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domingo, 6 de julho de 2014

Emoções e sentimentos… em animais também?

Com um abraço ao Eurico que me aguçou a curiosidade.

(Ref.: Antonio Damásio, Jack Katz, Joseph LeDoux, Robert Burton, Mathew Lieberman, Richard Restak, Joe Dispenza, Richard Boyatzis, Annie McKee, Kathleen Taylor, Daniel Goleman, Isabelle Filliozat, Doris Martin, Karin Boeck, Norman Doidge, Daniel Chabot, Claude Steiner, V.S. Ramachandran, etc)

Pensar se os animais têm ou não sentimentos parece-me ser semelhante às discussões sobre "o sexo dos anjos", em que se fala, fala e nada se conclui.
Porém não quero cair na mesma armadilha, até porque discutir "o sexo dos anjos" tem lógicas a pesquisar considerando que há evidências e posições claras, por exemplo,...

Segundo a Bíblia os anjos procriavam com humanas logo a lógica indica que deviam ser masculinos, não excluindo a hipótese de poderem ser hermafroditas:
(ver "Santa Bíblia", validada pelo Vaticano (Nihil Obstat), em Genesis, 6;4)


Tradução:
"quando os filhos de Deus se uniram ás filhas dos homens
e lhes deram (engravidaram) crianças"
(ver também o Livro de Enoch [7, 1, 2, 10, 11] considerado Apócrifo no Congresso de Bispos em Niceia em 325 DC, em votação(?) controlada pelo Imperador Constantino)

Portanto a nível de raciocínios e de lógicas (neocortex) a questão está resolvida, porém não fica resolvida porque a nível de Fé (sistema límbico) as posições diferem, uns acreditam em anjos e outros não, e estas posições não se discutem nem são discutíveis. 
Porém ninguém discute o que é sexo, parece que todos concordam no mesmo conceito, pelo que o único ponto cego está centrado na problemática "anjos".

Todavia, fixando a crença emotiva, a discussão é objectivável:

A - se se acredita nos anjos eles são masculinos, pois a Bíblia não fala em "filhas de Deus se interessarem pelos filhos dos homens";

PS - Esta conclusão não deve ser definitiva porque sem a aprofundar já encontrei 7 alternativas possíveis para esta omissão da Bíblia, por exemplo, uma delas pode ser a falta de nível do grupo masculino para uma "relação" dessas com um sexo oposto mais evoluído. 
É bom não esquecer que o homem é a primeira versão do produto mas a mulher é uma nova versão (Biblia, Genesis 2; 21-22) com capacidades novas (neurais e orgânicas) para desenvolvimento de vida (gravidez),  portanto versão upgrade (melhorada) e construída depois dele.

B - se não se acredita nos anjos, então, anjos não existem, logo, anjos não têm sexo pois o que não existe não pode ter sexo.
[Q.E.D.]
Corvo quebranozes
Perito (melhor que
humanos) em calculo
cerebral de posições
geodésicas,
terá ou não sentimentos?

Se se comparar esta problemática com a questão dos sentimentos nos animais, esta é mais complexa pois apesar de neste caso se acreditar na existência de animais, e aí o factor Fé não interferir, todavia o sistema límbico vai "bagunçar" a discussão com o factor Fé a actuar "undercover" em duas outras áreas:

- FÉ no que se considera ser um sentimento;
- FÉ no que se considera ser um animal;

pelo que a viagem promete ser interessante..


O que é um sentimento ???
Uma definição intelectualmente clara, mas
faltando acrescentar…"é o que está no coração...!!"
Iniciei a viagem pelo mundo da psicologia bisbilhotando os conceitos de emoção e sentimento e obtive uma emoção de espanto e um sentimento de confusão devido à informatação dos conceitos, dando-me  todavia uma emoção de alegria e um sentimento de paz  pela informalidade consentida.

Esta permissividade permite-me trocar emoções por sentimentos, ou seja, trocar lógicas e afirmar que com a informatação obtive emoção de confusão e sentimento de espanto e a informalidade deu-me emoção de paz e sentimento de alegria.

Sentem ilógicas estas descrições inversas de emoções e sentimentos? Se não sentem pode-se usar à vontade estes trocadilhos em conversas sociais ou mesmo técnicas sem provocar contestações e até obter muita admiração.

Uhau…gosto deste anarquismo, desta promiscuidade entre emoções e sentimentos que permite falar e todos entenderem, apesar de permitir a entrada de "lógicas de caracol" em que não se sabe bem o que se diz e portanto também não se pode contrariar.

Para não me des-orientar "vidrei-me" nesta fotografia de um gato zangado dentro de água,



Isto é
uma emoção de zanga
ou
um sentimento de zanga
????



...seja o que for, ele está realmente muito zangado e disso tem expressões claras quer esteja a "sentir emoções" ou a "sentir sentimentos", pois o nariz franzido, os olhos diferentemente contraídos, a boca tensa com dentes à mostra e as orelhas para baixo não enganam ninguém… está mesmo zangado, só resta saber se fará o comportamento correspondente… e este último aspecto é o factor fundamental nesta pesquisa.

Quer dizer que neste momento ele está a controlar o seu comportamento de zanga não o manifestando, tendo em "consideração" o contexto envolvente (água). Resta saber se à saída da água o manifestará, ou não.

Assim, há aqui quatro factores importantes:

1º ~> o gato está "impregnado" por energia emotiva (quem não acredita que o agarre à saída);

2º ~> o gato tem consciência do contexto e sabe que ele não é o contexto (isto é, ele não é água), porque age de maneira diferente lá dentro e cá fora.
Decisão da crença de Fé:
a) Ele só tem consciência de não ser água ou b) tem consciência de si próprio.

No 1º caso, a Fé afirma que os animais não têm consciência de si próprio pois só os humanos é que a possuem, no segundo caso a Fé diz que os animais têm consciência de si próprios.
PS - Há provas "cientificas" para provar ambas as Fé's, como é normal acontecer nas Fé's.

3º ~> o gato tem o comportamento de zanga controlado, pois a muita energia disponível que o percorre não é usada para cegamente morder ou a arranhar a água mas para lucidamente nadar… não é um "zangado descontrolado" como assistimos em humanos.
Decisão da crença de Fé:
a) Ele só tem instintos "cegos" ou b) faz escolha de alternativas.

No 1º caso, a Fé diz que os animais apenas cumprem instintos pois só os humanos é que possuem inteligência, no segundo caso a Fé diz que os animais possuem escolhas decisórias.
PS - O interessante é que se houver rochedos, terra longe ou perto, etc, ele escolhe sempre a melhor orientação o que no dizer da Fé que acredita que "só-humanos-têm-inteligência" é porque o instinto sabe o que faz, ou seja, é um instinto "estúpido mas inteligente" (...há Fé's com crenças interessantes).

4º ~> ao sair da água o que fará o gato?
Penso que não há resposta standart pois depende dos factores envolvidos desde o que encontra, como se sente, a sua experiência pessoal passada, etc.
Retoma-se a questão anterior de qual o paradigma sustentado pela Fé dominante, afirmando que só cumpre instintos ou pode construir e escolher decisões.


Resolvi abandonar este caminho e pesquisar na "inteligência emocional"…
os conceitos de emoção e sentimento pelo que encontrei várias palavras utilizadas como sinónimos, por ex., emoção, sentimento, intuição, disposição, estado de espírito, palpite, sensação, tendência, às vezes inseridas na mesma frase e/ou página, mas sem serem clarificadas as suas diferenças.

De um modo geral, emoção é definida com "um estado afectivo", tendo a palavra origem em emovere que significa pôr em movimento, [… as emoções põem-nos em movimento, são o motor dos nossos comportamentos e são um estado afectivo que comporta sensações…].

Fazendo uma análise rápida do livro "Cultivez votre intelligence émotionelle" de D. Chabrot (Quebec), encontrei centenas de vezes a palavra emoção nas suas 200 páginas, mas apenas 15 vezes a palavra "sentimento".
Apesar de não definir o conceito, D. Chabrot utiliza sempre esta palavra no sentido de "o que se está sentindo", ou seja, é um reconhecimento cognitivo do sentir da/na emoção por interferência do neocortex  "contaminar" a actividade do cérebro primitivo, origem da emoção.

Noutros autores encontrei a mesma conexão de "sentimento" à "ideia de reconhecimento" em particular com o uso de um título identificativo (medo, raiva, amor, ódio,…) para enquadramento e reforço do significado, por exemplo, […a amígdala faz reagir emotivamente criando sentimentos de insegurança…] o que parafraseando se pode dizer […a amígdala faz reagir emotivamente criando um sentir pessoal reconhecido como insegurança...]

É interessante que a ISAEI - International Society of Applied Emotional Intelligence apresenta 10 condições características da Inteligência Emocional e só numa aparece a palavra sentimento:

[ AUTO-ESTIMA: ter bons sentimentos a seu próprio respeito 
independentemente das condições exteriores]

ou numa alternativa de parafraseamento: [...ter um bom reconhecimento do que sente a seu respeito…]

Num teste da mesma organização, para definir o perfil emotivo de uma pessoa, em suas 25 questões, apenas uma se refere a sentimentos:

[10. Não estou ciente dos meus sentimentos]

ou numa alternativa de parafraseamento:  [10. Não estou ciente do que reconheço no que sinto].


Resolvi abandonar também este nicho … e, por sorte, os deuses ofereceram-me uma prenda sobre sentimentos.

Hoje de manhã no Café, na mesa à minha frente, estava sentada uma vizinha a quem dou Bons Dias e converso um pouco com o cão fazendo-lhe festas.
No Café, ela falava com uma amiga, dizendo:

- "…fiquei muito triste, a minha filha visitou-me, ...mas ela não gosta de mim…!"

Levantei os olhos, olhámo-nos e ela continuou olhando para mim:

- "… o meu cão tem mais sentimentos do que ela…"

Huau… Huauuuu…isto interessa-me …e assim, com um sorriso perguntei suavemente:

- "Porque diz isso", ela respondeu:

- "Porque ele reconhece-me e mostra isso muito bem..!!"

Fiquei a pensar, aqui estava outra vez a dupla "sentimento e reconhecimento".

Quando se diz que alguém não tem sentimentos, não é o mesmo que dizer que não tem emoções, seja psicólogo ou não seja psicólogo as pessoas não se enganam no que querem dizer.

No caso da minha vizinha, o que o cão diz e a filha não diz é a afirmação "Tu existes", portanto, num caso sente-se confirmada-reconhecida como existente e no outro não sente, num caso tem o sentimento de se sentir pessoa e no outro falta-lhe esse sentimento.
Como ela existe e sabe disso, o problema não é dela mas do outro ser incapaz de o reconhecer pois …"é um calhau" incapaz de sentir, de ter sentimentos.

O problema agrava-se porque o cão também dá a mensagem "eu gosto de ti" (abana a cauda) e a filha  dá a mensagem ..."não gosto de ti" (raramente a olha na cara).

Como síntese, pode dizer-se há 3 factores em jogo "para sentir que os outros têm sentimentos":

1 - sentir - a partir de suas emoções;
2 - ver expressões - a partir de comportamentos do outro;
3 - reconhecer - a partir de leituras verbal e não-verbal dessas expressões.

Em relação a este último aspecto, que me parece crucial, resolvi entrar na sociologia antropológica pois a coluna vertebral do reconhecer é conhecer léxicos verbais e não-verbais.
Como exemplo, procurar descobrir qual é o sentir expresso nas duas fotografias a seguir:

A primeira foto expressa estupidez.

Na segunda, o braço vertical simboliza/expressa ver-se ao espelho e o horizontal estar satisfeito pelo que ambos expressam "estar satisfeito com o que vê", ou seja, ser bonito.

Em complemento, o que se expressa
- quando na China um aluno ao ser repreendido sorri graciosamente;
- e quando índios Apaches numa discussão baixam a voz. 

Apaches - expressa  sentimento de gravidade pois estão zangados que é algo muito sério e exige muito controlo. 
China -  expressa sentimento de respeito. Sorriso significa agradecimento pela repreensão e pela dignidade de quem dá.


A compreensão da linguagem verbal e não-verbal é a chave para se reconhecer a existência de sentimentos nos outros, porém se não se reconhece não se pode concluir que não têm sentimentos pois "sentir, expressar e não ser percebido" não é prova de inexistência.

Aplicando este raciocínio aos "julgamentos" sobre sentimentos de animais" aparecem três alternativas de conclusões:

A - se existir Fé do tipo "humanos como superioridade", a conclusão é uma afirmação, dizendo os animais não têm sentimentos porque não são humanos e só os humanos têm sentimentos !!!

B - se existir Fé do tipo "vida como superioridade", a conclusão são três interrogações, dizendo os animais não têm sentimentos porque não sentem e/ou porque não expressam e/ou porque não percebemos a linguagem usada ???

C - se não existir Fé alguma, isto é, ser o modelo "calhau", então não têm emoções para sentir portanto não podem inferi-las nos outros (pessoas ou animais), nem ver expressões e se vêem não as entendem.
Encontrei o conceito "modelo calhau" em certos manuais de treino militar (área "emoções e combate") como preparação operacional para expurgar emoções que são factor de perda de eficácia:

[...Blunted affect is the scientific term describing a lack of emotional reactivity on the part of an individual…]


e também em Dicionários médicos aparecem conceitos como low neuroticism level, Anhedonia, Apathetic , flat affect,…

Como exercício de treino militar encontrei métodos de com a emoção tirar emoções:

[…durante a recruta é dado a cada soldado um animal como mascote para tratar e cuidar durante todo o estágio como seu animal de estimação, não sabendo que no fim o têm que...degolar…]

pelo que duvido que depois da "experiência" possam admitir que animais (e pessoas) tenham sentimentos se eles próprios os perderam para conseguirem fazer a "degolação".
Franz Fanon, psiquiatra francês, em estudos que fez sobre torturadores na ocupação francesa da Argélia encontrou este "blunted affect" nas suas relações "educativas" de cada um com a mulher e os próprios filhos.
Um pequeno video (2 minutos)  de um filme representando este treino:

com emoções acabar com emoções

Em resumo, quer nos animais quer nas pessoas, o cerne da questão dos sentimentos parece estar no reconhecimento da sua existência [...a feeling is your conscious awareness of the emotion itself…], o que arrasta dois planos de análise para a existência de sentimentos:

A ===> nos outros;
implica:
1- reconhecer léxicos verbais e não-verbais;
2- inferir a partir de introspecção pessoal, do tipo "se eu tenho...eles também têm!".

Possivelmente está aqui a dificuldade de assumir a existência de sentimentos nos animais por incapacidade humana de compreender o seu léxico expressivo e também por impossibilidade de inferir a partir da própria introspecção humana, dado que eles não são humanos.
É bom não esquecer que "a falta de prova não é prova".

B ===> em si próprio;
implica:
1 - o reconhecimento da existência da emoção por processos cognitivos (neocortex).
2 - todavia o problema não tem esta simplicidade.

Dizer que [...sem reconhecimento de sentimentos pelo neocortex não há sentimentos…] pode originar conclusões absurdas, tais como:

- "Se não reconheço que amo a namorada não tenho sentimento de amor por ela?
- " Se não reconheço que odeio a namorada não tenho sentimento de ódio por ela?"
- "Se povos primitivos não identificam sentimentos, não os têm …logo são animais?"
- "Se um indivíduo tem Alexitimia (dificuldade em verbalizar emoções e descrever sentimentos) está a  deixar de ser humano e a passar para animal?"

ou, por analogia, aplicando o raciocínio "sem consciência não existe" à fisiologia, pode dizer-se:

- "Se não reconheço que respiro (em 80% do tempo não se tem consciência)... não respiro?"

O interessante é que apesar de "não reconhecer (não ter consciência) que respira" se se tapa a boca e nariz surge logo consciência da sua falta, o que permite perguntar:

- "Como se pode ter consciência da falta se não se tem consciência da existência ?"

A resposta lógica é "não pode", pois faltam referências.

Talvez Daniel Goleman esclareça um pouco esta questão com o seu conceito de "sentimentos viscerais", 


em que relaciona o sentimento visceral com "palpites" como resultado da actividade de centros emocionais em particular da amígdala que, pelas suas ligações nervosas ao corpo-vísceras, origina processos psicosomáticos e somapsíquicos expressando emoções não conscientes.

Por outras palavras, a consciência da emoção pode ser "consciência cognitiva" focalizada no neocortex ou "consciência corporal" (visceral [??]) localizada nas áreas mais antigas do córtex.
Assim no exemplo do respirar já citado quando ele é impedido de funcionar, a consciência corporal que tinha consciência da sua existência, avisa a consciência cognitiva do seu desaparecimento.

Muitas vezes estas duas consciências podem estar em desacordo, por exemplo, no jet lag a consciência cognitiva diz que se está em NewYork e é noite e o corpo diz que se está em Lisboa e é dia, ou a mente diz "és feliz" no casamento, emprego, profissão e o corpo diz "não és e tens uma úlcera no estômago".

Regressando aos animais, não sei que animais além dos humanos terão consciência cognitiva, mas parece que "consciência visceral" é inerente a estar vivo, como demonstra a rápida evolução da consciência das bactérias para criar defesas na resistência a antibióticos, reduzindo as dezenas de anos necessárias no início para a meia dúzia de anos actuais.

Na opinião de alguns cientistas corre-se o risco de em poucos anos os antibióticos, que significa anti-vida, deixarem de ter qualquer efeito. 
Na guerra "vida versus antivida" a consciência, pelo menos visceral, da vida a defender-se é muito forte e na chamada "guerra às bactérias" elas têm experiência de sobrevivência de biliões de anos e nós somos apenas uma espécie recém nascida, por outro lado somos hospedeiros delas e precisamos desses hóspedes. Talvez nesta guerra (como noutras) a técnica militar dos "rambos" com a "terra queimada" não seja a melhor estratégia.

Na figura abaixo vê-se um humano e um macaco ambos com a vivência e emoção de família destruída, o humano por catástrofe, o macaco por assistir a assassínio por caçadores:


repare-se nas semelhanças de expressões corporais (posições uterinas, auto-abraços, fuga "para dentro", pés abandonados, …), em que, segundo o relato, não foi possível alterar o estado emocional catatónico do macaco pelo que ficou assim até que morreu.

Não conheço o resultado do estado emotivo no humano, mas segundo Mathew Lieberman, que pesquisa e tem experiências sobre "Emotion Recognition", é possível reduzir a intensidade da emoção activando a consciência cognitiva desse estado pelo seu reconhecimento e identificação, activando o neocortex. 

Actualmente os humanos sabem fazer terapia emocional com humanos, o que não acontecia na Idade Média e épocas anteriores, mas não sabem fazê-lo com macacos e outros animais, isso não significa que o problema não exista nos animais e não seja susceptível de ser apoiado.

Hoje já parece possível apoio psicológico para certos animais  (primatas, mamíferos, …), mas o século XXI está a romper e a destruir as noções de animal ainda formatadas da Idade Média, alargando as fronteiras e trazendo as muitas inteligências não-humanas que connosco convivem na Terra para o primeiro plano, como por exemplo:

No livro "The Primate Mind" editado por Frans de Waal e Pier Francesco Ferrari, a página 257 tem uma fotografia e comentários sobre um macaco a fazer terapia a outro macaco que teve um conflito:


aparentemente ou claramente (depende das Fé's) ambos sentem +expressam +reconhecem +respondem no campo emocional.

Se se pesquisar a biologia encontra-se [… da bactéria ao humano todo o ser vivo tem um contexto com o qual interage e do qual recebe informações sob a forma de estímulos…] e ainda […an emotion is a physiological experience that gives information about the world], podendo concluir que ser estimulado e percorrido por correntes bioeléctricas faz parte dos mecanismos-base essenciais dos seres vivos, apenas diferindo no nível de organização e complexidade com que esta emoção funciona.


Por outro lado parece significar uma igualdade de todos os seres vivos em utilizar "inteligência" para manipular essa informação e sobreviver. 
Isto implica a existência no planeta Terra, além de inteligência humana, de vários tipos de outras inteligências não-humanas, funcionando com circuitos neurais diferentes dos humanos, mas não necessariamente inferiores. 

Segundo alguns cientistas, se o século XX foi o século de mutação de paradigmas na Física, o século XXI vai ser o século de mutação de paradigmas na Biologia, obrigando a pesquisar respostas a uma simples pergunta:

- "Afinal o que é o animal não-humano, incluindo de bactérias a primatas?"

Respostas surpreendentes vêm de todo o lado, desde biologia molecular e estudos de ADN até à botânica e zoologia passando pela neurociência e antropologia, as rupturas são claras, mas  o que ainda parece ser mais claro é que a pergunta:

- "Afinal o que é o animal humano ?"
Parece que terá de abandonar as respostas pré-Históricas que ainda usa ao considerar todos os não-humanos como "coisas" ao seu serviço.
Parafraseando um antropólogo ao comparar esta mentalidade com a mentalidade tribal em que […os humanos são considerados apenas como mais um vivente na comunidade de viventes…] nós ainda consideramos os animais como uma espécie de […calhaus vivos…].



Exemplos:

Será que
… voar é menos complexo que andar ?
… e respirar por guelras é menos complexo que por pulmões ?
… e fazer milhares de cálculos geodésicos de cabeça (corvo quebra nozes) é menos complexo do que fazer meia dúzia por computador (humanos) ?
… e ter um córtex a usar um olfacto com cerca de 5 milhões de sensores (humanos) é mais complexo do que ter um córtex a usar um com mais de 200 milhões de sensores (cão) ?


Porque é que inventar a roda é uma característica humana de  [aquisição subjectiva de conhecimento objectivo…]… e os corvos usarem cabides metálicos para fazer ninhos não é porque [os animais só têm automatismos…]?
Portanto, os corvos não fazem aquisições subjectivas de conhecimentos objectivos e não constroem aprendizagens. Portanto donde vem o automatismo dos cabides?... já estava nos genes ?


O ser humano tem cerca de 85 biliões de neurónios quase todos no crânio e o polvo tem cerca de 100 a 500 milhões com mais de 50% estão espalhados pelos 8 tentáculos (cada um com cerca de 40 milhões) que actuam independentes e também coordenados e têm tacto e sabor (detectam químicos).
Têm visão aperfeiçoada, reconhecem e recordam rostos humanos de quem não gostam, aprendem tarefas e usam instrumentos.  
(Univ. de Edinburgo e Univ. Hebraica , neurocientista Nir Nesher)


Numa média de 9 sessões, pombos foram ensinados a identificar pinturas de Chagall e Van Gogh, distinguindo pinturas ainda não vistas, mesmo a preto e branco e ainda de escolas semelhantes.
Os resultados mostraram […capacidades de aprendizagem de conceitos abbstractos…]
(Depart Psicologia, Univ. Keio, Tokyo, Japão)

já não falando na muita documentação existente sobre primatas, baleias, golfinhos, cães, lobos, aves, etc, pode-se acrescentar as organizações comunitárias de abelhas, formigas, alcateias, etc.
Como exemplo,


Nicolette Perry em 1983 escreve sobre formigas que têm rebanhos de pulgões guardados em cercas de terra e folhas coladas com sua saliva e que levam ciclicamente para alimentação e ordenha, abrigam e protegem contra predadores reconhecidos e diagnosticados pelas suas intenções.
Ver também Profs. G. McGavin & Adam Hart, Glasgow Science Center e Universidade de York, UK.

Para terminar,

dois pequenos vídeos para dar opiniões sobre emoções e sentimentos e para decidir se são o mesmo ou se escolhem A) ou B):

A - prova os sentimentos entre humanos porque só os humanos têm sentimentos baseados em emoções;
B - prova as emoções entre animais porque os animais só têm emoções e não sentimentos.



in Winters tale, 2014 (2m02s)

in YouTube (1m00s)


Como conclusão 


Não me parece que este reconhecer transforme a emoção em sentimento mas sim apenas favoreça o seu controlo, operacionalidade e gestão. 
Quer dizer que a emoção originada em estimulos externos, internos ou ideias, quer controlada ou descontrolada, tem sempre conexões com consciência cognitiva e/ou visceral. 

O conceito sentimento talvez seja apenas uma questão de verbalização pois dir-se-á  a emoção é sentida  se se usar um verbo ou dir-se-á  a emoção é um sentimento  se se usar um substantivo. 

Parece que a consciencialização cognitiva faz diferença na operacionalidade, controlo e gestão da emoção, mas não é por isso que se adquire uma essência nova, o chamado sentimento, porque ele existe igualmente sem consciência cognitiva, vide os processos somapsíquicos. 
O núcleo dos modelos da inteligência emocional está muito focalizado nos mecanismos da consciência cognitiva quer para aumentar quer para reduzir as emoções.
Frans de Waal
Senti(r…mo)mentos

(Ref.:
Ver outras realidades…como ver (!?!?) 23 Jun2014
http://pincamentos.blogspot.pt/2014/06/ver-outras-realidadescomo-ver.html

Bisbilhotice e educação por osmose 27 Jun2014
http://pincamentos.blogspot.pt/2014/06/bisbilhotice-e-educacao-por-osmose.html )



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bisbilhotice e educação por osmose


A bisbilhotice, "cientificamente" chamada curiosidade, faz parte da vida pois é um instinto de sobrevivência, inquieto e activo, a fazer perguntas […o que o contexto me traz??, o que me vai acontecer??. o que posso fazer??].

A minha amiga Vadel
e a sua curiosidade
Esta bisbilhotice/curiosidade na cultura burguesa chama-se má educação e pode ser uma "doença"  psicológica oscilando entre desde o voyeurismo (prazer sexual por observar) até à paranóia da perseguição (angústia de ser vítima), porém animais não-bisbilhoteiros correm o risco de rapidamente serem alimentação de outros,

Quando a bisbilhotice/curiosidade é nula, a sociedade considera tratar-se de um transtorno psicológico chamado "falta de motivação e interesse", ou seja, alguém incapaz de se implicar.

Em alternativa há profissões baseadas na bisbilhotice, com grande dignidade e poder social, sendo chamadas de investigador, por ex., polícias ou impostos,  diagnosticador, por ex., médicos ou psicólogos. Se são bisbilhoteiros amadores são moralmente e eticamente bem considerados e legalmente chamam-se testemunhas.

Como regra geral na cultura burguesa, dadas estas múltiplas alternativas, tem que se ter muito cuidado em que bisbilhotice nos vamos meter e procurar sempre fugir da coscuvilhice de vizinhos e titulá-la de debate democrático da vida do bairro.

Às vezes não é fácil, fazer bisbilhotices nas Universidades chama-se fazer observações pois lá ninguém faz bisbilhotices de macacos ou de pessoas mas sim observações de macacos ou de pessoas, quando não são observações chamam-se mexer...icos pois anda-se a mexer na vida dos outros.

A História tem imensos casos de Teorias consideradas cientificas e que mais tarde se descobre não passarem de um chorrilho de mexericos a interferir com a vida dos outros, dizendo o que devem pensar para serem aceites.
Um dos mais conhecidos é o mexerico da Terra ser plana e um cientista (Galileu) que a renegou foi por isso condenado em Tribunal. Este mexerico era dos bons porque a condenação só foi rectificada e retirada quatro séculos depois.

Como exemplo, uma bisbilhotice


pode originar nos paranóicos da moralidade o mexerico de "pervertido sexual", enviando o observador para tratamento na psiquiatria, apesar de ele apenas estar no "lugar errado no momento errado" a almoçar um frutito.

Para evitar estas "titulagens" desclassificantes uma das formas mais simples é usar sempre óculos escuros como fazem os agentes secretos, guarda-costas, etc e também aproveitar situações propícias para bisbilhotice sem uma acção activa de investigação.

A excepção da necessidade destas defesas é quando se está Licenciado para o fazer e tendo disso evidências objectivas, por exemplo, consultório médico ou de advogado, esquadra da polícia, repartição de impostos ou inquéritos para estudos com validação de empresa jornalística ou marketing, etc.

PS - O uso de óculos escuros na praia não é por causa do sol mas sim para poder bisbilhotar à vontade sem chatices de familiares, vizinhos ou pessoa observada. 
Bisbilhotar nus no museu é educação cultural, mas bisbilhotar nus na praia, no PlayBoy ou PlayGirl é libido doentia …o problema não é bisbilhotar é onde se está quando se bisbilhota.

As regras são simples, é preciso considerar sempre os níveis normais de bisbilhotice aceitáveis na sociedade em questão desde cultura, classe social, estatuto, profissão (por ex., paparazzi é um bisbilhoteiro fotográfico consentido), ou então ter desculpas aceitáveis …- "Que pecados tens, meu filho??", neste caso é fundamental ter um tom amoroso, terapêutico, judicial ou institucional.

Assim, em função das variáveis anteriores, é importante definir parâmetros possíveis para a bisbilhotice, do tipo quanto, quando, onde, o quê, como, com quê, etc, mas o fundamental é a cultura vigente. 
Há países em que os limites são mais alargados e outros em que os limites são mais estreitos, nuns a paranóia do voyeurismo é mais intensa e noutros menos intensa, etc.

Por exemplo, e para não ter "azares" sociais, em certos países com grande paranóia de assédio sexual e hábito de indemnizações em tribunal, é fundamental logo à chegada ao aeroporto comprar óculos escuros e ter máquina fotográfica com telescópio para poder fotografar à distância sem se poder detectar o alvo.

Por causa desta problemática, ontem, por acaso, descobri uma "janela de bisbilhotice" perto de casa e, daqui em diante, vou passar a ter cuidado com ela:



Uma "janela de bisbilhotice" é uma janela-montra gigante com vidro de um lado e espelho do outro, muito em uso nas policias e noutras bisbilhotices.

No caso da esplanada, é uma montra-janela gigante que por efeitos de luz, às vezes, funciona como espelho de fora para dentro e vidro de dentro para fora.  

Assim, se sentado do lado de dentro, as pessoas do lado de fora ficam tão perto que se vê a linguagem não-verbal  em "zoom", isto é, em tamanho real perto dos nossos olhos, distinguindo pequenas rugas expressivas e micro expressões  quer antes, quer durante e depois do falar. 

Mas como diz o ditado "uma imagem vale mil palavras" e a proximidade e intimidade comunicativa criada é maior do que se estivesse lá fora sentado na mesma mesa, ou seja, a intensidade e significado das mensagens é maior e mais evidente.

Simplesmente do lado de fora as pessoas sentem-se sozinhas perto de um "espelho" protector de olhares indiscretos, chegando a compor o cabelo e maquilhagem na imagem reflectida, conversando à vontade e sentindo-se sem "bisbilhotices do exterior".

Como exemplo, um micro gesto de enfado que parecia um berro por altifalante para quem o viu tão perto, não ficou registado nas duas mentes conversadoras porque a conversa continuou "normal" entre ambos.



Nas educações familiares há dois sistemas: a educação dirigida e a educação por osmose. 
A primeira funciona com o receptor na posição activa de actor e a segunda quando o receptor está na posição activa de espectador.

Por exemplo:

educação dirigida - "quando já adultos vão a casa dos vossos pais e o vosso pai zanga-se convosco…" não sei o que aprendem mas aprendem qualquer coisa, nem que seja a bloquear tudo. Neste caso  aprenderam por terem sido actores na relação de ensino.

educação por osmose - "quando já adultos vão a casa dos vossos pais e vêem o vosso pai a zangar-se com a vossa mãe…" não sei o que aprendem mas aprendem qualquer coisa, nem que seja a bloquear tudo. Neste caso  aprenderam por terem sido espectadores numa relação de ensino.

Uma pergunta:

- " Em que situação se sentirão mais perturbados???"

A diferença é que a segunda aprendizagem é muitíssimo mais violenta e marcante afectivamente do que a primeira, ou seja, tem uma maior "carga" educativa, aprendemos "mais fundo" por espectadores do que por actores.

Na família os filhos são educados por educação dirigida quando o pai ou mãe se dirige a eles e por educação por osmose quando o pai e a mãe se dirigem um ao outro e o filho assiste numa espécie de "janela de bisbilhotice" vendo o que se passa… e aprendendo.

ver uma zanga do pai e mãe…depois…
nada será anulado por raciocínios (neocortex)
pois o sistema límbico já injectou tristeza…
e emoções são "imunes" a lógicas.
Quando a educação dirigida e a educação por osmose 
ensinam "coisas" diferentes 
a educação por osmose é que ganha.

Em conclusão, a bisbilhotice é na realidade responsável por muito do que se aprende…mas isso não acontece de forma linear. Quer dizer que […um trauma negativo pode ter consequências positivas ou negativas e um trauma positivo pode ter consequências positivas ou negativas] neste processo a complexidade domina,
"não é por se conhecer a semente 
 que se conhece a árvore, pois
a árvore é que decide como que vai ser"
(Zen)


Como bisbilhotice final

Os viventes vivem da pesquisa e percepção de sinais do contexto.
No plano cultural este mecanismo tem diversas palavras para o expressar e no texto utilizaram-se várias:

bisbilhotice
curiosidade
mexericos
coscuvilhice
investigação
diagnóstico
observação
testemunhar
etc.

qualquer delas é utilizada pelo neocortex para criar raciocínios lógicos, simplesmente, todas elas têm conotações emocionais que o sistema límbico "agarra" e impregna com emoções as conclusões do neocortex.
Mas,…afinal quem manda…se a palavra afecta os dois? A razão ou a emoção? ?

Um discurso político é […a arte de jogar com emoções através de raciocínios lógicos usando as palavras necessárias para o fazer…].
É uma espécie de cocktail que leva o remédio misturado ou, por analogia com o antigo ditado popular "na família quem manda é o homem, mas quem manda no homem a mulher", neste caso pode dizer-se que:

"nas decisões quem manda é o raciocínio, 
mas quem manda no raciocínio são as emoções" ?

Assim, que frase preferem:

A - Levei ontem a minha mulher ao médico para ele lhe bisbilhotar o corpo!

B - Levei ontem a minha mulher ao médico para ele lhe observar o corpo!

A vossa escolha é comandada pelo neocortex (raciocínio) ou pelo sistema límbico (emoção) ????


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ver outras realidades…como ver (!?!?)


-…the mind is embodied, not just embrained"
António Damásio, neurologista

Se os resultados da mente dependerem do córtex a situação é complexa, mas se agora se considera que os resultados da mente dependem de todo o corpo, realmente, o raciocinar é um processo muito complexo.

Numa perspectiva sistémica, a mente ser incorporada no cérebro ou ser incorporada no corpo são situações muito diferentes.

O cérebro como sistema tem as suas fronteiras e tem um contexto (o corpo) com o qual se relaciona e  cria inter-dependencias. Se a mente está incorporada no cérebro então necessariamente mente e corpo estão ligados, por interdependentes.


Mas se a mente está incorporada no corpo, então mente e natureza estão ligados porque c corpo como sistema tem outras fronteiras e outro contexto que é toda a rede de "seres" exteriores, por interdependentes.
PS - Retoma-se a teoria quântica e da Matrix?


Conclusão interessante porque é uma das bases comuns aos vários shamanismos dispersos pelo planeta e sem contactos entre si. Por exemplo, a Vision Quest shamanica baseia-se exactamente em intensificar esta união com a natureza e, de certo modo, a Vision Quest católica com suas meditações, rezas e isolamento também faz integração "mente-contexto" (vide regras de I. Loyolla e J.M. Escrivã).

Admitindo que a mente, quer incorporada no córtex quer incorporada no corpo, está em íntima inter-dependência com o corpo, então pensar e seu resultado estão fortemente dependente do corpo, ou seja, ideias e emoções estão entrelaçadas, intercondicionando-se.

Em consequência, existem duas possibilidades metodológicas para se pensar um tema: a religiosa partindo da emoção para a lógica e a ateia partindo da lógica para a emoção.

Na religiosa começa-se por ter fé (isto é, crença emotiva) com base em emoções (sistema límbico) e depois constróiem-se as provas racionais da existência de Deus/Deuses com base em raciocínios lógicos (neo-cortex), para validar a fé já existente …como analogia é uma espécie de "pescadinha de rabo na boca" […vai-se para onde já se está].

Na ateia começa-se por raciocinar encadeando lógicas (neo-cortex) e se as conclusões forem de existência de Deus/Deuses, então a fé instala-se por adesões emocionais (sistema límbico).
Não conheço relatos em que esta sequência […raciocínios a originar emoções] tenha alguma vez funcionado quer em emoções religiosas quer amorosas, políticas, artísticas, etc

Em relatos encontrados, desde a conversão de S. Paulo na Bíblia até às paixões loucas de namoros nos romances, passando por adesões políticas a "q'ridos lideres", há sempre no percurso um "trauma emotivo" positivo a abrir a porta límbica ou negativo a fechá-la, ficando depois a fé activa ou des-activa a controlar a validade dos raciocínios feitos depois e ...nunca o contrário.

Como exemplo duas situações vulgares: política e casamento.

--> na política

21 Jun 2014
os raciocínios são para entreter pois o fundamental são as emoções grupais provocadas por aplausos ou vaias.

Ao longo da História, em revoluções (francesa, comunista, …), em evoluções (Hitler, Luther King…) e em estimulações (gurus religiosos, lideres empresarias e vendedores de feira) os discursos, campanhas e manifestações são formatadas em vagas emocionais de medo ou alegria, energia ou apatia, ódio ou amor, raiva ou amizade, etc.

O motor escondido e actuante nestas diferentes formas de adesão é a energia da emoção e os raciocínios apenas actuam como "cola" e "embrulho", eventualmente necessários para consolidar o edificio.

--> no casamento

Sistema límbico ===> neocortex racional
ninguém se apaixona por raciocínios lógicos, há sempre um "trauma emotivo positivo" que é a sua semente original ou, segundo os poetas, […é quando se vêem estrelas].
Quando a dominante são raciocínios isso não é um casamento é um "negócio casamenteiro".

Mas se o "namoro" desaparece do casamento fazem-se tentativas de recuperação por análises racionais de "bugs, culpas, perdões e soluções".

Se estar apaixonado é um produto do sistema límbico não me parece que activando o neo-cortex com raciocínios lógicos se possa recuperar o namoro perdido, apesar de se poder obter algum prazer intelectual e compensações de imagem social, mas é um esforço inglório no campo emocional.

Quando a situação se recompõe, após várias sessões deste "tratamento" de limpeza de traumas, culpas e bugs através de "conversas de polícia bom", esquecendo os momentos difíceis em que se saltou para as "conversas de polícia mau", não nos deixemos enganar ...nada se modifica pois o casamento continua sem o "namoro" inicial.

No dia-a dia após o "tratamento", nos interstícios da interacção diplomática e polida que foi obtida, continuam a saltar faíscas tempestuosas que vão crescendo de poucas, pequenas e rápidas a muitas, grandes e prolongadas à medida que o efeito "tratamento" deixa de actuar.

A família (pais e filhos) e amigos sabem o que se passa, mas vivem a síndrome do "rei vai nu, mas está bem vestido" enquanto esperam o resultado final de […o tratamento ter sido um êxito, o corpo estar saudável mas o doente continuar morto…].
Quando o casamento perdeu o "namoro" não é o casamento que se deve "tratar", mas sim o "namoro".


Como 1ª conclusão,

para se ver outra realidade parece necessário começar-se pelo sistema límbico e provocar uma mudança de fé (crença emocional) no que se investiga porque, parafraseando o sociólogo P. Bourdieu, "só encontramos o que já encontrámos" (objectivism fails to objectify its objectifying relationship), ou noutras palavras […é a crença que valida a lógica e não a lógica que valida a crença].

Assim, nesta pesquisa "shamanismo versus não-shamanismo e ver diferente", resolvi apoiar-me na posição de António Damásio da mente estar incorporada no corpo e, na alternativa das duas metodologias possíveis, optar pelo seguro e jogar nos dois campos ao mesmo tempo, ou seja:

1º - por um lado, à partida, acreditar no shamanismo, tendo nele a crença emocional que é verdadeiro (sistema límbico), e
2º - por outro lado, analisá-lo e validá-lo apenas com raciocínios de crença oposta (neocortex), isto é, com informação não-shamanica ;

ou resumindo em estilo de humor, é uma estratégia do tipo "reforçar a fé em Deus, apenas com raciocínios ateus" e não do tipo vendedor ou missionário que quer convencer com raciocínios de quem já está convencido (vide o estilo usado pelas "Testemunhas de Jeová" e dos "Comícios políticos").


Como fazer???

Em vários relatos de shamanes de locais diferentes e sem contactos entre si, é vulgar falarem e descreverem o que vêem nas suas alucinações com os mesmos conteúdos. 
Apesar de não existirem fotos ou filmes dessas alucinações, existem pinturas rupestres ou registos pintados em superfícies diversas cujos conteúdos têm sido reconhecidos como conhecidos por shamanes estranhos e em lugares e tempos distantes.

Pintura rupestre em Santa Barbara, California,
de figuras geométricas reconhecidas de serem
das primeiras fases de um transe shamanico
Como fé de partida vou acreditar que os shamanes vêem realmente realidades diferentes.

Assim, há 2 problemas a pesquisar na ciência ocidental não-shamanica:

1 - Que realidades se podem ver.

2 - O que é ver.


Que realidades se podem ver

Na Ciência oficial não-shamanica a resposta é fácil: ou é a realidade ou são alucinações. Portanto se os shamanes vêem realidades diferentes estão a ver alucinações, tipo viagens dos drogados, q.e.d.
Analisando, surgem  duas questões: 

- O que são alucinações?, e a resposta "oficial" é que são visões fora da realidade normal.

O que sugere perguntar se a ciência ocidental não-shamanica considera que...

- As visões de Santos Religiosos (Lourdes, Fátima,…) fora da realidade normal são alucinações ?

A resposta "oficial" é que há uma grande diferença entre visões por intoxicação com alucinógenos e visões sem intoxicação de alucinógenos, o que é também uma explicação interessante considerando que o próprio organismo produz os seus próprios alucinógenos e os consome e não há análises clinicas aos visionários no momento das visões.

Considerando a produção natural de alucinógenos pelo organismo, as perguntas que surgem são:

Quando faz? Quanto produz? Que substâncias? Porquê e Para quê?

e ainda..

"Qual a relação com a vida e sobrevivência? Porque existe este mecanismo e função? Qual a intenção? Será para alterar o equilíbrio interno e/ou para alterar a relação com o exterior?"

Pesquisando relatos de uso de alucinógenos, há muita documentação sobre eles, principalmente quando o uso de LSD era legal, pois na altura houve pesquisas laboratoriais de seus efeitos e funcionamento, como por exemplo, John C. Lilly e sua equipa.

Uma conclusão é que nas visões do LSD, os "alucinados" continuavam a ter uma percepção do real mas com sobreposição de imagens surgidas na mente, sentindo-as como sinais originados no córtex, ou seja, tinham duas visões a real do exterior e a alucinada do interior.

Pelo contrário nos relatos dos shamanes "alucinados" com chás de plantas (e de pesquisadores que o beberam) a percepção relatada é da total substituição da imagem exterior pela visão, sentindo-a única e originada no contexto envolvente (à semelhança do relatado pelos místicos).

A diferença é que o LSD é um produto sintético laboratorial e os chás são produtos naturais, pelo que uma possível conclusão é que no LSD os inputs são "faíscas" produzidas nos neurónios e nos chás há uma substituição dos inputs que chegam aos neurónios.
Não conheço estudos sobre visões de místicos e  religiosos.

Esta diferença arrasta a questão do processo produtor de uma alucinação artificial ou natural que parece poder acontecer por três vias diferentes (isoladas ou complementadas):

A ==> plano químico
mediante a alteração química do organismo por ingestão de alucinógenos.

Por analogia é uma alteração do harwdare de produção, na medida em que os alucinógenos alteram equilíbrios internos criando um organismo diferente dependendo das substâncias serem naturais ou laboratoriais.

É interessante notar que os shamanes fazem dietas especiais antes da toma de alucinógenos, parecendo ser um método para criar condições propícias ao processo de produção. 

É de relembrar que segundos relatos existentes, místicos e santos religiosos costumam jejuar o que na prática é um controlo químico do organismo, eventualmente facilitador da actuação de possíveis alucinógenos naturais produzidos no próprio organismo. 
Relembra-se também que relatos médicos de prisioneiros em tortura da fome (alteração química do organismo) registam o aparecimentos de alucinações .

B ==> plano físico
quando se alteram os canais de recepção e os tipos de sinais, por exemplo:

uso de som, música, cores e estimulações tácteis, desde cânticos e ladainhas religiosas até ao tanque de suspensão laboratorial de John Lilly (alteração de estimulações tácteis e quinestésicas) passando por luzes nas discotecas, ambientes de recolhimento nos templos, eremitismo, rezas e mantras para indução de "comas psicológicos" com ou sem visões místicas, situações vulgares em cerimónias religiosas de seitas  e estimulações por "icons e imagens milagrosas".

Não esquecer as marchas militares rítmicas e repetitivas com sons de tambores e trombetas para alucinações de "coragem" nos combates e ataques (vide relatos de ataques vikings, época napoleónica e  guerra de independência dos USA).

Por analogia é uma alteração de inputs fornecidos para a produção, mudando a "alimentação"  fornecida ao organismo para este "digerir", originando novos sincronismos e ressonâncias, portanto, outros processamentos com outros sinais.

C ==> plano mental
mediante a alteração do modo de funcionar, procurando processar os inputs recebidos com um método diferente, por alteração de scripts mentais.

Por analogia é uma alteração do software de produção, na medida em que apenas a "mastigação mental" é diferente, com diferentes circuitos neurais, mas sendo os os mesmos sinais e o mesmo organismo.
Como exemplo é o que acontece quando se aprende a ler, a guiar um carro, etc, ou quando se criam e alteram padrões de comportamento.

Pode incluir-se aqui técnicas de meditação, visualização, auto-sugestão, hipnotismo, etc.


Dos três planos, não estou interessado no plano químico, pois incomoda-me a perda do controlo próprio, quer seja por acção de um chá de tília, barbitúrico ou alucinógeno.

O plano físico interessa-me, mas basta vivê-lo e experimentá-lo no quotidiano, mas lúcido e consciente, decidindo acolher ou recusar as estimulações possíveis de "portas de percepção".
Assim, o plano mental surge como o mais atractivo para entrar no campo das alucinações ou, por outras palavras, parece ser a ponte ideal para entrar e sair de "outras realidades", ou seja, manipular os scripts, o software com que se usam os neurónios. 

Scripts

Um dos aspectos mais falados no shamanismo é a forma de ver a realidade, ou seja, é como se o shaman visse de forma diferente com ou sem alucinógenos, como se para ele o mundo tivesse um "rosto" diferente.

No shamanismo fala-se do […olhar desfocado, … de não ver nada e ver tudo, … de ver o detalhe a as conexões ao mesmo tempo, …de ver e perceber relações e não pormenores] e tudo isso excluindo a problemática das alucinações.

Acreditando que é verdade, e excluindo as vias química e física, a questão resume-se ao mecanismo de ver e aos scripts com que é utilizado, o que se traduz numa simples pergunta:

- "É possível ver com outros scripts?"

Pesquisando informação não-shamanica, encontram-se muitas compreensões pormenorizadas do funcionamento dos alucinógenos mas apenas compreensões globais do mecanismo das alucinações.

De um modo geral parece que a composição da maior parte dos alucinógenos se aproxima bastante do serotonin, uma hormona produzida pelo córtex humano e que funciona como "mensageiro" entre neurónios. 

Assim, será que as alucinações (incluindo visões místicas) são apenas o resultado da intensificação de redes inter-neurónios? ...por intensificação de receptores como o serotonin orgânico, o psilocybin dos cogumelos, a dimetiltriptamina da ayahuasca, etc?

Será que ao diversificar a visão da realidade e aumentar a operacionalidade da outras relações com o contexto através de novos scripts neurais e novas redes de neuro-transmissores, se está a usar uma capacidade humana bloqueada culturalmente e que obriga a ver a realidade apenas por um "buraco de fechadura"??? 

GRRRRGGRRR… por onde é que andam a passear os místicos e os shamanes??  

- "Pode-se experimentar ???"


Uma experiência

Alguns anos atrás, no meu passado distante, interessei-me por "Imagens 3D in" (salitsky dot), imagens que se olhadas de modo diferente do normal são vistas com conteúdo diferente, isto é, vê-se o que não se via mas que estava lá.

Utilizando os conceitos anteriores, para quem tem a nova visão o seu hardware não é alterado (não se bebem alucinógeneos), os seus inputs não são modificados (não se acrescentam sinais), apenas o software com que vê é transformado noutro (os scripts alteram-se) e a visão a duas dimensões passa a três dimensões e a ter conteúdos diferentes.

Na época achei que eram experiências interessantes mas que não passavam de experimentações e assim apesar de ter adquirido 62 pranchas e 3 posters, apenas armazenei como recuerdos.
Exemplo:

Imagem vista em 2D
SE... olhada normalmente

Imagem vista em 3D e a cores 
SE… olhada com o novo script
De repente, ao ler as descrições de shamans acerca do seu olhar diferente para observar a realidade e verem diferentes realidades, estas experiências vieram-me à memória e… resolvi re-activar neurónios no novo script.

Sucintamente, [ver é … o que se pensa quando se olha], ou seja, é a imagem construída no córtex a partir dos sinais recebidos e não, "linearmente", COM os sinais recebidos.


quer isto dizer que se recebem milhares de sinais por unidade de tempo e desses sinais, uns são aproveitados e outros não, em função de "filtros" seleccionadores "facilitadores" do processamento o que traz vantagens e inconvenientes.

Pela retina entram fotões que lá se transformam em informação electroquímica que os nervos ópticos conduzem ao córtex visual onde são processados em categorias (forma, movimento, cor, etc), criando uma imagem tridimensional interna no cérebro.


Portanto a imagem vista, ou melhor, construída no córtex, é função de variabilidades nos sinais recebidos e nos filtros aplicados e também no processamento feito aos que foram "consentidos". 

O interessante é que o processamento origina imagens que após produzidas se podem transformar em referências filtrantes de sinais posteriores e do controlo do próprio processamento, as chamadas "crenças referenciais" que [...só permitem ver o que já foi visto], criando o conhecido "bug" de não acreditar no que vê, mas apenas ver aquilo em que acredita:


ou com uma imagem mais técnica:

não vendo o que é, mas vendo o que acredita que é
Regressando às "Imagens 3D in" o controlo é feito no controlo de fotões  que entram na retina, alterando assim o processamento.

Existem vários métodos de treino mas a sua base é: adoptar um olhar desfocado, utilizando a visão lateral para percepcionar o total, focando a atenção do ver no pormenor, em esquema:


procurando controlar o ponto de focagem situando-o no espaço antes (ou depois) da pintura de modo que esta fique dentro da visão periférica mas fora do ponto de focagem:


Com algum treino esta prática é cada vez mais fácil e rápida.

O interessante é que a imagem 3D é construída com sinais que o córtex sempre recebeu mas só processou quando a entrada foi efectuada na visão periférica.

Se se considerar esta visão como alucinação dado que a visão normal não a vê, é uma des-compreensão dos factos (misunderstanding) porque ela é uma visão real que não existia apenas porque os seus sinais não eram processados (desprezados??), ou seja, a sua origem está no exterior tal como dizem os shamanes com chás e não no interior como dizem os drogados com LSD.

Será possível que o que sucede com os místicos e shamanes seja um processo semelhante ?? Será que é esta a função dos alucinógenos naturais no funcionamento neural ???

Não tenho resposta, mas por experiência pessoal quando se olha com o olhar desfocado e se vê o Todo e se foca a atenção no Detalhe o que acontece é:

1 - fisicamente há uma nítida sensação de relaxe no estômago, barriga e rins, perde-se a noção do tempo e a consciência do contexto;

2 - visualmente vê-se tudo mas nada é visto, é como olhar um filme sem se reparar no que está vendo, ou como andar na rua sem ver as pessoas mas sentindo-as e desviando-se delas, ou como guiar um carro sem ver o trânsito mas não chocando;

3 - mentalmente veem-se particularidades em zoom mas mergulhadas em redes de relações que não param de aparecer, desaparecer e reaparecer, relacionando-se o que era irrelacionável e fazendo realçar pormenores.
É como ver um filme em que o realizador nos mostra os movimentos e também os pormenores, o interessante é poder ver a vida deste modo quando somos ensinados a ver ao contrário, isto é, a fixar pormenores e depois estabelecer relações entre eles.

Como exemplo:

Ontem, na manhã de Domingo no Café, entrou um casal (30 anos?) com uma criança (2/3 anos). Olhando o grupo tive a nítida sensação de "dança entre eles", um sincronismo natural que os levou da porta por entre mesas a um local onde se sentaram. Não houve ordens nem orientações simplesmente foram com uma vivacidade alegre.

Sentaram-se sem tensões relacionais, corporais ou vocais, tudo fluía sem precisar de acordos, indicações ou abdicações, parecia que cada um "sabia para onde ia e sabia para onde os outros iam", uma espécie de ballet natural.
Estava espantado, o grupo orientava-se em conjunto sem "ordens".
Em segundos saí do meu refúgio mental, abdiquei do meu iPad e fiquei a bisbilhotar com o ar desfocado de quem não incomoda ninguém.

Acontecimentos na teia de relações:

1 - Na mesa, a criança sentada entre os dois e falando com o pai aceita com na boca, e sem olhar, um pedaço de bolo que do outro lado a mãe lhe dava. O bolo não foi ter ao olho da criança, a conversa pai-filha não se interrompeu, e ao mesmo tempo a mãe participou e a filha respondeu.
Tudo se passou em segundos, fluiu sem engulhos, e a vida grupal não foi interrompida. Parecia um bailado bem treinado.

2 - Caiu um pacote de açúcar no chão. O pai baixou-se para apanhar e foi ocupar espaço corporal da filha que falava com a mãe. A criança sem olhar para ele deu um jeito e adaptou-se e a mãe por sua vez recuou dando-lhe espaço. Segundos depois o pai sentou-se normalmente e todos refizeram posições. 
O interessante é que nada foi interrompido e nenhum deles teve consciência da sua mútua inter-dependência e sincronismo e ficariam muito espantados se eu lhes dissesse.

Olhando para outras mesas vi os costumados encontrões, quid pro quo's e desculpas para se encaixarem no pouco espaço existente, pelo que me apeteceu deitar outro pacote de açúcar para o chão para poder ver o fluir daquela dança outra vez.

3 - Durante todo o pequeno almoço a criança relacionava-se com os dois, de forma fragmentada mas sempre em estilo "bailado", nunca fora do ritmo, do movimento e do fluir dos movimentos e conversa. 

Há muito tempo que não via um "bailado relacional" tão bom, foi uma manhã de domingo muito feliz.

Para terminar e regressando ao tema, a observação com o olhar desfocado dos shamans é centrado em relações e POR ESTA ORDEM:

1º Sentir o que se passa sem pôr o neocortex a dar dicas;
2º Deixar-se levar pelo fluir das relações, surfando nas suas ondas;
3º Observar pormenores que deixaram marcas nas fases anteriores.
4º Pensar sobre eles a partir do conjunto.

…E NUNCA AO CONTRÁRIO…

pois os pormenores só "nascem" na 3ª fase, por ex., o pacote de açúcar e os movimentos de encaixe sincrónico só surgem significativos por influência das fases anteriores, pois sem elas é apenas um pacote de açúcar que cai e se apanha com alguns truques de aproveitar o pouco espaço… e a vida continua uma chatice e a manhã de Domingo não fica diferente.