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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Vírus no senso comum, ex., insónia


- Pois é, Dr.,... tenho insónias... passo dias inteiros sem dormir...!!!
- Vou dar-lhe comprimidos para essa doença
, deve tomá-los depois de jantar e dormirá a noite toda!!!
- Mas, mas... ???@%¿¿¿... de noite eu durmo bem... de dia é que não consigo!!!

Realmente as insónias são uma doença estranha pois só há doença à noite, de dia ela desaparece... assim que nasce o Sol, a insónia morre.
A conclusão é óbvia, o vírus da insónia dorme de dia e acorda à noite. Cientificamente será um virus da classe noctívago, pandemia estranha.

Há muitos estudos e estatísticas sobre este vírus noctívago, principalmente nas "teorias" do Pastafarianismo e seus gráficos matemáticos.


Na verdade se relacionarmos dia-noite com insónias o sincronismo fica claro pois [...durante a noite há mais queixas de insónias...]. Não que eu seja adepto das teorias da conspiração mas é de desconfiar que existem agendas escondidas.

Por exemplo, a mézinha de contar carneiros ou fazer auto-hipnose com a mantra "quero dormir, quero dormir" para criar sono, não dá resultado. É a parvoíce de [...querer fechar uma porta obrigando-a a estar aberta...].
Na verdade, o sono é um estado não-consciente e querer criá-lo activando a consciência com truques de contar e dizer montras, não parece lógico. A técnica de [...vou estar acordado a pensar números e contá-los para adormecer) parece-me venda de banha da cobra*.

(*)- Nas anestesias também têm a mania de pôr doente a contar e ele ficar não-consciente, mas se ele em vez de contar...  ele cantar o hino nacional também ficará não-consciente... aliás, senão, os analfabetos não podiam ser anestesiados.
Quando fui operado também disseram para contar números e como percebi que já tinha o anestésico, não contei números e comecei a tentar sentir sensações corporais mas não me lembro de mais nada.
(Ver Pastafarianismo)

"Sabemos tirar a pedra do sapato,
mas não sabemos tirar a ideia da cabeça".
Budismo Zen

Na prática, não se pode tirar uma ideia da cabeça pois para isso acontecer é preciso pensar a ideia e quanto mais se pensa em tirar mais ela se cola à cabeça... [...quanto mais pensa não ter ciúmes mais ciumento fica.]

A solução não é tirar ideias mas inserir outras e as emoções por elas trazidas que resolvam o problema. O agente activo nunca é o cognitivo mas sim o emocional.

O treino não é difícil, cria-se uma mantra, por ex., "amanhã penso nisso", e concentra-se numa ideia emotiva de preferência positiva e não negativa, pois esta apesar de resultar traz parasitas, esquecer uma dor de cabeça com martelada nos dedos do pé pode funcionar mas não aconselho.

A ideia substituta tem função cognitiva mas a energia para o fazer sai da função emocional. Sem o emocional o cognitivo não serve para nada ou, no pior dos casos, a ideia de apoio traz o emocional inverso (vide a seguir o exemplo de Tchakhotine)

Exemplo de S. Tchakhotine

Nos anos 30, a oposição anti-nazi divulgou um cartaz mostrando o poder, a violência e as torturas dos nazis com o objectivo de obter adesões e votos contra eles.
In "Le viol dês foules", pg 289
Na prática este cartaz podia ter sido feito pelos nazis pois é a favor deles. No plano cognitivo dá informação válida e bem conhecida, todavia, no plano emocional "relembra e activa" o terror que eles provocam, terror esse que era o objectivo dos nazis para provocar abstenções.
A oposição, ao lutar deste modo, fazia a estratégia deles, aliás os nazis só perderam a votação em Hamburgo.

Na prática, o cartaz acima mostrado difunde, na forma cognitiva, "a necessidade de lutar contra" mas na forma afectiva provoca avisos de "não te atrevas pois eles são fortes". Assim, o cartaz servirá  para bla-bla's de consensos em conversas e escritos, mas não semeia actos e decisões. (ver estratégias dos grupos autonomes em Paris, Maio68)

Tchakhotine chama-lhe exactamente "intimidação às avessas", ou seja, o objectivo é um, mas vai criar o seu contrário ou, como a sabedoria popular avisa, [...julgando que se benze parte o nariz].
Numa palavra, não se combate uma ideia com conteúdos cognitivos mesclados com conteúdos emocionais que os negam.

Na contradição cognitivo-emocional a emoção ganha sempre. Na teoria, o cognitivo funciona bem mas na prática o emocional derrota-o, como por ex. na violência doméstica em que [...fora do confronto no bla-bla das ideias promete-se não bater mas no confronto nas emoções e nos actos torna-se a bater...]. A informação moral/mural só serve para conversas sociais de conforto psy.

Exemplo de contradição cognitiva-emocional:

No costureiro, durante a prova, dizia a mulher:
- Não gosto muito do vestido, o que achas?
Responde o marido:
- Ele não é bonito, mas com ele ficas muito bem!!!*

(*)-É semelhante ao pai cujo filho passa no exame com nota mínima e ele dá-lhe um beijo de parabéns pela passagem e um estalo de castigo pela nota miserável!
Este é um vírus-do-senso-comum chamado BATER-POR-AMOR PRA EDUCAR!


Os vírus do senso-comum

Os vírus-do-senso-comum são "viventes" estranhos pois usam ideias do senso comum mas consomem energia emocional desse senso comum parasitando outras ideias, por exemplo, o caso do racismo, a violência doméstica, o autoritarismo, etc.

O racismo não é baseado na diferença (clickar) mas na avaliação negativa dessa diferença amalgamada com emoção de desprezo em cocktail com medo, insegurança, inferioridade, etc.
Se houver avaliação positiva da mesma diferença já não haverá racismo porque virá envolvida em  emoções de aceitação, acolhimento, empatia, simpatia, segurança, etc.

A violência doméstica é mais complexa pois tem épocas... ou a diferença é apreciada e valorizada e acontece "alegria, amor, sexo" ou é desprezada e repudiada e acontece raiva, estalos, contusões.

Depois, esta sucessão de épocas fica rotinada ao estilo "disco rachado", ou seja, "roda e toca o mesmo", passando de beijos e abraços pelas diferenças apreciadas a estalos e agressões pelas diferenças desprezadas, com a mesma justificação para ambas [...agora estás diferente...].

Como resumo,
O "ADN" destes vírus-do-senso-comum é "nascido" no cognitivo sob forma de ideia e "alimenta-se" da energia emocional sob forma de parasitismo.

Como defesa, o próprio senso comum criou o equívoco da luta-de-contrários entre o virus e o seu anti-virus, por ex., procurar derrotar o racismo com a ideia de anti-racismo o que não vai funcionar, por exemplo...

...nos USA, no tempo de Lincoln, na Assembleia Legislativa a votação para o fim da escravatura estava num impasse entre as ideias-emoções de igualdade e de diferença entre brancos e negros.
Subitamente, surgiu uma nova emoção vinda duma nova ideia, esta fora da luta de contrários, que foi  a igualdade perante a lei ou diferença perante a lei.

No final, a igualdade perante a lei ganhou e o fim da escravatura foi legalmente aprovado.

Os vírus-do-senso-comum podem sofrer "ataques" com duas dinâmicas diferentes, Luta-de-Contrários ou Aceleração-de-Contrários.

Luta-de-contrários

Os dois elementos de qualquer vírus-do-senso-comum são ideia e emoção.
A questão operacional é simples, luta-se na ideia ou luta-se na emoção? ...ou nos dois ? ...ou em nenhum? ...ou há outra alternativa?

O senso comum europeu está enriquecido e "adicto" à luta-de-contrários (estilo luta-de-machos*).

(*-)- Num estudo do perfil do "macho", concluiu-se que o [...macho luta, ou manifesta-se, para ser apreciado por outros machos, se só mulheres apreciam ele desmotiva-se...], pode ser discutível mas a conclusão é interessante. Será que é também um vírus-do-senso-comum com uma ideia alimentada por emoções doutra ideia de interesses opostos?

Filosoficamente, quer com base em Hegel, espiritualista, quer em Engels, materialista, o resultado é o mesmo, ou seja, [...considera-se solução eficaz o resultado óbvio e necessário do choque entre um elemento e o seu contrário]*, na fórmula TESE, anti-TESE e sin-TESE.

(*)- Vide modelo democrático do sistema de Westminster com Governo e Oposição, e ainda o fascismo-antifascismo, racismo-antiracismo, capitalismo-anticapitalismo, etc.

Todavia, parece que esta dialéctica da luta-de-contrários, quer espiritualista quer materialista quer marxista (luta-de-classes) não só, não resolve o problema como o mantém ou faz aumentar na crença de que é preciso aguentar porque cada um afirma  [...nós é que temos razão...] e cada um acredita que o tempo resolverá a seu favor.

Historicamente, as vitórias da luta-de-classes resultaram sempre no aparecimento doutras classes em luta, no mínimo de classe pró-partido versus classe anti-partido ou classe dos sem partido. Em consequência a classe no poder cria os gulags e quejandos, dependendo do sistema politico criado que pode ser:

- formato hard (ditaduras) ou
- formato soft (democracias ou demokrácias) ou
- formato floppy (democracias com partidos hard, extremistas, populistas, etc).

Aceleração-de-contrários

Exemplo, segundo registos históricos, China séc I, Guerra dos três Reinos:


O rio Yandzi separava dois exércitos em luta, numa margem o Wei (invasor) e na outra o Shu (invadido). Shu não tinha flechas suficientes para se defender com o sistema flecha-contra-inimigo e perderia a batalha.
Assim, ZhuGeLiang, estratega de Shu, decidiu mudar o sistema de atirar-flecha-contra-inimigo para o sistema de receber-flecha-do-inimigo, e para isso resolveu motivar o inimigo a atirar-lhe flechas.

Encheu vários barcos com fardos de palha e decorou-os com bonecos de soldados. Numa manhã enevoada foi "provocar" o inimigo, "atacando" a outra margem.

Cao Cao, o rei de Wei, vendo o ataque deu ordem para disparar flechas e impedir o desembarque.
Ao fim de algum tempo, ZhuGeLiang deu ordem de regresso à sua margem trazendo milhões de flechas em bom estado espetadas na palha.
Mais tarde com elas, atacou e derrotou o inimigo.

Quando estudei estratégia e descobri a aceleração de contrários fiquei encantado, fiz várias experiências de teste e acções concretas na vida militar (Portugal e África) e na vida civil, por ex. na GasLimpo, Lisnave, Finanças (DGCI impostos), Educação, Agricultura, Reforma Administrativa, Economia, Banco de Portugal, BESCL, Mendes Godinho, etc. 

Esta metodologia quando bem pensada é sucesso a 100% e, normalmente, inócua e desconhecida de quem a sofre ou assiste pois tudo parece ser apenas  "coincidência de coincidências".

Por ex., o caso do navio "Quanza" a norte de S.Tomé que depois na averiguação do sucedido pelo Comando Militar e Comando Naval de Angola foi arquivar o processo, pois tudo tinha sido apenas coincidência de coincidências, apesar da queixa do inspector da PIDE que na altura proibi de subir a bordo, obrigando-o a regressar a terra no seu pequeno gasolina.

A metodologia é simples:

1 -  aquilo que o outro faz e não se quer que faça tem que se passar a querer e a facilitar.
O treino pode ser criar um automatismo de pensar "que bom!!!" e procurar a lógica em que isso será "bom" estabelecer a estratégia.

Por ex., em 1977 sendo consultor num Ministério acompanhei um VIP hierárquico a uma reunião. Como ele levava uns dossiers, deu-me a sua pasta (tipo James Bond em alumínio) para eu levar.
Pensei "que bom!!!..." e ao longo dos corredores de azulejos pombalinos, comecei a bater e arrastar levemente a mala pelas paredes fazendo um pequeno ruído. Quando pensava deixá-la cair (esperando que se abrisse), ele parou, tirou-ma da mão e não quis ajudas.
Fiquei contente, afinal não era "embirrar" comigo, eram só maus hábitos de "grande senhor" do "antigamente".

2 -  mudar o sistema, isto é, alterar a sua lógica, ou seja, criar uma situação em que a acção dele será má para ele e boa para mim;

3 -  criar situação de "fecho", ou seja, uma situação final que seja "undo", isto é, seja impossível de anular-o-acontecido (não confundir com desfazer).

O judo é uma boa analogia, pois quando o outro dá um soco não se retribui com socos mas ajuda-se o braço dele a dar o soco... puxando-o, MAS CONVEM mudar o sistema, isto é, manter o movimento do braço mas tirar a cara do caminho.

A -   B -   C -   D -  Quatro exemplos de  testes e experiências na vida militar:

A -  Nos anos 60 os oficiais podiam almoçar ou jantar nas messes mas tinham que levar fato e gravata. Resolvi cumprir vestindo o pullover ao contrário, isto é, com a abertura virada para as costas de modo que a gravata e o colarinho ficassem escondidos debaixo do pullover. Depois vestia o casaco e sentava-me.

Cinco minutos depois, aparecia sempre um oficial superior a "avisar-me", autoritário e em surdina,  que tinha que ir pôr gravata. Levantava-me e, respeitosamente, em voz alta para se ouvir na sala de jantar dizia que tinha  gravata, esticava a gola do pullover para baixo e mostrava a gravata que só assim era visível. 

Os 5 minutos seguintes eram uma delicia pois no silêncio que se seguia, os comensais olhavam-nos,  eu continuava de pé à espera, esticando o pullover e tentando adivinhar "o que iria acontecer?".

Houve várias hipóteses, desde o discreto abandono do problema pelo superior militar até outras acções mais interessantes, como mandar comprar-me outra camisola. O resultado final acabava por ser não me incomodar mais com a necessidade da gravata à mostra.

Em resumo, virem "chatear" era a acção que acelerei para acabar com ela. Para isso mudei o sistema de "gravata à mostra" para "gravata escondida". Na messe da Base Naval um mês foi suficiente para deixar de ser incomodado.
O meu objectivo era apenas pedagógico para testar a técnica e a fixação de culturizações.

B -  Estando como Chefe de Serviço no Grupo Nº2 de Escolas, na Base Naval Lisboa, fui chamado ao Comando porque tinha sido convidado (eu e minha esposa¿?) para, no dia seguinte (Sábado) de manhã, ir fardado à Rocha Conde de Óbidos para apresentar cumprimentos à chegada do Presidente da República que regressava no paquete Moçambique(?).

Perguntei se era convite ou ordem e a resposta sorridente foi que era convite. Então, eu lamentei mas nem eu nem a minha esposa podiamos aceitar. O sorriso transformou-se em esgar e fui informado que era uma ordem.
Respeitosamente concordei mas, como regra e regulamentado, queria levar uma guia para apresentar com local, horas e serviço, pois se fosse atropelado ou tivesse um desastre queria ter uma prova que estava em serviço.
A reunião acabou bruscamente e fui avisado que seria chamado mais tarde.

Assim aconteceu e nessa altura, recebi uma espécie de Guia de Marcha assinada e carimbada. Perguntei ainda a quem me apresentaria na Gare para me assinar a hora de chegada e partida pois não me parecia que pudesse ser o policia de serviço ou o porteiro.

O silêncio instalou-se novamente e fiquei à espera, por fim a solução dada foi apresentar-me a ele próprio que estaria lá. Mandou-me sair.

No sábado de manhã, o cais da Rocha Conde de Óbidos para a espera do desembarque do Presidente, parecia a Feira Popular ou um salão de festa cheio de fardas, políticos, civis, acompanhados por cônjuges, todos conversando de grupo para grupo e bisbilhotados por jornalistas, fotógrafos e curiosos.

Esperei que o 2º Comandante e esposa estivessem conversando num desses grupos, aproximei-me, apresentei-me formal e militarmente. A conversa interrompeu-se, criaram-se expectativas e surpresa.
Estendi a Guia de Marcha e uma caneta pedindo para ele assinar, o que não foi fácil dada a falta de mesa ou suporte para apoiar o papel. 

Depois de conseguir assinar com o papel na palma da mão, entregou-mo, eu declarei ainda voltar antes de ir embora, fiz a protocolar pergunta "Determina mais alguma coisa" e depois da resposta "Não", fiz a continência, afastei-me com o papel na mão e fiquei passeando por ali.

Atrás de mim ficou um ar de expectativa e surpresa e olhares de jornalistas curiosos.
Passado pouco tempo, o 2º Comandante aproximou-se, pediu-me o papel, assinou outra vez e deu-me ordem para regressar à unidade.

Regressei à Base Naval e na unidade (Grupo nº2 EA) entreguei a Guia de Marcha ao oficial de dia para as devidas burocracias e fui para casa.
Na semana seguinte recebi alguns telefonemas pois a "burocracia militar" não sabia o que fazer "àquilo" pois não podia dar entrada se não havia saída e não queria incomodar o Comando. Eu também não sabia e o problema não era meu.
OBS- Nunca mais tive convites destes.

C -   Exemplo acerca da situação de "fecho" que deve sempre "fechar" o processo e não se poder "abrir" (transformar).

No fim da década de 70, eu era um funcionário público "híbrido", isto é, era e não era funcionário público.
Na época, sendo quadro superior da Lisnave como Responsável pela Gestão Provisional de Recursos Humanos (±10.000 empregados), ao abrigo de uma lei criada na época, fui requesitado a tempo integral para consultor no Ministério das Finanças (Impostos), ficando a ser pago parcialmente pela Lisnave e pelo Ministério e onde estive 2 anos.

No inicio, para a tradicional cultura hierárquica administrativa das Finanças eu era uma "espécie esquisita", oscilando entre ser bem aceite ou ser um "gajo das empresas".

No início fiz várias reuniões com directores e seus técnicos tributários onde apresentava para discussão a dinamização do Projecto da Nova Sistemática do Imposto Profissional (substituindo o Imposto Complementar).

Um dia pelas 14:30, numa dessas reuniões sentado ao lado do Director, este ao ficar sem folhas no seu bloco de apontamentos, sem olhar para mim e em voz alta para todo o grupo ouvir, "disse-me" para ir buscar outro bloco.

A situação era claramente uma "afirmação hierárquica" e a minha opção também era simples, obedeço ou não. Sem dizer nada, deixei papeis em cima da mesa, levantei-me e saí.

Saí do Ministério e fui a pé à Papelaria da Moda na Rua do Ouro, comprei dois blocos quadriculados (estilo engenheiro), depois fui às Livrarias Bertrand e Sá da Costa no Chiado ver livros, comprei um, e fui ao café Brasileira para um café e um bolo onde estive a ler o livro.
Passadas mais de 2 horas regressei ao Ministério.

A sala de reuniões estava vazia, os meus papeis continuavam em cima da mesa, agarrei neles e fui entregar o pacote dos blocos a um administrativo do gabinete do Diretor que, por sua vez, lho foi entregar.
O Director apareceu muito espantado porque eu tinha desaparecido e ele, como não sabia o que fazer, tinha cancelado a reunião.

Entrámos no seu gabinete e contei o que tinha acontecido, dizendo que o pacote eram os blocos comprados na Papelaria da Moda, dei-lhe a factura para ele tratar de me devolver o dinheiro.
Com os blocos e factura na mão, ele espantado não dizia nada, conversei um pouco dizendo que tinha tido uma tarde agradável vendo livros e bebendo café e bolo na Brasileira e despedi-me.

Já na saída avisei que depois lhe marcaria outra reunião e avisaria. Ainda acrescentei que se, entretanto, o Secretário de Estado lhe perguntasse opinião sobre o projecto da dinamização dos impostos ele que confirmasse que eu ainda não lhe tinha marcado reunião para ele ir*.

(*-)- Na recruta militar, confirmar subordinação, por ex. fazer sentidos, continências, ordem unida, etc, é a principal técnica para interiorizar obediência... e funciona, às vezes até se põem em sentido a falar ao telefone.

Nunca soube o motivo que ele deu aos subordinados para cancelar a reunião, não perguntei a ninguém e também ninguém me comentou nada.
Ficámos amigos e estivemos juntos várias vezes em trabalho. Penso que ele, sem o perceber, aprendeu que hierarquia não é o mesmo que poder.*

Este vírus-do-senso-comum é vulgar e anda bem instalado nos autoritários, nos militares estilo "rambo", nos políticos estilo "peru" e nos emproados de vários quadrantes.

(*-) Aprendi esta diferença entre hierarquia-poder ainda muito novo, quando oficial recém saído da Escola Naval. 
Promovido a Guarda-Marinha fui colocado no NRP Lima, na altura em fabricos em Lisboa, no estaleiro da Rocha, preparando-se para comissão em Africa. 
Nomeado Oficial de Dia, pelas 23:00 horas passeava no convés quando ouvi, na rua, grande algazarra de risos e cantilenas a aproximar-se, significando regresso de marinheiros em licença... e alcoolizados.
Aproximei-me do portaló e da sentinela, onde já se encontrava à espera o 1ª sargento de serviço com algumas praças da guarda.
O sargento aproximou-se, pediu para falar comigo e afastámo-nos um pouco. Ele "atrapalhado" sugeria que fosse para o lado do mar no outro bordo pois ele receberia as licenças e no fim dir-me-ia como tudo estava. Não percebi nada, disse que sim mas continuei junto ao portaló.

Cada vez mais atrapalhado, ele insistia que era capaz de receber as licenças, iria levar algum tempo, mas podia ficar descansado que ele trataria da burocracia e chamar-me-ia se necessário. 
Levou tempo até eu perceber que ele queria que eu desaparecesse dali pois se ficasse teria que castigar os embriagados ou perdoar e em qualquer dos casos só tinha desvantagens. 
Ele acabou por ser mais claro dizendo que se não conseguisse resolver "a bem" chamar-me-ia.

Em português simples, o poder era dele, eu devia ser o poder que estava por detrás e confiar nele. 

Afastei-me e "oficialzito recente" fiquei pensando naquilo que, mais tarde, percebi ser a cultura dos navios. Em mar agitado com trabalho de muita gente "amolgada" em espaços pequenos com relações "sardinha em lata" durante dias, semanas, meses, o poder tinha que ser usado para equilibrar e não para castigar.

Poder e hierarquia não é o mesmo, a hierarquia recebe-se, é um donativo, o poder é criação, é um semear.

Realmente, pouco tempo depois ele regressou, disse-me que eles apenas vinham contentes e quando fomos percorrer as cobertas, tudo estava calmo, em silêncio e a dormir. Foi isso o registado no  Diário e eu assinei.
Durante o resto da noite, andei a pensar no acontecido e conclui que a melhor forma de usar o poder é não o usar, deixá-lo em standy até ser (e se) necessário... nunca mais esqueci e ficou-me como "instinto" que usei várias vezes.

D -  Em 1967, já com duas comissões em África, pelas minhas previsões eu estaria perto de ser chamado para o curso de Fuzileiros e voltar a África como Comandante de uma Companhia.

Nada interessado na actividade de Fuzileiro, resolvi antecipar o futuro e fiz uma exposição escrita ao Ministro da Marinha onde, em várias páginas, explicava as minhas razões pessoais, sociais, políticas e militares para a minha recusa dessa especialização*. Fiquei à espera.

(*)- Penso que naquela época uma exposição deste assunto, escrita e entregue superiormente, foi caso único nos três ramos das Forças Armadas. 
Do documento dactilografado fizeram-se algumas cópias a stencil (poucas) que foram entregues a camaradas na Marinha e Exército.

Uma semana depois tive resposta oficial. Fui informado ter sido "destacado para a Escola de Fuzileiros e nomeado para o próximo curso".
A data do destacamento era 15 dias antes do começo do curso e, como fui informado oralmente, era para "aculturação" à especialização.

Recebi Guia de Marcha e apresentei-me na Escola de Fuzileiros que na época era comandada pelo Comandante Alpoim Calvão, fuzileiro de renome e medalhado. Fiquei sem funções, esperando o inicio do curso dentro de duas  semanas.
Este "período de férias" permitiu-me "turismo interno" e perceber como as "coisas" funcionavam.

Logo na primeira semana assisti um uma situação que considerei ilegítima, ilegal, anticonstitucional e de duvidosa ética militar e, como oficial, resolvi actuar.
Depois, fui chamado ao Comando e o Comte Alpoim Calvão, na presença de oficiais superiores, deu-me uma repreensão agravada e uma ordem directa para não intervir na situação e quis que confirmasse ter recebido a ordem.

Assim que saí, escrevi um descritivo da situação fazendo queixa do Comte Alpoim Calvão. Nesse descritivo acrescentei comentários e razões justificativas da queixa por ilegalidade, ilegitimidade e militarmente anti-ética.
Entreguei o documento na secretaria da Escola de Fuzileiros para a queixa ter entrada registada.

Uma hora depois estava dentro dum jeep a caminho de uma cela na prisão militar.

Chegado lá, fui encelado isolado e incomunicável, revistado, tiraram cinto, atacadores, canetas,  objectos de barbear, etc, para impedir suicídio ou agressões.

Sempre sózinho, alguns dias depois tive a minha primeira e única visita. Conheci o Dr. Jorge Sá Borges* que entrou pela cela dentro dizendo que era o meu advogado pro Bono.
Foi então que tive as burocracias prisionais e a pedido do Dr. Sá Borges deram-me papel e caneta para poder preparar a defesa.

(*)- Depois do 25 Abril foi Ministro do Trabalho no V Governo Constitucional.

foto na prisão
com farda emprestada
Durante a prisão e sem passeios no pátio, fazia yoga e "arrumava ideias". Pensava que, na verdade, a vida é uma sucessão surpresas pois é cheia de coincidências e suas consequências, mas somos treinados a não ver e a não decidir e a seguir pelos trilhos ás cegas.

Neste caso, em cinco dias, fui transferido para os Fuzileiros para comandar uma Companhia e  também de lá fui re-transferido. O "poder" pôs-me lá e o "poder" tirou-me de lá, ou seja, por coincidência, o meu pedido escrito na exposição ao Ministro tinha sido realizado.

Porém, tinha consciência de que faltava ainda o resto da história, o chamado "fecho da situação", e isso preocupava-me.
Comecei a preparar a defesa para a discutir com o Dr. Sá Borges e, segundo recuerdos existentes, o meu resumo tinha 5 pontos:

1 - Não tinha desobedecido à ordem directa pois ela não incluía "não fazer queixa";
2 - Não tinha voltado a intervir na situação pois nem sequer lá tinha voltado;
3 - Não tinha existido curtocircuito hierárquico, pois a queixa contra o Comte Alpoim Calvão fora entregue ao próprio Comte Alpoim Calvão;
4 - O problema resumia-se a definir se o conteúdo da queixa, isto é, as ordens contestadas, eram legais e legitimas ou ilegais e ilegítimas.
5 - Num caso ou noutro poderia ser culpado pela forma irregular utilizada na queixa e ser inocente pela legitimidade do conteúdo da queixa.

Nas conversas com o Dr. Sá Borges eu insistia muito no ponto 5 e ele não concordava, mas eu não queria o sistema "culpado ou inocente", mas sim o sistema "culpado e inocente". Esta diferença para mim era fundamental para o "fecho da Situação".

Na verdade, ser culpado implicava manter válida a prisão sofrida e, pela OSN e RDM da altura (artg 46, 47, 48)*, aos oficiais castigados com pena de prisão disciplinar agravada implicava sua transferência de unidade que, neste caso, correspondia a sair dos Fuzileiros.
Por outro lado, ser inocente implicava a queixa ter sentido, haver anulação da pena de prisão (já sofrida) e o regresso à Escola de Fuzileiros, talvez com novo comandante.

(*-) Não sendo advogado, em S.Tomé comecei a enfichar artigos militares e civis, em cujas fichas eu anotava possíveis áreas de manobra ou áreas confusas que me ajudaram nalguns incidentes. 
Por exemplo, os transportes S.Tomé-Principe eram por avião, pois por piroga ou barco pequeno não eram possíveis pela distância e tipo de mar e não havia "cacilheiros". 
As famílias divididas entre as duas ilhas levavam meses ou anos para ter lugar no avião. 

Num novo sistema de fiscalização por mim sugerido ao Governador e aprovado, eu iria todos os meses ao Principe para uma estadia de 8 a 10 dias.
Resolvi também começar a levar alguns passageiros civis e famílias com suas bagagens "vivas" (galinhas, leitões, cabritos, etc.). Fazia constar, apareciam voluntários e eu seleccionava. Corria bem mas surgiram oposições militares, policiais (PIDE) e até administrativas. 

Nos briefings consequentes com o Governador e outras autoridades, justifiquei as viagens com o apoio de regras e teorias da PsicoSocial militar versus populações. Obtive o acordo do Governador Coronel Silva Sebastião (lúcido e inteligente) e de outros participantes com excepção do Inspector da PIDE que "perdia o controlo" (o que quer que isso fosse) e, no mínimo, queria escolher os passageiros o que eu recusava porque "perdia o controlo" (o que quer que isso fosse), argumento que sempre que utilizava fazia sorrir o Governador..

Regressado a Lisboa mantive o sistema de fichas de artigos legais com comentários para uso, mas inclui regulamentos da PSP e GNR. Alguns artigos eram bem diferentes do óbvio regulamentar usado no dia-a dia.

Durante o levantamento dos autos pelo Comte Silva Horta, nas perguntas e respostas e eventuais conversas ad latere, por coincidência, o conceito "culpado e inocente" começou a surgir como lógica possível nas nuances das "opiniões militares". A frase "se tem feito doutra forma não teria este problema" foi-me dito algumas vezes.

Conclusão em meados de 1968:

1- O Comandante Alpoim Calvão foi castigado com a pena de repreensão agravada, deixou o comando da Escola de Fuzileiros, recebeu a medalha de prata de serviços distintos pelo trabalho lá realizado, e foi destacado para a Guiné.
(ver versão A. Calvão in Extrato de A guerra da Africa, Ataque a Conacry, Alpoim Calvão,)

2- No meu caso, a conclusão foi culpado na forma e inocente no conteudo, pois além da prisão já sofrida não me aconteceu mais nada.

Em reunião com o Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo, foi proposto que pedisse a demissão de oficial dos Quadros Permanentes (pedido esse que estava proibido e bloqueado para os três ramos das Forças Armadas) e garantia que dentro de dois anos seria aprovado.
Entretanto, fui nomeado Director do Centro de Instrução de Educação Física da Armada (CEFA), uma unidade com muita actividade formativa, com um corpo de professores civis licenciados e instrutores e militares e civis, onde ficaria até que o pedido de demissão fosse aprovado, o que aconteceu ano e meio depois.

Na 1ª semana de Jan 1970, após passagem do ano, fui transferido para o Ministério da Marinha, (1ª Repartição: oficiais). Lá estavam dois oficiais à minha espera que me comunicaram que o meu Pedido de Demissão tinha sido aprovado, deram-me papeis para assinar e informaram-me que a partir de agora era civil, estava proibido de usar farda, podendo ser preso, e podia ir-me embora. Era pessoal simpático e educado.

O vírus da insónia

É semelhante a outros virus do senso comum, porém, é um vírus com mutações (por ex. em Espanha) e tem duas versões:

A - sonolência: é quando a emoção (corpo) quer dormir e a ideia NÃO quer dormir;

B - insónia: é quando a emoção (corpo) NÃO quer dormir e a ideia quer dormir;

ou seja, em ambas há uma luta de contrários mas, como a emoção tem mais energia que a ideia, o senso comum ensina a contratar "mercenários" (medicamentos) para derrotar o corpo e pô-lo a obedecer à ideia.
Depois o corpo adoece e são precisos outros "mercenários" (medicamentos) para melhorar o corpo e tudo se repetirá até que as ideias também adoecem e outros "mercenários" (medicamentos) surgem para enfraquecer as ideias... e surge o caos do desequilibrio às vezes com vitória da ideia de suicídio ou droga, alcool, cocaína, heroína, etc.

Conclusão, a solução medicamentosa é um caos mas é o único vencedor pois, como a História ensina, quando mercenários ou revoltosos ou partidos ou medicamentos ajudam a conquistar o poder são eles que ficam no poder.*

(*-) O 25 Abril em Portugal é uma excepção, pois os militares conquistaram o poder e não ficaram no poder.

Em alternativa a este caos, prefiro aceleração de contrários e não a ineficaz luta-de-contrários.

Em resumo,
a energia das ideias vem das emoções e como a sabedoria antiga avisa [...como te sentes assim farás...] ou parafraseando [... como te sentes assim DECIDIRÁS...], ou em conclusão é o cognitivo que "obedece" ao emocional e não o contrário.
É interessante a justificação de jovens e adultos para esta situação, dizendo apenas [...passei-me e não pensei...].

Em síntese, é melhor não lutar contra emoções mas apoiar emoções, acelerá-las e mudar a lógica do sistema.

A - sonolência

É quando a emoção (corpo) quer dormir e a ideia NÃO quer dormir, ou seja, é quando este vírus-do-senso-comum usa a ideia [...o dia é pra trabalhar, a noite é pra dormir] e cria a pandemia das sonolência de dia.
Há 2 alternativas como solução:

1ª - a primeira  é aceitar a "sabedoria" corporal, não lutar contra a sonolência e dormitar uma soneca. 

Por experiência pessoal, em 30 minutos relaxado é suficiente e não é preciso dormir. Distribuir assim: 

- 5 minutos para pesquisa de tensões musculares e sua distensão por relaxação e não por hipotensão;

- 5 minutos para "sossegar" a respiração, ritmando-a em lentidão e não-esforço no seu ciclo de  inspirar-apneia-expirar-apneia, sempre com o expirar em dobro do inspirar. 
Se possível, é preferível uma respiração abdominal-complecta e não apenas toráxica ao estilo militar de "perú inchado" com peito pra fora, barriga pra dentro;
 - 20 minutos para repouso e relaxação.

O problema desta opção é escolher  o local e o mais vulgar nas organizações é a escolha do WC. 
Não gosto, não só por ser incómodo como também por ter mau ambiente, companhias dispensáveis e "emoções" depressivas,  além do risco das habituais partidas... é pior a emenda do que o soneto. 
É preciso inventar e escolher bem o local, umas vezes é fácil outras dificil, por exemplo:

...nos Ministérios, uma solução possível é deixar o carro acessível em lugar "discreto" e depois deitar-se lá dentro com o banco em posição baixa. Convem ter à mão um frasco com remédio para problemas estomacais (Magnésia Bisurada¿¿)... just in case... de precisar justificação!!

Antes da ida para o carro, convém abraçar alguns dossiers, "passear apressado" por corredores e gabinetes, fazer uma ou outra pergunta e desaparecer com ar preocupado. Depois é só ir repousar calmamente para o carro. Se for procurado, haverá sempre várias testemunhas afirmando que "Esteve aqui mesmo agora... e trazia dossiers" .

Na Lisnave, com o carro longe e em estacionamentos indiscretos, um Centro de Documentação ou biblioteca pouco frequentada é uma opção, se com cadeirões agradáveis. Nestes casos convém "esquecer" um dossier e algumas revistas no chão em frente a uma estante ali perto. Se alguém entra a preocupação de não as pisar dará tempo para passar do "sistema repouso" ao "sistema trabalho". 


2ª - a segunda, considerando que não se pode tirar ideias da cabeça nem lutar contra elas pois ficam mais fortes, a solução é instalar outra ideia com forte carga emocional que se torne dominante*.

(*-) É a chamada estratégia de galos no poleiro, ou seja, vão empurrando o outro para o extremo até que ele cai do poleiro.

Por ex., se ao namorar (pré-cônjuge ou já-cônjuge) surge sonolência, então, é preciso arranjar uma paixão virtual por alguém (estrela de cinema?) e pensar namoros intensos ou, se tem pouca imaginação ver ao mesmo tempo filmes na TV (se porno o outro pode sentir ménage à trois). Na verdade, emoções activadas com o virtual energizam a sonolência*.
Se der resultado convém mudar de namoro (ou iniciar divórcio) logo que possível pois problemas maiores irão aparecer.

(*-) Quando professor na universidade às vezes detectava namoricos em gestação. Se um deles estava sonolento, fazia perguntas ao outro e o sonolento acordava logo. Não era preciso remédios, a sonolência nunca mais aparecia e a atenção instalava-se.

Quando Director de RH da GasLimpo (Grupo Lisnave) tive este problema de sonolência depois de almoço. Não podendo "fugir" resolvi inserir em mim próprio ideias com emotividade e para isso alterei os meus horários.

Decidi que de manhã, que para mim são boas horas de trabalho, não estava para ninguém, era um período de trabalho solitário de estudo, projectos e decisões.

À tarde, logo a seguir ao almoço, surgia a sonolência, por isso a tarde passou a ser um "período de caos". Era ocasião para despachos, reuniões com trabalhadores, comissões, delegados sindicais, conflitos, autorizações, problemas, decisões, etc. Período animado da rotina de RH em 1975/76/77.

Outra alternativa era estar num projecto que não me desse descanso, foi o que aconteceu na GasLimpo com a crise dos eventuais e na Lisnave com as Reformas antecipadas.


Em 1975/76, a GasLimpo, empresa com 5 navios para desgasificação e um terminal fixo em Setúbal  (Mitrena) tinha milhares de empregados entre efectivos e eventuais. Estes constituiam o "balão", ou seja, 2.000 a 3.000 eventuais que trabalhavam no máximo 8 a 15 dias/mês para não obterem efectividade e cuja necessidade dependia dos petroleiros em reparação. 

Eles próprios tinham comissões para esse controlo pois a passagem de eventuais a efectivos reduziria a quantidade de trabalho para os eventuais que ficavam. Tentava-se obter o equilibrio do máximo de empregados mensais dentro das horas de trabalho mensal existente e disponível. Problema complexo cheio de variáveis, pressões, cunhas, etc.

Quando por lei este "paradoxo democrático" do balão foi proibido assistiu-se no País a greves e paralisações com o problema de quem fica e quem sai, pois este equilibrio deseqilibrado, bom ou mau, ia acabar.

Na GasLimpo o "balão" dos eventuais foi resolvido e uma percentagem deles passou a efectivos e outra percentagem não passou, mas não houve greves nem paralisações.
Foram meses de reuniões, comissões, assembleias restritas, alargadas e gerais com e sem delegados sindicais e/ou partidários, na procura de regras, critérios, percentagens e suas aplicações. Finalmente após acordos aprovados foram aplicados.

Penso que houve um ponto crítico fundamental. O habitual na solução deste problema era negociarem-se percentagens dos quantitativos a aprovar para efectivos com base em previsão do trabalho e massa salarial em causa. Acordadas estas percentagens passava-se à negociação de regras e critérios para concretização. 

Porém, na prática os conflitos instalavam-se e o virus da greve alastrava. A razão era simples.
Ao aplicar as regras e os critérios acordados era vulgar que em grupos nas mesmas condições uns empregados entravam para efectivos e outros não, por limitação de vagas imposta pelas percentagens. 

Com esta situação ilógica as greves e paralizações nasciam pois criavam-se grupos de "clientes activos" contra o processo aproveitados pelos activadores de greves por interesses políticos.

Na GasLimpo funcionou-se ao contrário.
Em reuniões da Administração e direcção definiram-se zonas de percentagem de quantitativos para passar a efectivos com limites máximos e mínimos lógicos na triologia emprego, trabalho e massa salarial.

Depois nas negociações com os orçãos dos trabalhadores eventuais (comissões, assembleias restritas, alargadas e gerais) definiam-se regras e critérios cuja aplicação originasse quantitativos dentro das zonas já definidas mas flexíveis na quantidade final.

Se nas simulações surgissem grupos com as mesmas condições em que houvesse vagas para uns e não para outros ou se reformulavam regras e critérios para dentro cair dentro ou fora das zonas definidas ou se houvesse ainda flexibilidade entravam todos.

A regra era simples, depois do acordo nunca se fragmentavam grupos afins. Com certo espanto meu, quer na empresa, quer nos trabalhadores e seus orgãos negociadores, isto era aceite por todos e todos ajudavam e apoiavam que isso acontecesse... que alguns não ficariam já se sabia, a questão era existirem regras iguais para todos sem "uns filhos e outros enteados" como se dizia muitas vezes nas reuniões.

O paradigma para as negociações era simples, depois de acordadas regras e critérios, na sua aplicação não haveria excepções, tudo seria transparente e rígido a 100%. 
O acordado seria cumprido e a regra habitual de consensos estilo banha-da-cobra de "depois as excepções vêem-se os caso-a caso" aqui não existiria.

O virus da greve foi morto à nascença.
A crise dos eventuais foi resolvida sem greves nem paralisações.

Mais tarde, nas reformas antecipadas da Lisnave em 1978/79 sendo responsável pela Gestão Previsional de RH, consegui convencer o Adminitrador* deste o formato, ou seja, da rigidez nas regras e critérios e flexibilidade nas percentagens dentro de limites rígidos, que foi aceite e foi um êxito.
(*-) Mais tarde Ministro da Agricultura onde então estive 2 anos como consultor.

Do objectivo inicial de 350/400 reformas antecipadas, em nove meses fizeram-se 1.970 reformas antecipadas volutárias sem oposição activa de comissões de trabalhadores, delegados sindicais e partidários.

Ainda tenho algumas folhas das matrizes que na altura foram calculadas para previsões das áreas de percentagens de reformados e possibilitar depois as negociações de regras e critérios com os orgãos sociais dos trabalhadores.
Economistas e advogados foram cruciais na equipa para construir as matrizes e adaptar as previsões àss consequências das alterações por pressão das negociações... e possibilitar re-negociar.

Um dos pontos mais sensivel e que deu mais trabalho foi o equilíbrio idade-antiguidade-pensão considerando o universo de 10.000 pessoas dos 30 aos 60 anos de idade com antiguidades de 5 a 45 anos e salários/vencimentos muito diferentes. A lógica das variações tinha que ser LÓGICA e, se acordada, o seu cumprimento tinha que ser rígido.

Recordando esse passado, hoje penso mais dois factores ajudaram. Um foi a criação de um seguro continuado para proteger as reformas antecipadas de eventual crise de pagamento de salários no futuro (como acabou por suceder).

Outro factor foi a criação de equipas de atendimento a trabalhadores e famílias para explicação e informação de toda o processo através de marcação prévia. Este anúncio foi publicitado nos lugares e formas habituais da empresa, comunicado aos orgãos dos trabalhadores e enviado ao trabalhador por carta e para casa.

O problema de atendimento de famílias, mulher do trabalhador, marido da trabalhadora, foi quente, quer nos orgãos dos trabalhadores que na Administração. O argumento foi que a reforma antecipada era o futuro da família portanto deveria haver condições para isso ser conversado com todos que o quisessem (e foram muitos).
A meio do processo já sem oposições activas de orgãos sociais e perto das mil candidaturas entregues, este processo simplificou-se e o atendimento desapareceu.

O atendimento baseava-se em marcações de dia/hora (quer sozinho quer com familiares). Intencionalmente procurava-se ter por hora 8 a 10 pessoas que esperavam numa sala e o atendimento começava sempre atrasado pelo menos 30 minutos.

O objectivo era que, nesse espaço-tempo, concordando ou não, conversassem entre si e trocassem opiniões, problemas e dúvidas. Se a conversa estava intensa aumentava-se a espera. Depois havia  um atendedor  por pessoa e familia e eram atendidas de modo privado.

A ideia era acelerar e não lutar contra dúvidas mas sim criar o máximo de problemas e dúvidas e dar o máximo de informação consequente. 

Querer a reforma antecipada implicava assinar uma candidatura cujo formulário era entregue nessa ocasião mas só poderia ser entregue assinado dias depois e se entregue poderia desistir até ao dia final do período de entrega.

Na verdade, não se combatem comícios, slogans, boatos e palavras de ordem com outros anticomicios, slogans, etc, mas sim, com redes de conversas alargadas de ideias a flutuar por todo o lado e à revelia de enquadramentos.

B - insónia

Quando a emoção (corpo) NÃO quer dormir e a ideia quer dormir, a solução tradicional, óbvia e instantânea é obrigar o corpo a querer dormir, ou seja, usa a mesma ideia [...de dia é pra trabalhar, de noite é pra dormir] mas ao contrário e surge a pandemia das insónias.

O interessante é que o senso-comum espanhol diz que a tarde também é para dormir e chama-lhe sesta, portanto lá também há insónias de dia e então,"cientificamente" é chamado um virus mutante pois já não é só noctívago mas também diurno.

No meu caso desde que me lembro sempre me irritou deitar-me à noite e só acordar horas depois no outro dia de manhã, pensava... Raisupartiça😖&;#;¿¿;!@;$!#%... tantas horas perdidas... que parvoíce.

Recordo que adolescente, adormecendo a ler um livro às vezes acordava a meio da noite e continuava a leitura.
Sempre gostei de acordar 2 a 3 vezes por noite e ficar a saborear o silêncio, o abandono e o nada-a-fazer desses momentos. Saboreava e acabava por acordar umas 3 horas depois.

Quando nos navios a navegar, como oficial de quarto era sempre voluntário para trocar para o quarto da 00:00 às 0400 e tinha sempre candidatos. Depois, às 0400 comia qualquer coisa e o período acordado até adormecer era o meu descanso.

Ainda hoje é assim, acordo sempre 2/3 vezes por noite. Tenho sempre papel e caneta à cabeceira, acordo, saboreio o abandono à cama e as ideias saltam e arrastam outras, uma espécie de sonho acordado, sem ser o lucid dream que estudei, por diferente eu chamo-lhe sonho sonolento.

Chego a estar 2 horas acordado, relaxado com ideias a fluir e de manhã nunca estou cansado.
Todavia se durmo sem interrupções quando acordo ando meio-dormente, tonto e sem energia, só um duche me salva.

Se as ideias do sonho sonolento são para pensar, acendo uma lanterna* (hoje do telemóvel) e escrevo tópicos (mas não textos pois destroiem o clima).

(*-) - Taoistas e budistas aconselham uma vela e, por experiência pessoal, realmente a luz do candeeiro se acendido destrói o clima e o sonho sonolento passa a real acordado. Como acender velas é complicado adoptei uma lanterna franquinha, mas actualmente uso a do telemovel. 

Não uso "drogas" nem para dormir nem para estar acordado, um simples chá de tília à noite põe-me a dormir 24 horas.
Quando jovem oficial em África num navio em comissão, o médico de bordo devido a queixas minhas deu-me um Mogadon10 para eu "descansar"... e eu dormi que não acordava.
Quando dois dias depois normalizei soube que tinha estado em risco de evacuado para Lisboa pelo "esquisito" da situação. Depois, a piada do dia era que da próxima vez todos se cotizavam e me ofereciam uma garrafa de whiskey para substituir o Mogadon10.

Conclusão

O senso comum é o mar em que todos navegamos. Tem as suas correntes, vagas, bonanças, e tempestades. Uns navegam pela bússola, outros pelas estrelas e outros rezam ao Neptuno.

Também há muitos que flutuam ao sabor das ondas e limitam-se a manter a cabeça fora de água, agarrando-se a tudo que bóia à sua volta e esquecem-se de observar,  concluir e decidir... porém nem os chamados animais são assim tão imbecis,
(ver video)



quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pedras têm música? Sim, às vezes!!

Quando há gato escondido com rabo de fora...

...pode ser um cocktail de Coincidências ou, pelo contrário, uma Teoria da Conspiração ou Conspiração de Teorias que hoje são moda, requintadamente, chamadas FakeNews. 

Dantes, no "calão", eram conhecidas como "bocas" mas, nos "salões" eram titulados como boatos desprezáveis transmitidos em surdina e certa vergonha.
Os seus profissionais chamavam-se bilhardeiros, coscuvilheiros, boateiros, etc. e eram comparados a palonços risíveis, mas, agora são profissionais de FakeNews e passaram a técnicos e consultores especializados* bem pagos em áreas políticas, económicas, vendas, etc.

(*)- Goebbels, como Ministro da Propaganda Nazi fez várias "campanhas difamatórias", as FakeNews da época como, por exemplo, a do "Isidore" contra o jurista Bernhard Weiss.

Caçar FakeNews, o seu como, onde e porquê, por um lado é uma actividade interessante como treino de lucidez e defesa anti-papalvo e, por outro lado, talvez se descubra uma pista de um fenómeno de [gato escondido com o rabo de fora] e, portanto, a FakeNews talvez seja NEWS em formato FAKE.

PS - Como hobby pessoal abandonei as "palavras cruzadas" e adoptei "caçar fakenews" nas noticias e comentários, divertindo-me a "desnudar" essas afirmações trazendo a parvoíce a nu e não me preocupando em contra-argumentos.

Após este intróito, e como diz a sabedoria popular, vamos lá ["atiçar" e assanhar o gato] apresentando um caso:

No século XII,
os Templários estiveram vários anos em Jerusalém e regressados à Europa, por aqui, construíram várias capelas e igrejas...

No séc. XV,
... uma delas foi a capela Rosslyn na Escócia, a sul de Edimburgo, que tem várias padrões gravados nas suas paredes, por exemplo:



No século XVIII, 
Ernst Chladni descobriu que uma nota musical se tocada perto de uma folha de metal coberta de pó, a sua frequência  vai activar o pó e fazê-lo mover-se desenhar padrões específicos:


OBS: diferentes notas musicais provocam diferentes padrões, geométricos ou não: losangos, hexágonos, flores, etc. Cientificamente foram chamados Padrões Cymatics ou Chladni.

No século XX,
Thomas J. Mitchell descobriu (decifrou, compreendeu) que, se os padrões expressavam sons musicais, eles poderiam, ser traduzidos em simbolos musicais e depois, se estes símbolos fossem reproduzidos por instrumentos musicais ou voz, eles expressariam os sons que os criaram, logo os padrões poderiam ser tocados ou cantados.

Numa palavra, os Padrões Cymatics ou Chladni eram uma escrita musical que poderia ser traduzida para a actual notação musical:


Com esta conclusão, então os 213 rectângulos esculpidos nas paredes da capela Rosslyn em Edimburgo poderiam ser Padrões Chladni que expressos na notação musical actual permitiria ouvir a música que eles codificavam.

Tal foi feito e nasceu o Rosslyn Motet (2m 40s):



A questão interessante é saber se existe aqui uma Teoria da Conspiração ou uma Conspiração de Teorias, ou apenas uma coincidência em que...

...por coincidência pedreiros do séc XV decoraram as paredes da capela com criatividade aleatória de símbolos e depois por coincidência esses símbolos são iguais a efeitos de frequências sonoras descobertos no séc XVIII e depois por coincidência no séc XX descobre-se que a sua sucessão é uma estrutura musical e não uma cacofonia.

Hhhaaauu... pessoalmente adoro estas coincidências porque depois fico "a passear no fio da navalha", ou seja, não sei onde vou chegar, se caio não sei para onde e se paro a navalha corta. Portanto, só me resta caminhar de olhos abertos, de cabeça pensante e abraçar lógicas desconhecidas.

Aqui a questão é simples é só saber:

como é que no séc. XV há esculturas que, hoje, são "lisíveis" como Padrões Chladni que só foram descobertos 300 anos depois, no séc XVIII, e cujo conjunto tem alta probabilidade de ser cacofonia... e, no séc XX, provou-se que não é.

Cientificamente, e com os pés na Terra, decidi ser um normal do senso comun e concluir que é por coincidência, mas também pensei no ditado chinês (parafraseando) "quando o dedo aponta a lua... o idiota olha pró dedo" e eu detesto ser idiota a olhar para dedos, prefiro ser idiota a olhar prás Luas*...

(*)- ...pois há várias poesias sobre a "lua" mas não conheço poesia sobre o "dedo".

Assim, fiquei [com uma pedra no sapato] e o problema foi armazenado nos "...a bisbilhotar" em conjunto com várias perguntas pendentes.



quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Fisica e "trambolhão" mental: Eu sou o quê?

TEMA
O mundo é muito diferente se pensado com leis da Fisica Newtoniana (estilo séc XX) ou com leis da Fisica Quântica (estilo séc XXI)... e o socrático "Conhece-te a ti mesmo" entra em crise.

O problema é simples:
Temos um corpo feito de células (moléculas) que vivem de acordo com as leis Newtonianas. Mas as células são feitas de átomos cujas partículas sub-atómicas vivem de acordo com leis Quânticas.
Assim, EU SOU O QUÊ...(???)

...se, na verdade, sou um híbrido que vive em dois mundos, cada um deles com paradigmas e leis diferentes e que coexistem em harmonia.

Duas perguntas:

1ª - Poderei escolher e "saltar" da realidade física das moléculas para a realidade quântica das partículas sub-átomicas? 
2ª - Será disto de que falam experiências místicas (e religiosas) quer antigas quer actuais?

Foto de aura (energia electro-magnética: quântica ?!)
OBS- Durante este fotografar o pano de fundo era preto e, imediatamente após o disparo, foi esta a foto expelida pela máquina polaroide. 
Estive a checar fotos seguintes e nelas as pessoas eram envolvidas com cores e matizes diferenciadas.
Não tenho dúvida que a foto é uma evidência de algo... mas tenho dúvidas que seja prova de aura.

INDICE
1 -Introdução 
2 - Era uma vez... 
3 - Conclusão 

1 - Introdução
        

Estou contente com o meu choque cultural da passagem do séc. XX para o séc. XXI.
Graças à Ciência Fisica sinto-me um Galileu moderno a copiar o seu trauma de passar da Terra-plana para a Terra-redonda.

Todavia para o meu trauma não precisei de telescópio bastou-me um espelho. Olhei e vi o meu corpo fisico com suas moléculas, obediente à Fisica Neutoniana, mas sabia que ele continha o meu corpo quântico feito de quantum's e, estando ali não estava lá, vivia noutra realidade com paradigmas opostos.

Como analogia é como descobrir que um muro imóvel na verdade contém tijolos aos saltos e conexões diversas e podem estar entrelaçados a tijolos do outro lado da Terra*.

(*-) Ver experiências de Física Quântica (CERN - Laboratório Europeu de Física de Partículas)

Imaginar que se pode passar do estado newtoniano ao estado quântico por decisão pessoal é um sonho que alimenta uma vida. Pode não se encontrar a solução do "saltitar" entre eles, mas é excitante viver essa possibilidade da solução.

Alguns autores relacionam o corpo com as leis newtonianas e as ideias com as leis quânticas e o pensar com a dança quântica dos quantum's entre corpo e ideias, provocando efeitos soma-psiquicos e psico-somáticos, muitas vezes alcunhados de "milagres".

Este conjunto [corpo-ideias-pensar], trilogia de base quântica, poderá ser o núcleo duro dos misticismos*, (filosofias, religiões, mitos, crenças, shamanismos, etc) que desde a antiguidade até à época actual tem centenas de escolas e tendências, milhares de místicos e métodos de participar, rezar, meditar, treinos e ensinar.

(*-) Ver The Cambridge Handbook of Western Mysticism and Esotericism, Glenn Alexander Magee (Editor) 

Como exemplo uma pequena parte da "Arvore de Mitos e Religiões :


Desde a Pré-História que os humanos criaram métodos de ensino e treino para desenvolvimento do fisico-músculos (guerra, caça, etc) e da mente-ideias (falar com o "invisível", Deuses, etc) e criaram rituais e técnicas (canções, danças, rezas, meditações, etc) para integração dos dois.

Em síntese, a aplicação da trilogia [corpo-ideias-pensar] foi usada para criar, a par da materialização de comunidades humanas, como também, da sua espiritualização.

Como conclusão 

Se por um lado a Física Newtoniana "comanda" o corpo e a Física Quântica "comanda" as ideias, por outro lado, desde a Antiguidade, a quantidade e a complexidade dos métodos-técnicas de treinos musculares são mais reduzidos que os métodos-técnicas mentais.

Então, parece que, na prática, a coberto* de mitos, religiões, crenças, shamanismo, etc, as preocupações e variabilidade de resultados em áreas "¿quânticas¿" tiveram desde sempre uma maior incidência nas preocupações humanas**.

(*-)  Não considero aqui técnicas tribais e shamânicas com alucinógenos, cogumelos, ayahuasca, peiote, iboga, salvia, etc. Foram encontrados alucinógenos com 3000-2500 anos em escavações arqueológicas na America do Sul, Antilhas, Africa, etc, que ainda hoje fazem parte da cultura tribal, para efeitos EAC (ver Estados Alterados da Consciência; Altered states of consciousness: a book of readings, Editor Charles T. Tart, John Wiley & Sons, Inc.)

(**-) Rupert Sheldrake (biólogo) tem um livro interessante sobre meditação e vida humana, animais, plantas, sociedade, etc, "Science and Spiritual Practices" (through direct experience) com análises de práticas psicosomaticas e somapsiquicas de transformação do viver, por ex., meditação e mente (pag 23), rituais (pg 111), peregrinações (pag 162), etc, com uma extensa bibliografia final de 150 referências.


2 - Era uma vez... (alternativa 1)

...um senhor chamado Newton que criou a Física Clássica ao integrar Física e Matemática com fórmulas que se aprende na escola. Esta Física Newtoniana fez cultura "popular" e os seus quatro paradigmas invadiram o pensamento ocidental de Kant a Freud passando por Marx, Rousseau, etc, e criaram um senso comum quotidiano.

Este senso comum ocidental deu estrutura e compreensão não só ao mundo à nossa volta como a nós próprios no mundo. Sabemos o que é a matéria, a sandwich espaço-tempo e a dupla parado-movimento, e ainda a lógica causa-consequência e a sub-lógica passado-presente-futuro. 

Na verdade, toda esta Fisica Clássica do senhor Newton (...e Einstein?!) se baseia em quatro paradigmas:

- Realidade - mundo físico é concreto e objectivo;
- Localidade - tudo precisa de influência fisica para se mover;
- Causalidade - primeiro há causa e depois efeito;
- Continuidade - pressupõe que o tempo "não pára e não anda para trás"

É a Ciência Física do "senso comum" (dignificada pela Matemática) e o senso comum da "Física Newtoniana" (dignificado pela Educação) que passou das classes instruídas às classes analfabetas "encostada" ao óbvio dos 5 sentidos a garantir a validade*.

(*-) É interessante porque, historicamente, também foi o o óbvio dos 5 sentidos a garantir a validade da [Terra plana] e a impedir a aceitação da [Terra redonda, pelo seu não-óbvio].

Aplicando os quatro paradigmas a uma situação concreta:


- Realidade - 3 objectos concretos, distintos e objectivos: pistola, bala e alvo;
- Localidade - bala move-se por influência fisica da explosão na pistola;
- Causalidade - primeiro acontece a explosão depois a bala move-se e depois atinge o alvo;
- Continuidade - depois de alvo atingido é impossível des-atingir o alvo (fazer undo: anular o      feito).

Utilizando as leis de Newton é possível expressar todos estes processos em linguagem matemática (expressões, fórmulas, cálculos, etc).


 Era uma vez... (alternativa 2)

...um senhor chamado Planck que abre a porta à Física Quântica ao propor que a energia são "pacotes de quanta". Por exemplo, os fotões (átomos de luz) são quantas. Em simplex, tudo que é maior que um átomo é o mundo da Fisica clássica mas tudo que é menor que um átomo é o mundo da Fisica Quântica estraçalhando as leis da Fisica clássica.

No mundo esclarecido no séc XX, EU vivo com os paradigmas de Realidade, Localidade, Causalidade e Continuidade, mas...

...os átomos são conjuntos de partículas Prótões (positivas), Electrões (negativas) e Neutrões (sem carga) que libertas das leis da Fisica clássica vivem de acordo com as leis da Física Quântica de paradigmas opostos...

...portanto, EU, existindo dentro do mundo da Física Clássica, tenho "dentro de mim" o mundo da Física Quântica de leis opostas... "Raisupartiça... @#%&¿... então, eu sou O QUÊ?"


Leis da Fisica Quântica

Os Paradigmas da Física Quântica não são apenas diferentes dos paradigmas da Física de Newton eles são o seu contrário, isto é, Não Realidade, Não Localidade, Não Causalidade, Não Continuidade.


⇨Não realidade - O mistério da “experiência da dupla fenda” fase 1

Segundo Richard Feynman (fisico quântico) esta inexplicável situação da "dupla fenda" é comum a todas as partículas sub-atómicas e “destrói” o paradigma da realidade concreta e objectiva, um dos alicerces centrais da Física Clássica.

Em português-simples, é o facto de um fotão poder ser uma onda ou ser uma partícula (possibilidades) e “ele decidir” qual a possibilidade que vai ser real. 
Em esquema:
Um fotão pode ser um onda ou uma partícula
1  - Um fotão é emitido sobre um obstáculo que tem duas fendas;
2 - Ele poderá passar pelas fendas "sendo" uma onda por cada fenda, surgindo do outro lado como ondas que se interferem mutuamente e se projectam no écran-alvo como areas luminosas de intensidades diferentes em função das interferências havidas; ou então, passa como partículas projectando-se no écran-alvo como pontos de luz.

⇨Não Localidade - Entrelaçamento quântico

Segundo Einstein, 300.00km/s é a velocidade da luz e é a velocidade máxima no universo.
Segundo a quântica [duas partículas separadas por grande distância podem afectar-se uma à outra no mesmo instante], portanto, a comunicação é mais rápida que a luz (há experiências concretas que o demonstram).
A comunicação instantânea é reivindicada por aborígenes australianos que assim trocam informações a grande distância*.

Será que o meu corpo quântico faz o mesmo? ...e comunica, a quem? À semelhança da "internet" farei parte de um "rede quântica"? De qualquer modo não penso que fosse má ideia, pois a "técnica" dos aborígenes australianos* podia substituir os telemóveis.

Há relatos investigados e estudados de relações próximas, íntimas e sincronizadas (Ex, mãe-filho), que têm intuições(?) deste tipo se vivem situações pessoais intensas. Será um "simples" caso de (clickar) fusão de bosões do mundo da quântica???

(*-)  Ver: "The song lines". Segundo relatos, os aborígenes australianos se culturizados (ou re-culturizados) com a cultura europeia, perdem essa capacidade.


John Bell, do CERN (laboratório europeu de física de partículas) provou que duas partículas permaneceram ligadas de uma forma fantasmagórica e inexplicável. As duas partículas formam um conjunto inseparável e. embora muito distantes, modificam-se instantaneamente de acordo com a alteração de um deles e "comunicam" isso ultrapassando a velocidade da luz.
O Paradigma da Localidade de Newton não "manda" aqui.

⇨Não Continuidade - Heisenberg e Princípio da Incerteza. 

Por exemplo, num electrão quanto maior é a certeza da sua posição menos precisa é a certeza do seu nomentum (movimento, massa vezes velocidade) e vice versa.
Quer isto dizer que os quantum's do meu corpo sub-atómico fazem o que querem... isto é, se sei onde estão não sei o que vão fazem e, vice versa, se sei para onde vão não sei onde estão.

Isto parece as descrições que os Shamans fazem das viagens em EAC (Estados Alterados da Consciência*). Segundo a quântica [...partículas podem aparecer em lugares onde não têm o direito de estar de acordo com as leis da física clássica].

(*-) Estados Alterados da Consciência; Altered states of consciousness: a book of readings, Editor Charles T. Tart, John Wiley & Sons, Inc.

É o mundo da não-realidade, o mundo das possibilidades. Na experiência mental do "Gato de Schrödinger" (clickar), antes dele colapsar por ser observado, ele não está "vivo ou morto" mas sim está "vivo e morto".

⇨Não causalidade - O mistério da “experiência da dupla fenda fase 2

Neste caso repete-se a experiência anterior mas com uma 3ª fase :

3 - Entre o obstáculo e o écran-alvo existe um "observador" (humano ou tecnológico) para confirmar se há onda ou partícula e, então, o comportamento do fotão altera-se num ou noutro caso.
Se é controlado funciona como partícula se não é controlado funciona como onda.


Além da estranheza destas diferentes consequências, o mais estranho é que a causa só existe DEPOIS da consequência, ou seja, aqui existe um paradigma consequência-causa (não causalidade) pois [...o que vai acontecer no futuro cria a consequência no passado].

Além disso, também aqui, ao contrário da Fisica Clássica, o observador faz parte (influi) na situação observada.
Segundo o biólogo Rupert Sheldrake, "The sense of being stared at", esta situação do observador-influenciar-a-situação-observada é comum em  animais e  indivíduos observados que têm muitas vezes a sensação (e a certeza) disso (pg 146, 149, 263).

Também, nas artes marciais há uma teoria que defende esta posição (saber antes).
Pessoalmente, durante 2 anos fiz treino militar de instrução de judo no C.E.F.A., (Centro Educação Fisica Armada, Prof Kiyoshi Kobayashi) e várias vezes treinei luta com olhos vendados. Esta forma sempre me encantou e espantou por movimentos inconscientes inesperados e inexplicáveis de tomar posição de contra-golpe antes do golpe.
Quando acontecia, apesar de parar e tentar analisar o sucedido, nunca percebi porquê, nem como.

3 - Conclusão

O pensar Newtoniano é do tipo "sou corpo e espírito" e, segundo as crenças, ou morrem os dois (ateu) ou morre o corpo e o espírito fica vivo* (crente) e, neste caso, o seu destino (céu, inferno, re-encarnação, húris, etc)  depende das crenças religiosas optadas. 

(*-) Espírito vivo pós-morte é ilógico porque se fica vivo é porque não está morto e morto-vivo é uma impossibilidade lógica a não ser nas possibilidades quânticas de sobreposição de estados, ver
"Gato de Schrödinger"(clickar). 

O pensar Quântico é do tipo "sou energia e consciência", com os quantum's a constituir as células. Uns teóricos têm a posição tipo religioso de [consciência expressa em energia] e outros a posição tipo  ateu [energia expressa em consciência].
Num caso ou noutro, esquecendo teologia, a questão é a conexão quantum's-consciência* e, operacionalmente, talvez mais atractivo é saber se é (ou não) possível treinar e usar as possibilidades quânticas do corpo???

(*-) ver "The self-Aware Universe", Amit Goswami, Ph.D. (Univ. de Oregon, USA) e 
"The quantum self", Danah Zohar, Bloomsbury Publishing, Cap 5- Consciência e cérebro

Uma hipótese para esse treino parece ser as técnicas de Meditação (clickar), inseridas, ou não, em religiões.

Há vários métodos e processos, antigos e modernos, com e sem tecnologias, negócios ou crenças,  religiosos ou ateus nas diversas culturas mundiais, separadas ou unidas no espaço e no tempo desde a antiguidade até hoje. 

O estilo normal é a meditação transcendental, todavia também, menos vulgar, existe a meditação potenciação que pode ser definida como "ouvir-se a si próprio"* deixando que, em "roda livre", as associações fluam na consciência e sejam acompanhadas, estruturadas e "teaser" doutras associações a caminho de um todo.
Este EAC é vulgar em artistas, inventores, etc, que na fase criativa vivem noutra dimensão.

(*-) Não confundir com "falar consigo próprio" pois este tipo costuma ser "diálogo de surdos".

A meditação transcendental sob forma estruturada encontra-se na índia (centrada no Budismo, Hinduísmo e Jainismo), Japão (Budismo e Xintoísmo), China (Budismo, Taoismo, Confucionismo), Europa no Cristianismo em suas diferentes denominações, Islamismo, etc.

Fazendo a diferença religiosa entre rezar ("falando" com Deus) e meditar ("ouvindo" Deus) encontrei alguns métodos, possíveis de agrupar em 5 categorias:

1) coloquial 
2) peticionário 
3) ritualista 
4) meditativo 
5) sentimental (feeling)

este último, muito antigo, existe em religiosidades de profunda misticidade apresentando conexões com as técnicas de estimulação subjectiva que, na perspectiva de potenciação, não vejo diferença entre rezar e meditar, nem a nível de processos nem de resultados, nem sequer em suas técnicas ritualizadas, ordenadas e pormenorizadas.

Não considerando as dezenas de formas de rezar, encontrei 43 (deve haver mais) técnicas estruturadas de modos de meditar.

Pessoalmente, dessas 43 formas de "meditar energia" há duas que acho interessantes, a yoga e o Zhen Zhuang (Tai Chi). Na verdade, contradizem o estilo de treino muscular vulgarizado do tipo "investir para ter mais", paradigma em que andamos viciados.

O método muscular normal resume-se em investir [...gastar energia para ter mais energia] e a isso alcunha-se de treino.
Este treino tem 3 fases:

1ª fase - Com esforços em actividades gasta-se a energia existente, às vezes até à exaustão;

2ª fase - "Falidos" de energia precisa-se recuperar, com a fase do descanso na esperança que o retorno venha com lucro. Se não vier, então, o descanso tem que ser maior ou é preciso gastar mais energia em actividades de recuperação, por exemplo, correr devagarinho.

3ª fase - Repetir "eternamente" este ciclo ou, então, perder-se-á tudo o que se lucrou.

Em resumo, são ciclos viciosos de gasto (investimento)/recuperação (lucro)*.

(*-) Toda a sociedade está "virtuosamente viciada" neste paradigma como com o legalizado ciclo de trabalho-férias.

No campo da energia o método tem o seu contraditório na variável idade. O problema é que com o andar dos tempos, a recuperação lucrativa da energia precisa ser cada vez maior e com lucro cada vez menor:

aos 20 anos, numa noite, recupera-se com lucro a energia de correr 5 km, 
aos 60 anos com prejuízo recupera-se a energia de correr 1 km.

ou seja, cada vez há menos energia para investir e cada vez mais os retornos vêm com prejuízos*.

(*-) Investe-se no trabalho para poder descansar e usufruir da vida, "sonhando" mais tarde na reforma investir no descanso para usufruir não-morrer.

Sobre a vantagem deste modelo, falo por experiência pessoal pois investi com intensidade muitas horas por dia a gastar energia em treinos e depois muitas horas por dia a recuperar em descansos, "esquecendo-me" de viver outras coisas.
Sinto-me enganado e frustado, os "recuerdos" (por ex., eu voando entre dois trapézios) não substituem a bengala.

Coliseu dos Recreios, G.C.P., anos 60
Na verdade, na idade "avançada" sinto-me igual a todos os que preferiram viver e não investiram em treinos ginásticos de "ser jovem". Ao estilo brasileiro eu pergunto "cadê o investimento?".

Decidi não tornar a cair no mesmo buraco, a energia que tenho não a estrago a investir em energia!!!.
Pesquisando técnicas de treino que deixam os músculos quietos e descansados, encontrei um modelo que me parece mais inteligente. O treino é muscularmente sossegado, sem gasto energético, mas mentalmente muito activo, ao estilo psico-somático. 

Em vez de treinar músculos esquecendo neurónios optei por treinar neurónios esquecendo músculos, e, talvez mitificando, posso frasear [esqueci o mundo newtoniano e focalizei-me no mundo quântico].

Árvore sobrevivendo
O tema é simples "...é ser como uma árvore", a base do treino é [...estar em pé imóvel exactamente como uma árvore mas pensando (meditando)]. Na verdade, as árvores não treinam o corpo e envelhecem ficando jovens... [as árvores não ficam velhas, ficam antigas].

Anos atrás, descobri em Londres o "Stand Still" [to be like a tree] (Zhan Zhuang).
O Stand Still é ficar 20 minutos imóvel em pé pesquisando, com todos os sentidos, as centenas de sensações interiores do corpo, desde a gravidade até passear mentalmente pela pele do corpo, órgãos e funções.

Por exemplo, o vulgar respirar é sentir seus ritmos e formatos no inspirar, expirar e apneias ou, sem movimento, deslocar o centro de gravidade para a frente, trás, esquerda e direita dentro da base de sustentação* (área dos pés no chão).

(*-) Andar para a frente é deslocar o centro de gravidade para fora da base de sustentação (à frente dos pés) e, para não perder o equilíbrio, mover o pé para a frente dando um passo. para alargar a base de sustentação.
Andar para trás ou para os lados é deslocar o centro de gravidade e o pé nessa direcção.
Se embriagado perde-se o automatismo deste equilíbrio. 

No "Stand still" as regras são simples, equilíbrio (centro de gravidade na base sustentação), relaxação muscular (nunca tensão mas tonus), respiração (Zhuang), visualização interior (Neiguan), sensação corporal (estimulação subjectiva, quinestesia) e controlo pela sensação interior.  

Após o inicio, se ao fim de poucos minutos (2/3) a sensação corporal é de menos cansaço e há mais energia e predisposição (e não vontade) de continuar... deve-se continuar pois vive-se o "treino de ganhar energia sem gastar energia"*.
Se a continuação é por imposição da vontade, deve-se descansar e recomeçar pouco depois para impedir o treino da "penitência" a gastar energia*.

(*-) A sensação obtida é muito parecida com a do "duche de chi (energia)" do Tai Chi.

A sequência é:

1º- começa-se cansado;
2º- experimenta-se 2 minutos;
3º- se apetece... continua-se... 
4º- durante 10 a 50 minutos enquanto
      não aparece a vontade a substituir o "apetite"*
5º- acaba-se cheio de energia.

(*-) Na verdade, no emprego o trabalho é impulsionado pela vontade e nas férias (hobies, etc) é impulsionado pelo apetite. Segundo biografias, os criadores de arte (artistas) são "viciados" no seu trabalho... náo têm emprego só têm férias 😄😄😄.


Gato no gym, criando energia com Yoga
Para terminar,

A questão "Eu sou o quê?" arrasta-me para pesquisas sobre o chamado "anormal" ou "fora do normal" pois eles talvez sejam nuances do "normal quântico".

A triologia mente-emoção-fé poderá ser um portal para abrir essa pesquisa, assim comecei com:
  
- a mente com o "L'impossible arrive", do psiquiatra (USA) Stanislav Grof;
- a emoção com "Molecules of emotion", da fisiologista (Univ Georgetown) Candace Pert;
- a fé com "The Biology of Belief", do biologista molecular (Univ. Wisconsin-Medicina) Bruce Lipton.

Espero que este esforço de criar nova energia sem estragar a energia existente possibilite na próxima Passagem de Ano festejar dançando o tango:
Parede, 27 Maio 2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Agora vou alugar as facas…

Um recuerdo encontrado em fichas antigas (anos 70/80)…

No fim dos anos setenta, era responsável pela gestão provisional dos recursos humanos da Lisnave (cerca de 10.000 empregados) passando muito tempo em reuniões, conversas informais, comentários avulsos, etc, com empregados, grupos, comissões, representantes, delegados, etc. 

Mais tarde, fui requisitado a tempo integral por alguns Ministérios como consultor de recursos humanos e formação. Quando estava no Ministério da Reforma Administrativa, fiquei “temporariamente”  a funcionar num prédio antigo algures na “velha” zona de Santos/C.Sodré. 

Sendo "fan", a meio da manhã pelas 11:30, de um café-duplo-e-bolo tornei-me cliente habitual de uma pequena pastelaria de bairro, "familiar" e gerida por marido e mulher, que na prática era um ponto de encontro dos “vizinhos” daquela área.

Era uma pausa agradável com conversas individuais partilhadas em grupo num ambiente informal. Não havia mesas nem cadeiras, todos ficavam mais ou menos acomodados ao balcão. Eu acabei por ser uma espécie de “estrangeiro” aceite no grupo de clientes habituais e assistindo às suas conversas "pessoais" na "teia da internet" oral da vizinhança.

Na verdade, ao fim de alguns dias já me sentia incluído, relaxado e disponível, participando como ouvinte activo naquele "ameaço pré-Net" de internet social ao estilo "boca-a-orelhas". 

Interessado, procurava descobrir se, na verdade, era uma rede saudável de relações de vizinhança ou uma espécie de “Big Brother” negativo e artesanal da vida do bairro. 
Na prática não sentia que fosse um tipo de "bisbilhotices de aldeia" de coscuvilhices ácidas e críticas, mas sim, uma troca de "news" (notícias novas) inter-amigos e enriquecedora das relações, bem afastada do estilo "pasquim" de tabeloides jornaleiros e televisivos.

Como sociólogo e “pesquisador” de grupos, ficava espantado como estas “conversas privadas” passeavam pelo ar. 

Obrigado profissionalmente, e habituado, a captar os sociogramas grupais, isto é, a vida imersa das redes afectivas grupais*, o ouvir este “saltitar” natural de comentários e opiniões, numa internet aberta, presencial e oral, era uma experiência nova.


*- Qualquer organização (ou grupo informal) tem sempre três planos de análise, Organograma: relações de poder formais e informais, isto é, quem depende de quem, Funciograma: relações input-output, isto é, quem faz o quê para quem, Sociograma: relações afectivas, isto é, quem se conecta positiva ou negativamente com quem.

Gerir uma simples reunião (seja coordenador ou simples assistente) obriga a gerir os três planos, podendo ser feito por três assistentes em equipa, um Interfere (age), outro Regista e outro Observa.
Por experiência pessoal, um simples assistente com uma boa equipa pode ser mais eficaz para gerir a obtenção de objectivo pré-determinado (não me refiro ao objectivo oficial) do que o gestor instituído.
Por exemplo, o objectivo oficial (gestor instituído): definir data tem como objectivo real (assistente inserido) o atrasar 15 dias essa marcação. 
Conclusão, o falhanço do gestor instituído fazer o objectivo oficial é na sua vitória em auxiliar o assistente inserido a realizar o objectivo real.
(Ver Manuais de Condução Estratégica de Reuniões)

Normalmente, nas reuniões, nas conversas informais ou comentários saltitantes em corredores, refeitórios, transportes, etc, se, por acaso, "caçava" alguma "dica" importante, tinha o hábito de NUNCA escrever registos mas apenas memorizar,
por isso, trazia sempre comigo uma carteira de fichas-post it’s (que ainda hoje uso) para registar a "dica" na primeira oportunidade. Se ela era longa e fundamental... então, uma ida ao WC resolvia a questão*.

*- Se almoçar (ou acompanhar) ministros, administradores, adversários, etc, nunca convém (😇😇) simultaneamente, escrever e comer (ou acompanhar). Se em reuniões, um profissional não regista as "dicas" no momento em que surgem mas sim tempos depois para não informar que isso foi importante.

Ao fim de algumas semanas de cliente da pastelaria, já em conversa com o dono, curioso, perguntei-lhe porque me tratava por “chefe”. Atrapalhado, perguntou se me ofendia, respondi que não mas gostava de saber porquê.
Respondeu-me que, como trabalhava para o Estado e aparecia para beber café dentro do horário de trabalho, devia ser chefe. Eu fiquei de “boca aberta” pois não me sentia tão "transparente" e pensei “tenho que escrever isto, estes “Big Brothers” funcionam bem”.

Mas ele continuou: “…e como dantes era chefe na Lisnave!!!”. Agora, a minha boca aberta já não se fechou, mas mesmo assim consegui perguntar como sabia.
- “Foi o Zé, que mora ali na travessa, que me disse”, respondeu ele e continuou, “…ele é comunista, trabalhou na Lisnave e viu-o em reuniões,… disse que era OK”.

Agora, para tirar notas quase que fui ao WC, mas não o fiz, todavia à saída encostei-me a um candeeiro e escrevi 2/3 post it's, principalmente sobre a pesquisa que devia fazer na Direcção Geral onde estava agora. 
Realmente estes “Big Brothers” artesanais funcionavam bem e, tempo depois, tive a prova real numa outra experiência.

Numa manhã entrou uma vizinha com a filha, o dono cumprimentou-as e deu os parabéns a ela e à filha pelo netinho que ia nascer. 
Agora fomos três a ficar de “boca aberta”... não se notava nada. A filha muito encarnada calou-se mas a mãe perguntou como sabia.

Então, ele e a mulher, brincando pois conheciam-na de miúda, quiseram primeiro dar-lhe um beijinho de parabéns e depois explicaram.
Tempos atrás, o avô conversando com amigos disse que gostaria muito de ter um neto e até daria uma festa só com a notícia.

Ora o Manel, dono do talho, há alguns dias atrás dissera que o avô fora ao talho comprar carne mas não quisera o habitual, mas sim mais quantidade e melhor por causa de uma jantarada de família.
A conclusão era óbvia, devia ser sobre o “neto a chegar”. 

Elas riram, confirmaram e, então, receberam parabéns de outros clientes e alguns até com um beijinho porque a "...conheciam desde miúda".

Espantado pensei que parecia uma familia alargada a festejar porque, depois delas sairem, a "festa" continuou. Comparei isto com familias reais onde depois da atitude de "alegria e parabéns", em poucos segundos, essa máscara cai e surge a máscara do "está dito e adeus". 


Ás vezes entretenho-me a medir quantos segundos levam a desaparecer os sorrisos e a alegria expressos e a ficar a cara verdadeira do "estou-me nas tintas"... por vezes isso é instantâneo. 

Como aprendi na cultura africana, o rir e a alegria estão no corpo todo e nunca desaparecem de repente, vão desaparecendo. Na cultura europeia ri-se com os músculos zigomáticos da cara, ao estilo liga-desliga do vendedor, e o corpo fica ausente da emoção.

Pensando sobre isto escrevi alguns post it's. Conclui que há diferenças entre “Big Brother” e “Brother BIG”.
O grupo da pastelaria tinha uma rede de relações-informações a circular entre todos ao estilo "família alargada", criando assim uma rede dominada por um NÓS que todos compartilhavam*, e transformavam um possível “Big Brother” em um real “Brother BIG”.

*- Tecnicamente, e sociologicamente, não convém confundir partilhar e compartilhar. O compartilhar contém o partilhar mas o partilhar não contém o compartilhar.
Se tenho um bolo posso partilhá-lo em pedaços iguais (ou diferentes) por três pessoas, mas se tenho um bolo, eu e três pessoas podemos compartilhá-lo em pedaços iguais (ou diferentes), ou seja, compartilhar significa que todos ficaram a usufruir da nova situação.

Segundo M. P. Follett, o compartilhar fica com a lei da situação a dominar todos os intervenientes. Dar esmola é partilhar dinheiro com o estilo “toma lá e ADEUS” pois quem dá e quem recebe não  ficam a usufruir a mesma situação.  
Dar dinheiro ao filho para comer gelado é partilhar dinheiro, mas ir comer gelados com o filho é compartilhar dinheiro.

Talvez uma história de “Brother Big” !!

Noutra manhã entrou um “estrangeiro”... mas desconhecido. 
Aproximou-se do balcão, pediu duas carcassas embrulhadas e, também embrulhados, 10 g de fiambre e 10 g de queijo flamengo. Quando tudo foi entregue, pediu um copo de água e perguntou quanto era, pagou.

Depois, pediu uma faca emprestada e lentamente tirou uma carcassa do embrulho e cortou-a ao meio, desembrulhou o fiambre e o queijo, colocou alguns bocados de cada um na carcassa já cortada e começou a comer a sandes-mista feita.

Na pastelaria as conversas pararam, o dono apoiou os cotovelos no balcão, pôs o queixo nas mãos e ficou a observar. Ninguém falava, todos olhavam cliente e dono.
Passados alguns minutos, acabou de comer, bebeu água, agradeceu, deu “Bons Dias” e foi-se embora.

No meio do silêncio criado, todos olhávamos o dono, esperando. Finalmente ele disse “Da próxima vez alugo a faca…” e começou a arrumar as chávenas de café, a mulher foi lá para dentro e os clientes habituais foram saindo...  eu também.

Curioso… fiquei nas redondezas mas nada aconteceu, quando entrou um cliente tudo ficou normal, por isso regressei ao trabalho pensando "...raisupartiça que tinha acontecido??? 
O que me espantou foi a reacção grupal, parecia sincronia de militares treinados.

Durantes dias andei à caça de migalhas informativas de um eventual "evento ou trauma" de conhecimento grupal que justificasse esta sintonia de comportamentos e atitudes do tipo "nada aconteceu" e "nada há para falar" quando era habitual conversar sobre as "coisas" que sucediam.

Posteriormente, fiquei à espera de conversas ou comentários sobre o assunto, mas tal não aconteceu e nunca me atrevi a lançar o tema.

Se tivesse que fazer uma reunião com uma comissão de moradores daquela área, era fundamental obter previamente esta informação, saber o máximo sobre os sociogramas existentes é indispensável. 
A raiz da atitude daquela comunidade “natural” devia ser uma raiz estruturante da teia “amigos de peito” (ver Prof Jorge Dias) que era tão comum no passado em Portugal, raiz essa assumida e nunca expressa nem ensinada mas aprendida por “respiração cultural".

Nunca consegui descobrir "o porquê" e acabei por passar para a DGAP no edifício da Av. 24 Julho e tudo ficou resumido a um recuerdo de... "Agora vou alugar facas..."

sábado, 14 de março de 2020

A vida é caminhar aos SSSSSSSS - 1ª Parte

A vida nunca é caminhar em linha recta mas para uns "aproxima-se", planeiam aos 5 anos (eles ou família) e aos 50 anos confirmam o êxito do plano.  Para outros tudo acontece aos SSSS (contravoltas), planeiam uma coisa e sucede outra ao "contrário"... foi o meu caso. 
Na verdade a vida não nos traz problemas traz-nos situações diferentes e os problema vêm das escolhas que nelas fazemos. Quer o SIM, NÃO ou NIM podem trazer problemas... não temos solução.

Mas penso que a meu respeito o Plano dos Deuses teve SSSSSS (contravoltas) a mais. Dois exemplos, começar e depois deixar de ser militar.

1ª Parte - Ser Militar

Pois é verdade, como oficial dos Quadros Permanentes a minha carreira militar começou como “desertor”. 

Bom aluno no Liceu (Quadro de Honra), aos 16 anos tudo mudou com a ida para a Faculdade de Ciências. Numa escala de 0 a 20 as minhas frequências eram 4 e 5 valores. A manhã resumia-se a, muito concentrado, jogar xadrez na Associação Estudantes, as tardes a ler livros (seleccionados e reservados) na antiga Biblioteca Pública no Largo das Belas Artes no Chiado perto do clube ginástico G.C.P. onde passava o resto das tarde e noites (até 23:00h) a treinar ginástica aplicada:


Esta vida calma e rotinada tinha uma “ameaça”. Nos anos 50, para os homens aos 21 anos a “tropa” era obrigatória, ou seja, dentro de 4 anos o meu planinho seria destruído.

Um dia, na Associação Estudantes apareceu um panfleto do Ministério do Exército propondo uma nova solução que estava a começar, o CEPM (Curso Especial de Preparação Militar). 
Isto significava que estudantes universitários poderiam fazer a "tropa" aos bochechos em fins de semana sendo alunos universitários nos outros dias. Como vantagem, far-se-ia assim o C.O.M. (Curso de Oficiais Milicianos), ser-se-ia promovido para fazer o resto do tempo obrigatório num quartel em Lisboa.
Uuuhauu… era a minha solução, safar-me-ia da "tropa" dos 21 anos sem alteração de vida. Acreditei, replaneei e inscrevi-me como voluntário e ingressei no CEPM em Caçadores 5 (Lisboa). 

Tudo correu bem. Dois meses depois estava farto.
Parecia outra vez a Mocidade Portuguesa onde "vestido de verde" passava a vida em marchas e marchinhas, porém, na época, com 12 anos, descobri que a Vela da Mocidade Portuguesa na praia de Algés permitia fugir e, a Vela fosse o que fosse, seria melhor.
Inscrevi-me e funcionou... adeus militarices.

Assim, por "experiência" acumulada, comecei à procura de soluções. Alguns instrutores "fans" de ginástica conheciam-me e comecei a ajudar e exemplificar exercícios para se criar um grupo de exibição para o juramento de bandeira.
Consegui algum crédito e obtive algumas dispensas (documento justificativo de falta) para um ou outro treino de fim de semana no GCP.

Um dia, devido a uma época de saraus e campeonatos consegui algumas dispensas seguidas para poder treinar e participar… estava livre daquilo.
O problema foi que me "esqueci" do CEPM e nunca mais lá fui.

Três meses depois, aprumadinho e fardadinho de soldado-cadete, reapareci em Caçadores 5 para continuar o CEPM… e surpresa minha... fiquei preso, estava na lista de desertores.

Começou um "diálogo" civil-militar na interpretação de um "equívoco semântico" do problema.
Havia duas perspectivas. Numa, a militar, eu tinha dado 3 meses (90) de faltas à instrução militar, na outra (a minha) eram só 12 (3x4) faltas pois no resto da semana eu era civil e estava na Faculdade.

Estávamos em 1955 e a "fronteira quartel-universidade" era um protocolo de "máscara democrática" do tipo "és acusado (culpado) mas podes defender-te". 

Detido, na 2ª feira e por escrito, solicitei ir às aulas alegando que, de acordo com o documento assinado, só era militar aos fins de semana e agora já era 2ª feira.
Não tive resposta mas "constou-me" que o meu pedido tinha piorado o clima e um PM aconselhou-me a estar quieto.

Mais tarde fui chamado e apresentaram-me duas soluções. Numa era considerado desertor e o normal seria ficar preso no forte de Elvas, a outra era ser considerado faltoso e seria detido na unidade por dois a três meses.
Ainda com restos do protocolo "és acusado (culpado) mas podes defender-te", deram-me algum tempo para pensar, mas a escolha feita teria que ser assinada.

Quando fui outra vez re-chamado, respondi que não me parecia possível ser desertor pois isso acontecia quando aos 21 anos não se cumpria a lei de incorporação e eu só tinha 17 anos e portanto não podia ter abrangido por essa lei.

Pelo outro lado, eu tinha-me matriculado (hoje penso que a palavra foi errada) num curso militar só aos fins de semana portanto no resto da semana era civil. Assim eu tinha 12 faltas "justificadas" com antecedência pelo documento que possuía, um impresso adaptado doutras situações apenas com um vago "durante treinos para campeonato", datado, assinado e carimbado.

O silêncio ficou pesado e longo... e entre os que tinham autorizado e dado a dispensa e os que decidiriam o que fazer... as hierarquias pensavam.

Incomodado e sem perceber bem onde estava metido resolvi ajudar expliquei umas "contitas" que tinha feito.
Sendo militar aos fins de semana seria preso aos fins de semana, logo 2 meses de detenção seriam 60 fins de semana e o ano só tem 45 semanas, portanto, a solução podia ser "chumbar" neste CEPM e, obrigatoriamente, recomeçar no próximo ano.

Tudo piorou bastante e com um grito ordenaram à Policia Militar (PM) para me levar. Fiquei à espera “em-banho-de-maria” sob o controlo espantado dos PM a olharem para um "universitário burro".

Fui re-re-chamado e a solução era simples e, militarmente, óbvia. Eu era um soldado-cadete incorporado numa situação de C.O.M. parcealizado. Considerando as faltas e o insucesso resultante, seria transferido para o normal C.O.M. de Artilharia na Escola Prática de Vendas Novas.

Com uma Guia de Marcha na mão, um bilhete de comboio e um aviso-de-amigo, "se não me apresentasse iria parar à prisão de Elvas", aos 17 anos dei entrada na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, Alentejo:


Acomodado numa caserna com vários "soldados-cadetes" dos 22 a 32 anos... disse adeus a Lisboa, xadrez, livros e ginástica. Não era mau era só "diferente", mas estava farto.

Alguns co-recrutas mais velhos tinham nas redondezas uma carrinha Volkswagen em standby para escapadelas clandestinas para a “vida nocturna” de Évora que, nos anos 50 e depois da uma da manhã , era só para "connaisseurs", pois turistas nicles, népia.

Tenho poucas lembranças dessas escapadelas que às vezs aceitava, excepto imagens de casas "perdidas" no campo em sítios escuros, decoradas com mantas penduradas a criar "gabinetes" para "conversar" e claro tabaco e alcool.
Não fumando e não bebendo restavam-me as "conversas intelectuais"... realmente não era um hobby "brilhante" para des-stressar. Só a excitação da saída e entrada e a calma das viagens me animavam um pouco.

Um dia recebi a notícia que a Escola Naval ia abrir concurso para admissão de cadetes, sendo obrigatório a nota final do Liceu (que a minha era alta), ter o máximo de 18 anos e fazer provas físicas.
Concorri e fui admitido. 

Uuuhauu… estava livre daquilo... porém os Deuses deram-me outra SSSS (contravolta)...

Durante o período de provas físicas na Escola Naval, ainda estava alojado em Vendas Novas e cumprindo o C.O.M. pois só tinha dispensa para os dias de provas. Um dia em conversa com um oficial instrutor fui informado que não havia possibilidade legal para a minha transferência do Exército para a Marinha, pois só era possível do Exército para a Força Aérea e, talvez... se aviador, desta para a Aviação Naval na Marinha... portanto, mesmo que passasse não seria transferido.

Portanto tive que re-planear e concorrer não para Marinha mas para Aviação Naval. Foi possível e fiz inspecções médicas no Hospital Militar da Estrela e fiquei apto para aviador. Fui transferido de Exército (Artilharia) para a Força Aérea (quartel do Monsanto) onde estive algum tempo há espera da transferência para a Aviação Naval (Marinha) como cadete e futuro aviador naval.

Outra SSSS (contravolta) dos deuses... e mais tarde a Aviação Naval foi extinta e passei para Marinha como oficial dos Quadros Permanentes (na época para a vida inteira), tudo porque planeei fugir "à tropa" com uma escapada temporária... humor irónico dos deuses (e claro deusas)!!!.

Conclusão

Por causa de uma ligeira distração (algumas faltas) passei de um militar de CEPM temporário para um militar dos Quadros Permanentes para a vida inteira.

A vida é sempre feita de pequenos solavancos desprezáveis e com efeitos deterministas. Aprendi e como hobby ando a pesquisar recuerdos à procura destes solavancos com consequências de 180º no caminho da vida... e já descobri meia dúzia*.

* - O que me deixa intrigado... quem seria eu, hoje, se eles não tivessem existido?

Por exemplo,
nos anos 50 e 60, nos três ramos das Forças Armadas (Exército, Marinha, Força Aérea) para os Oficiais dos Quadros Permanentes os pedidos de demissão estavam completamente proibidos e bloqueados.

Devido a outras SSSSS (contravoltas) nos meus 12 anos de oficial militar, muitos em África, e devido a uma certa SSSSS (contravolta), um simples "quid pro quod militar", fui preso e investigado.
No longo "debate", no qual estive apoiado por dois advogados civis pro bono, a situação era "confusa" pois "parecia" que na forma usada era militarmente culpado mas no conteúdo era militarmente correcto.

A solução não era fácil pois a situação era militarmente incómoda para o futuro, pois um oficial que, por escrito, participa do comando passa a futura "persona non grata" como subordinado, principalmente se "o fumo tinha fogo".
Algumas alternativas foram faladas (nunca propostas) mas, por mim, não aceites.

Em Mar.1968 numa reunião privada de duas horas com o Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo, após uma interessante troca de ideias, entreguei o meu Pedido de Demissão que foi aceite e prometido que seria aprovado no prazo de dois anos, mediante certas condições que aceitei e cumpri.

Realmente, ano e meio depois, em fins de Dez 1969, de surpresa, o meu pedido de Demissão foi aceite. Em Jan.1970 comecei o Novo Ano como civil... outra vez... mas agora casado, com filhos, sem dinheiro e desempregado!

Dois meses depois, em Março de 1970, sou convidado para ingressar no Ministério da Educação Nacional (Ministro Veiga Simão), tomando posse como técnico superior*. Fiquei responsável a nível nacional por projectos de dinamização do sector escolar Primário e Secundário na área Educação Física com financiamento do FFD (Fundo Fomento Desporto).
Gostei do trabalho, correu bem, sendo algumas vezes entrevistado por jornais e TV:

*- PS - Em 1972, com a "moribunda" "Primavera de Marcelo Caetano", os projectos definharam e fiquei limitado a gestões burocráticas... farto de papelada, pedi a demissão da carreira de funcionário público do MEN (Ministério de Educação Nacional).
Com pouco dinheiro, neste período, divorciado, vivi acampado numa tenda durante ano e meio no parque de campismo do Monsanto, onde no verão os meus filhos iam ficar comigo nos fins de semana... divertiam-se.