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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

I- Democracia em simpléssshhh: o começo







Aproveitando a teoria da comunicação de Paul Naran (1964) é possível com os seus três modelos clássicos de comunicação pensar prospectivamente o futuro da Democracia e ficar com um sorriso de esperança... há luz no fim do túnel:


De um modo simpléssshhh, uma história poderá servir de linha condutora. Assim,  "ERA UMA VEZ há muitos anos...".

...um pai e dois filhos.
- Zé...  Manel, ... NÃO FAÇAM ISSO!!!!, disse o pai.
Eles não ligaram e continuaram.
Não fazem o que EU quero... já não há ordem,!!!, concluiu o pai.

Esta conclusão tornou-se um paradigma. Disseminou-se, instalou-se e tornou-se lei: "A ordem é quando fazem o que eu quero". Assim surge o mandante e um montão de obedientes, os dois juntos inventam o CHEFE.
O almoço do chefe
A teoria base foi simples, tudo se baseia em mandar-obedecer. Com esta dupla nasce a civilização característica da espécie humana:

 "EU MANDO e garanto a ordem, pois sacrifico-me a tomar decisões de onde-e-como-gastar-recursos.
VOCÊS OBEDECEM, ficam com ordem são felizes a trabalhar para criar recursos.   

Com este projecto político nasce a sociedade tribal centralizada. Com uma hierarquia de dois ou três níveis apoia-se em relações face-a-face tipo "um-a-um" e o chefe vive calmo e discreto no meio da teia.


Assim se passam milhares de anos, mas a evolução não pára. Inventa-se a estrutura hierárquica piramidal com o chefe isolado no topo, fora da teia, semi-deus distante, sustentado pelos obedientes.


O bom resultado desta política "EU mando, TU obedeces", além de criar ordem e progresso cria também o caos da "sobrecarga". Tem que dar ordens a todos, ficando a ser uma espécie de artista de "sete ofícios", o estilo "sabe tudo".

É trabalhoso, arriscado e detonador de "asneiras". O [... se não sou eu, nada funciona...] do centralismo hiper-centralizado tem limites. O DES-obedecer instala-se e a DES-ordem é a regra.

Torna-se urgente encontrar uma solução. Não foi dificil porque era óbvio, foi criar sub-mandantes para controlar obedientes. Emerge um montão de chefinhos (as vozes do chefe) que, obedecendo, fazem obedecer. 
Nasce o método do  ORGANOGRAMA, o sacrossanto da democracia usado até hoje.

Este milagre da descentralização ou, mais correctamente, da centralização descentralizada é uma espécie de teia de aranha com o aranhão no topo e salpicada por aranhiços com rédeas sobre os obedientes. Em esquema:
Centralized and Decentralized
Nesta estrutura piramidal aparece uma fronteira em que de um lado estão os mandantes e do outro os obedientes.
No inicio estas regiões estavam em "paz". Porém depois, se bem que do lado dos obedientes se jazia "em paz", do lado dos mandantes (os chefinhos) a guerra começou. A descentralização começou a "chatear" a centralização.

O "vírus" foi os chefinhos dependentes quererem ser chefes autónomos. Surgiramm guerras, golpes de Estado, cisões, traições, conspirações, revoluções e outras criatividades políticas.

A História relata várias soluções para essas guerras, mas duas são dominantes. Com vários formatos por mutações, associações ou integrações com outras, elas possibilitaram aos chefinhos tornarem-se chefes ou até chefes máximos.

Uma solução foi a cisão, chamada INDEPENDÊNCIA. Cada chefe ficou chefe máximo e autónomo no seu lado. Esta independência pode ser do tipo repetição (repete o modelo) ou mutação (muda o modelo).
Exemplo de independência por repetição em que se sai da monarquia para ficar monarquia:

Portugal, D.Afonso Henriques, 1128
Exemplo de independência por mutação em que se sai da monarquia para ficar república:

Peru, Gen. San Martin, 1821
Outra solução foi a união. Chama-se REPUBLICA. Tira-se o chefe máximo e os chefinhos unem-se e passam a ser chefes iguais entre si. Porém, de forma rotativa e cíclica, há um que apesar de igual é mais diferente e vai ocupar o lugar de chefe máximo.

Nesse lugar temporário, poderá ser chamado Presidente, Secretário-Geral, Líder Supremo, etc. consoante o formato adoptado. Por exemplo em Portugal:
(PS- É interessante o símbolo adoptado na época (uma mulher quase nua), não conheço explicações sócio-analíticas para a escolha, principalmente referente ao tamanho e posição do "quase" e ao barrete na cabeça)


1910
O modelo República pode ter vários formatos mas o mais vulgar é a associação com a Democracia. A Democracia com sua origem na Antiguidade grega é um sistema com muitas variáveis, vários sub-modelos e múltiplas lógicas possíveis.

Como exemplo, pode partilhar (ou não) poderes com Assembleias, Senados, Câmaras, Comités, Comissões, Federações, etc, ter votações em círculos fechados, semi-fechados ou abertos, eleições directas, indirectas, parciais ou ainda sistemas mistos, etc.
A sua criatividade é grande e o seu menu contém muitas hipóteses de escolha para candidatos a formar partidos.

Actualmente é um best seller e o curioso é que, apesar de ter vários conteúdos diferentes, desde ditadores democráticos até democratas ditadores (disciplina partidária??) passando por votações sem votações, votações às cegas, etc, tudo se vende e compra como Democracia:
1 Jan 2018
Em resumo
apesar das muitas diversidades e variações, o modelo bruto da democracia é o mesmo desde há muito tempo, apenas ligeiramente alterado na área dos mandantes agora chamados eleitos e dos obedientes agora chamados eleitores:

centralização descentralizada
A democracia tem dois eixos principais em tornos dos quais variam os seus sub-modelos:
A - Como se faz a rotação dos chefes para o lugar de chefe máximo;
B - Como se faz a votação para chefes e chefinhos.

vide


sábado, 6 de janeiro de 2018

A ditadura do voto... CUIDADO!

6 Jan18
A votação é uma técnica social destinada a obter e verificar o consensos num grupo.

Excepto na noite polar, se ao meio-dia um grupo votar e por consenso decidir que é noite, é uma decisão democrática mas está errada. A votação, em si, não garante a correcção da decisão, apenas garante o acordo dos votantes. 

A votação com ou sem consenso não é garantia de validade técnica, legal, legitima ou até moral e ética, é apenas garantia da sintonia social existente.

A conclusão a tirar é que ser consenso democrático não está isento de erro.

DN, 29Dez17
O voto obrigatório

Um voto democrático é a manifestação LIVRE da vontade do eleitor. 
Se for obrigado a votar mas não for livre de escolher o conteúdo do voto NÃO É UM VOTO DEMOCRÁTICO.
Exemplo:
Numa votação obrigatória para escolher como se quer morrer:

é uma votação democrática ou ditatorial?

O votar é obrigatório mas não se é livre para dizer a sua vontade. Está obrigado a escolher entre as hipóteses apresentadas. Por exemplo, não pode escolher "morte natural".

A conclusão é simples: Quando o boletim de voto é FECHADO não é democrático, pois a regra é [...podes escolher o que quiseres desde que seja o permitido...].


Boletim de voto em Portugal 2015

Assim o que se pode fazer com este boletim se a vontade for...
NÃO QUERER NENHUM DELES:

Pois...

Quer votar --- e não quer ser abstencionista nem precisa ser obrigado.
Sabe o que quer --- portanto não vai votar branco
Sabe como votar --- portanto não vai votar nulo

O que isto quer dizer é que o Boletim de Voto está armadilhado.
É um Boletim de Voto tipo fechado e, tecnicamente, impõe uma Democracia Governada (vide Maurice Duverger) o que, em português explicito, quer dizer Ditadura Suave.
Na prática, é um método de auto protecção partidário, pois aconteça o que acontecer nunca ficam em causa... e os eleitores nunca saem da roda do hamster pois qualquer que seja o voto ficam sempre na mesma:


Solução ? 

É simples, mas traz problemas complexos a resolver politicamente ...felizmente!!!
Acabar com a roda hamster na política não é fácil mas é fundamental !!!

Entre outras soluções, bastava que os boletins de voto tivessem MAIS o item NENHUM DESTES, ou seja, passarem de boletim fechado a boletim aberto:

Se os votos "nenhum destes" tivessem uma alta percentagem, por exemplo, mais de 50%, isso significaria que todos os candidatos precisam de fazer "terapia", isto é, estavam fora de jogo, não prestavam. A continuar seriam uma ditadura (imposição) doce sobre a sociedade em que se inserem.

A ideia de voto obrigatório é a maneira dura de escamotear este problema. Normalmente a maneira suave é culpabilizar e estigmatizar com o "não à abstenção" argumentando que sair da roda hamster é anti-democrático.

Na verdade uma abstenção alta é um grito silencioso de SOS dizendo "algo está mal na democracia !!", talvez seja errado mas é a única possível, é escolher o mal menor.

Nunca esquecer o paradigma base da gestão "10% de abstenção pode ser um problema de empregados (pessoas), 50% de abstenção é de certeza incompetência da gestão (sistema)".


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Estilo mental japonês



Hoje, no pequeno café onde"acordo" todos os dias com um café duplo e uma torrada, as mesas tinham nova disposição. Estavam juntas para deixar espaço para uma exposição-venda de ofertas de Natal, desde vinhos, doces, chás, até pequenos brindes comestíveis.

O meu habitual silêncio "meditativo" de passar o pequeno almoço a ler, escrever e/ou apenas ver, saborear e pensar... não foi possível.

As mesas para usar estavam todas juntas formando uma espécie de mesa comunal de partilha colectiva ao estilo "Olá vizinho... vamos conversar".

Ao pé de mim sentaram-se duas amigas que, falando ininterruptamente da sua vida, filhos e netos, às vezes em sobreposição, tentavam que participasse na conversa.

Com vários sinais de recepção e fuga (mensagens ao estilo "Olá e Adeus") consegui fazer entender que queria ler. Deixaram-me sossegado e continuámos vizinhos, conhecidos e amigos. O meu problema agora era a conversa que continuava a me envolver com o seu estilo de partilha comunal auditiva.

Entre sair e ultrapassar a partilha oferecida, decidi ultrapassar.

Recordei as casas japonesas de paredes de papel sem qualquer isolamento sonoro. Resolvi imitar a experiência japonesa de deixar de ouvir, ou seja, o som existe, ouve-se com os ouvidos mas não se ouve com o cérebro, torna-se uma espécie de música de fundo que apesar de existir não impede o silêncio, ou seja, no estilo português, é "fala prá iii que não te oiço". 

Primeiro, tentei não perceber os significados e identificar apenas se o som se era alto ou baixo, suas inflexões, ritmos e entoações. Gradualmente o falar transformou-se numa espécie de ruído musicado num idioma não conhecido. Acabei por deixar de ouvi-lo com o cérebro e este focalizou-se na leitura. Fiquei sozinho... recuperei o meu silêncio... Ufff.

De repente regressei ao café e com certo espanto tinha-se passado quase uma hora, continuava na mesa comunal mas sem vizinhos, tinham saído sem eu reparar.

Isto das culturas e das civilizações pode tornar-nos quase extraterrestres uns para os outros, uns só precisam de paredes de papel, outros precisam de paredes com isolamento acústico e algodão nos ouvidos. Nos humanos, o exterior pode ser semelhante mas o interior pode ser complectamente diferente. A espécie humana é realmente um conjunto de diferentes... felizmente.

PS- É preciso nunca esquecer que, há milhares de anos, que é "la petite difference..." (et vive la petit difference) o garante da reprodução da espécie.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

DECORAR ou a armadilha do estudar

Tema
Toda a gente estuda para saber, mas saber é "pensar sobre algo" e concluir. Quer isto dizer que não é uma actividade mecânica de armazenar ideias mas uma actividade criativa de estabelecer relações entre ideias e encontrar a lógica.

Estudar não é decorar... é construir lógicas. Ensinar a estudar não é ensinar truques mnemónicos é ensinar a pesquisar e construir relações.

Lendo um antigo filósofo taoista, ele dizia que [aprender não é repetir é transformar-se] e que [...o mestre deve ter a humildade de deixar o aprendente fazê-lo como pode e apenas ajudar].

Hoje, esta ideia pode não ser novidade mas a sua aceitação implica uma revolução na pedagogia (e professores), na educação (e pais), na política (e lideres), na amizade (e parceiros).

Na neurociência fala-se muito em redes neurais como a base do pensar:


ou seja, pensar é fluir nas conexões inter-neurónios, aproveitando ou criando novas ligações.

Assim, como exemplo, um pequeno problema para resolver:

O Zé vive num pequeno apartamento no 20º andar de um prédio, com uma vida difícil e dolorosa.
Ontem levantou-se e, ainda de pijama, subiu para a janela, olhou, pensou e saltou.
Caiu no chão, levantou-se e foi-se embora.
Como explicar???

Quer tentar perceber e encontrar a explicação?

Compreender o que aconteceu não é aplicar (carimbar??) ideias armazenadas no córtex ao estilo de remédios na farmácia que se podem encontrar com um braço mecânico, neste caso chamado memória. Neste funcionar, a ideia utilizada é encontrada por regras de funcionamento do braço (memória) e não por influência da questão em análise. Depois, a ideia encontrada dá ideia aplicada: 


Mas... o córtex não funciona assim. O decorar não é instrumento de compreensão é recurso para pensar, utilizar e obter compreensão.  

Estudar e aprender são processos de criar novas relações entre as ideias, transformar redes neurais existentes e fazer renascer novas conexões entre saberes. Como diz o mestre taoista, só quem aprende pode criar na própria mente essas novas conexões. Por isso, quem ensina só pode ajudar que o próprio-se-ensine-a-si-próprio.

Assim, estudar é acrescentar (mudar) a teia de relações existente entre as ideias. Quando estas novas conexões fazem sentido, nasce a alegria do "Ahhhh! Ahhhh! Experience" da Pedagogia Experiencial, ou seja, o conhecimento nasceu e instalou-se.

Esta metodologia baseia-se em perguntas de pesquisa sobre ideias existentes ou a descobrir ou a criar, seus possíveis significados e relações... e, inesperadamente, a solução torna-se óbvia.

O segredo (o "truque") é a riqueza e flexibilidade das relações que se instalam, mas decorar é a pobreza e rigidez do "carimbar". Decorar com a sua repetição mata a flexibilidade e a disponibilidade para o processo de transformação e no limite surge a rigidez, o fanatismo.


Aplicando com jovens (10/13 anos), em grupo e individual, eles vão dizendo ideias acerca do problema, ideias essas registadas aleatoriamente em mapa, nunca em listas. Nas pausas maiores, pede-se que relacionem duas (ou mais) das ideias registadas e digam qual a nova ideia surgida e a acrescentar. 

Depois, analisando todo o registo pede-se que seleccionem as mais interessantes e tirem conclusões. Normalmente, em 5 minutos, a solução acaba por surgir, muitas vezes sem consciência e sem seu reconhecimento como solução. Porém, forçando a atenção sobre ela, a solução acaba por ser reconhecida quase sempre com espanto (Ahhh!! Ahhh!!) e alegria. 

Segundo alguns autores, esta falta de reconhecimento como solução da ideia exposta é consequência de "esquizofrenia cultural" que opõe raciocínio e intuição, recusando que muitas vezes [...o raciocínio tem razões que o raciocínio desconhece...] porque [... quando se tem dúvidas sobre a escolha, não há dúvida que não é escolha...].

No já descrito problema anterior do "saltar pela janela", um possível esquema para encontrar a explicação poderia ser:


Porém, obter uma explicação é o resultado não é o objectivo da actividade. O seu objectivo operacional é criar alegria e energia para agir e o seu objectivo pedagógico é compreender como se pensou e obter técnicas para o fazer.

In brevis, o objectivo não é ter bons resultados à custa de processos (tipo competição) é ter bons processos à custa de resultados (tipo treino).
Não convém confundir aula com exame, nem treino com competição, como fazem aprendizes de formadores quer profissionais ou familiares, quer gratuitos ou pagáveis.

Não se trata de Pedagogia Experimental de base em experiências, mas Pedagogia Experiencial de base em vivências das experiências realizadas. O foco não são resultados e/ou acções realizadas mas actores e actos efectuados.
Na trilogia clássica briefing-acção-debriefing a essência não é o briefing-acção com ou sem aplausos mas é o debriefing com suas conclusões operacionais para o próprio.

A Pedagogia Experiencial não é baseada no ACTO (agir) é baseada no PÓS-acto (pensar e concluir).

Como conclusão

Estudar não é armazenar informação nos neurónios, tipo conta bancária de bits. Estudar é criar relações lógicas entre os bits, tipo teia de aranha com vários núcleos de aranhiços.

Na verdade a pesquisa lógica é uma actividade interessante. É uma espécie de ARQUEOLOGIA DE INFORMAÇÃO porque é um esforço de cavar e esgravatar "areias mentais" até descobrir onde se esconde a informação relevante. Depois é guardá-la e relacioná-la:


Por analogia, estudar é ser um "Sherlock Holmes a caçar detalhes relevantes e pensar-descobrir relações", não é ser um Tio Patinhas a amealhar, decorando e guardando o máximo de ideias na memória.

Recordando o passado, tenho consciência da sorte que tive de, pelos 12 anos de idade no Liceu D.João de Castro, ter vários anos seguidos aulas de Matemática com o Dr. Mora que me "viciou" no  seu estudo.
Não era um professor fácil, era distante, atento e exigente mas, com seus métodos "firmes", lá nos ia "embrulhando" na Matemática... e eu fiquei fan da disciplina que, na altura, me divertia mais que Palavras Cruzadas com seu misto de desafio e lógica, "...Eu contra os problemas... Grrr Grrr".

O Dr. Mora obrigava-nos a ter uma espécie de diário tipo Livro das cábulas (???), na época chamado Vademecum para profissionais anotarem conclusões. De construção artesanal, com o formato de rol de merceeiro era feito de papel Almaço dobrado verticalmente e com lombada de fio cosido à mão. 
Nele se ia escrevendo tudo o que tínhamos que decorar, desde fórmulas a teoremas, passando por truques de cálculo rápido, axiomas, etc. Riscar livros era impensável.

Este "caderno de merceeiro" era um rol de "inventário de saberes" e tinha que estar limpinho e bem feito, não se podia substituir, ou seja, obrigava a escrever pouco e bem e só o importante, umas vezes imposto pelo professor, outras por ele sugerido, outras por nós escolhido. Quem soubesse aquilo... passava o ano de certeza.

O interessante era que, paradoxalmente apesar de obrigar a decorar muita coisa, dizia sempre que [...a cabeça não era para decorar era para pensar, o decorado só servia para ajudar...]. 

Assim, quem respondia "papagueando" o livro tinha os seus 10/11/12 valores (a média vulgar), mas quem respondia pensando, recriando e aplicando, então... a sua nota ia por aí acima (max 15).

Na aula, ir ao quadro fazer um problema era a grande angústia de todos nós apesar de não existir avaliação, nem zanga, nem prémio. O importante era pensar e encontrar o caminho mais "limpinho" para a solução. Se o fizéssemos tínhamos o direito de terminar escrevendo Q.E.D. (quod erat demonstrandum) no fim do quadro... e isso era uma honra.

Desde há mais de meio século que este hábito vive em mim. Ainda hoje quando resolvo "limpinho" um problema de lógica, penso para mim próprio... Q.E.D.

Na época descobri que, sabendo pouco e pensando muito, tinha boas notas sem muito trabalho... por isso mudei de vida escolar. Comecei a aplicar o método "Dr. Mora" a todas as disciplinas, isto é, fazer cábulas, decorá-las e pensar.

Lia muito e estudava pouco. Entre ler banda desenhada, livros de Sandokan e matinés nos cinemas de bairro, lá ia jogando andebol, bilhar e muito ping pong. 

Tendo os "livros de cábulas" como método de estudo rápido e sólido para exames, tornei-me habitual no Quadro de Honra e isento de propinas. Com eles, nos intervalos, 5 minutos antes dos testes, "refrescava" toda a matéria.

O meu pai comprava-me os Vademecums algures em Lisboa e eu andava sempre com um na algibeira, eram o meu computador portátil. 

Outro dia, numas arrumações familiares, encontrei um desse tempo,


Com capa de cabedal e papel quadriculado, era do tamanho de uma caixa de fósforos. Eram os meus "Diários Operacionais". 

Com páginas tão pequeninas, tinha que escrever pouco... não podia fazer resumos ou transcrições. Foi a minha sorte. Fazia reconstituições das matérias com uma lógica minha e criava esquemas, "chavetas" encadeadas e mnemónicas sobre essa matéria:



Uma cábula não era uma cópia-resumo, era um conjunto de ligações (um "caroço") que, para mim fazia sentido e me permitia reconstituir ideias associadas. Utilizado por outra pessoa não servia para nada, era um conjunto de associações pessoais, uma espécie de "gatilhadas" (triggers) sobre os meus neurónios. O resultado era uma grande eficácia a manipular ideias e não desaparecia. Ainda hoje, em cálculos matemáticos, me lembro e uso alguns "truques".

Para mim, usar "vademecuns" sobreviveu até aos dias de hoje, quer em áreas profissionais quer em hobbies. Nos baús das recordações tenho milhares de fichas guardadas desde "bisbilhotices" úteis sobre regras e regulamentos militares até notas e truques de bridge e poker, passando por ideias a que chamava "lixo bom".

Tudo evolui e tudo se mantém. Dos livros passei às fichas e destas ao software. O método continua a ser a herança do Dr. Mora: 1- caçar o importante 2- estabelecer lógicas relacionais 3 - pensar e aplicar.

Em África, nas noites de poker, xadrez ou bridge também levava os meus vademecuns com informações relevantes, desde técnicas de jogo até características e hábitos dos jogadores habituais, tudo eram informações relevantes... e no fim havia sempre algo a acrescentar, era o prazer do Q.E.D.. 

O meu divertimento não era ganhar, até porque perdia muitas vezes, o meu divertimento era saborear as jogadas. Um apreciador de vinhos ou comidas não se embriaga nem empanturra, o objectivo é outro, não é acumular resultados é saborear o caminho.

Durante algum tempo joguei Reversi no computador (uma espécie de jogo do GO para crianças😆). 
O meu objectivo não era ganhar, era descobrir a lógica programada no software para jogar o jogo. 

Passei muitas horas agarrado ao vademecum a tirar informações e consegui em cada 10 jogos ganhar 8, tinha descoberto a lógica (Q.E.D.). 
Daí em diante o meu divertimento era, a meio do jogo, fazer asneiras propositadas, recuperar e ganhar.

Este hobby teve um final frustrante. Já adulto e licenciado, antes de desligar o computador costumava entrar numa rede de Reversi para jogar um bocado. Na identificação do jogador classificava-me como expert para ter um certo desafio com o oponente. 

Um dia, logo no primeiro jogo a meio dele já tinha perdido. Pelo chat disse isso e propus novo jogo. Ao fim de cinco jogos tudo se repetia e, perante a minha proposta para se começar de novo, o outro jogador propôs que se continuasse. Respondi que não merecia a pena porque, se ele não fizesse asneiras (e não fazia), eu já tinha perdido. Continuámos a jogar, eu a perder e a começar de novo... mas conversando pelo chat.

Descobri que ele estava no Japão, afinal o ele era uma ela, estudante, dizia-se um jogador regular-médio, pertencia a um clube de "GO e Reversi" da escola e tinha 12 anos. 
Fiquei de boca-aberta e nunca mais me considerei um expert em Reversi.

Pois é, jogar com adversários de programação fixa (o software do computador) é uma coisa mas jogar com adversários de programação flexível (uma jovem de 12 anos) é outra coisa.

Considerei-me "estúpido" pois já há muito tempo em África a jogar poker tinha aprendido isso. 
Lá, ganhava dinheiro a jogadores de "programação fixa" (memória), mas perdia dinheiro com jogadores de "programação flexível" (pensar) apesar de serem os meus preferidos.

Na prática, o Dr. Mora do meu passado tinha razão. O método não era decorar soluções mas, 1º- caçar o importante; 2º- estabelecer lógicas relacionais; 3º- pensar e aplicar.

Segredo do estudar, fazer A+B

A == Caçar informações relevantes 
B == Estabelecer relações e extrair significados

Como problemas para treino deixo três questões, uma para cada uma das três áreas clássicas:

1ª - Relações funcionais (funciograma) entre as informações do problema, isto é, pesquisar a lógica;
2ª - Inter-acções dos elementos activos expressos no problema, isto é, pesquisar a "Lei da situação";
3ª - Inter-acções com o contexto e a fita do tempo do problema, isto é, pesquisar os processos.

Estes três problemas têm soluções simples e não exigem cálculos complicados. Não são testes nem concursos, são apenas "detonadores de pensares" (thinking triggers) para depois serem meditados e concluídos pelo próprio (debriefing).

Relembrando T. Edison, aqui vão os meus desejos que se divirtam:

"não há resultados falhados, só há resultados de sucesso a descobrir como não se faz ou como se faz" e, para isso, apenas temos que pensar sobre o que fizemos e escrever no nosso "Livro de Cábulas".

Inté (Adeus e Até Depois à maneira africana)
_____________________

1- Dinheiro (pensar a lógica)

Em duas carteiras existe:

- 1 nota  de  20 euros;
- 2 notas de 10 euros;
- 2 notas de   5 euros;

Dizer como as notas estão distribuídas para que uma carteira tenha o dobro do dinheiro da outra.

Ponto chave: valor e seu valor dobrado, considerando as notas não são divisíveis em 3 partes iguais.
Solução (clickar)

2 - Laboratório (pensar a situação)

Num laboratório há dois tubos de ensaio a aquecer até 80º C e dois frascos fechados, um com duas pastilhas A e outro com duas pastilhas B, visualmente iguais.

Aos 80º graus, o técnico tem dois minutos para abrir os frascos e deitar uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio. 

À hora certa, ele põe uma pastilha A na palma da mão, mas ao pôr uma pastilha B caem-lhe, ao mesmo tempo, as duas pastilhas B na palma da mão.

Não as distinguindo como fazer para, num minuto, pôr uma pastilha A e uma pastilha B em cada tubo de ensaio.

 Ponto chave: identificar o identificável.
Solução (clickar)


3 - Ovo e galinha (pensar o processo)

Em termos lógicos decidir qual apareceu primeiro:

- foi o ovo que originou a galinha;
- foi a galinha que originou o ovo;

e a sua justificação lógica.

Ponto chave: como ambos nascem.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"o melhor possível…", esta frase irrita-me

Grrrr…. Grrrr…. irrita-me

O doente entrou no hospital e o responsável disse à família: "Foi tratado o melhor possível!!"

O que é que isto quer dizer, "trataram?", apenas "estabilizaram?", ou "fazem cuidados paliativos até morrer?"

O normal é os familiares, perante esta resposta habitual, ficarem "normais" e conformados com a situação.

No caso do incêndio de Pedrogão, em que morreram 65 pessoas, o comentário de várias entidades (incluindo massmédia) foi "Fez-se o melhor possível!!!".  O que é que isto quer dizer? 

Se tivessem morrido 564 pessoas também seria o melhor possível? …e se tivessem morrido só 10? …e se ninguém tivesse morrido? E o bombeiro ferido que levou 10 horas para chegar ao hospital… era também o melhor possível? …E se demorasse uma semana… porque o melhor possível era ir de carroça?

A verdade é que a frase "Fiz o melhor possível" não significa nada, é um bluff lógico, é uma muleta de uso para qualquer política amaciadora. É um truque de propaganda clandestina para inserir a afirmação de "está tudo bem".
Mas isto não é o pior.

O pior acontece quando, além de aceitar, também se começa a usar a "burla lógica" com a melhor das intenções (vide o video da SIC, a seguir). A "mentirinha" torna-se normal nas relações sociais, pois a mentira, não expressa mas induzida, é sinal de habilidade e honestidade política, de ser um Q'rido Lider e ganhar votos.

A frase "Fiz o melhor possível" com sua aparência de lógica clara e óbvia é, na verdade, uma frase errática e "vagabunda" de sentido indeterminado que activa em cada um a expectativa desejada. 

Na teoria da propaganda, chama-se a este mecanismo "manipulação clandestina", ou seja, é fazer "normal" o que não o era e depois vulgarizar.

Porém, viver em sociedade significa sofrer este processo de padronização, i.é., sofrer uma educação por osmose, o que sucede desde aceitações de moda até alimentação e remédios, passando pelo guiar à esquerda ou à direita, etc. Este mecanismo não é o problema, é apenas uma solução para a flexibilidade e evolução humana que se chama culturização.

O problema está na perda de lucidez, na aceitação ou recusa de certas normalidades. O "deixar andar", a "falta de atenção aos sinais", o abúlico "sim senhor" é que são o problema, normalmente completado pela velha e esfarrapada confissão de mea culpa à procura de absolvição, quando já é tarde para evitar. 

Esta falta de lucidez e o "deixar andar" são as "epidemias" disseminadas pelos movimentos populistas e pelas claques partidárias para diluir oposições.

Como disse Edmund Burke (séc XVIII) […para o mal triunfar, só é preciso que os bons não façam nada…] e o não-pensável torna-se -à, não só pensável como, real.

Há aqui uma pergunta importante a fazer: "Quando?", quando é que "os bons" actuam, quando é que eles acham que "já chega".

Como é lógico, os movimentos populistas e as claques políticas procuram atrasar esse momento até obterem um número suficiente de "claquistas". As manifestações e os slogans não procuram introduzir lucidez, mas sim criar vagas de "claquistas" (vide o clássico "Le viole des foules").

As Democracias "activas" possuem o mecanismo de "enough is enough" com o sentido de "pouco é suficiente", pois há consciência de que o "já chega" muitas vezes vem tarde de demais. Exemplo:

USA, um dia depois da marcha de ódio em Charletesville (11 Ago), há manifestações (12 Ago) demissões (13 Ago) (14, Ago) mostrando claras posições de cidadãos (smart mobs?), soltas de enquadramentos partidários:


Porém, as Democracias "adormecidas" têm "injecções culturais" de apaziguamento com o "barbitúrico" "fez-se o melhor possível", um misto de lógica confusa (não informa nada) com crendice afectiva de  segurança (não garante nada).


Este pastel de nata do "melhor possível" tem muitos irmãos gémeos de "lógica manipulativa":

- "Prometo que, logo que possível, se fará".  Quando é o possível?.
- "Já está tudo esclarecido… ", portantotudo fica por eslarecer.
- "Não é secreto, é segredo de justiça… ", portanto, tudo continua escondido.
- "Não sou responsável ninguém me avisou... ", portanto, responsável só com aviso prévio.
- "Já está resolvido, vai-se legislar… ", portantooficialmente, não ter solução é problema resolvido.
- "Agora ajudamos quem chora, depois procura-se responsáveis… ", portanto, procurar responsáveis é adiado. Exemplo, Ago17, queda de árvore no Funchal:


Mas, não se pode fazer as duas? Não poderia ser "Prioridade é apurar responsabilidades e apoiar familias e feridos"?
Na verdade, todas estas frases são frases não-democráticas.

Desde a antiguidade grega que Democracia não é a votação, é LUCIDEZ para a votação, ou seja, Democracia é o diálogo que, na praça pública, antecedia essa votação. Segundo estes filósofos "…na votação a democracia já acabou… pois ela existiu no diálogo prévio que a antecede…" (P. Senge, The Fifth discipline, UK, 1992, pg 10 e 240).

In brevis, a essência da Democracia é lucidez individual da decisão tomada. Votos drogados, submissos, comprados, enganados, confusos, falsificados,… não são votos democráticos é burla democrática.

Tudo o que escamoteia a lucidez e procura criar "crendices" (afirmações sem garantia) é anti-democracia. Tecnicamente, a essência do populismo é, exactamente, o crescimento de crendice e a redução da lucidez, mesmo que tenha legalidade democratica… mas perdeu a legitimidade democrática.

O direito à palavra nunca é retirado na ditadura, nela todos podem falar… desde que seja concordância, aumente a crendice ou reduza a lucidez. A marcha de Charlottesville foi um "discurso" nazi bem claro e que explicou muito bem o que é um nazi… ninguém pode dizer que não percebeu.

Na Democracia, o direito à palavra não é um direito de quem fala é um direito de quem ouve para obter informação e lucidez suficiente para poder decidir se vota nele, ou não.

Isto é muito claro neste pequeno video quando o discurso de captação cria lucidez de recusa:



A seguir, está um exemplo de como as frases de lógica manipulativa tiram lucidez ao discurso, mesmo quando usadas honestamente por quem apenas assimilou a cultura de "democracia travesti". Vide entrevista na SIC sobre falta de recursos na PSP e GNR (9Ago17)

O entrevistado foi claro nas suas afirmações e, sem as negar, acaba por lhe reduzir a lucidez ao utilizar o  conceito "o melhor possível" na resposta a uma pergunta da entrevistadora.


Diálogo:

Entrevistadora:
- Podemos dizer que a operacionalidade da GNR está posta em causa?

Entrevistado:
- Não,... nessa parte não quero acreditar nunca e nunca irei referir que isso possa acontecer. Há uma parte muito importante que são os profissionais […]
- […o profissional...] tentará sempre fazer o melhor, independente dos meios que tenha
.

Isto pode ser verdade e a ideia do entrevistado pode estar correcta, mas introduziu falta de lucidez ao estilo da cultura da "democracia travesti" disseminada nas redes institucionais.

Assim, é credível que um profissional GNR que corra o melhor possível atrás do carro do ladrão o apanhe?

A operacionalidade da GNR é uma integração de "profissionais e recursos" e, por muito que um profissional GNR se esforce, se não tem recursos, a operacionalidade GNR é baixa.

Aos cidadãos que apoiam o esforço dos profissionais (GNR, PSP, médicos, enfermeiros, professores, militares, etc) é preciso dar lucidez sobre o problema, e não misturar esforço e competência destes com o esforço e competência das organizações em que trabalham. Fazê-lo não é proteger a sua imagem, é deixá-los a aguentar culpas que não têm.

Penso que a resposta correcta, de acordo com as ideias expostas pelo entrevistado, seria do género:

- SIM,… porque apesar dos profissionais GNR fazerem o melhor possível, não havendo recursos, a operacionalidade GNR está posta em causa.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SEMPRE ESTAREI VIVO…!!!

Há dois dias que ando mergulhado na Teoria Quântica e na problemática do tempo. Hoje acordei de madrugada com uma certeza que me relaxou:

NUNCA POSSO ESTAR MORTO!!!

…é tudo um problema de lógica da mais simples.

Para se estar morto é preciso estar-se vivo para saber isso.

Se estou morto e não sei que estou morto, então NÃO ESTOU MORTO, simplesmente NÃO ESTOU... nem morto, nem vivo, nem nada.

Se estou morto e sei que estou morto (noutra dimensãono inferno, no céu, com ou sem virgens, depende da crença) é porque estou vivo, logo NÃO ESTOU MORTO.

Conclusão, 

Sempre estarei vivo !!!!!

Voltei adormecer com um sorriso nos lábios, SEMPRE ESTAREI VIVO (eu e minha lucidez)… ATÉ À ETERNIDADE e quando esta acabar … nunca saberei que acabou pois para mim ela é eterna.

Quod erat demonstrandum

PS - Viver perseguido por paradoxos lógicos é uma chatice


sábado, 12 de agosto de 2017

Comam só o que está cozido...

A propósito dos temas e discussões do tipo funciona bem-funciona mal sobre incêndios, Tancos, SIREP, escolas, hospitais, etc" recordei uma história que me foi contada por um trabalhador cabo-verdiano nos meus tempos da Lisnave.

O que ele me contou foi:

Quando era pequeno (7/8 anos) brincava cá fora e a mãe chamou-o para ir buscar uns "gravetos" para o lume, para ela fazer o almoço.
Mais interessado na brincadeira do que no pedido, agarrou tudo o que encontrou à frente e levou à mãe. Ela olhou e só lhe disse "Não tens vergonha?". Envergonhado mas interessado na brincadeira foi-se embora.

À hora de almoço, ele e os irmãos queixaram-se que a "cachupa" estava mal cozida. A mãe olhou para ele e, muito séria, disse: "Comam só o que está cozido".

Ele parou e envergonhado, não almoçou, foi apanhar gravetos. Desde essa altura, nunca, nunca mais, deixou de se preocupar em ser competente em tudo o que faz. 

Acrescentou que o aviso "Come só o que está cozido..." era algo que, de brincadeira. sempre foi dito na família quando alguma ajuda era pedida. Sorrindo disse que, ainda hoje, ele, irmãos e filhos também o fazem. 
A história fazia parte da cultura viva daquela familia.

Recordando o clima de queixas, lamentos, justificações, versões paralelas, argumentações, desculpas e acusações, esta história parece-me actual.

Ou se aprende a ser competente em tudo que se faz ou nos habituamos a "Comer só o que está cozido…" e deixamos a "sem vergonha" andar por aí à solta.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"Politicamente correcto", correcto ou incorrecto?

Li hoje dois artigos, Nunca lutes com um porco, Fernanda Câncio (DN, 7Ago17) e O "politicamente correcto", um embuste direitista, de A. Russo Dias (Medium, 7Ago17) e fiquei com o problema de:

Politicamente correcto, é correcto ou incorrecto?

A primeira ideia foi pensar se este conceito apareceria no século XVIII ou XIX fora dos círculos "intelectuais". Concluí que não, pois a política ainda vivia nos ghettos culturais das classes (muito ou pouco) dominantes e à procura de domínios. 
Os "populares" só se preocupavam com o comer e o dormir, e até o "escrever. ler e contar" não fazia parte das suas reocupações.

PS- Sobre este tema, um livro lido que sempre recordo: O mundo que  perdemos, Peter Laslett, Ed. Cosmo, Lisboa, 1975

Pensando no significado do "politicamente correcto", recordei outra frase da minha adolescência com um significado parecido e uma pequena diferença: "Maria vai com as outras…".

A igualdade é que ambas significam alguém que acompanha a corrente de opinião do grupo a que  pertence. Na verdade, a exclusão social sempre foi um estigma para fugir.

A pequena (e grande) diferença é que, na versão antiga, a tónica eram as preocupações sociais mas, na versão actual, a incidência é a posição política. 

A conclusão a tirar é que, desde o séc. XVIII ao séc XXI, a política saiu do "proibido social" e passou para o quotidiano normal de todos os cidadãos.

Assim, agrada-me esta nova versão e fico contente com a sua existência. Ela não é um reforço, nem uma "munição verbal", é um ponto de partida para obter conclusões políticas.

Isto significa que a sociedade a que pertenço é uma sociedade de cidadãos preocupados com política, querem saber se a ideia exposta é válida sob a sua perspectiva política e afirmá-lo depois de comparar e validar. 
Fazer a afirmação "politicamente correcto" como um "papagaio de feira" sem perceber o que diz, não invalida a frase, invalida o papagaio.

Se sabe o que diz, ao afirmar:

- "Hoje, defender a escravidão é politicamente correcto"
- "Hoje, combater a escravidão é politicamente correcto"

o conceito "politicamente correcto" torna-se um auxiliar ÚTIL para diagnóstico do seu autor.

"Politicamente correcto", elogio ou insulto

A conclusão do "politicamente correcto" ser um elogio ou um insulto depende de dois factores: como se concorda e o que se concorda.

1 - Como se concorda

- "Zézinho, come com talheres!!!", diz a mãe.

Se o Zé decide cumprir o "politicamente correcto" naquela família e o "Zé vai com os outros irmãos…" e come com talheres, então o Zé torna-se uma criança educada, quer acredite ou não que deve comer com talheres.

Se, depois, os pais dizem que ele [...come com talheres porque é o "politicamente correcto"], isso é um elogio e ninguém se preocupa em saber se o faz por acreditar ou por ser obrigado.

Todavia, para quem come com pauzinhos (chineses) isso é um insulto pois significa que é incapaz de  comer como deve ser e apenas segue o "politicamente correcto".

Nos partidos políticos, da esquerda à direita, acontece exactamente o mesmo. 
A mesma acção e a mesma classificação de "politicamente correcto" dita pela direita é um elogio (i.é., pessoa digna) mas dita pela esquerda é um insulto (i.é., papagaio de feira)… e vice versa.

2 - O que se concorda

- "Zézinho é esperto como um burro !!!", diz a mãe.

Isto é elogio ou insulto ?

- "Zézinho é esperto como uma raposa !!!", diz a mãe.

E agora, isto é elogio ou insulto ?

A única diferença existente é entre burro e raposa. Para quem pensa que o burro é uma animal inteligente e leal será um elogio e que pensa que a raposa é um animal matreiro e falso será um insulto.

No conceito "politicamente correcto" acontece o mesmo, a diferença não está nele mas naquilo a que se refere. A questão central é saber "politicamente correcto DE QUÊ e EM QUÊ" ??? 

- "Hoje, defender ...bla, bla,bla,... é politicamente correcto"
- "Hoje, combater ...bla, bla,bla,... é politicamente correcto"

Se este "bla, bla,bla"  não é claro não é elogio nem insulto… é só parvoice instalada.

Mesmo o simples facto do "politicamente correcto" só facilitar ou dificultar acções políticas em curso, a questão tem sempre que se colocar, "QUAIS ACÇÕES POLÍTICAS??", acções de prisões indiscriminadas e linchamentos ou de julgamentos legítimos?

NÃO "Politicamente correcto"


- "O meu primo está em Paris". A informação, quer seja pouca ou muita, é clara e útil, sabe-se onde o primo está e sabe-se onde não está.

- "O meu primo não está em Paris". A informação tem 0,0001 de utilidade, pois não se sabe onde está e, excepto em Paris, pode estar em milhares de sítios possíveis. É apenas uma "informação de complemento".

Do mesmo modo, dizer "é politicamente correcto" fornece informação útil se for trabalhada correctamente. Mas, dizer "não é politicamente correcto" é um "cheque em branco" sem qualquer garantia.

Essa afirmação apenas nos diz o que se recusa mas nada diz sobre o que se quer… sabe-se do que se afasta mas não do que se aproxima. Todos os projectos políticos de base ANTI têm esta característica. Como exemplo na História recente, há várias lutas ANTI ditadura A que originaram PRÓ ditadura B.

PS- Concertações e consensos sociais de base ANTI são, normalmente, cheques em branco sem garantias, com alta probabilidade de se "fugir do crocodilo para cair no jacaré". 

No caso de uma campanha política baseada em movimentos anti-politicamente-correcto, dadas as habituais emotividades detonadas e a indefinição de objectivos pró é, de forma clara, o mundo do infantilismo de cidadania
Sabe-se o que-não-vai-acontecer mas não se tem a mínima ideia do que-vai-acontecer, e são milhares de probabilidades.

Em conclusão, 

concordo com o conceito "politicamente correcto" e o seu uso operacional mas o conceito "não politicamente correcto" é apenas um "placebo lógico" para encher vazios argumentativos.


domingo, 6 de agosto de 2017

Democracia e "proximidade"

No café, uma mãe e dois irmãos, ela (5/6 anos) traquinava na esplanada, ele (10/11 anos) traquinava no telemóvel.
A mãe preocupada, queria que ele acompanhasse a irmã, mas ele não estava interessado. Então, a mãe disse:
- É importante, vais ser o "anjo da guarda" dela…!
- O que é um "anjo da guarda"? - perguntou ele.
- É uma espécie de detective que espreita para ajudar!, ... e convenceu-o.

Tive um choque. De um lado para o outro, na minha cabeça saltitavam as ideias, ditadura, democracia e "anjo da guarda" tudo misturado com dois irmãos felizes, passeando.

Percebi e acalmei. Sociológicamente, tratava-se do uso da proximidade, quer seja psicológica (empatia, simpatia,..) quer seja física (companhia, relação,..), e que pode ter um uso positivo (apoio, liberdade,…) ou negativo (recusa, bloqueio,..).

Na prática, a diferença entre ditadura e democracia resume-se a diferenças na proximidade

ditadura baseia-se no uso da proximidade negativaPolicias secretas e informadores disseminados "à espreita" para controlar, prender, bloquear pessoas; militarizados espalhados nas ruas "à espreita" para enquadrar, obrigar, inactivar pessoas; instituições "à espreita" para impedir, anular, "bagunçar" alternativas diferentes que, então, se chamam Oposições; etc.

democracia baseia-se no uso da proximidade positivaTécnicos disseminados "à espreita" para apoiar, ajudar, tratar pessoas; profissionais em prevenção nas ruas "à espreita" para orientar, socorrer, encaminhar pessoas; instituições "à espreita" para fomentar, recolher, estruturar outras alternativas  e soluções diferentes que, então, se chamam Parcerias; etc.

É impensável numa Ditadura, uma pessoa ir "bater à porta" da instituição e dizer "Eu tenho outra ideia, façam o vosso trabalho… prendam-me". Na Ditadura, o que é real é ela ter clandestinos espalhados pela sociedade para ir a casa dessas pessoas e "apanhá-las". Numa palavra, é o uso, em pleno, da proximidade negativa.

Mas na actual Democracia sucede o contrário. São as pessoas que vão "bater à porta" da instituição e dizem "Eu tenho uma necessidade, façam o vosso trabalho… ajudem-me". 

Na verdade, isto é não-proximidade positiva, é apenas disponibilidade positiva. 
Como exemplo, se o conjuge não der afectividade aos filhos (e à mulher) mas apenas o fizer quando vão ter com ele e lha pedem, isto não se pode chamar proximidade afectiva mas apenas burocracia afectiva, muitas vezes com rotinas instaladas, entrada e saída de casa, etc.

Em conclusão

Esta Democracia é do tipo "faz-de-conta", pois é apenas uma "NÃO-Ditadura" sem chegar a ser Democracia. Na verdade, ela não contém a proximidade positiva que a define.

Actualmente, apenas as campanhas eleitorais e as crises fazem aparecer "fogachos" de proximidade positiva (abraços, beijos, choros, risos, ...) mas depois tudo regressa à burocracia de proximidade Kafequiana tipo "espera e vai-te embora!!" (vide filas de espera nos locais de apoio).

PS - Posso não saber o que se passa na Venezuela (Julho 2017), nem saber quem tem razão, mas posso procurar descobrir quem não tem proximidade positiva e quais as formas e intensidades da proximidade negativa.
ps1- As ditaduras têm votações e comícios "democráticos", portanto, essas evidências não provam nada. A lógica é procurar, principalmente, O QUE NÃO EXISTE e não listar o que existe.