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quarta-feira, 19 de julho de 2017

O segredo das zangas

Referência: Pinçamentos "Zanga de namorados"

Como ponto de partida, um vídeo (20s) de uma situação simples com, e sem, diálogo afectivo entre duas pessoas:


As diferenças apresentadas poderão ser esquematizadas por:

1- Sem diálogo afectivo:


Quando, estando ao pé um do outro, ficam isolados como dois estranhos, sem comunicação de emoções sentidas.  É a situação tipo que origina o sentir de […estou só, não falas comigo e pões-te a ver TV…].


2- Com diálogo afectivo:

Pelo contrário, quando atentos ao exterior, simultaneamente, comunicam emoções sentidas mantendo uma "conversa" de interacção afectiva. É a situação tipo que origina o sentir de […ver TV contigo, faz-me sentir bem e com companhia…].

Aparentemente as diferenças parecem desprezáveis e invisíveis, porém de forma não-consciente são perceptíveis e afectam. Qualquer conversa tem sempre dois planos, o conteúdo e a relação, e os seus diferentes equilibrios originam consequências distintas.

Por exemplo numa recruta militar, o instrutor a par das ordens dadas para cumprir, injecta também um estilo de relação "impositiva" para aceitar.
Do mesmo modo num namoro, os apaixonados com a relação afectiva enviam também conteúdos (actos) implícitos a aceitar.

Por outras palavras, o "diálogo" na recruta tem a tónica no conteúdo e a relação vai de boleia, no namoro o foco está na relação e leva actos "entrelaçados".

Todavia, apesar desta aparente simplicidade, o processo não é óbvio na sua distinção de fins e meios. Na recruta, através de ordens (conteúdo), o objectivo principal pode ser educar para a obediência e  submissão (relação). Por sua vez no namoro, a relação pode ter como objectivo não a troca afectiva mas a realização do acto de procriar (conteúdo).

A lógica é simples. Todos nós nos relacionamos emitindo-recebendo, simultaneamente e entrelaçados,  significados cognitivos e afectivos mediante sinais verbais e não-verbais. Estes sinais devem (e serão) interpretados por dicionários linguísticos e afectivos previamente instalados que criam emoções e impulsionam decisões.

Ad extra ------
Nesta perspectiva, a política é sempre um jogo de palavras com o objectivo de detonar emoções, daí as palavras de ordem serem impulsor afectivo e não cognitivo.
Entre o "discurso democrático clássico" e o "discurso populista" a diferença é a alta manipulação afectiva que este faz, ultrapassando ou perto da linha vermelha do irracional.

Há culturas partidárias com discursos habituais nesta linha vermelha, quer sejam políticos, religiosos, clubistas, sociais, etc.
O problema é a transferência de hábitos "populistas" de uma área para se aplicar noutra, por ex. entre desporto (claques), políticos (partidos), religiosos (seitas), sociais (e/imigrantes), etc.

Sociologicamente, devem ser tratados com estratégias de "epidemia cultural" com seus "vírus" e sua contaminação. A questão não é o "populismo" estar conspícuo numa sociedade, a questão é se ele "estupidifica" a sociedade ou, numa linguagem menos emotiva, se ele educa a sociedade nesse sentido e disto há exemplos Históricos recentes no século passado e neste.

fim Ad extra ------


É esta integração cognitiva-afectiva […se não lavas as mãos, não gosto de ti…] que á base das culturizações familiares, militares, religiosas, políticas, etc. O esquema base é:


Os dicionários linguagem e afectivos podem ser iguais ou diferentes. No esquema apresentado, por exemplo, os idiomas poderiam ser chinês e português e os afectos serem de afectividade contida ou expressa.

Em resumo, uma conversa é uma transmissão de sinais verbais e/ou não-verbais que actuam por estimulação de significados. Para esta estimulação acontecer é preciso existir uma inserção prévia de "dicionários" que faça a "tradução" no cognitivo de incompreensível para compreensível e no afectivo do neutro para emocional.

Se esses dicionários não existirem, ou forem errados, a recepção e sua resposta ficarão com "bugs", susceptíveis de criar zangas. Como exemplo, uma simples rotação de pulso basta para estimular  emoções diferentes entre a cultura americana e a inglesa/australiana.
Um pequeno lapso cultural USA-Austrália:


Em cada um de nós, estes dois níveis entrelaçados são uma parceria para a vida inteira, instalam-se, mudam, evoluem.
Na escala temporal, o nível afectivo é primeiro na sua criação e desenvolvimento pois o idioma verbal só começa a ser operacional pelos dois anos de idade com a etapa do "falar".

O idioma não-verbal é anterior, por exemplo e segundo Spitz, o sinal de "sim" e "não" com a cabeça é enxertado na afectividade pelo mamar no seio materno. Se perde o seio procura-o com movimentos laterais, originando o "não, quando o encontra chupa o leite com movimentos verticais, significando o "sim".

Mais interessante é a ideia de que a criação de significados emocionais parece começar antes do nascimento, pois durante a gravidez há uma ligação por cabo mãe-filho com possíveis "formatações" afectivas. Todavia a influência do pai é posterior pois só o faz com ligações wireless😎 depois do nascimento.

Estes dois níveis desenvolvem-se, interagem e adaptam-se ao longo da vida e estão sempre presentes e bem activos em todas as conversas. Eles são um produto do útero biológico (genes) e do útero social (aprendizagens) portanto a sua variabilidade é grande em seus conteúdos e equilíbrios e é nesta variabilidade que se encontra a génese da sintonia (amor?) e da divergência (zangas?) na vida de parcerias.

Quando um professor diz "- Esta criança não tem jeito para inglês", isso significa que ele tem fé na cegonha de nunca entregar na China

... crianças sem jeito para chinês, nem na Alemanha... crianças sem jeito para alemão, etc, portanto aqueles pais terão que, felizes, de agradecer à cegonha não ter levado o  filho para Inglaterra onde seria mudo.

Em apoio da "fé na cegonha" está o facto de que as crianças aprendem a sua língua nativa sem precisar de  professores diplomados, pois só o contacto social é suficiente… todos têm jeito. Esta facilidade é uma prova clara da "eficácia da cegonha".

Do mesmo modo, todos temos jeito para amor (sintonias) e zangas (aversões) e, à semelhança do idioma, também o formato afectivo nativo se adquire por contacto social. Desde a nascença que as culturas usam diferentes modos relacionais provocadores de sorrisos e/ou birras, com o reforço das "habituais" respostas recebidas.
Queiramos ou não, desde bebé a "educação por osmose" faz a sua função.

Uma questão interessante é saber […até onde na educação dos filhos se reproduz a educação recebida pelos pais dos seus pais…]… e isto não é uma imposição determinista é apenas uma opção possível.

Na verdade, a osmose cultural (família, escola, sociedade, etc) é a grande educadora do dialecto afectivo que mais tarde é usado (em forma directa ou anti) no amor e no casamento.

Cada um de nós "ama" com o dicionário afectivo culturalmente injectado e os diversos "Romeus e Julietas" nem sempre coincidem nas suas "traduções emocionais". Por sua vez, e eventualmente, a própria palavra com sua compreensão cognitiva arrasta diferentes compreensões afectivas. Exemplo:

1º exemplo cognitivo-afectivo

 I love my shoes… I love my dog… I love my bride, ou seja em português:
Eu amo os meus sapatos… Eu amo o meu cão … Eu amo a minha noiva.

Aparentemente numa tradução directa, ama-se igualmente os sapatos, o cão e a noiva. Todavia, a alternativa é que as conotações afectivas da palavra "love" em inglês não são as mesmas da palavra "amo" em português. A aprendizagem de um idioma implica apreender as conexões afectivas de suas palavras, devendo as alternativas ficarem em "standby" dependendo do uso.

Um caso, talvez claro e interessante, é o "making love" traduzido em português por "fazer amor" mas cuja tradução é a mesma para "doing love" que, numa tradução livre, se poderia dizer "ginástica sexual".
Culturalmente, o facto de se usar a mesma palavra com os dois significados afectivos diferentes pode originar "miscelâneas" afectivas :

- fazer amor com esposa adorada e fazer amor para ganhar dinheiro;
- fazer amor por apaixonado e fazer amor por dever conjugal;
- fazer amor por afecto e fazer amor para procriar, etc

ou em casos mais confusos:

 I love Mary… I love Lucy… (Eu amo Maria… Eu amo Lúcia…)

Hum…Hum, estamos a falar de um bígamo? ou de um incesto? ou de…etc.
A questão é saber qual dos "love" (amo) tem conotações sexuais. Tudo fica claro se se explicitar as diferenças afectivas da palavra "amo":

Eu amo minha mãe Maria… Eu amo minha noiva Lúcia, ou

Eu amo Maria… Estou apaixonado por  Lúcia… 

2º exemplo cognitivo-afectivo

Um pai tem uma filha adolescente e um amigo diz-lhe subitamente:

- O João foi com a tua filha prá mesa!!! Possivelmente, o pai encolhe os ombros e desinteressa-se.

- O João foi com a tua filha pró sofá!!!  Possivelmente, o pai levanta as sobrancelhas e interessa-se.

- O João foi com a tua filha prá cama!!! Possivelmente, o pai levanta as mãos e Grrrr!!!.

O dicionário afectivo das frases funcionou diferentemente ao ser dominado pelas traduções afectivas de mesa, sofá, cama. Porém, o filho Manel (10 anos), como não faz diferenças afectivas nessas palavras, tem reações emotivas iguais nos três casos.

Todavia, na segunda alternativa, o pai pode activar uma pergunta cognitiva "- A TV estava ligada ou desligada?" e em função da resposta criar diferentes emoções.

Na terceira alternativa, se o pai tiver o dicionário afectivo acrescentado com a recente informação: "Casaram a semana passada", a emoção também será outra.

3º exemplo cognitivo-afectivo

O objectivo de uma conversa é a troca de sinais com intenção de inserir determinado significado.
Quando se desconhece o chinês, a mensagem será de meros sons incompreensíveis e as emoções serão confusão e desamparo:


Possuindo conhecimentos do idioma chinês, a frase significa "É o meu tigre" e é conectada com o barulho na sala ao lado. 
Todavia, como desconhece que animal é o "tigre" e apenas se recorda de cães, gatos e burros, a emoção será curiosidade e expectativa do que irá aparecer com aquele som:


Todavia se, no jardim zoológico, as experiências infantis com tigres foram más, isso incorporou um tradutor afectivo negativo ainda hoje activo (trauma??) pelo que é invadido por puro terror:


Relações amorosas

As relações amorosas vivem da conversa afectiva, isto é, da sintonia entre sinais emitidos e significados percebidos.
Quando esta sintonia desaparece, o diálogo amoroso transforma-se em diálogo de surdos em que se fala mas não se ouve. No plano afectivo, esta "surdez afectiva" nunca é neutra pois só a perda da conexão afectiva é suficiente para a destruição da relação com interacções disfuncionais.
Exemplo:

O João na sua infância quando estava triste era envolvido em afecto através de palavras e actos, histórias divertidas e/ou instrutivas, mudanças de perspectiva e "esquecimento" com novas situações. 
A Maria, pelo contrário, era acolhida em quietude psicológica e física, proximidade, abraços e beijos.

Numa crise da Maria, se o apoio do João for baseado no seu próprio padrão afectivo, ele esforçar-se-á por verbalizar o seu amor e carinho, recordar memórias amorosas e futuros desejados, acrescentar um rodopio de jantares e passeios para "esquecimento" e catarsis. 



Porém, quanto mais apoia... mais piora e aumenta a emoção de solidão e afastamento da Maria e fá-la sentir que […não é importante para ele…]. Na verdade, aquele apoio estaria a "falar" um dialecto afectivo desconhecido e sem qualquer significado para ela, seria apenas ruído.

O mais grave é essa "cacofonia" agravar a solidão e a falta de companhia, transformando o João "salvador" em João "perseguidor" e a Maria, na sua posição de "vitima", precisar fugir, isto é, divórcio. 
[análise com uso de conceitos do modelo "triângulo dramático"]

 A solução seria falar o dialecto amoroso dela ou  "...para já… calar-se e abraçá-la".

Neste exemplo, a questão importante é saber porque só agora, ao fim de 4 anos de casados, este quid pro quo aparece.
O senso comum com sua sabedoria explicará "- É o cansaço normal do casamento!".
Talvez "sim", talvez "balelas"! Há mais factores em jogo.

Não é fácil Romeus e Julietas encontrarem-se e terem logo uma alta sintonia de padrões afectivos.
A "TAL pessoa única", marcada pelo destino como alma gémea, poder aparecer à porta, tocar a campanhia e casarem… é uma crença igual a acreditar no Pai Natal.

Na prática, há milhares de pessoas com percentagem significativa (média??) de sintonias afectivas, das quais algumas centenas encontrar-se-ão no espaço social de vida pessoal... escola, trabalho, transportes, turismo, etc.

Circunstâncias aleatórias originam encontros e contactos. O importante é o que acontece depois, ou seja, usa-se e abandona-se ou desenvolve-se e potencia-se?
Qualquer que seja a continuação, socialmente estão padronizadas fases de continuação: namorico, namoro, noivado, casamento, divorcio ...ou rotina conjugal ou até-que-a-morte-nos-separe ou amantes ou etc.

Resumindo,

Há uma circunstância aleatória de contacto com um mínimo de sintonia amorosa, depois a opção é simples: a par da vivência dessa sintonia inicial, deixar-se-á degradar com zangas ou procurar-se-á potenciar com acordos?

O senso comum responde e explica "- Nada a fazer, a degradação é o cansaço normal do casamento". 

Porém, há outro factor em jogo: É a lógica da espécie humana.

Por um lado, a lógica do "casa, descasa e recasa" tem vantagens pois aumenta a  diversidade genética da reprodução e, portanto, cria maior a riqueza genética na espécie.

O efeito Coolidge aprofunda este aspecto. Ele refere-se a uma espécie de "imã genético" que atrai um macho para uma fêmea. Simplesmente, depois do efeito "hormonal" ser usado, ele perde interesse sexual e descansa.
Porém se minutos depois aparece uma fêmea diferente, o "imã genético" activa-se, hormonas reactivam-se e o macho fica pronto para reprodução. O exemplo clássico é o do galo sempre a galar galinhas ...se diferentes.

Todavia, a lógica da espécie humana não facilita o efeito Coolidge pois nela a atracção reprodutiva (sexual) é função do "imã genético" e do "imã afectivo". 

Segundo G. Lapassade, a espécie humana tem um problema de sobrevivência diferente do das outras espécies.
O ser humano quando nasce está imaturo e incapaz de sobrevivência pelo que precisa de um útero social para acabar de maturar e obter independência.
É uma espécie de bolsa marsupial mas social, ou seja, não é um contentor biológico mas um contentor relacional de essência afectiva.  É uma empatia social que fornece e garante recursos de sobrevivência a partir da espécie.

Este factor também existe noutras espécies mas não não tem a complexidade, dependência, quantidade e aprofundamento da transformação que provoca nos humanos.
Por outro lado, este "apoio" da espécie aos seus membros tem efeitos contínuos, possibilitando recursos de manutenção e desenvolvimento não só aos mais jovens como aos mais velhos. Na linguagem vulgar  esse apoio chama-se "civilização".

Quando um individuo tem esse recurso "civilização" pouco disponível chama-se ser pobre e não tem condições de usufruir Educação, Saúde, comida aquecimento, etc; se tem esses recursos disponíveis chama-se ser rico.
Para colmatar esta diferença há várias soluções desde a caridade (esmolas, partilhas, apoios, etc) até violência (roubos, guerras, saques, etc), ou por aplicação de princípios políticos (planos sociais de socorro, expulsão de indivíduos, ghetos-muros de exclusão, etc) e de crenças culturais (racismo, meritocracias, etc).
Esta exclusão do recurso "civilização" também é usado como castigo e/ou "ensino pela negativa" mediante  prisões, isolamentos, expulsões, etc.

Na verdade, se comparado com outras espécies, o tempo de maturação de 15 a 20 anos no útero social numa vida de 50/60 anos, representa uma elevada percentagem e um factor de grande importância para sobreviência quer da espécie quer de grupos e individuos.

in brevis------
A espécie humana precisa do "útero social" para sobreviver, esse útero social precisa da energia da empatia social, a empatia social é uma rede de afectos que fomenta pertença, coesão e apoio.

Na lógica da espécie humana, a sua perenidade precisa do "imã genético" para nascimentos e do "imã afectivo" para sobrevivência dos recém-nascidos. Como nascimentos sem sobrevivência não "salvam" a espécie, geneticanente(??), o "imã afectivo" não deixa o "imã genético" à solta quer na procriação quer nas relações.

Mas esta interdependência traz outro problema.

fim in brevis------

Aprender e sintonizar afectos para procriar por "making love" (sexo e relação) exige tempo, portanto, sob o ponto de vista da sobrevivência da espécie, não é operacional.
Neste ponto de vista, outras espécies com a solução do cio, "doing love", (sexo comitatus solitudo, masturbação acompanhada)  têm um sistema mais rápido e prático.

O truque "genético" utilizado é inteligente e funciona bem para conseguir o equilíbrio necessário entre o urgente (procriação) e o fundamental (empatia social).

Resume-se a injectar na relação um tradutor universal de afectos que permite "encaixar" emotivamente a relação, passando de processo lento a rápido e obter também uma procriação de processo rápido (os célebres 7segundos da ejaculação).
Segundo alguns bioantropologos, na pré-História, os "7 segundos" era o que conciliava a procriação com uma fuga rápida em caso de perigo ou instabilidade.

Este "tradutor universal de afectos" chama-se hormonas sexuais, tipo "fast food", que prioriza sinais de consumo rápido para sintonia afectiva […é querido porque parece o Zé da telenovela…] e […é amorosa, igual à capa do PlayBoy…]. 

Um minuto depois está tudo resolvido:

3 seg. para "concordâncias", 40 seg. para "entretantos", 7 seg. para "consequentes" e 10 seg. para "comprometimentos" [...és o meu profundo amor conhecido mesmo agora].

Este "tradutor universal" limita-se a empolar sinais com afectividade positiva, bloqueando ou escondendo aspectos negativos […não gosto muito, mas…] e empurrando-os para debaixo do tapete.
A linguagem afectiva que fica dominante é a conversa de hormonas com o seu discurso protocolar clássico […vê-se depois, agora a conversa é outra…]:


Por estudos realizados este "tradutor universal" mediante linguagem sexual só parece funcionar bem durante três a cinco anos (lua de mel??), após os quais surge um período com a mais alta percentagem de divórcios.

Mas, EXISTE OUTRA HIPÓTESE

No período activo do tradutor universal com o domínio das hormonas sexuais (imã genético) o imã afectivo das sintonias emocionais não está inoperativo, ele mantém activa a percentagem inicial de sincronismo.

No período de lua de mel,  dominado pelas hormonas sexuais, a par das actividades inerentes a este período o que poderia (e deveria) acontecer era desenvolver e potenciar a sintonia dos afectos iniciais procurando continuamente aumentar a sua integração.
Assim, obter-se-ia uma elevada compreensão no diálogo entre os dois dialectos afectivos fora da "muleta" do curto-circuito sexual facilitador:

…até que a morte nos separe...
O normal habitual é tudo funcionar ao acaso.
Nuns casais é "acaso sim" em que o namoro se prolonga até à velhice, noutros é "acaso não" com divórcios variados ou com burocracias conjugais estáveis de vários tipos (rotinas, amantes, consumo, dinheiro, etc) excepto sintonia afectiva.

Basicamente é o mesmo processo de correr em que há uns que correm e outros que aprendem a correr bem, o acaso sim ou acaso não de pôr um pé à frente do outro ...não chega.
Namorar é o mesmo, não basta dizer palavras e a isso chamar "conversar", ou andar de mão dada e a isso chamar "passear".

Tudo se centra em empatia e sintonias. O segredo está nos detalhes. Até talvez não seja difícil porque, estatisticamente, parece que na cultura ocidental os padrões afectivos existentes resumem-se a cinco estilos base.

Um possível auto-teste para casados:

- Indicar três diferenças (entre parceiros) nas respostas afectivas que deseja/precisa quando em crise. Depois converse e confira.

… e já agora... o que acontece com cada filho?
 PS- Esta pode ser feita em conjunto "pai-mãe".

Uma zanga

O José e a Maria casaram. Entendem-se na linguagem (conteúdos) verbal e não-verbal mas a nível de dialectos afectivos têm des-compreensões.
O José vive bastante bem com contextos afectivos, de proximidade e contacto, mas distrai-se e aborrece-se nos "palavreados" e, segundo as suas próprias palavras, "precisa de gastar energia".
A Maria, pelo contrário, gosta de manter alguma distância, de trocar ideias e ficar "embrulhada" nos seus pensamentos como ela própria se define, brincando.

Durante o namoro e lua-de-mel tudo correu bem mas agora, passados 5 anos, e com dois filhos pequenos, a falta de tempo e disponibilidade provoca lamentos de solidão [… já não é como dantes…]:


Outro dia, o José regressou do emprego algo "amachucado". Assim, que abriu a porta a Maria notou que havia problemas. Triste, o José pensava em abraços e aconchego e a Maria preocupada pensava apoiá-lo com o sossego de uma conversa amiga.
Assim, ela acompanhou-o à sala, disse-lhe para ele descansar um pouco que ela já voltava para conversar:

Ele sentou-se, olhou à sua volta, estava sozinho, não sabia que fazer e mergulhou na sua tristeza sentindo-se abandonado:
Passado algum tempo, ouviu os filhos entrar em casa e acompanhados pela mãe foram ter com ele.
Rapidamente, a Maria percebeu que ele estava pior, pensou que aquela barafunda não o ajudava e  levou os filhos com ela para o pai poder descansar:

Agora, o José além de sozinho sentiu que era recusado como se tivesse "peste", estava isolado de tudo e todos pois nem os filhos podiam ficar junto dele. A irritação aumentou.

A Maria continuava preocupada pois sentia que ele não melhorava. Foi espreitar e não teve dúvidas de que não conseguia o sossego necessário. Assim, sem fazer barulho, fechou a porta devagarinho porque os filhos brincando na cozinha faziam muito barulho.


Sozinho, isolado e a família toda junta divertindo-se na cozinha uns ao pé dos outros, ele sentiu-se estar preso, e "enjaulado".
Não aguentou mais e vermelho de irritação, saiu da sala e entrou "rosnando" pela cozinha a dentro:


Não foi fácil sair deste "carrossel" e a Maria chorando dizia: "- Em casa dos meus pais, a minha mãe sempre fez assim e ao jantar tudo estava bem".

Pois é, por "osmose familiar" tinha aprendido um dialecto afectivo errado para actuar em crise no seu próprio casamento.

O ridículo da zanga é que, a brincar, os dois diziam as suas diferenças (proximidade versus verbalização) mas nada concluíam. A sua cultura de senso comum é que mandava "- O casamento é mesmo assim, depois há que aguentar".

A solução era simples. Se a crise era da Maria, o José tinha que a deixar acalmar e depois conversar com ela, gostasse ou não de conversar. Abraços e beijinhos estavam fora de "hipótese".

Se a crise era do José, a Maria tinha que o aconchegar, abraçar, fazer companhia sem "intelectualidades" por muito que lhe apetecesse fazer. Ficar sozinho para acalmar e fazer conversas de missionação estava fora de "hipótese".



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Zanga de namorados1

No café da manhã uma discreta zanga de namorados. Na mútua troca de palavras, de repente, ela disse:
- Tens que comparar como hoje vês isso e como viste na altura… Adeus!!!, e saiu.

Ele ficou quieto e com "ar amarrotado":


Fiquei a pensar pois a frase era interessante. 

Na verdade, as memórias não são "fotografias mentais" do que acontece mas sim "fotografias mentais retocadas pelos significados que lhes damos". 
Estes significados dependem do ponto de vista interpretativo utilizado quando foram registadas e esse ponto de vista vai variar, muito ou pouco, com as vivências que vamos tendo.

Dizer "Eu dantes era muito parvo" significa apenas que a perspectiva pessoal sobre o registado, as "recordações", se alterou.  
O mais interessante é que o conteúdo desse "recuerdo" pode ser reformulado por uma espécie de retoque positivo ou negativo sobre o acontecido, do tipo [… não, não, …a bofetada foi apenas uma carícia mais intensa…] ou...

No julgamento, dizia o marido:
- …mas eu, ao chegar a casa, atiro-lhe sempre uma flor…
Dizia a mulher:
-…pois, mas é um cacto com vaso...

In brevis, as recordações são apenas o resultado de perspectivas de vida incidentes sobre registos arquivados, parcializando, embelezando, acrescentando, etc.

Ao contrário do computador em que os documentos não se transformam ao mudar a estrutura WinXP para Win7, Win10, etc, no cérebro humano as memórias arquivadas alteram-se com a estrutura ateia, cristã ou budista posterior ou até, simplesmente, com a mudança de apaixonado para indiferente em que, por ex., carícias desejadas passam a carícias indesejadas. 

Como exemplo frequente são os mesmos acontecimentos serem recordados diferentemente consoante se está em pré-casamento (só detalhes positivos) ou pré-divórcio (só detalhes negativos) apesar de ambos terem sido reais.

No ser humano os processos cognitivos são sempre "entrançados" com processos afectivos e estes nas conversas amorosas são os dominantes.

No pensar humano o constante entrançar de cognitivo-afectivo origina uma meditação budista bastante interessante. Ela intensifica a comparação de mudanças de perspectivas e de conteúdos ao longo do tempo de vida. A sugestão citada no início deste post [...comparar como se vê hoje e como se viu na altura] expressa bem a sua essência base. 

Quando há muitos anos tive conhecimento desta técnica e não tendo paciência para uma rotina de "diários" resolvi que, em períodos "mutantes" da minha vida, escreveria cartas aos meus filhos que na época eram ainda crianças e/ou adolescentes. 
A ideia era fechá-las em envelopes, não as tornar a ler, deixar passar muitos anos e entregá-las quando já fossem homens "vincados" pelos detalhes da vida.  

Todavia as perspectivas evoluem e, mais tarde, resolvi abrir uma das 14 cartas existentes, tornei a ler o que tinha escrito e depois de muito "conversar com os meus botões" resolvi, sem as abrir, destruir todas. 

Foi uma conclusão simples, decidi "não quero saber", o passado fica no passado. 
Os meus filhos construirão o seu passado com seus acontecimentos e suas perspectivas, não lhes deixarei mais marcas do que aquelas que já deixei numa época em que era diferente do que sou hoje. 

Gosto de conversar com eles sobre esse passado mas isso é diferente, sou EU a falar hoje dos "ontens" quando EU era diferente. Às vezes sei a diferença, outras vezes não. Portanto, essas conversas não são sobre o passado são sobre o presente a olhar para o passado. 

Paradoxalmente, só guardei a única carta que abri, ainda não descobri porquê, mas o seu destino está decidido é para rasgar, ninguém a vai ler. Até lá, está guardada em sítio que só eu encontro, um doc. com password de código dentro de código.

Para terminar, uma conclusão sobre a zanga de namorados do início deste post. A sua conversa estava cheia de diálogo mas tinha uma comunicação nula. 

Comunicação é troca de significados não é troca de palavras, as palavras só servem para inserir significados. A inserção obriga a possuir um dicionário tradutor de significados, se não existe a comunicação é nula, se é mal traduzido é des-comunicação:


Uma conversa exige um dialecto cognitivo e um dialecto afectivo. Pode-se conversar no mesmo idioma cognitivo mas com dialectos afectivos diferentes. Numa conversa comercial o dialecto cognitivo tem preponderância (ambos falam chinês), mas numa conversa amorosa a preponderância está no dialecto afectivo pois se, para um significa respeito e para outro é desprezo, o conflito e a zanga aparecem.

Aquele par de namorados tinha dialectos afectivos diferentes, entendiam-se nas palavras mas diferiam nos significados afectivos. Ele transmitia sinais de grande emotividade positiva que não era recebida e ela mostrava a sua frustação em emotividade negativa que não era percebida. Era como se, afectivamente, um conversasse em chinês e o outro em esquimó.

Os padrões de dialecto afectivo aprendido na infância não tinham inserido os seus dicionários. Possivelmente no início do namoro o tradutor universal das hormonas sexuais tinham tornado desnecessário essa necessidade, tudo significava o mesmo,… mas então a conversa era outra, agora o divórcio aproximava-se e era preciso instalar os dicionários afectivos.

domingo, 16 de julho de 2017

Tatuagens e vida



As tatuagens não me incomodam, o meu problema é outro, até porque fica bonito, agradável e inesperado a tatuagem espreitando pelo decote nas costas.

A minha questão já vem de tempos antigos. 
Nos meus 19 anos visitei o Oriente e fiquei encantado com a China e o seu mundo tão diferente do Ocidente. Conversando com amigos, apareceu a ideia de todos guardarmos a lembrança dessa visita fazendo uma tatuagem de um dragão chinês. Depois de muitas ideias e contra-ideias sobre o local, tamanho , estilo, etc, acabou por se concordar por um pequenino dragão no pulso para ficar tapado pelo relógio.

Nos dias seguintes fiquei a pensar [... e se começasse a usar relógio de bolso?] e decidi não o fazer. Desde essa altura até hoje fiquei com o trauma do "relógio de bolso" até porque há muitos anos que deixei de usar relógio, mesmo muito antes dos telemóveis porque havia relógios por todo o lado, no carro, nas empresas, na casa e, claro, no pulso de toda a gente.

Desde essa altura  que o meu problema com as tatuagens é ficar  "preso" a ela para toda a vida. A pele pintada não me incomoda, o que me incomoda é não poder despintar.

A vida é demasiado rica e complexa para se ficar "parado" no seu fluir. Parafraseando o poeta, "cada momento que vivo é sempre um início do fim da minha vida". Ficar limitado nas possibilidades desse momento por uma decisão então considerada boa mas que se pode tornar má… irrita-me se lucidamente já a considero não imprescindível.  

Hoje penso que esta posição partiu de um filósofo que li na minha adolescência que dizia que as decisões boas são aquelas que sentimos que "noutras circunstâncias decidiremos o mesmo". Olhando para trás, para aquelas decisões que provocaram uma "cambalhota no caminho da vida" se, por muitos problemas que tenham causado, ainda hoje ainda as decidíssemos do mesmo modo é porque mereceram a pena. E uma tatuagem para a vida inteira não sinto que pertença a este tipo.

Viver é... em cada segundo decidir o futuro, do mesmo modo que escrever é em cada segundo decidir a palavra seguinte e se continua ou não a escrever. 

Deste modo, decido acabar e despeço-me com uma síntese:

Concordo com tatuagens quando facilmente as puder tirar e depois puder torná-las a pôr, pois a razão é  simples: o corpo é meu e, voluntariamente, não lhe tiro possibilidades. 

PS- Acabo de re-decidir continuar. 
Estou a chegar à conclusão que estar no café e assistir à vida que me rodeia é mais interessante e estimulante do que ver os canais e programas da TV cuja rotina é mesmo rotineira.
Inté


sexta-feira, 16 de junho de 2017

A guerra das torradas

ou a "Lógica no quotidiano" !!!

Hoje, houve um conflito no pequeno-almoço: uma torrada ou duas meias-torradas ?

A diferença é que a torrada são duas fatias de pão saloio e custa 2,7 euros e a meia-torrada é uma fatia e custa 2,4 euros.

O conflito era simples, o dono do café queria receber 4,8 euros por 2 meias-torradas e as duas clientes queriam pagar 2,7 euros por 1 torrada.

O interessante é que a discussáo sobre o preço desapareceu e transferiu-se para a análise de frases e a lógica de pratos.

A cliente:

- Eu pedi uma torrada para as duas !!!

O dono do café:

- E nós colocámos uma fatia em cada prato e levámos para a mesa, portanto, foram 2 meias-torradas. !!!

A cliente:

- Não foi ... foi uma torrada em dois pratos ... e o que pedimos foi uma torrada num prato… e se depois ambas comemos do mesmo prato, ou não, o problema é nosso.

O dono:

- Mas foi entregue o que pediram ... meia torrada para cada uma.

A cliente :

- Não sabe se eu só dava uma dentada,... nós queremos uma torrada para as duas e dividimos como queremos.

O dono: 

- Sim, mas uma torrada para duas é metade em cada prato, portanto, meia-torrada para cada.

A cliente:

- Portanto, não nos deram o que pedimos que foi uma torrada e não duas meias torradas... não temos que pagar, foi oferta... e agora queremos a torrada que pedimos. 

Os clientes interessados acompanhavam o debate e o resultado que iria ter. Talvez por isso a conversa continuou em surdina e não se percebeu a solução. Tudo terminou e as clientes sairam. Acabou assim a "guerra das torradas" com um acordo em privado. 

Porém, é possível tirar algumas conclusões acerca de "lógicas no quotidiano"e já há experiências a partilhar neste campo.

Para os clientes, cuidado com partilhas e ... pelo sim, pelo não, metam sempre a mão no prato do parceiro, nada de divisões, como nesta partilha de batatas fritas...


Neste caso o risco seria grande pois pagar-se-ia 5 pratos mal cheios de batatas ou discutir-se-ia "quantas batatas deve ter um prato".

Para os donos dos cafés a conclusão é que devem clarificar o regulamento com letreiros evidentes da burocracia em vigor:


Três Observações técnicas sobre o letreiro:

1ª - Não é uma "tasca" pois tem uma direcção e não um gerente;
2ª - São evoluídos pois escrevem segundo o "Novo Acordo Ortográfico", vide DIREÇÃO só com um "c";
3ª - Não se percebe se querem dizer " Não é permitido duas pessoas comerem no mesmo prato" ou se é um restaurante de antropofagia e avisam que para comer duas pessoas elas têm que vir cada uma dentro de um prato.



terça-feira, 13 de junho de 2017

O diferente, a vida e a sociedade

"Boat bird"- 190 Azulejos de feltro (felt tiles)
Preâmbulo
Apesar deste post ter sido detonado por uma pintura, ele não é sobre arte, seus aspectos artísticos, estéticos, comunicativos, etc, pois não me atrevo a tal, sou um simples "gourmet" do tipo "gosto… não gosto" e não um "chef", um artista ou comentador especializado.

O interessante é que o quadro, quando eu percebi a técnica utilizada, provocou em mim uma espécie de epifania centrada sobre o conceito "diferente", pelo que andei vários dias "embrulhado" com ele como  base positiva de relações amorosas e negativa do fomento do xenofobismo, racismo, etc, e também  impulsor de simples conflitos e "guerras" de comentários. 
Na prática, é a "gasolina" dos raciocínios quer se usem bem quer se usem mal.

Assim, este post não é sobre o quadro mas sobre o conceito de "diferente". Não são considerações estéticas e artísticas, mas considerações sociológicas sobre processos culturais e cognitivos.

As próprias imagens colocadas não pretendem constituir um todo esteticamente harmonioso (como na técnica do "boat bird") mas são simples reforços afecto-cognitivos dirigidos ao "hemisfério direito" do córtex para complemento do texto dirigido ao "hemisfério esquerdo"… e esperando que se integrem. Não pretendem ser arte apenas reforço da mensagem.

Este post é um "recuerdo" desse deambular, o qual me trouxe algumas conclusões.

Como ponto de partida três premissas: diferente, vida e sociedade.

Diferente… "cientificamente", é aquilo que não é considerado igual 😎.
A palavra chave nesta definição é "considerado". Na verdade, ser igual ou diferente resulta de uma prioridade mentalmente aceite, isto é, quando se compara dá-se preferência ao semelhante e chama-se igual ou dá-se preferência ao dissemelhante e chama-se diferente:

1 - A baleia é diferente da vaca porque anda na água e a vaca anda em terra;
2 - A baleia é igual à vaca porque ambas respiram no ar e são mamíferos.

Na realidade, todos os seres vivos têm factores iguais e factores diferentes uns dos outros. Por exemplo, não há dois bois iguais e a prova são as diferenças de preço porque são vendidos nas feiras. Os profissionais procuram confirmar se as suas diferenças justificam os preços, mas os amadores compram sem procurar as diferenças porque "bois são bois".

Vida… "cientificamente", vida é uma harmonia de diferenças e não uma união de igualdades. Se essa harmonia sofre prejuízos de uma diferença, então a vida vai desaparecendo e a morte aproxima-se:

1 - Os rins são orgãos diferentes do coração e com ele coexistem em harmonia. Se os rins provocam prejuízos, a harmonia do conjunto desaparece numa situação conhecida como doença em que a vida é enfraquecida.

2 - Num transplante de orgãos no nosso corpo é preciso que ele aceite e integre um emigrante, um diferente nos ADN e crie harmonia com ele. 
Na verdade, as células corporais do dador têm um ADN diferente do ADN do receptor. Para não haver rejeição do orgão transplantado pode acontecer que surja uma "quimera humana", ou indivíduo com dois ADN, o que é possível por questões naturais na gestação do embrião ou artificiais no esforço da vida para integrar o diferente.

A vida não é xenofóbica… nela  os diferentes têm possibilidades de integração.

Sociedade… "cientificamente", o seu progresso é a criação de diferentes. Quanto mais uma sociedade for evoluída maior é o número de diferentes que contém e mais intensa a sua diferenciação. Estes diferentes são chamados especialistas, nome moderno dos antigos artesãos.
Uma sociedade pouco evoluída é constituída por pessoas indiferenciadas, todas iguais.

1 - Uma ida ao médico significa apenas ir procurar alguém diferente de nós e isso exactamente porque  é diferente. Tem ideias, informações, destrezas, competências, etc, que não temos e por isso precisamos desse diferente. 
Se falar outra língua e tiver nascido noutro país, apenas existe a igualdade de ser da mesma espécie o que é suficiente para ambos, vide  os Médicos sem Fronteiras.

2 - Segundo alguns autores, a paixão tipo Romeu-Julieta acontece exactamente por causa das diferenças atractivas entre ambos que originam um fluir, uma corrente, à semelhança de um rio que a cria pelas diferenças entre a nascente e a foz.  Se essas diferenças desaparecerem fica apenas água estagnada.

Nesta perspectiva, as tentativas de igualdade entre ambos são formas de estagnar o fluir da paixão de que as rotinas são causa e consequência. A harmonia transforma-se em quietude e o equilíbrio em estagnação, na verdade, estar apaixonado pela imagem de si próprio dá segurança mas não dá alegria.

A união é integração de diferentes 
e não é ajuntamento de iguais

Em sociologia, o ajuntamento de iguais chama-se classe lógica, por exemplo, os peões que andam a pé e os automobilistas que guiam carros.

Estes ajuntamentos não precisam de comunicações, nem estruturas, nem "encaixes" de diferenças, etc, eles são uma "mole" amorfa que está junta apenas por coincidência de uma igualdade comum activa e onde diferenças são esquecidas:

Beber água em comum não cria uma união, apenas,
um ajuntamento (classe lógica: os que bebem água)
Para transformar uma classe lógica em grupo é preciso criar aquilo que ela não tem: "comunicação, encaixe de diferenças, estrutura, etc".

Por exemplo, no amorfismo das classes lógicas peões e automobilistas um atropelamento pode "acordá-los" e transformar a indiferença mútua em diferenças em conflito.

Será suficiente reduzir o espaço de cada classe lógica, apertando os seus membros uns contra os outros, criando contactos "ombro-a-ombro". Estes contactos corporais são comunicação com mensagens afectivas de força e propósito. Esta técnica foi usada por grupúsculos em Maio 68, é usada em "manifs" pelos elementos de enquadramento e até pela polícia em táticas erradas de contenção para impedir conflitos... é o mesmo que "apagar fogo com gasolina".

Na verdade, o "ombro-a-ombro" cria comunicação, sensação de pertença, estrutura e objectivo. A energia grupal circula e com palavras de ordem a acção detona-se, os diferentes integram-se e a luta nasce. O ajuntamento passou a união.

As diferenças "encaixam" e não é por coincidência, é por intenção,
é  uma UNIÃO onde se trocam mensagens que se integram entre si.
A vida e as sociedades não são ajuntamentos de iguais, mas sim, são integração de diferentes, não resultam de moles amorfas e "cegas" mas de [… diferentes independentes com dependências mútuas], por exemplo:

- a floresta são árvores juntas mas diferentes entre si (coqueiro e palmeira), 
- o coqueiro tem "partes" juntas mas diferentes entre si (folhas e tronco), 
- o tronco tem partes juntas mas diferentes entre si, casca (suber, tecido morto) e miolo (tecido vivo), 
- o miolo tem partes juntas mas diferentes entre si, xilema (transporte de baixo-cima) em equilíbrio com floema (transporte de cima-baixo);
- etc etc

A vida e as sociedades são um caos organizado por diferentes integrados entre si. 

Quanto mais evoluída é a sociedade, maior é a sua quantidade de diferentes e menor os seus indiferenciados (vide o actual aumento de escolaridade) e também a diferenciação é cada vez maior  (vide o aumento de especialidades num hospital).

Na antiguidade, a arca de Noé era uma solução lógica pois, para manter e aumentar  os "embarcados", era só deixá-los existir, comer e reproduzir. Reconstruir o perdido não precisava de especialistas diversificados, o Noé e sua família eram suficientes:


Porém,  fazer hoje uma Arca de Noé não tem a mesma lógica,


o problema não é a quantidade-qualidade dos "embarcados", é a quantidade-qualidade das pessoas diferentes necessárias para a reconstrução. A meia dúzia do tempo de Noé tem que ser substituída por centenas de milhares de diferentes, os especialistas necessários.

Por exemplo, para reproduzir um automóvel é necessário milhares de pessoas diferentes com suas diferentes tecnologias (hard e soft), desde a recolha e tratamento de combustíveis, borracha, metais,..., até ao fabrico de componentes electrónicos, eléctricos, vidros,..., sua montagem, aferição e operacionalização.
Só um simples rádio,
Um rádio de 1940
exige dezenas de técnicos e tecnologias diferentes para ser construído.

A sociedade de hoje exige milhares de diferentes especialistas que, em harmonia e consonância de seus actos, precisam de se manter diferentes. Mesmo a sua substituição por robots iguais obriga a existir diferentes a montante e jusante se a sociedade quer continuar a existir. A diferenciação é fundamental para existir união e não ajuntamento.

Na união há integração no conjunto 
e diferença na unidade


No "boat bird" os seus 190 "Azulejos de feltro" em seu conjunto constroem um equilíbrio e uma harmonia, mas cada azulejo tem sua "individualidade própria", uma diferença particular com seu significado. 
São diferentes, continuam diferentes mas são iguais como fazedores do painel. 

De um certo modo, são uma expressão pictórica da vida e da sociedade pois também lá [… cada unidade tem uma diferença própria mas no conjunto as suas participações integram-se harmoniosamente umas com as outras].

Vendo com lente, dentro dos pequenos azulejos de feltro há diversos mundos a descobrir para além do seu papel no conjunto. No exemplo dos dois pequenos azulejos, num encontra-se o olhar observador do cão e no outro a suave festa da mão ao pássaro.
No conjunto, cada detalhe tem um mundo de diferenças próprias de que, de forma pessoal co-existem sem lutas e sem prejuízos com todos os outros. Assim, é uma sociedade, assim é a Democracia.

A essência da Democracia é a votação e eleição do NOSSO diferente representante para em conjunto com o VOSSO diferente representante, unidos e em harmonia concretizarem a melhor solução para todos. Paradoxalmente, surgiu e adoptou-se que:
a melhor solução para esta integração de diferentes… é serem todos iguais…😡😳 

solução tecnicamente chamada de partido único. 
Se houver muitos partidos cada um constituído por iguais por natureza ou por disciplina partidária, bastará existir um só representante com o respectivo "peso numérico para a votação", correspondente ao número de iguais representados. Será mais económico, debates mais rápidos, menos conflitos e discussões mais óbvias.

Sob ponto de vista lógico, o conceito é divertido porque [… se é partido único já não é parte de nada (partido) é inteiro] ou na linguagem de Duverger é a "Democracia governada", ou seja, deixou de ser Democracia porque por essência a Democracia é governante e para se governante ela precisa do conjunto dos eleitos diferentes.

Do mesmo modo que não se matam doentes quando que não se sabe curá-los, também, se os diferentes eleitos não sabem estar em Democracia, a solução não é matar a democracia é mudar o eleitos.
Quando nos debates democráticos existe luta entre diferentes e ele procuram prejudicar os não-iguais, esse conjunto não é união mas ajuntamento, uma espécie do que existe num armazém de sucata: tudo junto sem união entre si.

Dada a mobilidade destes "painéis de feltro":


eles poderiam ser um bom um bom símbolo de que aquele espaço é para ser uma DEMOCRACIA:


e se não tiver sido uma Democracia, o coordenador da reunião mandaria recolher o símbolo:




segunda-feira, 29 de maio de 2017

A boneca aprisionada

A boneca triste
Uma manhã triste no café pois vivia-se uma 2ª feira despovoada, mesas vazias, clientes fugidios.

Numa mesa afastada, uma mãe, trinta anos(??), corpo amorfo e "embotado" mas com cara tensa e vincada, rotinadamente, "aperfeiçoa" a filha de um ano, sentada sobre a mesa.

Mecânica e suavemente, alisa a renda do vestido, corrige um cabelo fora do sítio, limpa um sapato e, com gesto brusco, ajeita-lhe um braço… e, assim, o tempo passa numa constante correcção de pormenores… mas, e a criança?

Imóvel, estática e quieta, de expressão parada, olha em frente e devagar mas sem olhar, a mão aproxima-se da caixa dos guardanapos. Com gesto rápido, a mãe afasta a caixa e põe-lhe o braço, "como deve ser" na posição anterior. Fiquei a pensar, seria autista????

Um estranho (60 anos??) senta-se na mesa ao lado com jornais e revistas. A criança e o estranho olham um para o outro, ela estica a mão na sua direcção, palra e ri-se. Ele dá-lhe um postal que tira da revista e que ela aceita e depois oferece. Começou uma brincadeira de "toma lá, dá cá", em que ele se ri e ela também… divertem-se. O "autismo" desapareceu.

Uhau…afinal não era autista... era só uma "boneca aprisionada", engaiolada.

Quando trabalhei no Hospital Júlio de Matos, no Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, encontrei crianças com comportamentos semelhantes, mas não tinham esta instantânea alegria e disponibilidade com estranhos. 

Aqui, não me parecia que fosse a mesma situação pois não devia ser um problema interior mas apenas o resultado de um problema exterior, uma defesa instintiva de "prisioneiro versus o perseguidor-carcereiro", reconhecível em crianças, adultos e animais (particularmente cães) nesta situação.

Entretanto, a mãe, "agitada", dizia "- Desculpe! Desculpe! Querida,.. olha para mim, olha para mim,..." mas a criança não ligava, continuava a sorrir e a brincar ao simples "toma lá, dá cá". Tinha encontrado um amigo.

A minha melancólica estranheza foi que ele, um estranho, era mais pai do que ela era mãe e, principalmente, porque a criança, ainda sem saber falar, já sabia reconhecer e optar pela diferença!!!
Na verdade, desde a nascença que o afecto se reconhece e sente pela pele, quer nos humanos quer nos animais ou, como se diz na cultura USA, o afecto existe "by the skin and not by the book", isto é, existe "pela pele e não pela cabeça com suas regras".

Raizupartiça,…o que acontece aos humanos?

A minha manhã de relaxar "conversando" com a torrada tinha acabado. Regressei a casa e fui "desabafar' com o tablet.

Na verdade, estas inovações modernas substituem com eficácia o confessionário e/ou o psicanalista, pois o tablet não me sugeriu que o problema era meu, dado que ninguém tinha reparado, nem me impôs penitências a cumprir, nem comprimidos a tomar, nem traumas de infância a pesquisar.

Em consequência, ficou-me o remorso de ter consentido pois não usufruí daquelas "bengalas" de SOS (confissão ou psicanálise) para o aliviar… assim, lá tenho que me aguentar a mim próprio.



sábado, 27 de maio de 2017

Avó e neta


Café da manhã, na esplanada a neta choramingava porque queria andar a passear e a avó queria que ela estivesse "sentada como uma senhora". Entre "brincos e chorincos" a luta continuava e a avó "atacou" dizendo:

- Se não estás sossegada .... eu já não gosto de ti!

A neta resolveu a questão:

- Não faz mal ... vou ao supermercado e compro outra!

A avó ficou a choramingar e a neta foi passear pela esplanada!

Fiquei espantado, como é que uma criança de 7 a 8 anos adquiriu técnicas correctas de luta contra a perseguição-assédio a controlar a vida do outro.

Na verdade, o ataque da avó foi uma técnica muito usada nestes casos e chama-se "chantagem afetiva". 
A defesa da neta é uma técnica raramente usada por adultos pois, nestes casos, limitam-se a guerras de impropérios e à primária argumentação do "disco rachado", ou seja, dizem sempre a mesma coisa de forma monocórdica, i.é., tocam sempre a mesma corda (vide debates TV).

Pelo contrário, a neta com seus poucos anos de idade, usou a "saída pela tangente",  com um "go in" incorporado que funcionou. 
O que mais me espantou foi a continuação. Na verdade, o choro da avó não funcionou como pressão afectiva para submissão, pois a neta usou a técnica do "tu não existes", técnica preferencialmente aconselhada nestes casos de "chantagem psy" quer seja cognitiva ou afectiva, que é a preferida dos perseguidores/assediadores ou, dizendo em francês, dos "emmerdeurs" (a tradução portuguesa não é elegante mas, intuitivamente, é óbvia).

No caso da neta, ela usou o método da "saída pela tangente" que consiste em, num ponto da lógica usada pelo outro, fazer uma inflexão noutra lógica diferente que o coloca fora da jogada e resolve o problema.
Ela usou a asserção "recurso estragado substitui-se no supermercado", eventualmente aplicado na família para alimentos estragados e, criativamente, utilizado aqui.

Por sua vez, sem o saber, detonou na avó um "go in". Esta técnica associa um processo cognitivo com um afectivo, em que este detona um "curto circuito" mental  susceptivo de bloquear o sistema, ficando este sem programa operativo. É uma espécie do "écran azul" do windows quando fica inoperativo e obriga a reiniciar.
Exemplo:

Um dia na FNAC, entrei comendo uma pequena tablete de cereais. De repente ouvi atrás de mim um "berro" dizendo "Ehhhh… não pode estar a comer". Era o porteiro, híbrido com segurança, que me apontava o dedo. 
Em vez do método usual de debate político (vide 25 Mai 17) resolvi conversar ao estilo de dois adeptos de futebol do mesmo clube.

Voltei atrás e perguntei "suavemente" - O que chama comer?.
Os olhos "pararam" e ficou com o ecran azul do windows à procura de programa. 
Resolvi ajudar:
- É dar dentadas ou mastigar?
O azul do programa mental ficou cinzento escuro, a alternativa não era óbvia pois na verdade era um dilema (ou… ou). Fiquei à espera… com a esperança que dissesse TODOS ao estilo do Vasco Moscoso de Aragão dos "Velhos Marinheiros" de Jorge Amado… não o fez.

Resolvi ajudar com um trilema e acrescentei: - Se guardar na algibeira resolve?
Como dois amigos do mesmo clube, respondeu também "suavemente": - "siiimmm". Agradeci, dei uma dentada à frente dele, comecei a mastigar, acenei um adeus e fui-me embora. Ele continuava com o ecran azul.

No caso da avó e neta, esta não fez "go in", ele aconteceu. Foi a própria avó em auto-serviço que acrescentou esse factor ao pensar "não gosta de mim… sou de deitar fora". Assim, deu-se um curto circuito, fez-se ecran azul, ficou sem energia e precisou re-iniciar o sistema reavaliando a situação.

O que me espantou foi a continuidade da acção da neta, pois fez a técnica aconselhada pelos peritos para os casos de assédio. É a técnica do "tu não existes".

É uma técnica simples e de fácil aplicação. Constitui criar uma atitude na qual o perseguidor (narcisista) se torna transparente. É olhado mas não é visto, é ouvido como ruído, não é respondido, não é inter-agido pois não tem lugar nos actos do outro em que, por ex., está "distraído" vendo o telemóvel. 

A maior "dor" de um perseguidor narcisista não é ser combatido, argumentado, conflituado pois isso é a sua "alegria", o seu prazer, o seu objectivo.
O que lhe dói é "não existir", não ser polo de relação, não ser considerado interlocutor e, mais doloroso ainda, é nem sequer ser ignorado ou recusado, pois estas alternativas são ainda conexões, apesar de pela negativa.
A solução é simplesmente criar um "vácuo relacional" em que as interacções que emite não têm polo receptor qualquer que seja o formato, canal, mensagem, etc. Como exemplo e treino é experimentar, ao espelho, fazer o olhar de quem está a ver mas a pensar noutra coisa, ou seja, quem está à frente é apenas um objecto da paisagem,  mesmo se falante.

Na continuação, o que a criança fez foi não se deixar apanhar pela chantagem afectiva das lágrimas e tristeza (reforço da primeira tentativa) e foi passear. 

Eu fiquei à espera do resultado pois queria saber se haveria a segunda etapa (B). Não houve, ela voltou contente, as relações estavam normais, ela saía para ver a montra da tabacaria e o "sentar como uma senhora" não atacou mais. As duas pareciam felizes.

Afinal isto do educar vale para os dois lados… felizmente.