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domingo, 20 de julho de 2014

Caixa de Pandora, Educação e Inteligência das plantas

Todos sabem tirar uma pedra do sapato,
poucos aprendem a tirar uma ideia da cabeça.
Budismo Zen

Pensar ou não pensar, os pensamentos invadem-nos e quanto mais não pensamos neles…mais eles dançam dentro de nós.
Esta é a tortura do pensar:

O pensar invade a vida...
Os antigos gregos tinham o mito (há várias versões) da Caixa de Pandora que era uma simples caixa fechada cheia de desgraças, males e ofertas dos deuses, por ex. o fogo, e que também continha a esperança. Foi oferecida à Pandora, primeira mulher na Terra, com a recomendação de nunca a abrir.

Pandora abrindo a caixa
Mas curiosa, a Pandora abriu-a e fechou-a logo, porém tudo escapou e só a esperança não conseguiu fugir pelo que ficou fechada lá dentro.

Desde essa altura, as desgraças e surpresas rodeiam-nos e a esperança não aparece.

O conselho deste mito é simples e prático: "Não se deve abrir o que não sabe se pode fechar". Porém, este conselho também é um mito porque só sabe que não pode fechar depois de o ter aberto.

Parece que o conselho dos Deuses devia ser outro: "Viver é sempre andar a abrir Caixas de Pandora …porque se não são, não merece a pena abrir"… devem ser caixas com arquivos.

O interessante deste mito é que se os Deuses não avisarem, e normalmente não o fazem, só se sabe que é uma Caixa de Pandora depois de a ter aberto e não saber fechar… por isso a única solução é continuar a abri-la tantas vezes até que a esperança apareça, assim ...abram-se Caixas de Pandora e haja alegria por elas existirem.

Este é o meu caso com a questão "animais terem ou não terem sentimentos" (ver ref. no fim).
Quando comecei a abrir esta Caixa de Pandora, surpresas saltaram à minha volta e a minha calma pastoril desapareceu.

Por exemplo, o saber que as abelhas produzem biologicamente opiáceos (investigação cientifica na Argentina) deu-me a conclusão que devem ter dores e que porcos e outros animais também devem ter, pelo que, parafraseando a "pensadora" Mafalda do Quino, possivelmente todos devem ter "Projectos de Vida" com que sonham e querem para os filhos. (ver ref. no fim)

O meu mundo alterou-se, os animais já não são animais são viventes com intenções, estou a ficar vegetariano, comovendo-me com a secção de carnes dos menus dos restaurantes… e o meu futuro está a caminho do eremitismo.

Como defesa resolvi seguir o conselho oriental e " se não consigo fechar a Caixa de Pandora, tenho que a abrir mais".

Lembrei-me dos peixes...
O prazer da pesca é ver os peixes morrer por não poder respirar,
se isso não acontece, a pesca não presta porque os peixes já estão mortos!
Pescar um peixe é divertir-se com o prazer de o apanhar e ver sufocar estrebuchando no esforço de respirar para continuar vivo.
(P.S.- Seria este o prazer dos circos romanos e será este o prazer das touradas?)

Obter uma boa pescaria é uma alegria relaxante de levar para casa os "sufocados" desse dia.
Chama-se a esta actividade fazer desporto… desporto de andar a impedir uns quantos de respirar!!!

O interessante é que quando um humano cai dentro de água e, à semelhança do peixe pescado, estrebucha sem conseguir respirar, os golfinhos não o empurram para o fundo para ajudar a sufocar, mas pelo contrário levam-no para a superfície para poder respirar… o desporto deles é diferente, é desporto de ajudar uns quantos a respirar!!!


Ando confuso com estes dilemas e apesar da solução parecer ser tornar-me vegetariano, resolvi entretanto abrir mais a Caixa de Pandora e procurar resposta a outra pergunta: …"as plantas também pensarão e terão emoções"?
Se sim…  então só me resta jejuar e desabituar-me de comer.


Para começar, a grande diferença entre plantas e animais parece-me estar nos hábitos alimentares.


As plantas não se deslocam para procurar comida, apenas se esticam para cima com os troncos e folhas para apanhar sol, luz, humidade, ar, e para baixo com raízes para obter nutrientes, usando os recursos locais.
Além disso usam recursos directamente como estão na natureza.

Os animais deslocam-se para procurar alimentos noutros locais, pelo que necessitam de orgãos e funções que as plantas não precisam, se bem que existam alguns animais tipo plantas, isto é, sem deslocações, por ex., as esponjas.

Por outro lado, os animais não usam nutrientes em forma directa como as plantas, mas apenas quando já estão pré-preparados em forma vegetal, caso animais herbívoros, ou transformados em carne, caso animais carnívoros, numa palavra, ambos com comportamentos predadores de aproveitar o trabalho dos outros (modelo também usado pelos predadores económicos).

Como curiosidade, em quase todos os animais o maior orgão do sistema nervoso está localizado perto da boca, mesmo o polvo apesar de ter bastantes neurónios nos tentáculos é junto da boca que está a grande concentração e não há vertebrados com o córtex junto das patas (surgem dúvidas no caso de alguns humanos).

Às vezes e de forma excepcional, os animais comem nutrientes de forma directa lambendo-os tal como estão na natureza, parecendo ser uma decisão auto-medicamentosa para tratamento.


O chamado senso comum afirma como verdade que "se os animais se deslocam então precisam tomar decisões para onde vão" e se as "plantas não se deslocam não precisam tomar decisões".

Daí o conceito de "estado vegetativo" com o significado de "sem tomar decisões", usado em medicina e nela bem caracterizado, mas esta colagem nome-significado tem um erro de lógica cultural na sua origem. 

Na verdade na lógica do senso comum se a deslocação existe, então, existe decisão e de forma imediata também conclui o reverso, isto é, se não há deslocação então não há decisão... e assim nasce o científico nome de estado vegetativo quando sem decisão.

Porém na lógica do senso pensado isto não é verdade, pois o facto de não haver canto não significa que não há cantor, ou seja, a falta de prova não é prova. 

O facto da planta não se deslocar não significa que não toma decisões, portanto um estado tipo vegetação (vegetativo?) não significa por inerência um estado de falta de decisões… por exemplo, após a decisão de estar quieto, a não-deslocação é prova da decisão e não da falta dela.
(PS- Há mais alternativas lógicas, ver outra mais à frente com um video)

Não me parece que por este caminho se consiga chegar a qualquer lado, de modo que resolvi mudar o rumo.

O cerne da decisão parece estar na sua construção, isto é, no processo da sua origem. A conclusão é fácil, estará naquilo a que se chama inteligência.

Mas esta facilidade traz duas dificuldades: 1º - O que é inteligência?; 2º - Como se evidencia?

Mesmo sem responder à primeira pergunta, uma resposta para a segunda é que "o deslocar é uma evidência", trazendo uma terceira questão: 3º - que outras evidencias são possíveis?


Resolvi pesquisar "o que é inteligência"!

Respostas há muitas, desde inteligência cognitiva, abstracta, concreta, emotiva, espiritual, fabril(?), organizacional, artística, prática, política(?), grupal, "de enxame", emergente, etc, umas mais bem definidas, outras mais confusas, mas todas integradas em paradigmas culturais que lhes dão um "sabor" particular.
Quer isto dizer que o contínuo "estupidez versus inteligência" numa cultura pode ter um significado, noutra cultura, não ter qualquer significado ou até ser o oposto.
Exemplo:

Conceito (para teste técnico: médico, engenheiro, gestor, etc) 
inteligência prática: eficácia da captação de sinais (diagnóstico) e eficácia da decisão correspondente (acção);

A - um selvagem a atravessar uma rua de intenso tráfego em New York demonstra "falta de inteligência" e é atropelado;

B - um prémio Nobel a atravessar um rio na selva demonstra "falta de inteligência" e é o almoço do crocodilo;


Se se observar os "testes de inteligência" nas suas entre-linhas, nota-se bem a dança dos paradigmas a controlar a selecção dos "estúpidos" e dos "inteligentes". A vantagem é que há tantas inteligências cientificamente definidas e com testes validados que há de certeza uma que serve para se rotular de génio… é só procurar bem e depois fazer publicidade ao resultado.

The Economist, 19 Dez 2007

No caso de se procurar saber se as plantas são ou não inteligentes é importante fixar primeiro uma definição de inteligência e também encontrar critérios e evidências concretas da sua existência ou falta.

Do turismo intelectual feito no tema encontrei uma definição de inteligência que agradou.

O psicólogo David Stenhouse descreve inteligência como […um comportamento adaptativo variável do indivíduo dentro do seu tempo de vida…] sendo [… não instintivo e maximizando a sua aptidão…].

O ser não-instintivo agradou-me porque implica adaptação a variáveis "anómalas" (fora das zonas de normalidade do instinto) e o comportamento variável implica transformações observáveis não-rotinadas.

Lembrou-me as experiências de M. Giurfa do CNRS francês com as suas abelhas a responderem a traços verticais e horizontais, estimuladas com "sim" por uns e com "não" por outros, o que corresponde bem a esta definição pois não acredito que o seu instinto tenha respostas comportamentais variáveis para sinais geométricos.
(ver blog "Abelhas, Inteligência e Educação")

O biólogo  escocês Anthony Trewavas, Universidade de Edinburgo, tem experiências interessantes neste campo e salienta que considerar as plantas como sem movimento é apenas um problema do seu movimento ser tão lento para a percepção humana que o considera inexistente. Não é um problema de haver ou não deslocação, é um problema de a conseguir ver ou não.

No video (1m 15s) filmado com tecnologia apropriada é possível ver as plantas a mover-se e até a escolher o seu caminho, tacteando para onde "querem" ir pois pesquisam, hesitam, recuam, mudam… na prática, decidindo para onde vão:

Discovery (1m)
click aqui, se não abrir fazer download
Também é possível terem movimentos mais rápidos e neste caso não é só moverem-se… é decidir quando o devem fazer de modo a ter sucesso, o que implica percepção, intenção e estratégia, portanto, inteligência:

Discovery (40s)

Anthony Trewavas refere que as plantas tomam diversas decisões com base nas informações que recebem do contexto respeitante a condições de sobrevivência, isto é, ter mais ou menos nutrientes, água, luz etc e assim desenham a sua estrutura e para onde dirigem raízes, troncos e folhas numa espécie de deslocações de "parte" da estrutura, semelhante a "mexer" um novo braço sem mexer o corpo, nem os braços já existentes.

O interessante é que tudo isto exige decisões, nunca rotinadas mas variáveis, adaptadas às informações recebidas do contexto, com a intenção de aumentar a sua aptidão e eficácia. De acordo com a definição de inteligência do psicólogo David Stenhouse isto significa que as plantas têm inteligência

Anthony Trewavas refere ainda que as plantas fazem previsões da melhor localização para rentabilizar o sol e luz e fazem crescer troncos e folhas nessa direcção e não noutra.

Ao contrário dos animais que se adaptam no momento e rapidamente a melhores condições de rentabilidade, as plantas não o podem fazer portanto a eficácia da sua sobrevivência depende da justeza do plano de crescimento, ou seja, a sua vida depende da correcção da previsão de futuro e da adaptação a esse futuro, modificando-se numa direcção (a rentável) e não noutra (a carente), difícil de corrigir ou pelo menos vagarosa… o espantoso é que acontece exactamente assim… e com êxito há muitos milhares de anos.

A sobrevivência das plantas baseia-se na PREVISÃO correcta 
e no eficaz PLANO DE CRESCIMENTO correspondente.

Stilt Palm
Como exemplo prático, Trewavas refere-se à Paxiuba (Stilt Palm) que vai criando raízes do lado do Sol e deixando morrer as que estão à sombra, assim na prática realmente o tronco e folhas deslocam-se no espaço em direcção ao Sol.

Kenji Matsui da Universidade Yamaguchi investigou e concluiu que algumas plantas (tomate, por exemplo) se atacadas por vermes produzem um ácido que os combate, o interessante é que outras plantas nas redondezas começam também a produzir esse ácido em prevenção.

Por experiências em biologia molecular alterações bioquímicas e bioeléctricas encontradas nos neurónios estimulados encontram-se também nas células das plantas estimuladas por ex. com luz, cálcio, etc. Talvez a não existência de células especializadas (neurónios) seja porque todas funcionam como tal (???).





Uma experiência pessoal

Há alguns anos atrás fiquei encantado com a estética floral japonesa do Ikebana:


Na altura tendo um Bonsai resolvi dar-lhe um design "Ikebana".


Podemos pôr a semente na terra e ajudá-la,
mas as decisões são sempre dela.
Budismo Zen

Aceitando este princípio, durante cerca de 15 anos andei a "conversar pedagogicamente" com o meu Bonsai para ele adoptar um postura "Ikebana" e alterar as decisões pessoais que estava tomando.

Alterava-lhe a luz, os nutrientes, os espaços de crescimento, impedindo ramos, favorecendo outros, etc, no sentido de o fazer tomar decisões em direcção ao meu projecto de design.

Ele que era um Ficus-Regusa pequeno e direito, hoje (Jul. 2014) é grande e Ikebana:


Até abrir esta Caixa de Pandora sobre emoções e inteligência nos animais e plantas, eu andava muito contente com o resultado da minha relação pedagógica com o meu "pet" de estimação.

Mas as Caixas de Pandora trazem o imprevisível e desde a abertura desta, o meu mundo convulsionou e tem sido um deslizar em direcção ao desconhecido. 

Agora sempre que agora olho para o meu "Bonsai Ikebana" a Mafalda invade-me a cabeça, com a tortura do pensar:


e lembro-me do pequeno Ficus-Regusa esbelto, direito e crescendo em direcção ao céu e vejo-o agora grande, forte e marreco, "viciado" na janela por causa das interferências que fiz ao seu Projecto de Vida.

Não sei se as plantas têm ou não inteligência e objectivos pessoais, o que sei é que eu tive objectivos pessoais e o obriguei a viver os meus… e está marreco e só conhece a janela.

PS - Tive que o mudar no vaso, porque tem mais raízes para trás do que para a frente, não percebi porquê, talvez para compensar desequilíbrios. Há 15 anos estava a meio do vaso.

Realmente pensar e fazer Educação é abrir uma Caixa de Pandora, quer seja educar um bonsai, um papagaio, um cão ou uma criança… nunca é inócuo.


Conclusão

Educar não é dar um projecto de vida é interferir num projecto de vida.

Toda a vida, ao contrário dos não-viventes que são sistemas complicados, é um sistema complexo portanto com estimulações do exterior a que responde em função das suas "intenções". 

Estar vivo é ter um projecto de vida a defender, fazê-lo chama-se sobreviver e sobreviver é adaptar-se, adaptar-se é usar inteligência para ser flexível… esta flexibilidade é a sua força e a sua fraqueza.

Se manipulada do exterior a vida adapta-se… então esta manipulação se é positiva desenvolve, se é negativa mata. 

A manipulação que altera projectos de vida chama-se EDUCAÇÃO… e a educação que aumenta a vida chama-se evolução e a educação que aumenta a morte chama-se involução… é esta a Caixa de Pandora do Educador pois só depois sabe o que acontece e não pode voltar atrás. 

Se for consciente a dúvida nunca o larga e o seu cuidado é grande, procurando educar não com o senso comum mas com o senso pensado, pois o que sabe é que:

 o resultado nunca é o que se educa pois apenas se interfere… a escolha final é do outro,
seja planta, animal ou pessoa.



Ref.:
14 jul 14 - http://pincamentos.blogspot.pt/2014/07/abelhas-inteligencia-e-educacao.html
06 Jul 14 - http://pincamentos.blogspot.pt/2014/07/emocoes-e-sentimentos-em-animais-tambem.html
27 Jun 14 - http://pincamentos.blogspot.pt/2014/06/bisbilhotice-e-educacao-por-osmose.html


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