser brincadeira mas continua de mau gosto.

Em conclusão, o consenso não é garantia de validade técnica, legal, legitima, moral ou ética é apenas garantia de validade social naquele grupo, as outras validades provêm da proibidade do grupo nos critérios, da  processologia seguida e do debate informativo.

É interessante que o veto do Presidente da República sobre este assunto refira como causa [...com base na ausência de fundamentação publicamente escrutinável], ou seja, é teoricamente concordante com a filosofia da democracia e a metodologia da votação.

A votação, a campanha e o debate

Na actual cultura política existe a Sociedade Política e a Sociedade Civil que penso incluir a sociedade militar ou então ela foi excluída das duas ou foi esquecimento lapsus linguae (Freud).

A Sociedade Política é o conjunto dos candidatos eleitos e no conceito, apesar de um pouco confuso, penso incluir alguns "apensos" tais como staffs, dirigentes partidários e sindicais, comentadores, jornalistas políticos, ex-candidatos, etc.

A Sociedade Civil é um conceito ainda mais confuso pois não percebo a lógica de não ser Sociedade Política pois ela é o núcleo duro dos eleitores. Os eleitores têm a função política de escolher de entre os candidatos os melhores políticos para entrar na dita Sociedade Política.

A lógica ou é estranha, ou há uma lógica escondida, ou é lógica de brincadeira.

Todavia, uma lógica-lógica seria considerar como Sociedade Política os nove milhões e seiscentos mil cidadãos, ou seja, os eleitores que escolhem aqueles que vão ter funções políticas específicas no período inter-eleições.
Esta versão lógica não é inovadora pois é a clássica, é o que acontecia há perto de 2.600 anos em Atenas na então inicial democracia.

Como neste campo não acredito em lógicas de brincadeira, a hipótese viável é existir uma lógica escondida a garantir a lógica estranha. Penso que tudo se concentra na trilogia:


Em Portugal, 2015, a Sociedade Política decretou e legalizou que 13 dias eram suficientes para a Sociedade Civil se preparar para votar. Isto quer dizer que a Sociedade Civil, apesar de não ser política, estava capaz de, em poucas horitas, decidir o seu voto.

Como cidadão português fiquei indeciso entre sentir-me orgulhoso, triste ou humilhado. A situação era clara na sua estrutura.

Existiam 12.076 candidatos espalhados por 25 a 30 organizações políticas (algumas desistiram) que individual ou coligadas apresentaram 14, 15 ou 16 Projectos Políticos consoante o circulo eleitoral:

fac-símile
Isto quer dizer que:

A - o eleitor consciente tem 13 dias para analisar e comparar 16 projectos políticos e escolher o melhor  futuro para si, seus filhos e seus concidadãos. Se isto é verdade, fiquei orgulhoso de ser cidadão português e viver nesta democracia "adulta".

B - o eleitor consciente só considera dois ou três candidatos ignorando tudo o resto. Sofre de afunilamento político e não quer saber de mais nada. Tecnicamente pode ser escolha por crenças (missionação), por moda (publicitação), por tradição (habituação), etc. 
Fico triste mas é uma solução estrategicamente inteligente. Chama-se selecção por tranches e que costumo usar.
O perigo é quando surge cegueira política e se traduz em fanatismo dicotómico, dum lado tudo BOM e do outro tudo MAU. Neste caso a democracia torna-se o caminho a usar para obter partido único disfarçado de maioria parlamentar. Neste caso não é preciso ser democrata basta ser autoritário.

C - o eleitor vota às cegas, ou à balda, ou obediência, manipulação ou intimidação (obediência forçada). Nesta hipótese sinto-me humilhado e se é verdade, então, dois ou três dias chegam, podendo até ter 26 ou 36 candidatos em vez de 16.

Este modelo da campanha com a sua alternativa "C" é vulgar nas democracias actuais, vide casos actuais nas Américas e Europa, e tem como analogia o ciclo da borboleta:


que começa como lagarta (sociedade civil), sofre uma metamorfose (campanha), surge como  borboleta (sociedade política) a pôr ovos (votos) e morre.

Na verdade, a sociedade civil vive quatro anos sem politiquices (lagarta), depois sofre 13 dias de um banho de política com discursos, discussões, beijinhos, abraços e apertos de mão (campanha), sofre a metamorfose e transforma-se. Fica a sociedade política por excelência e, tal e qual o oráculo de Delfos, anuncia os eleitos. Depois retoma a vida de sociedade civil (lagarta).

A questão é que este modelo, nas democracias do século XXI, está a "rebentar pelas costuras". Não só surgem efeitos perversos, visíveis na época actual, como o modelo está desadaptado das actuais dinâmicas sociais, culturais, tecnológicas. A sociedade dita civil está a evoluir e a assumir-se rapidamente como sociedade política activa e quotidianamente interveniente.

Os sintomas já são muitos no plano internacional e até em Portugal, por exemplo, a reacção da sociedade perante a Super Nanny, um programa com 15 anos de existência em mais de 20 países sem problemas que, numa semana, mostrou claramente que a sociedade portuguesa dita civil é afinal uma sociedade política activa apenas 44 anos depois da saída da ditadura.

Em resumo, a campanha é uma acção formativa para preparar os eleitores para votar.
Sob o ponto de vista de formação e de pedagogia, esta metamorfose é um milagre democrático de eficácia e eficiência para em 13 dias explicar e informar 16 projectos políticos a quase 10 milhões de votantes e possibilitar que os candidatos contactem com esses dez milhões e ouçam opiniões.

Se se extrapolar esta questão para USA, Brasil, etc, países com centenas de milhões de eleitores o milagre é outro... é a inteligência humana pensar que este modelo pode funcionar.

Tem que haver uma lógica escondida a sustentar todo este funcionamento. Como é que esta correria de toca-e-foge, estas relações de olá-e-adeus, este encharcar de propaganda tiram e fazem adesões a candidatos e fortalecem a democracia? Continuará este a ser este o futuro para daqui a cinquenta anos?

Por um lado, há sinais sócio-políticos de ruptura e, por outro lado, de renascimento.

Como analogia parece ser uma espécie do Mito de Sisifo que sobe o monte empurrando a democracia mas leva a fraude encavalitada e esta acaba por rolar a democracia outra vez cá para baixo e tudo se repete.
À diferença do mito grego aqui o Sisifo são os eleitores.


Talvez a lógica escondida seja apenas uma lógica paralela que fingindo construir a democracia esteja apenas a destruí-la.



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

SuperNanny, os deuses me ajudem

Por mero acaso ouvi falar da Super Nanny e resolvi voltar ao passado para ver o programa.

Não podia acreditar. Para além dos vários problemas que contém, houve um que me angustiou. Utilizar a tortura de uma criança como programa televisivo e considerar a intimidação como método pedagógico de solução de problemas infantis.

Na prática o inovador método pedagógico descrito "é velho como o mundo". Vem escrito em vários manuais dos tempos antigos. Ele é constituído por três factores: cumpres regras, se cumprires tens prémio, se não cumprires tens castigo. Chama-se o Método da Cenoura e do Chicote.
Ensina a obedecer e a gostar do mandante.

Podia falar das teias familiares, da aprendizagem de padrões de comportamento, da educação por "choques eléctricos" em confronto com a mudança "respeitando o outro", etc... mas não sou capaz. A aberração é tão grande que não tem dignidade para ser tecnicamente discutida.

Apenas vou deixar dois videos que espero esclarecerem o que afirmo:







Como complemento e sem dispensar outras questões, o que me parece fundamental para ser pensado é uma criança de 7 anos que depois de perseguida e intimidada por 2 adultos perseguidores AINDA TER CORAGEM PARA FUGIR.

Depois da "terapia educativa", é um refém destroçado a quem roubaram a energia e o élan da vida.
Poder-se-á admitir que este método seja divulgado na sociedade portuguesa como válido?


É importante não esquecer que na época actual há soluções para este problema sem destruir pessoas a ficarem "bonecos amarfanhados".

O método da "Cenoura e Chicote" era vulgar em tempos antigos para "educar" burros e cavalos, se obedeciam dava-se uma cenoura se recusavam usava-se o chicote. Era normal ser usado com escravos, servos e outros viventes.

Na época actual é utilizado em lavagens ao cérebro, interrogatórios, intimidações, etc, e nessas áreas, pelo menos, não se chama pedagogia pois sabem que não ajudam o "sofredor" apenas o utilizam e o destróiem.

Considerar este método de VIOLÊNCIA DOMÉSTICA SOBRE CRIANÇAS como pedagogia e terapia a usar e divulgá-lo na sociedade portuguesa em programas televisivos, no mínimo, é inaceitável.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

I- Democracia em simpléssshhh: o começo







Aproveitando a teoria da comunicação de Paul Naran (1964) é possível com os seus três modelos clássicos de comunicação pensar prospectivamente o futuro da Democracia e ficar com um sorriso de esperança... há luz no fim do túnel:


De um modo simpléssshhh, uma história poderá servir de linha condutora. Assim,  "ERA UMA VEZ há muitos anos...".

...um pai e dois filhos.
- Zé...  Manel, ... NÃO FAÇAM ISSO!!!!, disse o pai.
Eles não ligaram e continuaram.
- Não fazem o que EU quero... já não há ordem,!!!, concluiu o pai.

Esta conclusão tornou-se um paradigma. Disseminou-se, instalou-se e tornou-se lei: "A ordem é quando fazem o que eu quero". Assim surge o mandante e um montão de obedientes, os dois juntos inventam o CHEFE.
O almoço do chefe
A teoria base foi simples, tudo se baseia em mandar-obedecer. Com esta dupla nasce a civilização característica da espécie humana:

 "EU MANDO e garanto a ordem, pois sacrifico-me a tomar decisões de onde-e-como-gastar-recursos.
VOCÊS OBEDECEM, ficam com ordem e são felizes a trabalhar para criar recursos.   

Com este projecto político nasce a sociedade tribal centralizada. Com uma hierarquia de dois ou três níveis apoia-se em relações face-a-face tipo "um-a-um" e o chefe vive calmo e discreto no meio da teia.


Assim se passam milhares de anos, mas a evolução não pára. Inventa-se a estrutura hierárquica piramidal com o chefe isolado no topo, fora da teia, semi-deus distante, sustentado pelos obedientes.


O bom resultado desta política "EU mando, TU obedeces", além de criar ordem e progresso cria também o caos da "sobrecarga". Tem que dar ordens a todos, ficando a ser uma espécie de artista de "sete ofícios", o estilo "sabe tudo".

É trabalhoso, arriscado e detonador de "asneiras". O [... se não sou eu, nada funciona...] do centralismo hiper-centralizado tem limites. O DES-obedecer instala-se e a DES-ordem é a regra.

Torna-se urgente encontrar uma solução. Não foi dificil porque era óbvio, foi criar sub-mandantes para controlar obedientes. Emerge um montão de chefinhos (as vozes do chefe) que, obedecendo, fazem obedecer. 
Nasce o método do  ORGANOGRAMA, o sacrossanto da democracia usado até hoje.

Este milagre da descentralização ou, mais correctamente, da centralização descentralizada é uma espécie de teia de aranha com o aranhão no topo e salpicada por aranhiços com rédeas sobre os obedientes. Em esquema:
Centralized and Decentralized
Nesta estrutura piramidal aparece uma fronteira em que de um lado estão os mandantes e do outro os obedientes.
No inicio estas regiões estavam em "paz". Porém depois, se bem que do lado dos obedientes se jazia "em paz", do lado dos mandantes (os chefinhos) a guerra começou. A descentralização começou a "chatear" a centralização.

O "vírus" foi os chefinhos dependentes quererem ser chefes autónomos. Surgiramm guerras, golpes de Estado, cisões, traições, conspirações, revoluções e outras criatividades políticas.

A História relata várias soluções para essas guerras, mas duas são dominantes. Com vários formatos por mutações, associações ou integrações com outras, elas possibilitaram aos chefinhos tornarem-se chefes ou até chefes máximos.

Uma solução foi a cisão, chamada INDEPENDÊNCIA. Cada chefe ficou chefe máximo e autónomo no seu lado. Esta independência pode ser do tipo repetição (repete o modelo) ou mutação (muda o modelo).
Exemplo de independência por repetição em que se sai da monarquia para ficar monarquia:

Portugal, D.Afonso Henriques, 1128
Exemplo de independência por mutação em que se sai da monarquia para ficar república:

Peru, Gen. San Martin, 1821
Outra solução foi a união. Chama-se REPUBLICA. Tira-se o chefe máximo e os chefinhos unem-se e passam a ser chefes iguais entre si. Porém, de forma rotativa e cíclica, há um que apesar de igual é mais diferente e vai ocupar o lugar de chefe máximo.

Nesse lugar temporário, poderá ser chamado Presidente, Secretário-Geral, Líder Supremo, etc. consoante o formato adoptado. Por exemplo em Portugal:
(PS- É interessante o símbolo adoptado na época (uma mulher quase nua), não conheço explicações sócio-analíticas para a escolha, principalmente referente ao tamanho e posição do "quase" e ao barrete na cabeça)


1910
O modelo República pode ter vários formatos mas o mais vulgar é a associação com a Democracia. A Democracia com sua origem na Antiguidade grega é um sistema com muitas variáveis, vários sub-modelos e múltiplas lógicas possíveis.

Como exemplo, pode partilhar (ou não) poderes com Assembleias, Senados, Câmaras, Comités, Comissões, Federações, etc, ter votações em círculos fechados, semi-fechados ou abertos, eleições directas, indirectas, parciais ou ainda sistemas mistos, etc.
A sua criatividade é grande e o seu menu contém muitas hipóteses de escolha para candidatos a formar partidos.

Actualmente é um best seller e o curioso é que, apesar de ter vários conteúdos diferentes, desde ditadores democráticos até democratas ditadores (disciplina partidária??) passando por votações sem votações, votações às cegas, etc, tudo se vende e compra como Democracia:
1 Jan 2018
Em resumo, 
apesar das muitas diversidades e variações, o modelo bruto da democracia é o mesmo desde há muito tempo, apenas ligeiramente alterado na área dos mandantes agora chamados eleitos e dos obedientes agora chamados eleitores:

centralização descentralizada
A democracia tem dois eixos principais em tornos dos quais variam os seus sub-modelos:
A - Como se faz a rotação dos chefes para o lugar de chefe máximo;
B - Como se faz a votação para chefes e chefinhos.

vide


sábado, 6 de janeiro de 2018

A ditadura do voto... CUIDADO!

6 Jan18
A votação é uma técnica social destinada a obter e verificar o consensos num grupo.

Excepto na noite polar, se ao meio-dia um grupo votar e por consenso decidir que é noite, é uma decisão democrática mas está errada. A votação, em si, não garante a correcção da decisão, apenas garante o acordo dos votantes. 

A votação com ou sem consenso não é garantia de validade técnica, legal, legitima ou até moral e ética, é apenas garantia da sintonia social existente.

A conclusão a tirar é que ser consenso democrático não está isento de erro.

DN, 29Dez17
O voto obrigatório

Um voto democrático é a manifestação LIVRE da vontade do eleitor. 
Se for obrigado a votar mas não for livre de escolher o conteúdo do voto NÃO É UM VOTO DEMOCRÁTICO.
Exemplo:
Numa votação obrigatória para escolher como se quer morrer:

é uma votação democrática ou ditatorial?

O votar é obrigatório mas não se é livre para dizer a sua vontade. Está obrigado a escolher entre as hipóteses apresentadas. Por exemplo, não pode escolher "morte natural".

A conclusão é simples: Quando o boletim de voto é FECHADO não é democrático, pois a regra é [...podes escolher o que quiseres desde que seja o permitido...].


Boletim de voto em Portugal 2015

Assim o que se pode fazer com este boletim se a vontade for...
NÃO QUERER NENHUM DELES:

Pois...

Quer votar --- e não quer ser abstencionista nem precisa ser obrigado.
Sabe o que quer --- portanto não vai votar branco
Sabe como votar --- portanto não vai votar nulo

O que isto quer dizer é que o Boletim de Voto está armadilhado.
É um Boletim de Voto tipo fechado e, tecnicamente, impõe uma Democracia Governada (vide Maurice Duverger) o que, em português explicito, quer dizer Ditadura Suave.
Na prática, é um método de auto protecção partidário, pois aconteça o que acontecer nunca ficam em causa... e os eleitores nunca saem da roda do hamster pois qualquer que seja o voto ficam sempre na mesma:


Solução ? 

É simples, mas traz problemas complexos a resolver politicamente ...felizmente!!!
Acabar com a roda hamster na política não é fácil mas é fundamental !!!

Entre outras soluções, bastava que os boletins de voto tivessem MAIS o item NENHUM DESTES, ou seja, passarem de boletim fechado a boletim aberto:

Se os votos "nenhum destes" tivessem uma alta percentagem, por exemplo, mais de 50%, isso significaria que todos os candidatos precisam de fazer "terapia", isto é, estavam fora de jogo, não prestavam. A continuar seriam uma ditadura (imposição) doce sobre a sociedade em que se inserem.

A ideia de voto obrigatório é a maneira dura de escamotear este problema. Normalmente a maneira suave é culpabilizar e estigmatizar com o "não à abstenção" argumentando que sair da roda hamster é anti-democrático.

Na verdade uma abstenção alta é um grito silencioso de SOS dizendo "algo está mal na democracia !!", talvez seja errado mas é a única possível, é escolher o mal menor.

Nunca esquecer o paradigma base da gestão "10% de abstenção pode ser um problema de empregados (pessoas), 50% de abstenção é de certeza incompetência da gestão (sistema)".


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Estilo mental japonês



Hoje, no pequeno café onde"acordo" todos os dias com um café duplo e uma torrada, as mesas tinham nova disposição. Estavam juntas para deixar espaço para uma exposição-venda de ofertas de Natal, desde vinhos, doces, chás, até pequenos brindes comestíveis.

O meu habitual silêncio "meditativo" de passar o pequeno almoço a ler, escrever e/ou apenas ver, saborear e pensar... não foi possível.

As mesas para usar estavam todas juntas formando uma espécie de mesa comunal de partilha colectiva ao estilo "Olá vizinho... vamos conversar".

Ao pé de mim sentaram-se duas amigas que, falando ininterruptamente da sua vida, filhos e netos, às vezes em sobreposição, tentavam que participasse na conversa.

Com vários sinais de recepção e fuga (mensagens ao estilo "Olá e Adeus") consegui fazer entender que queria ler. Deixaram-me sossegado e continuámos vizinhos, conhecidos e amigos. O meu problema agora era a conversa que continuava a me envolver com o seu estilo de partilha comunal auditiva.

Entre sair e ultrapassar a partilha oferecida, decidi ultrapassar.

Recordei as casas japonesas de paredes de papel sem qualquer isolamento sonoro. Resolvi imitar a experiência japonesa de deixar de ouvir, ou seja, o som existe, ouve-se com os ouvidos mas não se ouve com o cérebro, torna-se uma espécie de música de fundo que apesar de existir não impede o silêncio, ou seja, no estilo português, é "fala prá iii que não te oiço". 

Primeiro, tentei não perceber os significados e identificar apenas se o som se era alto ou baixo, suas inflexões, ritmos e entoações. Gradualmente o falar transformou-se numa espécie de ruído musicado num idioma não conhecido. Acabei por deixar de ouvi-lo com o cérebro e este focalizou-se na leitura. Fiquei sozinho... recuperei o meu silêncio... Ufff.

De repente regressei ao café e com certo espanto tinha-se passado quase uma hora, continuava na mesa comunal mas sem vizinhos, tinham saído sem eu reparar.

Isto das culturas e das civilizações pode tornar-nos quase extraterrestres uns para os outros, uns só precisam de paredes de papel, outros precisam de paredes com isolamento acústico e algodão nos ouvidos. Nos humanos, o exterior pode ser semelhante mas o interior pode ser complectamente diferente. A espécie humana é realmente um conjunto de diferentes... felizmente.

PS- É preciso nunca esquecer que, há milhares de anos, que é "la petite difference..." (et vive la petit difference) o garante da reprodução da espécie.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DECORAR ou a armadilha do estudar

Tema
Toda a gente estuda para saber, mas saber é "pensar sobre algo" e concluir. Quer isto dizer que não é uma actividade mecânica de armazenar ideias mas uma actividade criativa de estabelecer relações entre ideias e encontrar a lógica.

Estudar não é decorar... é construir lógicas. Ensinar a estudar não é ensinar truques mnemónicos é ensinar a pesquisar e construir relações.

Lendo um antigo filósofo taoista, ele dizia que [aprender não é repetir é transformar-se] e que [...o mestre deve ter a humildade de deixar o aprendente fazê-lo como pode e apenas ajudar].

Hoje, esta ideia pode não ser novidade mas a sua aceitação implica uma revolução na pedagogia (e professores), na educação (e pais), na política (e lideres), na amizade (e parceiros).

Na neurociência fala-se muito em redes neurais como a base do pensar:


ou seja, pensar é fluir nas conexões inter-neurónios, aproveitando ou criando novas ligações.

Assim, como exemplo, um pequeno problema para resolver:

O Zé vive num pequeno apartamento no 20º andar de um prédio, com uma vida difícil e dolorosa.
Ontem levantou-se e, ainda de pijama, subiu para a janela, olhou, pensou e saltou.
Caiu no chão, levantou-se e foi-se embora.
Como explicar???

Quer tentar perceber e encontrar a explicação?

Compreender o que aconteceu não é aplicar (carimbar??) ideias armazenadas no córtex ao estilo de remédios na farmácia que se podem encontrar com um braço mecânico, neste caso chamado memória. Neste funcionar, a ideia utilizada é encontrada por regras de funcionamento do braço (memória) e não por influência da questão em análise. Depois, a ideia encontrada dá ideia aplicada: 


Mas... o córtex não funciona assim. O decorar não é instrumento de compreensão é recurso para pensar, utilizar e obter compreensão.  

Estudar e aprender são processos de criar novas relações entre as ideias, transformar redes neurais existentes e fazer renascer novas conexões entre saberes. Como diz o mestre taoista, só quem aprende pode criar na própria mente essas novas conexões. Por isso, quem ensina só pode ajudar que o próprio-se-ensine-a-si-próprio.

Assim, estudar é acrescentar (mudar) a teia de relações existente entre as ideias. Quando estas novas conexões fazem sentido, nasce a alegria do "Ahhhh! Ahhhh! Experience" da Pedagogia Experiencial, ou seja, o conhecimento nasceu e instalou-se.

Esta metodologia baseia-se em perguntas de pesquisa sobre ideias existentes ou a descobrir ou a criar, seus possíveis significados e relações... e, inesperadamente, a solução torna-se óbvia.

O segredo (o "truque") é a riqueza e flexibilidade das relações que se instalam, mas decorar é a pobreza e rigidez do "carimbar". Decorar com a sua repetição mata a flexibilidade e a disponibilidade para o processo de transformação e no limite surge a rigidez, o fanatismo.


Aplicando com jovens (10/13 anos), em grupo e individual, eles vão dizendo ideias acerca do problema, ideias essas registadas aleatoriamente em mapa, nunca em listas. Nas pausas maiores, pede-se que relacionem duas (ou mais) das ideias registadas e digam qual a nova ideia surgida e a acrescentar. 

Depois, analisando todo o registo pede-se que seleccionem as mais interessantes e tirem conclusões. Normalmente, em 5 minutos, a solução acaba por surgir, muitas vezes sem consciência e sem seu reconhecimento como solução. Porém, forçando a atenção sobre ela, a solução acaba por ser reconhecida quase sempre com espanto (Ahhh!! Ahhh!!) e alegria. 

Segundo alguns autores, esta falta de reconhecimento como solução da ideia exposta é consequência de "esquizofrenia cultural" que opõe raciocínio e intuição, recusando que muitas vezes [...o raciocínio tem razões que o raciocínio desconhece...] porque [... quando se tem dúvidas sobre a escolha, não há dúvida que não é escolha...].

No já descrito problema anterior do "saltar pela janela", um possível esquema para encontrar a explicação poderia ser:


Porém, obter uma explicação é o resultado não é o objectivo da actividade. O seu objectivo operacional é criar alegria e energia para agir e o seu objectivo pedagógico é compreender como se pensou e obter técnicas para o fazer.

In brevis, o objectivo não é ter bons resultados à custa de processos (tipo competição) é ter bons processos à custa de resultados (tipo treino).
Não convém confundir aula com exame, nem treino com competição, como fazem aprendizes de formadores quer profissionais ou familiares, quer gratuitos ou pagáveis.

Não se trata de Pedagogia Experimental de base em experiências, mas Pedagogia Experiencial de base em vivências das experiências realizadas. O foco não são resultados e/ou acções realizadas mas actores e actos efectuados.
Na trilogia clássica briefing-acção-debriefing a essência não é o briefing-acção com ou sem aplausos mas é o debriefing com suas conclusões operacionais para o próprio.

A Pedagogia Experiencial não é baseada no ACTO (agir) é baseada no PÓS-acto (pensar e concluir).

Como conclusão

Estudar não é armazenar informação nos neurónios, tipo conta bancária de bits. Estudar é criar relações lógicas entre os bits, tipo teia de aranha com vários núcleos de aranhiços.

Na verdade a pesquisa lógica é uma actividade interessante. É uma espécie de ARQUEOLOGIA DE INFORMAÇÃO porque é um esforço de cavar e esgravatar "areias mentais" até descobrir onde se esconde a informação relevante. Depois é guardá-la e relacioná-la:


Por analogia, estudar é ser um "Sherlock Holmes a caçar detalhes relevantes e pensar-descobrir relações", não é ser um Tio Patinhas a amealhar, decorando e guardando o máximo de ideias na memória.

Recordando o passado, tenho consciência da sorte que tive de, pelos 12 anos de idade no Liceu D.João de Castro, ter vários anos seguidos aulas de Matemática com o Dr. Mora que me "viciou" no  seu estudo.
Não era um professor fácil, era distante, atento e exigente mas, com seus métodos "firmes", lá nos ia "embrulhando" na Matemática... e eu fiquei fan da disciplina que, na altura, me divertia mais que Palavras Cruzadas com seu misto de desafio e lógica, "...Eu contra os problemas... Grrr Grrr".

O Dr. Mora obrigava-nos a ter uma espécie de diário tipo Livro das cábulas (???), na época chamado Vademecum para profissionais anotarem conclusões. De construção artesanal, com o formato de rol de merceeiro era feito de papel Almaço dobrado verticalmente e com lombada de fio cosido à mão. 
Nele se ia escrevendo tudo o que tínhamos que decorar, desde fórmulas a teoremas, passando por truques de cálculo rápido, axiomas, etc. Riscar livros era impensável.

Este "caderno de merceeiro" era um rol de "inventário de saberes" e tinha que estar limpinho e bem feito, não se podia substituir, ou seja, obrigava a escrever pouco e bem e só o importante, umas vezes imposto pelo professor, outras por ele sugerido, outras por nós escolhido. Quem soubesse aquilo... passava o ano de certeza.

O interessante era que, paradoxalmente apesar de obrigar a decorar muita coisa, dizia sempre que [...a cabeça não era para decorar era para pensar, o decorado só servia para ajudar...]. 

Assim, quem respondia "papagueando" o livro tinha os seus 10/11/12 valores (a média vulgar), mas quem respondia pensando, recriando e aplicando, então... a sua nota ia por aí acima (max 15).

Na aula, ir ao quadro fazer um problema era a grande angústia de todos nós apesar de não existir avaliação, nem zanga, nem prémio. O importante era pensar e encontrar o caminho mais "limpinho" para a solução. Se o fizéssemos tínhamos o direito de terminar escrevendo Q.E.D. (quod erat demonstrandum) no fim do quadro... e isso era uma honra.

Desde há mais de meio século que este hábito vive em mim. Ainda hoje quando resolvo "limpinho" um problema de lógica, penso para mim próprio... Q.E.D.

Na época descobri que, sabendo pouco e pensando muito, tinha boas notas sem muito trabalho... por isso mudei de vida escolar. Comecei a aplicar o método "Dr. Mora" a todas as disciplinas, isto é, fazer cábulas, decorá-las e pensar.

Lia muito e estudava pouco. Entre ler banda desenhada, livros de Sandokan e matinés nos cinemas de bairro, lá ia jogando andebol, bilhar e muito ping pong. 

Tendo os "livros de cábulas" como método de estudo rápido e sólido para exames, tornei-me habitual no Quadro de Honra e isento de propinas. Com eles, nos intervalos, 5 minutos antes dos testes, "refrescava" toda a matéria.

O meu pai comprava-me os Vademecums algures em Lisboa e eu andava sempre com um na algibeira, eram o meu computador portátil. 

Outro dia, numas arrumações familiares, encontrei um desse tempo,


Com capa de cabedal e papel quadriculado, era do tamanho de uma caixa de fósforos. Eram os meus "Diários Operacionais". 

Com páginas tão pequeninas, tinha que escrever pouco... não podia fazer resumos ou transcrições. Foi a minha sorte. Fazia reconstituições das matérias com uma lógica minha e criava esquemas, "chavetas" encadeadas e mnemónicas sobre essa matéria:



Uma cábula não era uma cópia-resumo, era um conjunto de ligações (um "caroço") que, para mim fazia sentido e me permitia reconstituir ideias associadas. Utilizado por outra pessoa não servia para nada, era um conjunto de associações pessoais, uma espécie de "gatilhadas" (triggers) sobre os meus neurónios. O resultado era uma grande eficácia a manipular ideias e não desaparecia. Ainda hoje, em cálculos matemáticos, me lembro e uso alguns "truques".

Para mim, usar "vademecuns" sobreviveu até aos dias de hoje, quer em áreas profissionais quer em hobbies. Nos baús das recordações tenho milhares de fichas guardadas desde "bisbilhotices" úteis sobre regras e regulamentos militares até notas e truques de bridge e poker, passando por ideias a que chamava "lixo bom".

Tudo evolui e tudo se mantém. Dos livros passei às fichas e destas ao software. O método continua a ser a herança do Dr. Mora: 1- caçar o importante 2- estabelecer lógicas relacionais 3 - pensar e aplicar.

Em África, nas noites de poker, xadrez ou bridge também levava os meus vademecuns com informações relevantes, desde técnicas de jogo até características e hábitos dos jogadores habituais, tudo eram informações relevantes... e no fim havia sempre algo a acrescentar, era o prazer do Q.E.D.. 

O meu divertimento não era ganhar, até porque perdia muitas vezes, o meu divertimento era saborear as jogadas. Um apreciador de vinhos ou comidas não se embriaga nem empanturra, o objectivo é outro, não é acumular resultados é saborear o caminho.

Durante algum tempo joguei Reversi no computador (uma espécie de jogo do GO para crianças😆). 
O meu objectivo não era ganhar, era descobrir a lógica programada no software para jogar o jogo. 

Passei muitas horas agarrado ao vademecum a tirar informações e consegui em cada 10 jogos ganhar 8, tinha descoberto a lógica (Q.E.D.). 
Daí em diante o meu divertimento era, a meio do jogo, fazer asneiras propositadas, recuperar e ganhar.

Este hobby teve um final frustrante. Já adulto e licenciado, antes de desligar o computador costumava entrar numa rede de Reversi para jogar um bocado. Na identificação do jogador classificava-me como expert para ter um certo desafio com o oponente. 

Um dia, logo no primeiro jogo a meio dele já tinha perdido. Pelo chat disse isso e propus novo jogo. Ao fim de cinco jogos tudo se repetia e, perante a minha proposta para se começar de novo, o outro jogador propôs que se continuasse. Respondi que não merecia a pena porque, se ele não fizesse asneiras (e não fazia), eu já tinha perdido. Continuámos a jogar, eu a perder e a começar de novo... mas conversando pelo chat.

Descobri que ele estava no Japão, afinal o ele era uma ela, estudante, dizia-se um jogador regular-médio, pertencia a um clube de "GO e Reversi" da escola e tinha 12 anos. 
Fiquei de boca-aberta e nunca mais me considerei um expert em Reversi.

Pois é, jogar com adversários de programação fixa (o software do computador) é uma coisa mas jogar com adversários de programação flexível (uma jovem de 12 anos) é outra coisa.

Considerei-me "estúpido" pois já há muito tempo em África a jogar poker tinha aprendido isso. 
Lá, ganhava dinheiro a jogadores de "programação fixa" (memória), mas perdia dinheiro com jogadores de "programação flexível" (pensar) apesar de serem os meus preferidos.

Na prática, o Dr. Mora do meu passado tinha razão. O método não era decorar soluções mas, 1º- caçar o importante; 2º- estabelecer lógicas relacionais; 3º- pensar e aplicar.

Segredo do estudar, fazer A+B

A == Caçar informações relevantes 
B == Estabelecer relações e extrair significados

Como problemas para treino deixo três questões, uma para cada uma das três áreas clássicas:

1ª - Relações funcionais (funciograma) entre as informações do problema, isto é, pesquisar a lógica;
2ª - Inter-acções dos elementos activos expressos no problema, isto é, pesquisar a "Lei da situação";
3ª - Inter-acções com o contexto e a fita do tempo do problema, isto é, pesquisar os processos.

Estes três problemas têm soluções simples e não exigem cálculos complicados. Não são testes nem concursos, são apenas "detonadores de pensares" (thinking triggers) para depois serem meditados e concluídos pelo próprio (debriefing).

Relembrando T. Edison, aqui vão os meus desejos que se divirtam:

"não há resultados falhados, só há resultados de sucesso a descobrir como não se faz ou como se faz" e, para isso, apenas temos que pensar sobre o que fizemos e escrever no nosso "Livro de Cábulas".

Inté (Adeus e Até Depois à maneira africana)
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1- Dinheiro (pensar a lógica)

Em duas carteiras existe:

- 1 nota  de  20 euros;
- 2 notas de 10 euros;
- 2 notas de   5 euros;

Dizer como as notas estão distribuídas para que uma carteira tenha o dobro do dinheiro da outra.

Ponto chave: valor e seu valor dobrado, considerando as notas não são divisíveis em 3 partes iguais.
Solução (clickar)

2 - Laboratório (pensar a situação)

Num laboratório há dois tubos de ensaio a aquecer até 80º C e dois frascos fechados, um com duas pastilhas A e outro com duas pastilhas B, visualmente iguais.

Aos 80º graus, o técnico tem dois minutos para abrir os frascos e deitar uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio. 

À hora certa, ele põe uma pastilha A na palma da mão, mas ao pôr uma pastilha B caem-lhe, ao mesmo tempo, as duas pastilhas B na palma da mão.

Não as distinguindo como fazer para, num minuto, pôr uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio.

 Ponto chave: identificar o identificável.
Solução (clickar)


3 - Ovo e galinha (pensar o processo)

Em termos lógicos decidir qual apareceu primeiro:

- foi o ovo que originou a galinha;
- foi a galinha que originou o ovo;

e a sua justificação lógica.

Ponto chave: como ambos nascem.