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terça-feira, 23 de outubro de 2018

O ciumento e a Fisica Quântica


Ando “encantado” com a Física Quântica, realmente a ciência tem “piada” e atrai porque estraga o nosso senso comum e nos obriga a ver as nossas verdades doutro modo.

Einstein deu cabo do senso comum quando teorizou que dois gémeos podem ter diferentes “envelheceres” e, assim, um estar jovem quando o outro já é velho caquético… o que destrói o mais elementar senso comum.
Cientificamente chama-se “Teoria da Relatividade”… é suficiente um ficar na Terra e o outro viajar perto da velocidade da luz, pois quando regressa ele ainda é jovem e o outro já é velho.

Com estas pequenas dentadinhas da Ciência no senso comum, por ex, Galileu ao dizer ”…mas ela (a Terra) move-se…” tirou-lhe um bocado, o senso comum “adoeceu” mas recuperou restaurado.

Com os telemóveis aconteceu o mesmo.

As invisíveis ondas electromagnéticas entraram no senso comum e ninguém se admira de ver outrem a passear pelo ar uma "caixa" (o telemóvel) à pesca de invisíveis ondas pois todos sabem (é óbvio, lógico e credível) que estão por lá.
Este senso comum usado no tempo do rei D.Afonso Henriques faria o senso comum da época queimar na fogueira o(a) passeante da caixa como bruxo(a).

Porém, a Quântica não dá dentadinhas… esfacela, rasga, deixa sem reparação possível o senso comum obrigando-o a tornar-se outro-comum e adaptar-se.
Não é fácil, exige adesões tipo Fé, ou seja, “é concreto, não acredito, portanto acredito” e aderir ao mundo encantado dos milagres.

Gosto da Ciência, mas ainda não percebi se sou masoquista a gostar de mutilações no meu senso comum instalado ou aventureiro a entrar no mundo do desconhecido impensável.
Porém, esquecendo essa decisão pendente, resolvi pesquisar a problemática do ciúme com a filosofia quântica.
(😇😆😇😆). 

Senso comum

Nós pensamos e decidimos com base em informações previamente armazenadas, os chamados referenciais. Quando estes referenciais são comuns a um grupo, ele pensa (cria significados e decide) de forma similar, ou seja, cria senso comum.

Os europeus vestem calças mas quando chegaram à Polinésia os seus habitantes acharam "parvoíce" estes estranhos andarem com tubos enfiados nas pernas. O pensar diferente resultava de referenciais diferentes.

Sem o notarmos a cultura vigente instala-nos referenciais que nos "empurram" para pensares e acções "lógicas". Por ex., no ocidente as mulheres tapam as pernas e descobrem o peito, mas no oriente tapam o peito e descobrem as pernas.

O senso comum dos ocidentais "veste" as mulheres de uma maneira e o senso comum oriental "veste-as" doutra. Os argumentos de ambos são do mesmo tipo: óbvio, correcto, elegante, moral e, se possível, obrigatório.


Na verdade é tudo apenas uma questão de referenciais, e com isso se alimentam os facciosos e os extremistas. O senso comum é a vitamina das amizades e o vírus dos conflitos.

Os paradigmas da Física Quântica não são apenas diferentes dos paradigmas da Física Clássica (Newtoniana), por ex., Realidade, Localidade, Causalidade e Continuidade, eles são o seu contrário, pois afirmam exactamente o oposto do senso comum instalado na cultura ocidental.
Curiosamente, aproxima-se de sensos comuns instalados noutras culturas, por ex., no taoísmo (vide "The Tao of Physics" de Fritjof Capra, PhD, físico teórico, USA).

Apesar dos paradigmas quânticos serem recusados, as experiências feitas com base neles são um êxito. Por exemplo, Einstein recusou o fim do parâmetro da Localidade (limites rígidos nos elementos) e desenvolveu em conjunto com Podolski e Rosenou o paradoxo E.P.R. nesse sentido. 

Todavia, depois da sua morte provou-se realmente que a Quântica funciona com NÃO-Localidade  através das experiências de (além de Bell em 1960) Aspect (1982), Rarity e Tapster (decada de 1990). Assim, o senso comum perdeu o "comum" e adquiriu "partidos", facções.

Como parâmetro base, a Física Tradicional considera o universo constituído por "bolinhas" de limites rígidos, os átomos, portanto, não possíveis de mudar. Porém, a Ciência evolui e acaba por descobrir neles as "partículas subatómicas", "bolinhas de energia" sem limites rígidos e o universo fica outro, com outras regras.

Cria-se um senso comum com dois sensos comuns divididos por uma fronteira, o átomo, pois se for maior que ele tem leis e parâmetros da Física Tradicional (Newtoniana), se for menor pertence à Física Quântica com leis e parâmetros diferentes e opostos.

Exemplo, quando duas moléculas (maiores que átomo) chocam nenhuma muda, é o mundo da matéria. Quando duas partículas (menores que átomo) chocam ambas se alteram, combinam, e algo novo surge "maior" que a sua soma... é o mundo da energia.

Como ex., a equação de Dirac (∂ + m) ψ = 0 que diz em simplex:
"quando dois sistemas interagem entre si durante um certo tempo nunca mais são dois sistemas distintos, de modo subtil ficam um único sistema. O que acontece a um deles influencia o outro, mesmo  distantes a anos luz".

Entrar neste mundo obriga a abandonar o senso comum da mundo da matéria... e ir para os paradoxos e caos "mental" da Quântica com o senso comum da energia. Aqui, são os resultados concretos das experiências feitas e a Matemática que auxiliam o caminhar (ver link anterior da equação de Dirac).

São várias as "dentadas e arranhadelas" da Quântica na Física Tradicional mas há uma, o paradoxo do "Gato de Schrödinger", que é a mais debatida e divulgada, sendo uma das bases para a compreensão da Quântica. 
Gato de Schrödinger

A hipótese é simples, baseia-se num gato com três estados diferentes: um gato vivo, um gato morto e um gato vivomorto, isto é, ao mesmo tempo vivo e morto, portanto, com capacidades diferentes de qualquer dos dois.

A experiência é:

1 - Uma caixa opaca fechada tendo lá dentro um gato, um balão de vidro com veneno (ácido cianídrico?) e um átomo radioactivo que se decair ("romper"), o que é uma probabilidade incalculável, libertará um electrão ficando radioactivo. Portanto, pode ter dois estados, sim ou não radioactivo.

Segundo o Principio da Incerteza de Heisenberg (inexistente na Física Tradicional) o electrão poderá estar mais perto do núcleo atómico e não decai ou pode estar mais longe e decai. A probabilidade não é calculável.

No início da experiência o átomo não está radioactivo, o veneno está contido no recipiente e o gato está vivo.

2 - Porém, dentro da caixa há um auxiliar metediço, um contador Geiger, que aproveita o átomo emitir radiação para, com ela, activar um martelo que partirá o balão e espalhará o veneno. Deste modo o gato morrerá.

3 - Algum tempo depois, com a caixa fechada, não se saberá o que lá existe, isto é, se o átomo não decaiu e o gato está vivo ou se decaiu e está morto.
Mas sabe-se que poderá estar morto (50%) ou vivo (50%), ou seja, estará 100% no estado vivomorto.

Por outras palavras, segundo a Quântica é um estado com três possibilidades, qualquer delas susceptível de existir. Só com o abrir da tampa é que uma possibilidade passa de possível a real e a outra de possível a não-real.

Agora é que isto fica interessante, pois a Física Tradicional e a Física Quântica não dizem e concluem o mesmo sobre a experiência.

Talvez aqui seja necessário um pequeno comentário colateral

Um exemplo, o Manel conduz um carro, tem um desastre, vai para o hospital e fica inválido:

Quando o senso comum pensa causa-consequência acerca disto, na verdade... isso não é verdade. Realmente o que ele pensa é "consequência-causa", isto é parte da consequência, anda-para-trás no tempo e procura a causa.
Este processo tem uma grande dose de inferência probabilística, é sempre atravessado por incerteza e, normalmente, é acompanhado pelo óbvio instalado no senso comum. Quando encontra uma causa "evidente", a chamada evidência, faz prova, ou seja, o seu significado torna-se "lei".

Neste caso do Manel, existem duas possibilidades ou morre ou não-morre, se não morre pode ficar ficar inválido ou não-inválido.
Assim, partindo da consequência "invalidez" chega à causa dela que é o desastre, a etapa onde tudo começou... pois é óbvio que conduzir não faz invalidez:

"Cientificamente" inverte os termos e conclui a causa-consequência da invalidez foi o desastre.
Apesar do pensar óbvio ser "...o instrumento preferido do pacóvio para pensar...", arrisco-me a dizer que é óbvio que este raciocínio parece ser um queijo suíço cheio de buracos (bugs):


Na verdade, a partir da consequência as possibilidades de causa são várias, por exemplo:
1 - desastre:
2 - tratamento incompetente no hospital;
3 - uso de remédios mal fabricados pelo laboratório;
4 - embriaguez do Manel;
5 - passageiro que agride o Manel quando conduz;
??- etc, desconhecidas (ter sido drogado, sabotagem carro, ...)


Admitindo que não há mais causas desconhecidas (tanto quanto se infere) mas que as cinco descritas são reais contribuintes da invalidez (portanto causas) a questão crucial é determinar quais as percentagens relativas dessa contribuição antes de garantir a validade da afirmação a causa-consequência foi...?😡?.

Náo é tarefa fácil. Com consciência disso, a Física Tradicional com seus paradigma do determinismo e causa-consequência exige e é "viciada e paranoica" com medições, mais medições, medições das medições, "porque Deus não joga aos dados" (Einstein) mas afinal, hoje, parece que joga.

Fim do Comentário

Assim, na experiência do Schrödinger e seu gato, a Física Tradicional dada a inexistência de medições no interior da caixa fechada usa o óbvio do seu senso comum (alternativas sequenciais) e conclui [...tudo já aconteceu apenas não temos evidências...] e os seus adeptos terminam dizendo [...o facto de não vermos a lua não significa que não está lá...] mas, mas... ops!!!... não significa que esteja.

PS - Cientifica e logicamente, este argumento dos adeptos é cómico, pois duas negativas não significa uma positiva e existe o chamado falso positivo pois também não é significativo. Este truque é muito usado nas discussões políticas.

Em conclusão, para a Física Tradicional a experiência do Schrödinger é infantil pois é básica. É lógico que [sem abrir a tampa, uma delas já existia (determinismo), apenas não havia evidências (provas, medições) suficientes para se concluir qual era".
Abrir ou não a tampa não altera nada, não faz selecções só mostra evidências susceptíveis de medição.

Pelo contrário, a Quântica diz "não há determinismo há possibilismo" e o abrir a tampa, acto de observar, colocou o observador dentro da situação, interfere nela e uma possibilidade é colapsada e a outra não.

Há aqui um quid pro quo acerca de Schrödinger e seu gato.
Schrödinger não diz que as possibilidades são "gato vivo ou gato morto", ele diz que são "gato vivo e gato morto", ou seja, não é uma questão de ou...ou (alternativas), é uma questão de um e outro (possibilidades), ou seja, existência de sobreposição de estados.

Por outras palavras, isto quer dizer que esses estados existem ao mesmo tempo e qualquer um deles pode ser activado, é o Principio da Incerteza da Quântica que não existe na Física Tradicional que considera ser impossível "Deus jogar aos dados".

Muito antes da Quântica, há mais de 200 anos (1801), Thomas Young fez uma experiência de sobreposição de estados.
Fazendo passar um fotão por uma fenda, ele pode actuar quer como partícula (tipo bala) quer como onda (tipo água), "decidindo" ser uma ou outra.

Fotão com duas possibilidades, ser partícula ou ser onda
A questão pendente é saber porquê uma ou outra e há várias teorias e experiências acerca disso. Uma é se o fotão for observado actua como partícula, se não for observado actua como onda, o que origina a conclusão do observador fazer parte da situação observada.

Para a Física Tradicional a neutralidade do observador é um dos seus pressupostos, pois [A é A].
Para Física Quântica há um pressuposto diferente [A é A1 e A2], ou seja,  fotão é partícula e é onda (sobreposição de estados).

Como curiosidade e transpondo esta hipótese para o indivíduo, ele têm várias possibilidades de comportamento e se observado ou não-observado activa diferentes possibilidades. O curioso é  que, com ou sem consciência da observação, não age do mesmo modo.

Traduzindo em dialecto quântico, os indivíduos (e os seres vivos em geral) "colapsam diferentes  possibilidades" parecendo pertencer mais ao mundo dos [seus] fotões, sem limites rígidos e com influências não-locais, do que das [suas] moléculas, com limites rígidos e só influências locais.

Para curiosos, há um livro do biólogo Rupert Sheldrake "The sense of being stared" que tem um capítulo (pág. 139) sobre ser secretamente observado e com isso alterar seus comportamentos, processo vulgar em animais.

Como conclusão, recusando a interpretação da Física Tradicional com as alternativas ou...ou e aceitando a posição Quântica da sobreposição de estados possíveis, a pergunta consequente é [...se existem as duas ao mesmo tempo e fica o gato-morto, então o que acontece ao gato-vivo?].

Sobre isto há várias teorias em debate mas há uma, quase ficcção cientifica (?), de Hugo Everett na sua tese de doutoramento (USA) titulada "The Many-Worlds Interpretation of Quantum Mechanics" que propõe a existência de universos alternativos, o chamado multiverso com vários universos. Parece um senso comum hollywoodesco, estilo filme "The One" e suas lutas por vários universos.

Neste senso comum do multiverso a lógica é a possibilidade do gato-morto ficar neste universo e a possibilidade gato-vivo ficar noutro universo do multiverso.
Por outras palavras, cada um de nós terá um sósia numa realidade paralela a viver as possibilidades que aqui não foram colapsadas.
Por exemplo, [...o João casou com a Maria e não com a Joaquina???] portanto, noutra realidade [...o João casa com a Joaquina e não com a Maria!!!].
O paradoxo desapareceu, tornou-se lógico.

Entre os que apoiam o multiverso (mesmo noutros modelos) encontra-se, por exemplo, Stephen Hawking, Michio Kaku, Steven Weinberg, Brian Greene, Neil Turok, Lee Smolin, Max Tegmark, Andrej Linde, Alex Vilenkin... Realmente os sensos comuns parecem ser apenas "sensos à la mode" que de comum só têm o "acertar o passo" com o caminhar da Ciência.

Relacionando os sensos comuns com a vida política, é bom não esquecer que, tecnicamente, a votação é só uma estatística dos sensos comuns existentes e activos nesse momento, ou seja, dizem qual é o acordo grupal existente, nada dizendo sobre a validade técnica e/ou social e/ou ética, etc.

Um exemplo, é a escravatura que durante séculos fez parte do senso comum generalizado e nalguns grupos desapareceu e noutros se manteve. Nesta perspectiva, fazer política é fazer luta de sensos comuns.
Como exemplo actual, na Europa e USA, o senso comum de emigrantes são bons luta contra senso comum de emigrantes são maus.

O ciumento e a quântica

PS- Aqui tive alguns problemas de senso comum sobre o "género". 
Não sabia o que escrever, ciumento? ciumenta? ciumento(a)? ciumenta(o)?, etc. Decidi simplificar e escrever ciument_ e quem lesse via o que queria. O computador não aceitou. A minha escola primária decidiu... e segui a tradição, escrevi "ciumento".


Ao estilo definição, considerei que ciumento é pessoa com ciúme, portanto, existem dois conceitos, pessoa e ciúme.

1 - Pessoa

"Pessoa" é um vivente com corpo, portanto, com um conjunto de orgãos feitos de moléculas que são elementos maiores que o átomo. Por outras palavras, a "pessoa" vive de acordo com os paradigmas e leis da Física Tradicional e obedece aos Princípios da Realidade, Localidade, Causalidade, Continuidade, Determinismo, Certeza, Medição, etc.

Porém, as moléculas da "pessoa" são constituídas por átomos e estes são feitos por partículas subatómicas, menores que o átomo. Por outras palavras, a "pessoa" tem os elementos primordiais. (constituintes de todos os outros) a viverem de acordo com paradigmas e leis da Quântica, diferentes e opostos à realidade dos orgãos que constituem.

Como analogia, é como ter um  muro de tijolos, cada tijolo constituído por uma sinfonia de Bach, Beethoven, etc, tocando ao mesmo tempo e des-sincronizados. O muro é duro, rijo e não muda, mas os tijolos são "voláteis", tocam e andam por aí a orquestrar uns com os outros.

Durante milhares de anos o muro funcionou bem e só no século XX se descobriu que é feito por sinfonias que andam por aí a "entrelaçar-se" (entanglement) umas com as outras, com influências à distância, sem obedecer à causa-consequência, etc, em suma, com propriedades muito diferentes dos calhaus chamados "tijolos" que constituem o muro.
Percebe-se agora porque dizem que os muros (ou indivíduos, fora da analogia) foram feitos pelos deuses.

Esquecendo a analogia, pode em simplex dizer-se que as pessoas são "híbridos" de duas realidades. O corpo de orgãos-moléculas tem paradigmas e leis da Física Tradicional e o corpo de átomos-partículas tem paradigmas e leis da Física Quântica.

Devido ao princípio da localidade (limites rígidos e influências locais) as pessoas têm o seu corpo aqui-agora, mas as partículas dos seus átomos com limites não-rígidos e influências não-locais  podem estar lá-então, algures ligados (entanglement) a electrões em Marte ou na constelação da Cassiopeia e reagindo sincrónicos com eles.

As experiências para-psíquicas em laboratórios, vivências místicas dentro e fora de religiões oficiais, "viagens" de drogas, EAC's (estado alterado de consciência), etc, serão consequência deste hibridismo?
A lista de cientistas universitários, militares, empresariais, etc, que procuram a Ciência nestas áreas é grande, a documentação muita e os livros numerosos.

Como conclusão, a pessoa é um híbrido de duas realidades integradas, sem se perceber muito bem o que, neste caso, integradas quer dizer, excepto que esse hibrido vive simultaneamente com os do mundo maior que o átomo unidos aos do mundo menor que o átomo, mas cada uma deles com paradigmas e leis diferentes e OPOSTAS.
Que grande confusão!

A teoria Orch-OR de Penrose e Hameroff que liga a consciência às vibrações quânticas nos "microtubulus" dentro dos neurónios cerebrais será talvez a ponta do iceberg dessa união.

Na verdade, o mundo das ideias com sua sobreposição de possibilidades, incerteza, consequência antes da causa, conexões e simultaneidades à distância, etc, está mais perto da Quântica do que das leis e paradigmas da Física Tradicional onde vivem os neurónios.

Para curiosos, dois livros que me encantaram, Candace Pert, PhD, Georgetown University Medical Center, "Molecules of Emotion"; e Bruce Lipton, PhD, University of Wisconsin, School of Medicine, "The biology of Belief".

Fazendo uma síntese com um resumo resumido, a pessoa é um somatório de partículas subatómicas que não são matéria mas sim energia. Numa palavra... a pessoa é energia.

Em 1997, Amit Goswami, PhD, fisico teórico (USA) veio a Portugal e fez umas workshops sobre Quântica a que assisti. Não foi fácil, fiquei com o livro "The Self-Aware Universe, how consciousness creates the material world" que tentei perceber, andei a lê-lo durante algum tempo e não foi mais fácil.
Para mim, em particular dois capítulos foram significativos, Cap 5: Objectos em 2 lugares ao mesmo tempo e consequências precedem as causas, e o Cap 7: Eu escolho, portanto, sou. A lógica cartesiana formatada e inserida no meu senso comum dava voltas no estômago. Não consegui pôr ordem no caos, mas uma conclusão ficou:
Energia e consciência pareciam ser os alicerces da Quântica, 
e criam matéria (colapsando? possibilidades) por aqui e acolá.

Entretanto, ficou uma dúvida por optar entre "energia com consciência" e, portanto, energia é Deus; ou Deus é energia  e, portanto,  é "consciência com energia.

Resolvi passar à frente, não é importante para perceber a quântica. É a velha discussão sem fim do "Drama de Jean Barois" de Roger Martin du Gard (Prémio Nobel 1937) da minha juventude, herança de materialismos e espiritualismos evoluídos (ocidentais) em que se discutia o "corpo com alma" ou a "alma com corpo". Já não caio nessa, para isso há outras soluções lógicas.

 2 - Ciúme

O ciúme parece ser uma situação tipo "Gato de Schrödinger". Na verdade há uma sobreposição de três estados, ou seja, o ciumento tem três possibilidades para colapsar.

1 - estado descrente no outro (isto é, ciumento, desconfiante da fidelidade do outro);
2 - estado crente no outro (isto é, confiante na fidelidade do outro);
3 - estado descrente-crente no outro (isto é, descrente da fidelidade do outro e com esperança nela),

cada um deles apresentando possíveis diferentes.

No início o ciumento está no estado de descrente-crente, isto é, desconfia da fidelidade do outro, não tem confiança nele nem em si, pois duvida da sua descrença nele e tem esperança de estar enganado.
É um dos poucos casos em que se reza aos deuses para serem parvos e se enganarem.

Normalmente fica muito Shakespeariano no seu "to be or not to be". É um ser feliz entremeado de infelicidade. Vive como o Sisifo que feliz leva a esperança pró cimo da montanha para a seguir ela cair cá para baixo e ele ter que repetir tudo outra vez. É a época de gastar dinheiro no terapeuta.

A solução é padronizada, é espiar o parceiro:
Espiando se há clandestino amoroso
Numa palavra, não quer dúvidas, não quer o Princípio da Incerteza, não quer Quânticas. Tradicional, quer o ÓBVIO, ou há clandestino amoroso ou não há clandestino amoroso. Vai espiar e como resultado da espiadela, pode ter duas possibilidades:

1ª - O parceiro tem um clandestino amoroso;
      Fica a possibilidade descrente, não existe fidelidade e fica INFELIZ;
      Na experiência de Schrödinger é a possibilidade gato-morto.

2ª - O parceiro não tem clandestino amoroso;
       Fica a possibilidade crente, existe fidelidade e fica FELIZ;
       Na experiência de Schrödinger é a possibilidade gato-vivo.

Mas este ÓBVIO é um mito, não existe. Na prática, em vez da hipótese 2ª, ele fica na hipótese 3ª, ou seja, fica a possibilidade descrente-crente que no Schrödinger corresponde à possibilidade gato-vivomorto.
A evidência obtida de "não-tem-clandestino-amoroso" só serve para o aqui-agora e mesmo assim tem bugs.

Ele não sabe... E NUNCA SABERÁ... se no passado não houve clandestino amoroso e se no futuro não haverá e se, mesmo no presente, noutro local não estará um clandestino em conexão e à espera.

Na prática de religiões e filosofias, esta hipótese da "incerteza acerca do agir do outro" chama-se livre arbítrio e é um "bem", na política chamam-lhe outras coisas e é um "mal". Na quântica não é "bem" nem "mal" é o Principio da Incerteza.

Como conclusão, o adito em ciúme só tem duas soluções, ou fica infeliz porque há clandestino nas redondezas e disso tem a certeza, ou fica infeliz porque nunca tem a certeza de isso ser ou não ser verdade.
Parece que, na essência, afinal a vida não tem óbvios como o determinismo da causa-consequência da Física Tradicional. A vida é feita de sobreposição de estados com opções no presente, como na Quântica... ou como afirma o paradigma do planear [... no melhor plano, o inesperado espera por si.]

Pensando ao estilo quântico no ciumento, o melhor é ele ficar no estado vivomorto sem tentar sair de lá, ou seja, nada de espiadelas. Nunca é preciso investigar, pois como diz a regra do diagnóstico [quando há dúvida se tem problema, não tenha dúvida QUE há mesmo problema]... no mundo quântico já se "dialogou" sobre isso e já se sabe, mas fora dele chama-se intuição e não se acredita porque não é óbvio.

Por outro lado, as causas e consequências estão trocadas. A infidelidade não é causa do fim da paixão amorosa, o fim da paixão amorosa é que é causa da infidelidade. O problema não é o aparecimento do outro, é o desaparecimento do "nós". Então, o clandestino torna-se o legítimo e o legal fica o burocrata em funções.

O conselho a dar é que ser ciumento é como jogar no casino, perde sempre e, quando parece ganhar, o ganho só serve para perder na etapa seguinte por que ele já perdeu, o ciúme é só adiamento.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Treino de Outdoor à portuguesa para vacas


(Para Dalila e João) Hoje, recordações
Em tempos passados, eu, Dalila e João “divertíamo-nos” na “Training House” fazendo treino por Outdoor e tendo uma associação informal com um Grupo inglês de Outdoor.

Por razões comerciais em determinada altura levámos um grupo de gestores de uma empresa portuguesa a um treino de Outdoor de alguns dias em Windermere (UK), a bonita região inglesa dos lagos. 

Nós, os três sócios, também fomos pois a ideia era monitorar as actividades com uma equipa mista luso-inglesa. 

Ficámos num centro de treino (um moinho recuperado) da empresa inglesa em Millness (nos confins de UK, perto de Bowness, perto de Windermere, norte de Manchester) uma pequena “aldeia” verdejante rodeada de pequenas quintas cada uma com meia dúzia de vacas lavadinhas, penteadas, simpáticas e educadas.



Tudo correu bem e tudo estava muito satisfeito. No último dia à noite fez-se uma pequena festa num pub local, deitámo-nos tarde para no dia seguinte ir de autocarro para Manchester, apanhar o avião para Londres e regressar a Lisboa.

No aeroporto de Manchester deram-nos uma notícia. Na noite anterior depois de algumas cervejas e whiskies alguns participantes alegres e criativos resolveram fazer um Outdoor para as vacas das redondezas.

Foram às pequenas parcelas rodeadas de vedações onde estavam as vacas e decidiram trocá-las de local. Assim levaram as “Belinhas” para o local das “Manchinhas” e estas para junto das “Patinhas” que estavam longe, ou seja, todas trocaram de sitio para poder conversar com as amigas. Ficaram lá toda a noite e de certeza falaram muito.

Foi um intenso Outdoor para as vacas com actividade de "Abertura Comunicativa em Rede e Face-a-Face" parecido com o que tinham experimentado e vivido no treino.

Posteriormente, nunca tivemos qualquer noticia de, no dia seguinte, ter existido uma frenética actividade dos proprietários desses participantes a procurar as suas “Belinhas” para levá-las para casa. Também procurei nos jornais e não vi boatos de UFO's na região.

Como conclusão,
no regresso, ainda pensei começar em Portugal a fazer Outdoors de vacas e touros para substituir as touradas, penso que os simpáticos animais iam agradecer e gostar. 
Talvez daqui a alguns anos a tradição fosse essa... e não andarem, ainda, uns a espetar-lhes ferros e fugir, com outros sentados a vê-los fugir e a bater palmas dizendo "OOO...LLééé".

Observação
Como ponto de vista, a tourada é o espectáculo de fazer "maldades" e fugir bem. Quem é incompetente a fugir, leva marradas e vai para o hospital, quem foge bem é aplaudido e ganha "Olés"... na gíria é o que tem "ARTE" (de fugir).
Quem gere o espectáculo toca corneta, decide que fazer, pensa (por isso?) chama-se (na tradição) "O inteligente".

terça-feira, 16 de outubro de 2018

A bica e a vida


De manhã no Café, na mesa ao lado alguém bebia um bica e preparava-se para ler o jornal. 
Fiquei "hipnotizado" , punha a chávena na boca e despejava, em golos sucessivos, o café pela garganta abaixo, ao estilo de remédio amargo. Quando esvaziou a chávena, a seguir esvaziou meio copo de água. Não tive dúvidas, era um "profissional" de beber café. 

Apesar de calcular a resposta, apeteceu-me perguntar se distinguia um Nicola de um Delta e de qual gostava mais.

Recordei uma história da minha juventude (18/19 anos). 
Num baile académico, um amigo meu começou a namoriscar a irmã de outro amigo, o namoro avançou e começou a ficar sério. Nesse Natal, ele, o amigo e a irmã foram ao Porto passar as férias em casa do avô dos dois irmãos.

Em conversas avisaram-no que o avô era uma pessoa séria e simpática mas muito rígido nos princípios. O namoro era já "oficial" e no dia de chegada houve um jantar de acolhimento que correu muito bem. 

O avô muito ligado à tradição e à produção de Vinho do Porto, tinha em casa algumas especialidades, daquelas que se despejam com a garrafa deitada numa "cama" e usando uma manivela.

Depois do jantar, foram oferecidos cálices de um velho Vinho do Porto, quer para o futuro marido da neta, quer para o neto e para ele próprio. O avô e o neto iam bebendo e saboreavam lentamente mas o futuro marido, nervoso, pôs o copo à boca e engoliu tudo ao estilo de um sedento regressado do deserto.

O avô ficou "roxo", muito perto de um ataque cardíaco. Levantou-se, saiu da sala.
Chamou o neto e disse-lhe que, no dia seguinte, queria o tipo fora de casa e que não queria na família quem bebia Vinho do Porto "como se estivesse a fugir à polícia". 

Depois o avô conversou com a neta e disse-lhe para ter cuidado porque as paixões são como o Vinho do Porto que não é para beber mas para se ir bebendo. 
As paixões são para saborear o momento e ir-se apaixonando cada vez mais, casamento é isso. O namoro teve vida curta. 

Na altura a história espantou-me e ainda fiquei mais espantado quando o irmão me contou que o avô deu algumas pistas à neta para distinguir a diferença, mas ele não sabia o que era. 
Com a cultura da época e os 19 anos à solta, para nós o problema não era importante, foi esquecido. Hoje tenho pena de não ter conhecido esse avô e conversado com ele sobre o "beber ou ir bebendo" e o viver.

Olhando para trás, as "cambalhotas" da vida são interessantes. Nessa época foi criada na Escola Naval a primeira revista de cadetes, "O TRIDENTE", totalmente estruturada, escrita e publicada por cadetes. 
Penso que o problema do "beber ou ir bebendo" afinal não foi por mim esquecido apenas ficou em "banho de maria", pois nessa revista escrevi um artigo de seis páginas chamado "Caractereologia" sobre a dinâmica do "desejo e do controlo" na vida pessoal, tecnicamente apoiado nas teorias de René Le Senne. Afinal esta história foi uma semente que durou viva até hoje com bastantes consequências práticas.

Dezenas de anos depois vivi uma situação desse tipo. Sendo funcionário público, um dia um VIP (USA) veio a Portugal e fui "convidado" pelo Ministro para levá-lo a jantar.
Na função pública apanham-se chatices piores. Resolvi levá-lo a um restaurante na zona de Cascais e com vista para o mar. 

Sentados, ele escolheu um hambúrguer com ovo e batata frita (que não havia na lista) mas quis um vinho português. Eu e o empregado levámos algum tempo a escolher um bom tinto.

O vinho veio, ele provou e pediu "uma água com gás, rodelas de laranja e açúcar", as expectativas minhas e do empregado ficaram grandes. 
Chegados os ingredientes deitou tudo num copo de água, juntou vinho e mecheu bem. Provou, sorriu e comentou "Very Good".

Eu e o empregado pareciamos o "avô do Porto", ficámos "roxos". Olhámos um para o outro e perguntei-lhe se faziam sangria, ele disse que sim e pedi-lhe para trazer uma.

Ao convidado VIP disse-lhe que em Portugal fazíamos uma sangria "maravilhosa" e que já tinha pedido uma especial para ele. Ficou muito contente e eu e o meu colega também ficámos, pois o vinho era muito bom e era um crime ser bebido "disfarçado", pelo lhe prestámos as devidas honras  enquanto o convidado lá ia bebendo a sua sangria.

Em 1972, quando no Ministério da Educação, eu e um colega fomos a Nancy em serviço para reuniões com professores. A meio da semana numa conversa informal eu e o colega comentámos gostar muito de queijo pelo que um professor francês disse ter esse hobby e convidou-nos para uma visita-prova guiada.
O menu era requintado, vários tipos de queijo, tostinhas pequenas e pão francês.
Ele começou a festa, escolhendo e comentando um, saboreou e depois comeu uma tostinha. Esperou e repetiu com outro queijo.

Huauuu... o "avô do Porto" surgiu-me na memória. O professor francês não fazia sandes de pão com queijo, ele comia o queijo, saboreava, "limpava" o gosto com pão e ia saborear o queijo seguinte. Uma coisa era comer pão com queijo, outra coisa era saborear queijo.

Depois da prova a conversa foi longa e ele disse algo ao estilo do "avô de Porto", disse que comer um croissant com queijo é estragar o queijo e estragar o croissant.

Eu não disse nada, mas também não gostaria de comer sardinhas com chantilly.

Para terminar e regressando ao colega do café matinal, ambos nos levantámos e saímos, mas fiquei pensando... ele também será assim para dar beijos aos filhos (tipo protocolo a cumprir) interessado nos anúncios da TV e soletrando a ladainha "gosto muito de ti"? 
...e o que sentirá o filho?
...já agora, como será com a mulher? ...e com o chefe? ...e com o VIP lá do sítio?

É a velha anedota do indivíduo que mergulha na piscina e quando sai fica admirado por estar molhado. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Bugs 👻 nas crenças e vida

O Problema

A cultura é uma espécie de filtro que nos faz viver ideias, sensações e acções "correctas" se com ela concordantes e "erradas" se discordantes. Assim mudar de cultura e/ou de crenças é mudar de vida.
Normalmente as nossas crenças são "verdade" e as dos outros "mentiras". Ás vezes, até há quem lute e morra por elas e a DES-culpa é sempre que a culpa é dos outros (vide fanatismos). 

A cultura é um fenómeno interessante pois pode conter crenças contraditórias e viver com ambas em alegre dissociação, por exemplo, ao afirmar o contrário do que diz "Graças a Deus que sou ateu" ou concordar quando lhe dizem "Acredite em mim que falo verdade".

Esta trilogia ideiasactossensações, motor da cultura, tem como exemplo clássico a velha crença da Terra Plana versus a Terra Redonda (vide internet com crentes e descrentes):


Porém, estas crenças a "descoberto" agarram-se a uma crença-mãe escondida e camuflada nos confins da mente. Na verdade, todas elas se apoiam em acreditar que tudo se baseia em instintos genéticos ou pelo contrário em aprendizagens ensinadas ou, talvez, em ambas no estilo "genético temporário", ou seja, aprende-se e fica genético até nova aprendizagem.

Na verdade, sob o ponto de vista lógico o mundo das crenças é inesperado, criativo, saudável e perigoso pois altera, destrói e constrói vidas, disfarçada e impunemente. Viver nele é como andar por mares alterados e com rochedos em que, parados ou a navegar, o rochedo vai bater-nos.
Por exemplo, olhando esta foto,


aceitar-se-á que os comportamentos do gorila e do tigre são naturais por genética ou artificiais por aprendidos? 

Possivelmente  o biberão levantará algumas dúvidas e incómodos para decidir se, no início da "criação" quando [...Deus criou o mundo...], os instintos de usar o biberão (que não havia) foram instalados ou só apareceram posteriormente. 

Debates surgirão e alternativas lutarão desde [...biberões não existiam mas o instinto foi previsto por Deus...] até [... a "criação" não é estática mas dinâmica e está sempre a acontecer...].
Estes debates darão longas, intensas e confusas "conversas" entre a crença criacionista e a crença evolucionista.

Lutas fanáticas, políticas, religiosas e até emocionais baseiam-se sempre em crenças assumidas chamadas FÉ's sem nunca se analisar se são genéticas (pré-instaladas) ou aprendidas (pós-instaladas)... apenas se luta e morre por elas.

Uma crença a discutir

Tudo começou ao ver esta foto da Oliveira das Mouriscas que me provocou um "baque" cultural: 
- "Uma oliveira com 3.350 anos!!!????... do tempo de Moisés e Ramsés???",

e pensei... "...Raizopartiça... qu'é isto?", então os humanos quanto mais anos têm mais definhados ficam e com menos energia, mas as árvores quanto mais anos têm mais fortes ficam (ramos, folhas e raízes novas) e mais cheias de energia.

Haverá, nos humanos, um problema de crenças a inquinar decisões de vida???

Na verdade e relativo ao duo corpo-energia, há duas crenças, numa "o corpo faz a energia" (ocidente) e noutra  "a energia faz o corpo" (oriente). Estas crenças têm as causas e consequências invertidas.

Recordei aprendizagens havidas com a crença ocidental em que o corpo é uma espécie de motor de combustão interna que precisa de "recursos para queimar", quer sejam alimentos ou medicamentos. 

Recordei também a crença oriental em que a energia (ki) é o garante do funcionamento do corpo pois este é uma espécie de motor vibracional sustentado por frequências subtis.
Como exemplo, a ginástica "parada" (Stand Still, Zhan Zhuang) que cria aumento de energia sem ser por agitação motora (combustão) e, ainda, a alteração de circuitos de energia (acunpuntura) para tratar e curar. 

Não me parece que a acunpuntura seja psicológica porque não expliquei nada ao meu cão (com problemas na coluna) e durante os seus últimos 8 anos ficava muito quieto, e até se babava, nas sessões de manutenção com acunpunctura. Depois vivia feliz e sem dores, correndo, saltando e brincando sem precisar de analgésicos até à próxima sessão.


Se se comparar as duas crenças surgem diferenças:

Na crença ocidental - para se ter energia faz-se treino corporal, activando músculos, ossos, tendões, ou seja, fazendo activação motora de combustão.  
O modelo é muito vulgar na economia conhecido por "investir para lucrar". Tem-se energia que se consome a treinar e fica-se sem ela. Depois, esgotado, precisa descansar para recuperar. A crença é que recupera o perdido (o investido) e obtém um acréscimo (o lucro). 
Na actividade física a este "investir energia para lucrar" chama-se treinar.

Na crença oriental - para se obter energia faz-se activação de energia (ki) sem intensificar combustões musculares. Isto quer dizer que [...para ganhar energia não se gasta energia...] portanto depois não é preciso descansar e ainda se obtém o acréscimo desejado.

Falo por experiência pessoal como ex-praticante e ex-prof. de yoga. Realmente, na yoga não se gasta energia a executar e no pós-sessão acaba-se energizado. 

Comecei a fazer Yoga no início dos anos 60 pois, quando militar em Africa, conheci uns frades dominicanos que faziam "Yoga para cristãos". Indicaram-me o livro do frade Déchanet ("Yoga chrétien", Desclee Brouwer, 1956) e ajudavam-me sem teologias nem psicologias mas com conselhos no que chamavam a "via do silêncio". 
Fiquei "fan" e durante 50 anos a yoga foi imprescindível (30/60m diários) estivesse onde estivesse... até no navio com balanço, 😇😇 pois consegui adaptar algo da teoria da "Yoga sans postures" (P. Méric, "Juste une attitude") a um chão agitado.

Efeitos das crenças

Pensando nas duas crenças atrás citadas, cheguei à conclusão que devia haver algures um "qui pro quo", pois cada crença pode originar compreensões desfasadas (misunderstanding, descompreensões) sobre a outra por erros culturais interpretativos.

Quer isto dizer que interpretar com crença ocidental (centrada na matéria) as actividades de Yoga (ou Qi Gong, To-Ate, etc) criadas na crença oriental centrada na energia (Chi, Ki, Prana), algo se perde na transferência ao [...interpretar o dito com conceitos desvirtuados (alien)...].

Por exemplo, fazer Yoga "centrada" na sua forma (posturas, movimentos, respiração) mas não no seu conteúdo (Prana/Ki), é como beber sangria feita com um bom vinho tinto. Engole-se o álcool e dá euforia (embriaguez?) mas perde-se o prazer de sentir o "sabor do vinho". 

Na verdade, como dizia o enófilo [...embriagar-se com vinho bom é um desperdício... pois embriaguês é embotar sensações e saborear vinho é intensificar sensações], ou seja, para embriagar (ou ficar "alegre") qualquer zurrapa serve desde que tenha álcool.

Com a yoga acontece o mesmo, praticá-la sem a perspectiva do prana/ki é apenas mais uma aeróbica "esquisita" entre a antiga ginástica sueca (Pehr Ling), o contorcionismo de circo ou a moderna pilates, steps, aquallure, box virtual ou yoga flutuante (USA: Sandbox fitness, UK: Sup yoga).

Em conclusão, yoga na perspectiva ocidental faz bem mas perde a "essência", a potenciação do Ki. A yoga na perspectiva oriental é o mundo da energia subtil não das posturas, estas são o caminho e não a essência. 

Por exemplo, é impensável fazer Jogos Olimpicos de Yoga. Como avaliar o participante vencedor  de posturas exactamente iguais e durante o mesmo tempo?? Uma solução seria colocar electrodos no sistema nervoso e analisar alterações neurais porque a essência da yoga pertence a outro plano, às relações psicossomáticas e somapsíquicas e não ao visível exteriorizado.

1 -  Psicossomática é a influência do psy sobre o orgânico, por exemplo, a pornografia na internet quando por estimulação virtual se obtém excitação sexual. 
Ou noutro exemplo, ter sensações diferentes por crenças instaladas no Ocidente (foco no espaço cheio) distintas do Japão (foco no espaço vazio):

Aplicado na POESIA
Haiku- poema japonês com 3 linhas de 5, 7, 5 sílabas (tradução não mantém forma silábica)
A pedra no lago silencioso,
com a ave que dela salta e voa...
fica o céu e a pedra molhada.

Este poema na cultura ocidental induz a sensação de céu CHEIO "de ave a voar" na cultura japonesa induz a pedra VAZIA "de ave poisada".

Aplicado na DECORAÇÃO


2 -  Somapsíquica é a influência do orgânico sobre o psy, por exemplo, a inspiração respiratória. 


Na verdade, o músculo do diafragma permite gerir a inspiração com dois formatos. 
Num caso, (respiração abdominal) a inspiração é feita com o diafragma a empurrar os intestinos para baixo (não para a frente) e no outro (respiração Hu Xi Tchan) a pressionar o tórax para cima. 
As duas alternativas são usadas em práticas de yoga, possibilitando diferentes controlos de relaxação e energização.

Numa visão resumo das crenças culturais sobre a actividade yoga, a cultura ocidental centra-se na motricidade corporal e a energia é um factor colateral, enquanto a cultura oriental se centra na energia (ki) e a motricidade é um factor colateral.

Uma pergunta simples, na figura seguinte: Qual é a ginástica e qual é a yoga?

A resposta é fácil: 
- "Não se sabe!!!

pois independente da duração, da correcção da postura e muito menos da roupa ou local (trave de ginástica ou tapete)... nada se pode concluir. Porém, é possível tentar outras aproximações.  

"Nunca encontrei a alma na ponta do bisturi!", esta frase atribuída a Condillac (séc. XVIII) parece ser uma espécie de confirmação para a inutilidade da discussão sobre o Ki. Porém, sob o ponto de vista lógico ela só serve para dizer o que diz, isto é, "que não encontrou", permitindo concluir que poderá existir ou não. 

Esta crença ilógica do "não é objectivável... não existe" é um "beco sem saída" até porque durante milhares de anos os átomos não foram objectiváveis e sempre existiram.
É preferível caminhar na fronteira entre as duas culturas "não Ki 🔃sim Ki" e pesquisar o que as une e é possível objectivar.

Por exemplo, a energia (ki) aceite no oriente como fluir da vida pode ser "irmã gémea" da energia quântica (onda-partícula, quarks e fotões) aceite no ocidente como a essência que flui no real.

Porém esta coexistência da energia na ginástica ocidental e yoga oriental traz consigo uma diferença.
A ginástica preocupa-se com a postura, FIM, para isso socorre-se da energia, MEIO. A yoga é o inverso, a essência é a energia (Ki), FIM, para isso socorre-se da postura, MEIO. Os meios e os fins estão trocados.

Como na ginástica o resultado é objectivável, ele vai permitir avaliações exteriores (campeonatos), porém na yoga o resultado não é objectivável porque as consequentes alterações energéticas (ki) SÓ O PRÓPRIO SABE, portanto não há campeonatos de yoga.

Como curiosidade, é exactamente o que acontece na meditação, juras amorosas, rituais de desculpas e rezas pois ver/ouvir alguém dizer o Padre Nosso não garante que esteja a rezar ou apenas a murmurar.
O exterior visível e objectivável não garante o interior invisível e subjectivo.

O primeiro ensinamento para aprendizes da yoga deve ser ensinar técnicas de diagnóstico do ki pois [...postura sem treino de ki não é yoga...] sendo apenas uma ginástica "esquisita" com os benefícios específicos de cada actividade física, variáveis desde o nadar ao correr, passando pelo râguebi, ballet,  bilhar, etc.

Porém a yoga exige que o próprio praticante tenha consciência do que acontece no seu "interior" para além do efémero executar exterior. Na verdade, ele é o único avaliador do seu progresso, só ele saberá se num dia fez posturas boas com mau treino de ki e noutro fez posturas más com boa potenciação do ki.

Por exemplo, por muito aconselhada que seja a posição zazen, o seu desconforto para um ocidental pode criar uma péssima yoga (ou meditação, ou rezar, etc). 

A simples substituição pela posição egípcia possibilitará uma melhor yoga. O essencial não é a postura é o "como se está na postura", o simples fazer-posturas-yoga não significa fazer yoga...


Recordo que, nos inícios da Yoga, o conselho constante recebido era descobrir o que havia de diferente no sentir interior de cada postura em cada dia. Isso só o próprio pode saber e é o caminho.
Para ajudar davam exemplos de estar ou não no caminho, desde formigueiro nas mãos, braços, pernas até relaxações tonificadas com estados de vigília e não moleza (sonolência). 

Era importante a flexibilização não ser por insistência de estiramento (à ocidental) mas por sensações de estar no máximo confortável e ficar nesse "espreguiçar" sem esforço nem dor. O espantoso é que funcionava com rendimento e rapidez.

Na altura não percebia o porquê destes conselhos de "caça às sensações",  tipo "peso do ar na pele", "peso da gravidade nos orgãos", "alterar centro de gravidade", etc. Pensando à ocidental, para mim a yoga era ainda simplesmente contorcionismos "terapeuticos", imóveis e saudáveis.

Só mais tarde, percebi que se estavam a referir ao que, numa tradução livre e ocidental, se poderá chamar as "sensações subjectivas", a essência do treino do ki.

Sensação subjectiva
O Ki é uma acção integrada de 3 elementos que poderá ser expressa na crença oriental e na ocidental:


Numa possível interpretação ocidental, o vórtice Ming Tang (atrás da testa) serão os lóbulos pré-frontais, centro da visualização, concentração e imaginização das actividades. O vórtice Tan Tien no abdómen é o centro de gravidade do corpo ponto de aplicação da energia e o vórtice Tang Chung no tórax são sensações em seus ritmos cardíacos.

Na prática, poder-se-á dizer que o treino do Ki é integrar com consciência activa e concentrada, simultaneamente, as mútuas conexões destes três polos, criando um EAC (Estado Alterado de Consciência) e um ECA (Estado Corporal Alterado) de energia subtil (Ki).
Em esquema:
Parece complicado mas não é, na prática é assim que se toca piano.

O pianista com a mente (Ming Tang) visualiza a Sinfonia de Mozart (e não de Beethoven), aplica a energia (Tan Tien) nas teclas (e não em poses públicas), e vive sensações (Tang Chung) com a música  tocada (e não recordando Festivais da Canção).
O taoísmo chama-lhe a dança dos 3 elementos ou, na cultura ocidental, a trilogia (atrás citada) ideiasactossensações (vide "Acto e pensamento", H. Wallon).

Noutro exemplo, o "cross" budista THERAVADA:


Sob o ponto de vista corporal é um calmo passeio de 30 minutos numa distância de 10 metros, mas sob o ponto de vista mental, sensorial e energia (os 3 elementos) é um intenso treino nada fácil para um iniciado.

Por exemplo, um simples passo obriga a visualizar (Ming Tang), aplicar (Tan Tien), sentir (Tang Chung), dezenas de articulações, desde o pé da frente ao pé detrás, passando pelos dedos, planta pé, tornozelo, joelho, bacia,  coluna, cabeça, etc, em seus sincronismos, movimentos e equilíbrios e depois passar ao passo seguinte sem perder a concentração.

Não é fácil e, por experiência pessoal, é um dilema pois lentidão facilita a atenção mas dificulta a concentração e se há rapidez acontece o inverso... e o resultado é paradoxal. Em qualquer caso o caos e a ordem "zombie" instalam-se, um na trilogia ideiasactossensações e o outro no andar, ou inversamente. O "cross" THERAVADA falha, tudo tem que recomeçar.

Num THERAVADA caseiro entre assoalhadas (8 metros) consigo fazê-lo em dezenas de minutos de concentração e "falhas", mas o resultado é mais enérgico e tonificado quanto menos falhas faço nas "sensações subjectivas".
Este cross visto do exterior é apenas um andar devagar, porém visto do interior eu sei se é ou não. Às vezes desisto porque nesse dia realmente "estou  a andar devagar e isso é uma chatice".

Experiência subjectiva

...é fundamental sentir a energia da postura... (Taisen Deshimaru)

Uma postura é um mecanismo somapsíquico detonador do fluir do ki, se é correcta facilita, se incorrecta não facilita e pode prejudicar.
Complementando com a trilogia ideiasactossensações e com "boleia" da quinestesia (sensações subjectivas musculares e viscerais) é possível ter um treino simples, constante e discreto de potenciação do ki.
Como intróito (e a fazer... AGORA):
Se está a ler este texto, não deve sentir a cadeira nem a meia calçada.
Procure agora saber se a cadeira é dura e a meia é áspera.
Se o fez e tem resposta... activou a sua quinestesia. 
Pensar a pergunta (ideia), tactear com músculos (acto) e sentir diferença (sensação) provocou um EAC (Estado Alterado Consciência) com estímulos que apesar de já existir... não existiam estimulações.
POSTURA

1 - Sentar em posição-egípcia na extremidade de uma cadeira (só apoio no cóccix):
2 - Sentir o abdómen, por baixo do umbigo, 3 a 4 cm no interior (Tan Tien).

TRILOGIA (ideia-acto-sentir)

Procurar sentir o descrever de círculos em torno dessa área, primeiro num sentido (36x) [homens: relógio; mulheres: c/relógio] e depois em sentido contrário (26x).
No início, para "despertar" a sensação do estímulo virtual, poder-se-á com o dedo desenhar levemente na pele os círculos visualizados.

Relaxar, não tencionar músculos e respirar suavemente com a lingua no palato, sendo a expiração mais longa que a inspiração.

Concentrado, pesquisar em circulo essa região procurando sentir pequenas estimulações resultantes.
Acabar-se-á por ficar "entretido" com as estimulações (espécie de sonho acordado), perdendo impaciências e noção do tempo (o hemisfério direito assumiu o controlo).

Se reparar, a coluna ficará mais direita, o pescoço esticará, a respiração ficará abdominal e surgirão inspirações relaxantes (suspiros), sentindo-se tonificado sem sonolência.
Ao fim de alguns minutos (5m?) acabará  repousado, com energia e DESPERTO.

Como aviso, apesar de relaxante não serve para facilitar o adormecer e/ou combater insónias. Se ficar sonolento ou impaciente há bugs 👻👻 no treino, deverá parar-rever-encurtar-concentrar.

Recuerdos de "Ki" à ocidental
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1-  Ainda adolescente comecei a fazer trapézio na G.C.P., era divertido e excitante. 

Entusiasmado comecei a querer fazer o “triplo salto mortal”. O mestre Gilberto Barros ensinava e apoiava mas era muito cuidadoso. 

Recordo que muitas vezes ele me avisava, meio sério meio a brincar, “primeiro tens que fazer o salto na tua cabeça e o sentires no corpo… " e concluia "sonha com ele”.
Adormeci muitas vezes a sonhar acordado com as voltas no ar e, um dia, acabei por fazer o triplo mortal no Coliseu dos Recreios:


De certo modo estava usando a técnica dos 3 elementos (ideia-acto-sensação) do taoismo sem o saber.
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2-  Já adulto fiz judo com o mestre Kiyoshi kobayashi.
Às vezes, treinando em pares, ele fazia-nos lutar de olhos vendados, apenas tocando no outro com a ponta dos dedos e sem agarrar. 

Muito longe da "respeitabilidade" da cultura japonesa, eu aceitava mas contestava e resmungava em silêncio: “Este gajo (!!!)… julga que sou bruxo!?!?” mas lá continuava a tentar. 

Subitamente, com espanto, às vezes a técnica funcionava. Mudei de atitude e depois este treino era o que preferia apesar de não perceber mas já pensava "respeitosamente "... parece mesmo bruxedo".

Os 3 elementos (ideia-acto-sensação) do taoismo continuava a actuar.
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3-  Como militar durante muito tempo (2 anos) treinei boxe com o profissional mestre Ferraz.

Lembro-me de ele me dizer várias vezes que o soco é “não se pensar e sentir o braço socar”. Não percebia bem o que isto queria dizer. 
Culturalmente, pensava que o soco se decidia com a cabeça e dava-se com a luva. Jogar boxe era dar murros e o punching ball era o meu treino favorito e divertido.

Um dia, estando entretido com o punching ball, ele aproximou-se e perguntou-me se eu "tirava o soco". Não percebi o que queria dizer, ele rindo explicou que o soco é "sentir o braço a dar e depois o braço a tirar".

Perante o meu ar aparvalhado, resolveu dar uma explicação audio-visual. Devagar, encostou e empurrou com o punho o meu estômago e depois, brusca e velozmente, “tirou a mão”. Quase vomitei e levei algum tempo a recuperar. 

Nunca mais esqueci e decorei que era importante “pensar e sentir o braço a dar e tirar o murro". O meu treino de punching ball alterou-se, não esquecia sentir o bater e sentir o tirar.

Novamente os 3 elementos (ideia-acto-sensação) se instalavam: pensar dois movimentos (Ming Tang), controlar a energia (Tan Tien), sentir dar-tirar (Tang Chung).

Daí em diante o estilo (e resultado) do meu boxe mudou. Por duas vezes, sem força e apenas “esgrimindo luvas”, sem o desejar provoquei "ligeiro" K.O. técnico.
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4-  - Dezenas de anos depois, Itália-Alpes 2001, andei 10 metros descalço sobre carvão de coque incandescente (600º/700ºC?) sem me queimar e sem dores, ficando apenas com as solas dos pés esbranquiçadas. Nunca percebi como e pesquisei durante anos.


Para esta experiência houve uma sessão de preparação de duas horas (2100/2300) com actividades psicofísicas (relaxação, imaginização, meditação, etc), somapsiquicas (estiramentos, flexibilização, tensionamentos, etc), ambas intervaladas com ritmos (música, caminhar, equilibrios, etc). Tudo vulgar, normal e conhecido. 

Não houve drogas nem rezas a deuses, gurus ou profetas, nem histerias tipo vendedores-de-feira metafísicos com mitos, slogans e adeptos.
Foi apenas uma nova experiência-humana, semelhante a mergulhar no oceano e ter peixes à volta, sem transformar isso numa religião de rituais e obrigações de crenças a cumprir, tipo ...caminhei no fogo e nasci OUTRO...

A questão que me interessava não era metafisica nem alquímica, era simplesmente prática, curiosidade em saber "porquê" e operacional em poder "repetir se quisesse".
Obtive livros, artigos e CD's de ritmos e frequências neurais, teorias e opiniões. Porém fui incapaz de reconstituir a estrutura da sessão e de compreender os factores em jogo.

Mais tarde, aprofundando a problemática do Ki, descobri que talvez andasse a fazer perguntas erradas sobre a experiência de caminhar no fogo.

O factor crítico não devia ser a sessão de preparação, mas sim a atitude sobre as brasas. Por outras palavras, a "pequena diferença" devia estar nas sensações vividas ou sensações subjectivas que criavam um EAC (Estado Alterado Consciência) à semelhança do treino de atitude do ki.

Esta ideia fortaleceu-se com a luta To-Ate (aikido sem contacto),


e comparando textos acerca do Ki com as minhas recordações.

Alguns relatos eram semelhantes às sensações havidas durante o pisar do fogo como também semelhante às sensações posteriores de energia e bem estar descritas nas pós projecções To-Ate.

No dia da experiência, a actividade acabou pela meia-noite e os que caminhámos estivemos até cerca das cinco da manhã, calmos e interessados, a conversar sobre o acontecido. Pelas 9 horas, estávamos a tomar o pequeno almoço sem qualquer sinal de cansaço.

Vendo esta esta fotografia de 7 Abril 1937, Carshalton, England, sobre um "caminhar no fogo":


não me sinto nada identificado com ela.
Recordo que um dos conselhos mais recebido do orientador durante a preparação foi nunca apressar, sempre ir devagar "sentindo os pés" e nunca perder concentração.
Formalmente avisava que, no local, se não nos considerasse em condições não permitiria a experiência.

No meu caso, depois da travessia estava tão espantado que rapidamente voltei ao início para repetir e poder "ver-me bem no fogo". Alegando que já não estava em condições, não me foi consentido.

Na foto de 1937, a atitude dos caminheiros não parece ser de quem controla sensações subjectivas. Pelo contrário, parece mais um "fugir das queimaduras..." ao estilo "Aiii...Aiii...Deus me ajude...".
Repare-se no último participante com metade do corpo a não querer ir, outra metade a ser puxada e a cabeça indecisa. Nas actividades de risco este des-sincronismo corporal chama-se "atitude quebrada".

Daqui para o futuro... 

Fui ensinado que quanto mais idosos somos menos energia temos e o corpo fica esvaído. A conclusão científica e verdadeira é... "deixamos de ser jovens".
Aprendi também que ser velhinho é estar quietinho e saudável e, para isso, enquanto jovens deve-se fazer muita ginástica, fortalecendo o corpo e ficando como o Tarzan.
Fiz tudo isso!!! Na verdade, a crença do investimento apanhou-me.

Investi em ginástica e desportos para ter energia na velhice. Agora olho à minha volta e quer os que investimos, quer os que não investimos, estamos todos iguais... quietinhos e de bengalinhas.

SINTO-ME ENGANADO!!!

Pensando no método seguido ele era simples. Na prática, era gastar nos ginásios e estádios a energia que tinha até me cansar, isso chamava-se treino. Depois era preciso estar quieto para voltar a ter essa energia, isso chamava-se recuperação. Repetia-se o conjunto "cansa-descansa" com a crença que recuperava mais que do que gastava, isso chamava-se progressão.

Porém,  o "cansa-descansa" sofre uma crise e deixa de dar lucro, é a fronteira de jovem a idoso:

1º - é jovem ➼ corre-se quilómetros, descansa-se horas, ganha-se energia! 

2º - é idoso ➼ corre-se metros, descansa-se dias, perde-se energia!

SINTO-ME FRUSTADO!!!

Olho para árvores idosas, jovens de 3.350 anos, e vejo-as cheias de energia. Elas não jogam na crença do "cansa-descansa". Decidi também sair desta crença e ir para a crença "quieto-ganha energia".

SINTO-ME ESPERANÇADO!!!

Comecei com treinos de Ki através Yoga e Stand Still (Zhan Zhuang) na visão oriental.

Quieto e de pé, focado na trilogia "ideia-acto-sensação", comecei a fazer 1 hora/dia de ginástica-quieta, acabo com mais energia do que começo. Agora, apesar de idoso já abandonei a bengala e criei a minha crença pessoal:

Dançar sempre o tango nas Passagens de Ano,
abandonar o treino do "cansa-descansa" e fazer
 o treino "quieto-caça energia" seja ela o que for... 
...Ki, Prana, Chi ou Genica (à portuguesa)

As crenças são um dilema pois não podemos viver com elas e não podemos viver sem elas.
São maldição se a elas ficamos presos (fanatismos) e bençãos se libertos as usamos (lucidez). 

Todas as diferentes civilizações humanas têm a mesma essência, crenças em constante transformação desde religiosas e políticas até emocionais e científicas.
Os jovens e as crenças com suas constantes mutações são a minha esperança no meu ESPERAR.

Inté outro dia (e não adeus)
Maio, 2018